quarta-feira, 24 de outubro de 2007

AS TIRADAS DE WALTER DE SÁ LEITÃO

Walter de Sá Leitão foi prefeito do Assu (1972-75). Ele empresta o seu nome ao Campus Avançado do Açu (universidade). Quando prefeito viajou a Brasília em busca de recursos para aquele importante município potiguar. No gabinete do deputado Vingt Rosado é advertido pela secretária daquele parlamentar mossoroense: "Prefeito, a calça do senhor está rasgada no 'fundo!' Walter não se fez de rogado: "Moça, É que na minha terra no lugar do paletó, a moda é calça lascada atrás!"

Ainda na qualidade de prefeito (el já se notabilizara como uma pessoa espirituosíssima), foi surpreendido em seu gabinete por uma eleitora aflita: "Seu Walter meu filho comeu uma macaxeira e se encontra em casa com muita dor no pé da barriga, precisando comprar esse remédio". Disse aquela senhora mostrando-lhe a prescrição médica. Walter afagou a genitália e saiu-se com essa: "Minha senhora ontem a noite eu comi um pé de barriga e me encontro agora com muito dor na 'macaxeira'.

Em tempo: Para registrar, macaxeira é conhecida no Rio de Janeiro, como aipim e em São Paulo, como mandioca.

Em 1973, a entrada de acesso a cidade de Assu, ainda era carroçável. Pois bem, Walter chegando naquela terra assuense, acordou atordoado reclamando da trepidante estrada esburacada: "Que prefeito filho da p... é esse que não manda tapar os buracos desta estrada." O motorista meio sem jeito, respondeu: "Seu Walter já estamos entrando no Assu!" "Eu já disse e tá dito e não volto atrás. Esse prefeito é o que disse e pronto!"

Fernando Caldas

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

MARIA EUGÊNIA "IMORTAL"


Maria Eugênia Maceira Montenegro teve um existência lomgeva. Viveu quase toda a sua vida recheada de momentos felizes. Era filha de pai português e mãe mineira. Aos 90 anos de idade. Quando partiu para o outro lado estava em plena lucidez de invejar qualquer pessoa. Deixou a cidade de Assu, terra que ela tanto amou "mais pobre e deserdada de seu talento".

Aparentemente modesta, amiga dos seus amigos. Tratava as pessoas com carinho e zelo com aquele seu jeito que aparentava ingenuidade. Como ela gostava das palestras e das reuniões sociais na calçada da sua casa da praça da Matriz, de Assu.

Recentemente conversei com ela na sua residência que eu passei a frequentar desde menino. E ela sempre a me falar da grande poesia e dos pensamentos amargurados de João Lins Caldas, seu amigo, crítico e o maior incentivador para o seu ingresso nas letras da terra potiguar.

Poetisa, historiadora, palestradora, amante das artes plásticas. Aquela escritora pertencia a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, cadeira número 16, desde 1972 sucedendo Rômulo Wanderley, bem como, tinha cadeira na Academia Lavrense de Letras desde 1970.

Maria Eugênia chegou em terra assuense procedente de Lavras, interior ao sul de Minas Gerais,  cognominada de Atenas Mineira, nos idos de 1938 com apenas 23 anos de idade, acompanhando  seu marido jovem recém-formado pela Escola Superior de Agricultura de Lavras, Nelson Borges Montenegro, para morar na fazenda "Picada/Itu", na localidade de Sacramento, atual município de Ipanguaçu por onde ela se elegeu prefeita nas eleições de 1972. Fora candidata única, pelo partido denominado Aliança Renovadora Nacional - ARENA. O incentivo e apoio a cultura da terra ipanguaçuense como não podia ser diferente, foi uma das prioridades da sua administração.

No final da década de 50, dona Gena deixou de conviver com as matas verdes e carnaubeiras da Picada, para fixar residência na aristocrática cidade de Assu, que já vivia naquele tempo em plena atividade literária, jornais e mais jornais sendo editados, a sociedade praticando artes cênicas, realizando tertúlias literárias, saraus, e seus célebres poetas produzindo versos e mais versos da melhor qualidade.

Dona Gena passou então a morar num rico casarão da praça da Proclamação, atual Getúlio Vargas, parede-e-meia com Tarcísio Amorim e depois com o pai dele, Francisco Amorim com quem, talvez, adquiriu muitos conhecimentos sobre o Assu e sua gente. 'Seus costumes e tradições'.

Não foi difícil para ela, Gena, que já carregava no seu interior a arte da prosa e do verso, conviver no Assu com figuras da família Montenegro, os Lins Caldas, de Renato Caldas (poeta de "Fulô do Mato" que o Brasil consagrou), os Amorim, de Pedro Amorim, os Wanderley, de Sinhazinha Wanderley, os Soares de Macedo, de João Natanael de Macedo, os Souto, de Elias souto (fundador da imprensa diária no Estado potiguar), os Dantas da Silveira, de Celso da Silveira (que fundou em Assu o 1º museu de arte popular do Brasil), além de tantas outras famílias ricas e pobres daquela terra assuense.

