domingo, 23 de abril de 2017

O LIVRO DE "PERPÉTUA" - MARIA DO PERPETUO SOCORRO WANDERLEY DE CASTRO



II - BREVIDADE

Jorge Fernandes fixou - No meu tempo, a luz elétrica vinha com a lua. O verso combina com tantas cidades do interior do Brasil e do Rio Grande do Norte. Posso, portanto, dizê-lo ao falar do Assu.

Nasci em Assu, uma das mais antigas cidades do Estado, orgulhoso de um passado tradicional, marcado por ter tido jornal semanal em 1867, por ter sido a segunda Comarca criada pela Lei Provincial n. 13, de 11 de março de 1835 tendo como primeiro juiz Basílio Quaresma Torreão Júnior, a freguesia de São João Batista da Ribeira do Assu em 1726, a segunda cidade a libertar os escravos, em 24 de junho de 1885. Criei-me ouvindo estórias de trancoso, ainda do tempo em que se falava da moura torta e da pobre menina enterrada pela madrasta malvada e ouvindo estórias dos fatos da cidade, como a angústia do grande incêndio ocorrido em 1951 de que resultou a destruição de casa integrante do conjunto arquitetônico da velha rua Casa Grande, a estupefação co a chegada do primeiro carro, um Ford que causou assombro, assim como tempos depois o avião causara medo. Vivi o cotidiano da cidade do interior, com as crenças e temores dos mais velhos, falando ainda sobre botijas, sobre becos mal-assombrados, sobre aparições e fantasmas.

Naquele tempo, a luz elétrica chegava com o por do sol, quando o velho moto era ligado e, ordinariamente, desligado ao meio da noite, após os três sinais que anunciavam verdadeiro toque de recolher, pois a cidade se recolhia à escuridão. E as noites eram, ainda, adoçadas por sons de violões e serenatas, frequentemente permeadas pela declamação de versos e pela acolhida hospitaleira dos donos das casas escolhidas, que serviam bebidas e petiscos aos seresteiros. A cidade desfrutava de luz elétrica desde 1927 o que permitia as sessões de cinema, festas em clubes e pequenas festas em locais como a Casa da Juventude, cuja lembrança se enche do som redondo da bola de ping-pong, nas mesas ali instaladas.

Vivi o início da adolescência andando em suas ruas ainda não calçadas, no caminho diário para as aulas no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, na diversão domingueira dos banhos de rio. Era uma vida calma, então igual à de cinquenta anos atrás, nas mesmas ruas, nos mesmos costumes, marcantemente rígidos e tradicionais. Em 1966, ouvia-se, e mal, através do rádio, as transmissões dos jogos no México,. Nesse intervalo de quatro anos, a cidade mudara profundamente, mais do que levara a se modificar durante décadas, em que o tempo passara quase imperceptivelmente. Com a televisão, o espaço e a distância diminuíram.

A geração que assistia a esta mudança passou a viver em conformidade com ela e com as possibilidade e oportunidades que gerou. Mas os dias idos, dias de infância e adolescência ficaram acumulados pela vida afora, como pequeno tesouro de bem querença.

Este é, contudo um registro incompleto. Faltam pessoas, faltam lugares, que estão entro das lembranças e são importantes na vida e na paisagem sentimental da cidade. Mais alguns dias, ou anos que são apenas somas de dias, e poderei acrescentar o que falta agora, mas, sempre, será inconclusa a obra.

Este é, contudo um registro incompleto. Faltam pessoas, faltam lugares, que estão entro das lembranças e são importantes na vida e na paisagem sentimental da cidade. Mais alguns dias, ou anos que são apenas somas de dias, e poderei acrescentar o que falta agora, mas, sempre, será inconclusa a obra.

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