quinta-feira, 22 de maio de 2014

CONTO

O ENXOVAL

- Vou num pé e volto noutro, Júlia. Quando voltar, casaremos.

- Vou ficar esperando agoniada. Quando você voltar o enxoval vai tá pronto. Inté meu amor. - Beijam-se.

Nilson sobe na carroceria do caminhão pau de arara. O carro parte, desaparecendo lentamente na poeira, enquanto Júlia balança as duas mãos num adeus quase interminável. Quando a poeira baixou e a estrada se mostrou vazia, ela deixou-se cair de joelhos aos prantos.

- Nilson, eu te amo!... Te amo, te amo...  Não sei se vou suportar...

O pai Luiz e a mãe Marta pegam a jovem por baixo das axilas levantando-a.

- Vamos filha, ele voltará logo. – Disse a mãe.

No meio de dezenas de parentes dos viajantes e de curiosos, o jovem conhecido por Caeba, visivelmente embriagado, observando a cena deu seu palpite:

- Agora volte! Da Bahia mais pra dentro... Aqui é lugar de preguiçoso, vagabundo como eu!

- Cale a boca seu bêbado chato! – Advertiu o velho Luiz.

- Oh, mãe... (chorando) - Também sinto que ele não vai voltar... Não vai voltar!

- Calma filha, Remanso é perto. Depois do período da pesca ele retornará à Juazeiro. Aqui é o lugar dele... Vocês se amam e irão se casar - Falou o pai tentando consolar a filha, uma das jovens mais formosas do lugar.

A caminho de casa Julia se lamentou o tempo todo.

Havia anos que não entrava água pelo canal natural da Lagoa. A pescaria, comercialmente, tinha acabado. Nilson era pescador e como a Lagoa do Piató estava praticamente seca tinha ido ganhar a vida no Lago de Sobradinho – Remanso/BA. As populações das comunidades do entorno da Lagoa viviam momentos de aflições. Quase todos os homens foram pescar em Sobradinho - onde a pesca era farta. Ficaram basicamente as mulheres, crianças e idosos. Famílias inteiras abandonaram suas casas e partiram. Época desoladora.

Dia após dias Júlia chorou na tentativa de descarregar e serenar a tensão. 

Estava vivendo de tristezas e quase não se alimentava. Vivia deitada ou pelos cantos da casa sempre chorando. Havia se passado três meses sem nenhuma notícia.

Seu Luiz vendo a tristeza da filha foi ao quintal, amarrou as duas marrãs de porcas do chiqueiro, que ele estava cevando para matar no casamento, e as levou para vender na feira do gado, em Assu. Com o dinheiro da venda das bacorinhas comprou tecidos para confecção do enxoval de Júlia e Nilson. Há tempo não via a filha esboçar um sorriso, mesmo que sem graça. Ela, abraçando os tecidos, foi diretamente para a velha máquina de costura para começar a trabalhar. Tinha aprendido a costurar na adolescência, quase criança, com a mãe. Não era uma exímia costureira, mas sabia o essencial para uma casa. Confeccionar seu enxoval era uma questão de honra. Tinha prometido ao Nilson... E se ele chegasse e não estivesse pronto? Sua ansiedade era tanta que ao iniciar a costura do primeiro lençol não ajustou devidamente a máquina e a agulha quebrou. Ela ficou nervosa... Olhava a agulha sem querer acreditar... Quebrar agulha era sinal de que logo haveria morte na família.

Sete meses se passaram e nada de notícia do Nilson. Depois de sua partida muita coisa tinha acontecido, a lagoa tinha recebido água e a Barragem Armando Ribeiro tinha sangrado pela primeira vez. Todos os reservatórios estavam cheios. Tudo indicava anos de farturas.

Os lençóis, fronhas, panos de pratos e toalhas já estavam prontos, faltando tão somente bordar os lençóis. Júlia estava justamente bordando o lençol em ponto de cruz com as iniciais “NJ” quando, de súbito, ouviu um grito forte:

- Chegaram os cassacos de Sobradinho! Chega meu povo, venham receber seus parentes! Vamos comemorar! – Gritou Caeba.

Júlia deu um pulo da cadeira e quando deu por si tinha quebrado a agulha e furado seu dedo indicador, que sangrava. Quebrar a segunda agulha era mais um aviso de mau pressentimento. Não se incomodou, jogou tudo num canto e saiu desesperada porta afora em busca do caminhão. A pacata comunidade de Juazeiro ficou em alvoroço, surgiram pessoas de tudo quanto era buraco. Abraços, choros, beijos... A alegria do reencontro dos parentes era inebriante.

Júlia ficou aguardando até o último passageiro descer. Nada de Nilson. Chorando, cabisbaixa, foi retornando para casa quando Tiago – amigo do casal, a chamou:

- Júlia! – entregando-lhe um envelope – Nilson ficou... Tá juntando dinheiro pra comprar uma casa pra vocês. Ele tá trabaiando feito um bicho. Daqui uns trinta dias tá por aqui.

Julia recebe o envelope, agradece e vai saindo com a mesma tristeza. Caeba observando a cena não perdeu tempo:

- Eu não disse que ele não vinha! Fique esperando sua besta, vai morrer donzela... (batendo no peito) Eu estou à disposição! -fechou o deboche com uma gargalhada.

Júlia fez de conta que não tinha ouvido e saiu em direção à casa dos pais. Sentou, leu a carta. “-... Não se avexe Júlia. Por amor enfrentamos tudo. Chegarei em breve. Saudades... Beijos, Nilson.”

A depressão de Júlia aumentou. Conselhos e mais conselhos dos pais, vizinhos, e nada... Todas as tardes ela pegava um lençol e ia para a beira da lagoa. Sentava na proa de uma canoa e ficava bordando até o sol desaparecer por trás dos montes. Numa destas tardes, quando estava concentrada no bordado, um barulho a assustou e, no sobressalto, ela quebrou a agulha. Levantou a vista, colocou a palma da mão sobre os olhos, tentando evitar o reflexo solar e gritou:

- Nilson, você voltou meu amor! Eu sabia que você vinha... Amor da minha vida!... (levantando os braços) Olhe, este é o último lençol... Terminei o nosso enxoval... 

Júlia caminhou em direção ao seu eterno e único amor...

- Chega meu povo! A donzela tá se afogando! – Gritou Caeba.

Quando os pescadores conseguiram retirar o corpo de Júlia da água já não tinha mais o que ser feito. Morreu abraçada com o lençol.

O corpo de Júlia estava sendo velado na capela da comunidade quando entra numa correria desenfreada o Caeba.

- Outra desgraça! – respirou fundo e concluiu – Deu na Rádio Princesa que o pau de arara que vinha com os pescadores bateu num jumento, depois da ponte de Assu e virou... (pausa) Tem muita gente ferida e um morreu: Nilson!...

No bolso de Nilson estava uma caixinha vermelha em forma de coração com duas alianças. O casal foi sepultado no cemitério da comunidade numa única sepultura. Na cruz de mármore foi escrita:‘Nilson Matias e Júlia Fernandes (+ 10/05/1985) – Casados na eternidade’.
Dizem que o por do sol no Piató ficou mais sentimental... Quem contempla aquela beleza, quase sempre, lembra-se de um amor impossível e termina chorando.

Autor: Ivan Pinheiro (abril/2014).
Fotos ilustrativas. Por do sol: PortoPiato.blogspot.com

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