segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A CASA DE PEDRO AMORIM



Por Maria do Perpétuo Socorro Wanderley de Castro

Na antiga rua das Flores, o vazio. Pra mim, como em velho álbum de retratos, está uma página sem imagens, apenas cantoneiras vazias. Na rua quieta, mais quieta ainda, o silêncio e espaço vazio se escancara, fauces tenebrosas a engolir a história. No lugar do nada de hoje, antigamente, dirão pouco a pouco os passantes, se erguia a casa de dr. Pedro Amorim. Nela vi a desfiguração de muitos anos, quando entrei em suas salas, pela última vez, em julho de 2003. O piso de mosaicos em composição geométrica de vermelho e amarelo estava encardido e coberto de poeira. Dia após dia, no abandono e na solidão, o pó foi se depositando sobre cada pedra, sobre as fechaduras, sobre as portas, sobre os degraus da escada, impedindo o acesso ao pavimento superior.

De costas para a casa, um grupo tirou um retrato. Para lembrar daquele dia, ou para lembrar daquela casa? Casa que brilhou em lustres derramados de pingentes, no piso encerado com cera de carnaúba, os largos móveis, os marquesões na espaçosa sala de estar. Casa onde se hospedaram, onde se banquetearam e brindaram por muitos e sucessivos anos, numerosos políticos ligados à linha do chefe político do Vale do Assu, dr. Pedro Amorim. Era uma casa nobre, um palacete, com primeiro andar e belas varandas.

Ouvi histórias que se passaram ali: dr. Hélio Santiago me contou quando ali esteve durante a campanha de Dix-sept Rosado, o governador efêmero que deixou uma saudade no Estado e fez do desastre do rio um momento de sebastianismo.

Fui revendo a casa, branca, elevando-se, altaneira, sobre o nível da rua. De um lado, o largo oitão, onde vicejavam flores. O grande portão se abria sobre a rua, sobre a qual também se debruçavam as duas amplas janelas, uma correspondendo à sala de estar, a outra à sala de jantar. E, nesta visão da frente da casa, uma varanda circundada pelos combongós, a meio caminho do espaço aberto que dirigia o olhar até mais longe, até encontrar a rua São João e mais longe ainda até o verde carnaubal. Nos velhos tempos, a casa era festiva e alegre. Ora, ajuntavam-se políticos confabulando. Ora, na palestra da calçada, reuniam-se amigos e correligionários, sorvendo café e sucos. Ora, se comemoravam vitórias e aniversários. Ora, ainda, as portas se abriam para que jovens ali se reunissem para conversar, dançar e namorar.

A casa teve muitas vidas. Viveu sob as mais diferentes circunstâncias, com seus moradores e costumes. Já nos últimos tempos, quando a procissão de São João descia a rua no caminho do Macapá, ela era a testemunha de pedra e cal de tantos anos que se passaram. Como assistira às querelas políticas, também assistia à contrição e fervor religioso do assuense ao seu padroeiro.

Quis descrever a casa, mas meus olhos se detiveram nas pessoas, nos significativos momentos que, para os cidadãos assuenses, ali se passaram. Quando procurei fixar meu olhar buscando a exatidão das paredes em sua espessura, dos lustres com seus pingentes, do teto com seus caprichosos desenhos, quando ia descerrar a suntuosa cortina bordô, encontrei o obscurecimento. Como em velhos contos, ou antigas lendas, só restava o pó sobre todas aquelas coisas, sobre todos aqueles dias. Vagando em derredor, constatei que todos estavam dormindo profundamente, dentro da noite de São João.

Nessa desolação, me veio à lembrança o romance de Steinbeck, As Vinhas da Ira, em que ele apresenta o confronto do indivíduo com a sociedade, ora opressora, ora indiferente; e me ecoou soturno o diálogo “Quem é a Companhia Shawnee de Terra e Gado? ” – “Não é ninguém. É uma companhia. ”

E a Samaritana que povoara o jardim, tomou seu cântaro ao ombro e se perdeu na fímbria do horizonte.

Do livro: Daqui ei vejo o Cata-vento. Maria do Perpétuo Socorro Wanderley de Castro.

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