segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

 

Elza Soares (1930-2022)
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"Um dia descobri que cantava.
O meu filho mais velho Jo√£o Carlos estava morrendo e eu j√° tinha perdido 2 filhos e n√£o queria perder mais um.
Eu não tinha dinheiro pra cuidar do meu filho e ouvi no rádio que o programa do Ary Barroso de calouros Nota 5, estava com o prêmio acumulado. Não sei como, mas eu sabia que ia buscar esse prêmio!
Fiz a inscrição e me avisaram que eu precisava ir bonita. Mas eu não tinha roupa nem sapatos, não tinha nada! Então, eu peguei uma roupa da minha mãe, que pesava 60kg e vesti, só que eu pesava 32kg, já viu né? Ajustei com alfinetes. Tudo bem que agora é moda ne? Hoje até a Madonna usa, mas essa moda aí fui eu que comecei viu? Alfinetes na roupa é muito meu, é coisa de Elza!
No p√© coloquei uma sand√°lia que a gente chamava de “mam√£e t√ī na merda”, e fui!
Quando me chamaram, levantei e entrei no palco do auditório. O auditório tava lotado, todo mundo começou a rir alto debochando de mim.
Seu Ary me chamou e perguntou:
РO que você veio fazer aqui?
– Eu vim Cantar!
РMe diz uma coisa, de que planeta você veio?
– Do mesmo planeta seu Seu Ary.
РE qual é o meu planeta?
– PLANETA FOME!
Ali, todo mundo que estava rindo viu que a coisa era séria e sentaram bem quietinhos.
Cantei a m√ļsica Lama.
O Gongo não soou e eu ganhei, levei o prêmio e meu filho está vivo até hoje, graças a Deus!
De l√° pra c√°, sempre levo comigo um Alfinete.
Naquela época eu achava que se tivesse alimentos pros meus filhos, não teria mais fome. O tempo passou e eu continuei com fome, fome de cultura, de dignidade, de educação, de igualdade e muito mais, percebo que a fome só muda de cara, mas não tem fim.
Há sempre um vazio que a gente não consegue preencher e talvez seja essa mesma a razão da nossa existência."

Elza Soares



s√°bado, 22 de janeiro de 2022

 ESQUECE

N√£o chores o teu sonho azul, formoso,
Que era o claro farol da tua vida.
O amor
Tem amargor,
Tem mais tristezas que riso.
N√£o vale a pena amar sendo esquecida.
Eleva o coração
E... mata esta paix√£o!
(Etelvina Antunes - 1885/1963, poetisa potiguar. Em Violetas, p√°g. 79, editora AZYMUTH, Natal, 2016).



sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

 

Conjugando o verbo desamar
Ah, o amor em fase terminal
Desembestado ladeira abaixo
Secando a grama
Amassando flores
Plantadas a quatro m√£os
Amor que n√£o cabe mais
Em sua √ļltima mortalha
(O cinismo)
Corre pelo leito
Do desgosto
Sem norte
Sem sorte
Mas adentra o mar
Da solid√£o
Sem se acabar
Ah, o amor derrotado
Que se recusa a sair
Dar o seu lugar
Amor manhoso
Enroscado
Num peito torto
Errado
Que se veste de ódio
Para ficar
E o que é o ódio
Sen√£o um uivo Solit√°rio
De amor
Em noites de luar ?
Mariza Figueiredo Martins/P√£o de Poesia
Ilustração! Pierre-Auguste Renoir, La Loge, London, 1874



