segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Mentira de Verdade

Eduardo Olympio, 15/09/2014

Tenho um compadre que ama os netos. Claro, também ama os filhos. Sou testemunha de que a recíproca, de ambas as situações, é verdadeira.
Mas, com relação aos netos, a afeição é, de certa forma, mais visível. Na idade em que estão, a mesma, em média, em que a nossa amizade começou, eles cativam com as graças e os carinhos naturais da primeira infância.
Em geral, os avós se orgulham da sua condição e, sempre que podem, falam dos pequenos objetos dos seus amores e, às vezes, até dos respectivos amiguinhos.
Ontem, fui ao aniversário da sua netinha caçula. A criançada estava reunida em torno das atrações. Os pais, tios e avós saboreavam o prazer da conversa alegre, prática que a atualidade não soube como conservar, salvo em eventos assim.
Depois dos cumprimentos e votos de felicidades, sentei-me junto do compadre para trocarmos palavras sem compromisso.
Compreensivelmente, ele logo se lembrou da originalidade e da propriedade com que os miúdos se comunicam. E narrou um caso em que essas características afloraram nas palavras de uma menina de possíveis quatro anos de idade.
Seu neto, então completando três, era fã incondicional do Homem-Aranha, esse super-heroi humano e tão popular, de absoluto sucesso nas telas, que veio ao mundo em quadrinhos, na década de 60, e, portanto, foi personagem nas leituras passadas de muitos avós de hoje.
O petiz escolhera como tema da festinha esse ídolo. O avô soube disso, mas não deixou transparecer que tomara ciência da seleção feita.
Entretanto, idealizou que o herói entrasse em cena durante a festa e operou neste sentido.
Sem ninguém, além dele, saber do plano, pesquisou e contratou um artista que fazia a criatura que, por acidente radioativo com uma aranha que lhe picara, sofreu mutações e ganhou poderes aracnídeos.
No dia da festa, em área externa à casa de lazer da família, com tudo preparado, o avô do aniversariante reúne a meninada e aponta na direção da caixa d’água:
- Olhem quem está ali!
Para o espanto de todos, era o Homem-Aranha. O tema musical começa a ser ouvido em alto e bom som. Alegria e excitação incontidas!
O acrobata, com grande habilidade, põe-se a realizar os saltos e escaladas típicos do original e a galerinha solta gritos, palmas e risos.
Um delírio!
Mas, surpreendentemente, a pequenita de prováveis quatro anos mostra certo medo e se agarra às pernas da mãe.
Contou-me o compadre que notou o desconforto da menininha e a tentativa da mãe em melhorar a isolada situação, ao se chegar a ela e dizer:
- Querida, não se assuste, o Homem-Aranha que você está vendo é de mentira!
E logo, ouviu, uma vozinha sumida e chorosa dizer:
- É, mas eu só gosto de mentira de mentira; eu não gosto de mentira de verdade.

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