Aquela mulher de letras, assuense por escolha e Lei, e norte-rio-grandense por outorga, colaborou em vários jornais do Assu, de Natal e de sua terra natal como "A Gazeta" e "Tribuna de Lavras". Publicou onze livros, intitulados "Saudade, Teu Nome é Menina" (1962), além de "Alfar a Que Está Só", "Azul Solitário" (poemas), "Perfil de João Lins Caldas" (plaquete), 1974, "Por que o Américo ficou lelé da cuca", "Lembranças e tradições do Açu" (história e costumes), "A piabinha encantada e outras histórias", "Lourenço, o sertanejo" (romance), "A andorinha sagrada de Vila Flor", "Lavras, Terras de Lembranças" e "Todas as Marias" (contos). Tinha ainda os inéditos intitulados "Redomas de luz" (Epitáfios) e "Poemas do entardecer".

Sobre a morte, esse "velho tema sempre novo" no dizer do poeta Caldas, Gena confessou a Franklin Jorge: "Não tenho medo de morrer. A morte é o princípio de uma vida. A gente nasce para morrer e morre para viver".

E ficou o Assu sem o seu poetar. Os jovens estudiosos da terra assuense perderam o seu maior patrimônio cultural. Era ela, Maria Eugênia, um dos maiores referenciais da terra assuense.

Ficamos nos seus versos de tanta pureza e ternura:

Minhas mãos são asas.
Taças,
Preces:
Quando anseio a liberdade,
Quando tenho sede de amor, quando minha alma se transforma em dor.


E esse outro: 


Eu vou espalhar rosas em seus caminhos
E retirar todos os espinhos pra você passar.
Um tapete de pétalas perfumará seus pés,
Que sabem pisar qualquer chão,
Em qualquer lugar.

É uma forma sutil de beijá-los,
De agradecer de coração,
De dizer que seus pés foram feitos
De duas grandes naus,
Que sempre procurando um porto novo,
Navegam em altos mares,
Levando alento e alegria a todos os lugares.

Fernando Caldas
Natal, 30 de outubro de 2006

Crônica lida pelo historiador assuense Ivan Pinheiro, na Rádio Princesa do Vale - Assu/Rn e publicado no site da Academia Lavrense de Letras).

domingo, 21 de outubro de 2007

SOBRE O POETA DE "FULÔ DO MATO"

Renato Caldas (1902-1911) ainda é, penso eu, o nome literário potiguar mais conhecido em todo o Brasil. Foi ele "que deu nome ao Rio Grande do Norte nas letras nacionais", publicando em 1939, o seu livro de estréia intitulado "Fulô do Mato", escrito em linguagem genuinamente matuta.

O poeta que aparentava simplicidade, viveu uma juventude andeja, sem endereço certo. Quando moço, bebia inveteradamente. Seresteiro da velha guarda, bonachão, brejeiro, "miolo de aroeira, vivo como um pé de vento", no dizer de Câmara Cascudo com quem ele, Renato, conviveu na intimidade.

O Brasil, Renato "dando expansão ao seu temperamento cosmopolita, conheceu de ponta a ponta, nas suas intermináveis andanças de romântico caminheiro". Nas suas viagens pelo Nordeste, ele se apresentava em palcos de cinemas, teatros e outros locais improvisados, declamando suas poesias irreverentes, amorosas, cantando emboladas e modinhas que também sabia produzir a seu modo.

Renato viveu parte da sua mocidade no Rio de Janeiro, onde trabalhou e conviveu com aqueles artifices dos melhores da Canção Popular Brasileira, como Sílvio Caldas (ambos consideravam-se parentes), Francisco Alves (O Rei da Voz), Noel Rosa, Almirante, entre outros. O músico Silvio - o responsável pela introdução da seresta na MPB -, no começo dos anos setenta, de passagem para Fortaleza, entrou na cidade de Assu/RN, para rever o velho amigo que não via há bastante tempo, acordando o poeta "cantando ao pé da janela numa típica serenata interiorana", como depõe João Batista Machado. O escritor Machado diz mais ainda que somente duas pessoas tiveram aquele privilégio: "Renato e JK".

Outro fato importante que engrandece mais ainda a sua biografia, aconteceu no início da década de 90. Virou poeta para inglês ver, pois, vários poemas de sua autoria estão traduzidos para aquela língua e publicados numa revista cultural americana intitulada "International Poetry Review (1991), volume XVII, número I, editada em Greensboro, Carolina do Norte, como por exemplo, o poema sob o título "Fulô do Mato", que diz assim:

Sá Dona, vossa mecê,
É a fulô mais cheirosa,
A fulô mais prefumosa
Qui o meu sertão já botô!
Podem fazê um cardume,
De tudo qui fô prefume,
De tudo qui fô fulô,
Quí nem um, nem uma só,
Tem o cheiro do suó
Qui o seu corpinho suô.
- Tem cheiro de madrugada,
Fartum de areia muiáda,
Qui o uruváio inxombriô.
É um cheiro bom, déferente,
Qui a gente sintindo, sente,
Das outa coisa o fedô.