 Fatos e Fotos de Natal Antiga

Escola Ind√ļstria de Natal - Natal RN - 1950


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

 Mensagens Para Refletir

Quando Gandhi estudava Direito na Universidade de Londres tinha um professor chamado Peters, que não gostava dele, mas Gandhi não baixava a cabeça.
Um dia o prof. estava comendo no refeitório e sentaram-se juntos.
O prof. disse:
- Sr. Gandhi, você sabe que um porco e um pássaro não comem juntos?
Ok, Prof..... J√° estou voando...... e foi para outra mesa.
O prof. aborrecido resolve vingar-se no exame seguinte, mas ele responde, brilhantemente, todas as perguntas.
Ent√£o resolve fazer a seguinte pergunta:
- Sr. Gandhi, indo o Sr. por uma rua e encontrando uma bolsa, abre-a e encontra a Sabedoria e um pacote com muito dinheiro.
Com qual deles ficava?
Gandhi respondeu....
- Claro que com o dinheiro, Prof.!
- Ah! Pois eu no seu lugar Gandhi, ficaria com a sabedoria.
- Tem raz√£o prof, cada um ficaria com o que n√£o tem!
O prof. furioso escreveu na prova "IDIOTA" e lhe entregou.
Gandhi recebeu a prova, leu e voltou:
E disse...
- Prof. o Sr. assinou a prova, mas n√£o deu a nota!
Moral da história.
Semeie a Paz, Amor, compreensão. Mas trate com firmeza quem te trata com desprezo. Ser gentil não é ser capacho, nem saco de pancadas...




 


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

NAS QUEBRADAS DO SERTÃO
 
Chegando o mês de janeiro
A chuva cai no torr√£o,
Sertanejo pro roçado
E começa a plantação,
Cedinho vai pela estrada
Uma feliz caminhada
Nas quebradas do sert√£o.
Tempo bom para chover
√Č bonito o meu rinc√£o,
O matuto corta e planta
√Č aquela anima√ß√£o,
Quando chega a invernada
Tem a festa e vaquejada
Nas quebradas do sert√£o.
Pipoca o pai da coalhada
Que é o forte trovão,
Anuncia coisa boa
Chuva no nosso torr√£o,
Passarinho tem filhote
Vaca amamenta garrote
Nas quebradas do sert√£o.
Deus escuta belas preces
E chove no meu rinc√£o,
√Ārvores mudam de cor
Com a pastagem no ch√£o,
Tem gado gordo e colheita
Natureza satisfeita
Nas quebradas do sert√£o.
No inverno a chuva cai
Safra de milho e feij√£o,
Fica verde a caatinga
Floresce a vegetação,
Tem safra de melancia
O matuto é alegria
Nas quebradas do sert√£o.
Viva o nosso agricultor
Homem feliz do rinc√£o,
Colhe os caroços nascidos
De jerimum e mel√£o,
Cedinho vai pela estrada
Numa linda caminhada
Nas quebradas do sert√£o.
 
Marcos Calaça é poeta e cordelista.

LAMPI√ÉO NO RIO GRANDE DO NORTE – A HIST√ďRIA DO ESCONDERIJO DA CAVERNA DA CARRAPATEIRA

 Imagem

Entrda da caverna da Carrapateira, zona rural de Felipe Guerra, Rio Grande do Norte РFoto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

Rostand Medeiros – IHGRN

A zona rural do município de Felipe Guerra impressiona tanto os espeleólogos como os habitantes locais. No tocante a quantidade e a qualidade das cavernas. Há tempos que esse município se mostra como uma das mais promissoras áreas no estado do Rio Grande do Norte e com ótimas possibilidades para o desenvolvimento do turismo espeleológico.

Mas além do seu conjunto de belas cavidades naturais, a região de Felipe Guerra mantém, mesmo passados quase 95 anos, as memórias e as lembranças das agruras sofridas com a passagem do bando do cangaceiro Lampião, em seu ataque a cidade de Mossoró.

Lampião em seu aparato de guerra | Crédito: Reprodução РFonte Рhttp://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

Dessas lembranças ficou o registro do medo e as mudanças que os mais antigos sofreram em suas vidas, com os acontecimentos ocorridos em junho de 1927. Uma época em que o trabuco falava mais alto que a força da justiça. Até hoje a tradição oral é transmitida dos que ouviram dos seus familiares, trazendo para os mais jovens os acontecimentos de um momento triste da história do sertão potiguar e o interessante em Felipe Guerra é que muitos possuem uma ou mais história sobre esses acontecimentos.

E a maioria da sua população sabe da existência destas cavernas através dos acontecimentos da época do cangaço, pois foi em uma destas cavidades que alguns habitantes conseguiram um abrigo prático para os terríveis eventos que ocorriam nas proximidades das suas casas e deixou na lembrança das pessoas do lugar um respeito muito grande por este tipo de ambientes natural.

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

Esta é a história daqueles dias incertos e da caverna que ajudou os moradores do lugar.

