sábado, 24 de maio de 2014

O canto vivo das caatingas

Itaércio Porpino
repórter

Em Lajes, município do semiárido potiguar, a cantoria dos vaqueiros ainda ecoa no meio da caatinga. Mas essa tradição, ligada às raízes do homem do campo que vive de tanger o gado, está prestes a desaparecer da pequena cidade potiguar. Por isso, o radialista lajense Francisco Tárcio Araújo, de 35 anos, tem pressa em fazer o videodocumentário “Aboio: A Poesia do Vaqueiro, o Lamento das Caatingas”, contemplado no Programa Revelando os Brasis, voltado para a democratização do audiviosual em cidades com menos de 20 mil habitantes. 
Ratão Diniz

A rotina, as histórias e o canto tradicional dos vaqueiros e aboiadores ganham vida no documentário “Aboio: a poesia do vaqueiro, o lamento das caatingas”

A rotina, as histórias e o canto tradicional dos vaqueiros e aboiadores ganham vida no documentário “Aboio: a poesia do vaqueiro, o lamento das caatingas”

No ano passado, durante o levantamento de dados para o  projeto, o radialista contou meia-dúzia de vaqueiros aboiadores em Lajes, que tem como símbolo seu Raposo, de 88 anos. “Percebi que eles estavam se acabando, que a tradição estava morrendo. Seus filhos não são vaqueiros, estão trabalhando no comércio; e os netos estão fazendo faculdade em Natal ou Mossoró. Não há perspectiva”, diz Tárcio, que tem pressa também porque há um prazo para o documentário ficar pronto. A previsão de lançamento é início de agosto.

“Aboio: A Poesia do Vaqueiro, o Lamento das Caatingas” foi um dos 951 projetos de todo o País inscritos na 5ª edição do Programa Revelando os Brasis, realizado pelo Instituto Marlin Azul com patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet.

Dos 20 contemplados, ele é o único do Rio Grande do Norte. O radialista começou a filmar na última quinta-feira (22) e tem até domingo (25) - quatro dias - para concluir essa parte e passar à edição, que deve ser concluída até o final de junho. O documentário tem o aboio como fio condutor, mas também mostra a lida dos vaqueiros, a religiosidade, lendas e tradições.

“O que mais me marcou durante a pré-produção foi ver que o vaqueiro não se sente mais valorizado. Então, minha intenção com esse trabalho é mostrar o canto, que é muito bonito e que muitos não conhecem, mas também a realidade dessa gente”, disse Francisco Tárcio Araújo, que falou com o VIVER na tarde desta sexta (23) por telefone, no intervalo entre as gravações.  

Para contar esta história, ele participou das oficinas audiovisuais realizadas pelo projeto Revelando Os Brasis no Rio de Janeiro, no mês de fevereiro. O curso reuniu 20 moradores de pequenas cidades com até 20 mil habitantes de várias partes do país, repassou noções básicas sobre roteiro, produção, direção, fotografia, direção de arte, som, dentre outras disciplinas, com o objetivo de preparar os participantes para transformar as histórias que contarão em documentários ou ficções de curta-metragem.

O prêmio viabilizou também a contratação de uma equipe técnica composta por um fótografo, um câmera, um diretor de fotografia, um profissional de captação de áudio e um contra-regra. Além deles, Tárcio conta com o auxílio de um blogueiro e um professor de história.

Depois de finalizado, o filme, com duração de 15 minutos, será exibido em todas as cidades contempladas no 5º Revelando os Brasis. Um caminhão do programa estacionará nessas cidades com um telão de 10 metros e 300 cadeiras, para os moradores assistirem. O vídeo também será exibido no Canal Futura e TV Brasil.

SAIBA MAIS...   
Na definição de Guerra-Peixe, compositor e pesquisador: “Aboio vem de abôiar, isto é, de reunir o gado, mantendo-o manso e ordenado. Por extensão, o termo abôio designa também a cantoria feita pelo vaqueiro ao conduzir a boiada de um para outro lugar, servindo, ainda, para embelezar o aboiar. Praticado em vários países, é abundante no Brasil e, segundo se pode deduzir, herdamo-lo de Portugal, onde subsiste no Minho. Entretanto, se em algumas das expressões mais vulgares do nosso abôio é notada a sua origem portuguesa, os seus traços melódicos já acusam profunda modificação processada no Brasil”.


Tribuna do Norte

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