quinta-feira, 12 de novembro de 2015

MARIA EUGÊNIA, UMA ASSUENSE DE LAVRAS


Maria Eugênia Maceira Montenegro teve uma existência longínqua, recheada de momentos felizes. Era filha de pai português e mãe mineira. Aos 90 anos de idade - quando partiu para o outro lado - estava em plena lucidez de invejar qualquer pessoa. Deixou a cidade de Assu - terra que ela tanto amou - literariamente "mais pobre e deserdada de seu talento".

Aparentemente modesta, amiga dos seus amigos. Tratava as pessoas com carinho e zelo. Aparentemente ingênua. Como ela gostava das palestras e das reuniões sociais na calçada de sua casa do largo da igreja matriz, que hoje leva o seu nome.

E como eu gostava de conversar com ela, Maria Eugênia, na calçada da sua residência que eu passei a frequentar desde os meus tempos de menino de calças curtas no Assu. E ela sempre a me falar da grande poesia, dos pensamentos amargurados de João Lins Caldas, seu amigo, crítico e maior incentivador para o seu ingresso nas letras da terra potiguar.

Poeta, historiadora, palestradora, artista plástica. Aquela escritora pertencia a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, cadeira número 16, desde 1972 (sucedendo Rômulo Wanderley), e tinha cadeira também, na Academia Lavrense de Letras, desde 1970.

Maria Eugênia chegou em terra assuense procedente de Lavras, sua terra natal, interior ao sul de Minas Gerais (cognominada de Atenas Mineira), nos idos de trinta, com apenas 23 anos de idade, acompanhando o seu marido, o jovem recém formado pela Escola Superior de Agricultura de Lavras, chamado Nelson Borges Montenegro, para morar na fazenda "Picada", na localidade de Sacramento, atual e importante município de Ipanguaçu, por onde se elegeu prefeita nas eleições de 1972, como candidata única, pelo partido da Aliança Renovadora Nacional - ARENA. Um fato, penso eu, inédito na política brasileira.

Maria Eugênia, incentivou e apoiou a cultura da terra ipanguaçuense, pois não podia ser diferente para uma intelectual e amante da cultura, da literatura.

No final da década de 50, dona Gena deixou de conviver com as matas verdes e carnaubeiras da Picada ou Itu (importante fazenda da região do Vale do Açu), para fixar residência na aristocrática e poética cidade de Assu, que já vivia naquele tempo em plena atividade literária, com jornais e mais jornais sendo editados, a sociedade praticando as artes cênicas, realizando tertúlias literárias, e seus célebres poetas produzindo versos e mais versos da melhor qualidade.

Dona Gena, passou então a morar num rico casarão da praça da Proclamação, atual Getúlio Vargas, parede-e-meia com Tarcísio Amorim, filho do poeta e memorialista, escritor Francisco Algusto Caldas de Amorim, com quem, talvez, adquiriu muitos conhecimentos sobre o Assu e sua gente evidente.

Não foi difícil para ela, Gena, que já carregava no seu interior, a arte da prosa e do verso, conviver na cidade de Assu, além dos membros da família Montenegro, com os Caldas, de Renato Caldas (poeta de "Fulô do Mato" que o Brasil consagrou), os Amorim, de Pedro Amorim, os Wanderley, de Sinhazinha Wanderley, os Soares de Macedo, de João Natanael de Macedo, os Soutos, de Elias souto (fundador da imprensa diária no Estado potiguar), os Silveira, de Celso da Silveira (que fundou em Assu o 1º museu de arte popular do Brasil), e tantas outras famílias daquela terra de povo inteligente.

Aquela mulher de letras, assuense por escolha e lei, norte-rio-grandense por outorga, colaborou em vários jornais do Assu, de Natal e de sua terra natal (Lavras), como "A Gazeta" e "Tribuna de Lavras". Publicou onze livros, intitulados "Saudade, Teu Nome é Menina" (1962), além de "Alfar a Que Está Só", "Azul Solitário" (poemas), "Perfil de João Lins Caldas" (plaquete), 1974, "Por Que o Américo Ficou Lelé da Cuca", "Lembranças e Tradições do Açu" (história e costumes), "A Piabinha Encantada e Outras Histórias", "Lourenço, O Sertanejo" (romance), "A Andorinha Sagrada de Vila Flor", "Lavras, Terras de Lembranças" e "Todas as Marias" (contos). Tinha ainda os inéditos intitulados "Redomas de Luz" (Epitáfios) e "Poemas do Entardecer".

Sobre a morte, esse "velho tema sempre novo", no dizer do poeta João Lins Caldas, Gena, certo dia, já esperando a morte chegar, me disse: "Não tenho medo de morrer! A morte é o princípio de uma vida. A gente nasce para morrer e morre para viver"!

E ficou o Assu, sem o seu poetar. Os jovens estudiosos da terra assuense perderam (não me recordo a data da sua partida para no outro lado) 
o seu maior patrimônio cultural. Era ela o maior referencial da terra assuense.

Ficamos nos versos de tanta pureza e ternura que ela escreveu:

Minhas mãos são asas.
Taças,
Preces:
Quando anseio a liberdade,
Quando tenho sede de amor, quando minha alma se transforma em dor.

Fernando Caldas

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