A Pedra de Abelha

Em 1927 Felipe Guerra era um pequeno arruado conhecido como Pedra de Abelha, fincado √†s margens do Rio Apodi, onde a vida seguia tranquila, para seus pouco menos de 1.000 habitantes. Eles sobreviviam da cera de carna√ļba, da pequena agricultura e da pecu√°ria. Na √©poca dos invernos mais fortes, a pequena vila sofria as enchentes provocadas pelo Rio Apodi, como foi o caso das cheias de 1912, 1917 e a de 1924.

Por esta época Pedra de Abelha era um ponto de passagem de viajantes, tropas de burros, vendedores, vaqueiros e outros andarilhos que seguiam a estrada entre a pulsante e rica cidade de Mossoró e a progressista Apodi.

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

Havia uma pequena feira que crescia a cada ano, sempre em ordem e em paz, pronunciando uma tend√™ncia de progresso para o pequeno lugar. Outra lembran√ßa de boas perspectivas foi a passagem de alguns homens, de l√≠ngua enrolada, que se diziam engenheiros, faziam medi√ß√Ķes e coletavam pedras no lajedo do Ros√°rio, na regi√£o da Passagem Funda, um lugarejo a oito quil√īmetros de Pedra de Abelha. Logo se espalhou a not√≠cia que o lugar seria transformado em uma grande barragem, que haveria muitos empregos, que seria maior que a barragem de Pau dos Ferros e que a vida em Pedra de Abelha iria mudar para melhor. Mas a barragem n√£o veio e a vida seguiu tranquila.

Junto com os primeiros dias de maio de 1927 chegaram notícias de que a região oeste do estado do Rio Grande do Norte iria conhecer e sofrer.

No dia 10, pela madrugada, o cangaceiro paraibano Massilon Leite e mais vinte bandidos atacaram Apodi, depois seguiram para Gavi√£o (atual Umarizal) e na sequ√™ncia, pilharam a pequena vila de Ita√ļ. Os relatos comentavam que apenas um cangaceiro foi preso pr√≥ximo √† cidade serrana de Martins.

Para a ordeira popula√ß√£o de Pedra de Abelha, ficou o pensamento de que, se os cangaceiros haviam atacado Ita√ļ, uma vila praticamente do mesmo tamanho do seu lugar, por que n√£o atacariam o pequeno povoado √† beira do Rio Apodi?

Passou então a existir no seio da população uma forte intranquilidade.

Lampi√£o – Fonte – lounge.obviousmag.org

N√£o que os moradores de Pedra de Abelha n√£o soubessem o que era viol√™ncia. J√° haviam ocorrido casos de criminosos assaltando viajantes, pistoleiros contratados por coron√©is para impor suas ordens, a realiza√ß√£o de tocaias e o flagelo da vingan√ßa. Um dever sagrado entre os sertanejos. Um dever que filhos de qualquer pai assassinado herdaram. E seria vergonhoso, seria desonra inomin√°vel em uma fam√≠lia enlutada pelo homic√≠dio, se n√£o aparecesse um vingador um “cabra macho” para cumprir a sina.

Realmente violência não era novidade naquele recanto perdido do sertão, mas um grande grupo de cangaceiros era um problema novo por aqueles lados.

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

No Cangaço

Os nomes de cangaceiros antigos como Lucas da Feira e Jesu√≠no Brilhante, e de fac√≠noras mais novos (para 1927) como Ant√īnio Silvino, Sinh√ī Pereira e Lu√≠s Padre, eram muito comentados pelos habitantes mais idosos e pelos viajantes que procediam da Para√≠ba, Cear√° e Pernambuco. Mas nos √ļltimos tempos o nome mais comentado, temido e respeitado era o do famoso Lampi√£o.

O Pernambucano natural de Vila Bela, atual Serra Talhada, com pouco menos de 30 anos em 1927, j√° era uma lenda e o seu nome impunha respeito e terror em grande parte do Nordeste.

