domingo, 2 de novembro de 2014

CORDEL

VIRGULINO


Imagem da web

por Eduardo Olympio, poeta baiano

Eis recatado cordel
Que faço para uma amiga
Sobre quem teve um papel
Controverso, que se diga.

Virgulino Lampião,
Pelo sertão do Nordeste,
Terá sido um jagunção
Ou dito cabra da peste?

Foi no julho nordestino,
Mil oitocentos noventa
E mais oito: Virgulino
Nasceu em terra barrenta.

Ferreira da Silva tinha
Para completar o nome
E um tempo depois lhe vinha
Lampião de codinome.

Parido em Serra Talhada,
Trabalhou como artesão
E morreu numa cilada
Após varar o sertão.

A morte do pai vingava,
Ao entrar para o cangaço,
E era tanto o que atirava
Que do rifle o duro aço

Tornava-se incandescente
Como, na noite, o clarão
Da longe estrela cadente
Ou o vizinho lampião.

Quando seu bando formou
Com Azulão, Cabeleira,
Corisco, que desertou
De uma Arma Brasileira,

Moreno, que fez cem anos,
Candeeiro, quase cem,
Jararaca, que profanos
Enterraram sem amém,

Espalhou medo e vingança,
No interior do Nordeste,
Mas, depois de muita andança,
Tornou-se um cabra da peste.

Decerto, no imaginário
Dos sofridos do sertão
Que fez Cícero, o vigário
Promover-lhe a capitão.

E ganhar admiradores
E acatamento profundo
De pequenos lavradores,
Mesmo após deixar o mundo.

Sobre o cabra, em alta voz,
Perguntou depois, o Lua:
Quem não pecou entre nós?
Quem exibe a vida nua?

Eis que Maria Bonita
Foi a ele que escolheu,
Deu-lhe, por filha, Expedita.
(Pouco de mãe exerceu).

Lampião, para o Brasil,
Mostrou seu lado esquecido,
Despertou paixão febril
Do peão menos valido.

Mas, ainda amedrontava
Por ser demais violento
E também chantageava
Para do bando o sustento.

Quando chega o Estado Novo,
A polícia é um esquadrão.
E, onde haja coiteiro e povo,
Procura por Lampião.

Em Anjicos ocorreu
A emboscada fatal,
Quando se extinguia o breu,
Armou-se o ataque final.

Com todos, então, cercados,
Muitos, bem antes das oito,
Sucumbiram metralhados,
Em julho de trinta e oito.

Verdadeira atrocidade
Foi a morte do casal,
A volante – crueldade –
Deixou seus corpos no sal.

As cabeças, decepadas,
Foram expostas em praça,
E, por tempo, embalsamadas,
Relembraram a desgraça.

Finda-se um livre resumo
Da história desse bando.
Não se percam do seu prumo,
Pois a vida segue andando.


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