quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TIPOS INESQUECÍVEIS DO ASSU

O poeta boêmio e bonachão Renato Caldas era funcionário público aposentado pelo Poder Judiciário do Rio Grande do Norte (Fórum João Celso Filho, da Comarca do Assu) por onde recebia um miserável salário, apesar da influência que tinha com grandes nomes da vida social, literária e política da terra potiguar. Pois bem, certa vez, sem dinheiro pra beber, Renato resolveu vender uma lâmpada Coleman (lampião a querosene então muito usado no Nordeste brasileiro, nos lugares onde não tinha luz elétrica). Fato este comunicado a sua mulher chamada Fausta, que logo se dirigiu ao armazém de Amaro Sena, vizinho a sua casa da praça Pedro Velho, da cidade de Assu, para prevenir aquele comerciante que não comprasse o lampião se Renato chegasse a lhe oferecer. Dito e feito. Renato foi ao armazém de Amaro e, ao chegar naquele estabelecimento comercial ofereceu aquele objeto por três mil cruzeiros (moeda da época). "Quero não Renato, disse Amaro". "Homem me compre esse lampião!" Com muita insistência Amaro resolvei satisfazer o desejo do poeta, da seguinte forma: mil cruzeiros avista e o restante em duas prestações: trinta e sessenta dias. Negócio fechado, Renato recebeu os mil cruzeiros e, no primeiro cabaré que chegou gastou todo o dinheiro com bebidas e mulheres, claro. Sem mais dinheiro pra gastar, querendo dá continuidade a sua vida boêmia voltou ao armazém de Amaro, solicitando dele um adiantamento de mil cruzeiros, referente a primeira parcela vincenda. Não podendo ser atendido, vingou-se colocando de manhã cedinho um papel de cigarros por debaixo da porta, com a seguinte inscrição em forma de versos (sextilha), que diz assim: 

Caro amigo Amaro Sena
Sei que você tem pena
Da minha situação
Eu sou um amigo raro
Fiz você ficar no claro
E fiquei na escuridão.

De outra feita, Renato Caldas pedira a Amaro Sena (que administrava uma das propriedades agrícolas de seu pai Antão Sena, localizado no Farol, zona rural próxima à cidade de Assu), um carneiro que desejava matar e comer tomando umas e outras, no dia do seu aniversário que se avizinhava. Amaro se comprometeu em atender o pedido de Renato e, quando já se passava três dias da promessa chega Amaro na casa de Renato com o animal prometido. Renato com aquele seu jeitão matuto, baforando o seu inseparável cigarro de palha, ironizou ao vistoriar aquele animal, dizendo: "Amaro. Antão (pai de Amaro) não vai tomar, não?" "Besteira, homem, tá dado e pronto!". Como ele não perdia as oportunidades para produzir um versinho jocoso, mandou brasa, conforme transcrito adiante: 

O Bode que Amaro me deu,
Só tem cabeça, chifre e colhão
Bem cedinho eu vou matar
O bode que Amaro me deu
Sei que isso aconteceu
Porque houve intervenção
O que chamou atenção
É que o presente de Amaro
É um aleijado raro:
Só tem cabeça, chifre e colhão.

(As estórias acima, me fora contadas pelo assuense Amarilson Sena, filho de Amaro Sena)

Walter Leitão quando prefeito do Assu (1972-75), juntamente com Amaro Sena vistoriava a periferia da cidade assuense num Jipe de sua propriedade. Ao se aproximar da Bueira, bairro então periférico daquele município, Amaro teve que desviar o veículo que conduzia, pois uma enorme vala impedia a passagem de automóveis, tendo que passar por dentro de um campo de futebol daquela comunidade. Naquela ocasião realizava-se uma partida futebolística entre as equipes do Palmeiras (lembrar os irmãos Clóvis e Damião) versus Granja, de Assu. Foi aí que um dos jogadores (Walter era portador de uma calvície desde a sua juventude), gritou indignado pela breve interrupção do jogo, dizendo aos gritos, de tal modo: “Prefeito cabeça de ‘pica’. Walter irritou-se, pediu a Amaro que parasse aquele veículo, pois desejava replicar. Amaro, calmamente advertiu ao amigo: “Homem, deixe pra lá”! Walter pensou, repensou e, voltando ao seu bom humor, saiu-se com essa: “É mesmo, Amaro. Vamos embora. Eu sou isso mesmo e pronto!" 

Luiz de Rosa era comerciante em Assu, onde foi proprietário de hotel, além de negociante de cereais. Ele andou todo o Rio Grande do Norte conduzindo um caminhão lotado de mercadorias: Açúcar, feijão, etc, para vender nas feiras livres por onde chegasse. Luiz era farrista inveterado, gastava todo o dinheiro que ganhava no jogo de cartas (baralho) e com mulheres de vida fácil. Já adiantado na idade, frequentava o bar e mercearia de Chico do Boi, no Centro da cidade de Assu, onde, certo dia, deixou um 'pendura', umas cervejas pra pagar posteriormente, logo que saísse o pagamento da sua aposentadoria. Passaram-se dias, meses, anos e nada de Luiz quitar a dívida com Chico do Boi que, ao vê-lo passar em frente ao seu estabelecimento comercial, não perdeu a oportunidade: "Seu Luiz. Tem um negócio aqui do Senhor". Disse Seu Chico em voz alta. Luiz não se fez de rogado: "Pode ficar pro Senhor mesmo, Seu Chico". E Luiz de Rosa continuou ligeirinho a sua caminhada.

Ainda sobre Luiz de Rosa (ele era aposentado pelo FUNRURAL - Fundo de Amparo ao Trabalhador Rural, recebia um valor praticamente irrisório, não representava quase nada para quem viveu toda a sua juventude e parte da maturidade vida de riqueza, recheada de orgia, farras intermináveis. Foi quando Walter Leitão lhe fez o convite para trabalhar na agricultura, plantar de meia, na sua propriedade agrícola. Pois bem, inverno chegando, Luiz em conversa amistosa nos alpendres daquela fazenda perguntou a seu novo patrão: "Compadre Walter. O inverno tá chegando, o que é que nós vamos plantar?" Walter que não estava de bom humor respondeu com aquela irreverência que lhe era peculiar: ‘Pica’ Luiz! Vamos plantar Pica!" Luiz não se deu por calado: "Compadre Walter. Plantar eu planto! Mas, não colho!”.

Fernando Caldas


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