Nascido em 4 de junho de 1898, Virgulino Ferreira da Silva vinha de uma fam√≠lia humilde, mais propriet√°ria de uma pequena fazenda. Seu pai, Jos√© Ferreira, trabalhava como condutor de tropas de burros que transportavam mercadorias pelos sert√Ķes de Pernambuco e Alagoas. Nessas viagens, Virgulino e seus irm√£os passaram a conhecer aqueles caminhos e mantiveram contatos que seriam preciosos no futuro.

Lampi√£o

Em 1915, inicia-se um problema com o vizinho José Saturnino, envolvendo o desaparecimento de animais de criação. Estas desavenças dariam início à metamorfose de Virgulino em Lampião.

Devido a persegui√ß√Ķes, em um prazo de tr√™s anos, a fam√≠lia Ferreira v√™-se na conting√™ncia de realizar v√°rias mudan√ßas, sendo obrigados a vender as suas terras e a viver como empregados pelas press√Ķes sofridas. Devido aos fatos, a m√£e de Virgulino acabou falecendo, aparentemente de um ataque card√≠aco. J√° seu pai foi assassinado por uma tropa da pol√≠cia alagoana que perseguia os irm√£os Ferreira.

√Č imposs√≠vel n√£o observar que uma das raz√Ķes da entrada dos irm√£os Ferreira no canga√ßo, foi √† falta de justi√ßa pelas cont√≠nuas persegui√ß√Ķes sofridas, criando uma rea√ß√£o armada que abalou o Nordeste do Brasil ao longo de vinte anos.

Lampi√£o

No in√≠cio, a atua√ß√£o de Lampi√£o foi em outros bandos, finalmente assumiu o comando de seus “cabras” em 1922, nesse mesmo ano assaltaram o casar√£o da Baronesa de √Āgua Branca, em Alagoas, fazendo aumentar a sua terr√≠vel fama. Em 1924, seus cangaceiros, em conjunto com o paraibano Francisco Pereira Dantas, o conhecido Chico Pereira, atacam a progressista cidade de Sousa, no oeste da Para√≠ba. Em 25 de maio de 1925 Lampi√£o e seu bando

Lampi√£o era um guerrilheiro nato, produto de um meio quase selvagem e atrasado. Possu√≠a a capacidade de articular ataques, fugas mirabolantes, alian√ßas escusas e uma per√≠cia na manivela e no gatilho do rifle que parecia “alumiar” √† noite, da√≠ o seu famoso apelido.

Foto dos líderes do grupo insurgente conhecido como Coluna Prestes. Esse grupo foi liderado pelo coronel da Polícia do Estado de São Paulo Miguel Costa e pelo capitão do Exército brasileiro Luís Carlos Prestes, que lutou contra a estrutura de governo que existia no Brasil na segunda metade da década de 1920 РFonte Рhttp://rotadosolce.blogspot.com.br

Em 1926 uma coluna de homens que percorriam o país com a intenção de derrubar o governo do presidente Arthur Bernardes, comandados por Miguel Costa e Luís Carlos Prestes, se aproximou e entrou em território cearense, Para fazer frente a essa situação foi criada uma frente de defesa contra os chamados Revoltosos na cidade de Juazeiro do Norte, onde o principal líder político e religioso do lugar, o Padre Cícero, mandou convocar o chefe cangaceiro que aterrorizava o sertão nordestino para combater aquele grupo, que entraria para a História do Brasil conhecido como Coluna Prestes.

No dia 5 de mar√ßo, Lampi√£o, √† frente de 50 cangaceiros, entra em Juazeiro. Ele se encontra com o Padre C√≠cero, recebe uniformes, armamentos modernos e a sua propalada patente de capit√£o dos Batalh√Ķes Patri√≥ticos. Ao sair de Juazeiro e seguir para Pernambuco, Lampi√£o √© perseguido pela pol√≠cia local. Desapontado, aparentemente decide voltar para Juazeiro para falar com o Padre C√≠cero, mas este n√£o o recebe e Lampi√£o encerra a sua breve carreira de defensor p√ļblico.

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

Passagem dos Cangaceiros

Voltando à pacata Pedra de Abelha na metade de 1927.

Os habitantes do singelo lugar ficaram bem apavorados quando chega a not√≠cia que em 10 de junho, incentivado por Massilon Leite, Lampi√£o cruzou a fronteira da Para√≠ba e entrou no estado Potiguar com cerca de 60 cangaceiros (n√ļmero que gera muita pol√™mica at√© hoje) montados em cavalos e burros, todos seguindo em dire√ß√£o a Mossor√≥.