O poeta conheceu com os seus olhos "o paladar e pé o seu sertão. O seus ouvidos já escutaram os gritos abafados pela fome de uma população flagelada e os arpejos sonoros de uma viola pontilhada; os seus olhos já viram os rios transbordando e já viram também, nos bebedouros esturricados, o gado morrendo de sede! Viu e sentiu o sertão: povo, solo, clima e paladar do seu trabalho", no seu próprio dizer. E um dia escreveu:

Venha ver seu moço, ói,
O que é fome no sertão.
Mecê, é lá da cidade,
Num tem a infelicidade,
De conhecê isso não.
Mas é bom sempre que vêja,
Pru móde me acreditá.
E, pru raiva, ou compaixão,
Dizê aos nossos irmão,
Qui viu o nosso pená.
... Mas sertão num é Brasí.
O Brasí, é lá pru sú.
Isso aqui é um purgatóro...
Quem mata a fome é o sodóro
E a sede é o mandacarú.

Os versos deste poeta eclético, versátil, retrata além da seca devastadora, a enxurrada que também castiga algumas regiões do sertão nordestino, bem como os amores fracassados. Tem irreverência, humor, malícia, como o célebre poema intitulado "Reboliço" (que na década de cinquenta o poeta potiguar Celso da Silveira declamou num certo programa cultural da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, além de ter sido recitado também pelo Poeta Vaqueiro Zé Praxedes nas apresentações que fazia pelo Brasil afora, e declamado pelo deputado federal Ney Lopes no plenário da Câmara dos Deputados, a propósito do falecimento do poeta em 1991). Eis o poema:


Menina me arresponda,
Sem se ri e sem chorá:
Pruque você se remexe
Quando vê home passá?
Fica toda balançando,
Remexendo, remexendo...
Pensa tarvez, qui nós véio,
Nem tem ôio e nem tá vendo?
Mas, se eu fosse turidade,
Se eu tivesse argum valô,
Eu botava na cadeia
Esse teu remexedô...
E adespois dele tá preso,
Num lugá, bem amarrado,
Eu pedia - Minha Nêga,
Remexe pro delegado.

As suas décimas (glosas) e trovas são terríveis, bem como as suas tiradas e boutades são picantes. Se tornaram famosas por todo o país, como essa que veremos adiante: Certo dia, ele submeteu-se a uma cirurgia na próstata, no navio hospital do Projeto Hop (da Marinha norte-americana que se encontrava no final dos anos sessenta, encalhado no Porto de Natal). Obtendo sucesso naquela operação, o médico logo lhe deu alta com a seguinte recomendação: "Seu Renato, o senhor está de alta, mas cuidado para não comer gordura. Ele olhou para Fausta, sua mulher que pesava aproximadamente seus bons cem quilos, dizendo: "Está ouvindo, Fausta, e agora?"

Certa feita, ao passar pela feira livre de uma certa cidade do interior nordestino, fora abordado por uma feirante vendedora de legumes. "Seu Renato. Faça um versinho para eu divulgar minhas batatas." E ele, Renato, de imediato escreveu num pedacinho de papel de cigarro, dizendo assim:

Batata, batata doce
Batata que o povo gosta,
Um quilo dessa batata
Dá vinte quilos de bosta.

Renato namorava um jovem chamada Maria da Conceição que, certo dia, regressou a São Paulo para passear e rever familiares, comprometendo-se com o poeta que retornaria em breve. Na hora da despedida, Renato entregou a sua namorada o seguinte bilhete em forma de versos:

Maria da Conceição
Faça uma boa viagem
E leve meu coração
Dentro da sua bagagem.

Passaram-se dias, meses, anos e nada de notícias de Conceição. Ao tomar conhecimento do seu paradeiro através de um amigo que ela, Conceição, teria se casado naquela capital paulistana, vingou-se logo que soube do seu endereço, remetendo para Conceição, o seguinte bilhete rimado:

Maria da Conceição
Você fez boa viagem?
Devolva meu coração
Que foi na sua bagagem.

E o mulherengo poeta no melhor de sua criatividade, escreveu no seu "Oiá Pidão", o poema adiante:

Os óio de Sinha Dona?
Ninguém pode arresistir.
Parece dois esmolé.
Qui só véve pra pedi.
Óios pidão desse geito,
Juro pro Deus, nunca vi.
Às vez, eu penso, Sá Dona,
Quando óio pra vancê:
Qui mecê tá é cum fome

E vergonha de dizê...
Eu tenho aquela vontade
De me virá em cumê.
Mas, tenho mêdo, Sá Dona,
Qui seja tapiação;
Pode mecê num tê fome
E fâzê judiação:
Pegá, amassá, mordê
E adespois largá de mão.









“Não sei se é fato Ou se é fita. Não sei se é fita Ou se é fato. O fato é que ela me fita. ”