Avançando para o norte, promoveram um verdadeiro bacanal de destruição, rapinagem e terror. Roubaram, tocaram fogo em diversas fazendas, assassinaram os que reagiam, entraram em confronto com a polícia e fizeram alguns prisioneiros, do qual só libertaram mediante resgate. Lampião e seus cangaceiros realizam os primeiros sequestros conhecidos no Rio Grande do Norte. A passagem de Lampião e seu bando durou apenas cinco dias, mas a região oeste potiguar nunca esqueceu este episódio.

Na zona rural do município de Umarizal visitamos uma das mais belas e bem preservadas propriedades rurais existentes no trajeto da passagem do bando de Lampião no Rio Grande do Norte, a Fazenda Campos, que foi invadida na manhã de 12 de junho de 1927 РFoto РRostand Medeiros.

O bando passou ao lado da povoa√ß√£o de Gavi√£o (atual Umarizal) e continuou depredando as propriedades como Campos, Ar√ß√£o, Xique-Xique e Apanha Peixe e nesta √ļltima propriedade, para a sorte da popula√ß√£o de Pedra de Abelha, o bando foi dividido.

√Äs sete da noite de 12 de junho de 1927 seguiu o cangaceiro Massilon Leite para assaltar pela segunda vez a cidade de Apodi, enquanto Lampi√£o seguia para Mossor√≥. Em Apodi houve resist√™ncia da popula√ß√£o, obrigando Massilon a fugir. Devido a esta divis√£o, Lampi√£o seguiu adiante por outra estrada, passando paralelo ao povoado de Pedra de Abelha. Realmente foi por pouco que a pequena comunidade n√£o foi invadida. 

Mas se n√£o foi invadida, esse caminho fez o bando cruzar com o comerciante e fazendeiro Ant√īnio Gurgel do Amaral, propriet√°rio de uma moderna fazenda em Pedra de Abelha, √†s margens do Rio Apodi, no atual Distrito do Brejo. Nesta propriedade foram empregadas muitas pessoas.

Ant√īnio Gurgel do Amaral – Fonte – http://www.blogdogemaia.com/detalhes.php?not=1032

At√© recentemente o local possu√≠a uma estrutura muito moderna para a √©poca, inclusive com eletricidade e mecaniza√ß√£o. Ant√īnio Gurgel havia acabado de chegar de uma viagem da Europa, onde buscava trazer matrizes de novas ra√ßas bovinas para desenvolverem-se na sua regi√£o.

Assim que soube do avanço dos cangaceiros, seguiu de Mossoró para a sua fazenda e proteger seus familiares e seus bens. No meio do caminho, na localidade chamada Santana, foi preso por membros do bando. Era o dia 12 de junho e somente no dia 25, Gurgel seria libertado no Ceará, juntamente com outra refém. Por ser Gurgel um homem inteligente, de boa conversa, índole calma e que sempre procurou a tranquilidade junto aos bandidos, ele nada sofreu.

Durante sua convivência forçada, escreveu um diário que é tido como o mais completo documento sobre a vida e o dia a dia entre estes cangaceiros. Lampião lhe deu duas moedas de ouro para serem presenteadas a sua neta e, como pagamento de uma promessa feita pela sua liberdade, sua mulher construiu uma capela na Fazenda Santana, que infelizmente foi demolida, bem como a sede de sua fazenda em Felipe Guerra.

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

A Caverna da Carrapateira 

Antes at√© da pris√£o do coronel Gurgel, com a chegada das not√≠cias cada vez mais assustadoras, a popula√ß√£o de Pedra de Abelha tratou de procurar ref√ļgio onde houvesse condi√ß√Ķes. Muitos seguiram para a fronteira do Cear√°, outros foram para propriedades de parentes mais distantes e outros que conheciam melhor a regi√£o, buscaram o abrigo das cavernas.

√Č bem verdade que a popula√ß√£o do sert√£o possui um medo respeitoso em rela√ß√£o √†s cavernas, mais naquele momento, este medo foi deixado de lado e a escurid√£o da caverna passou a ser um abrigo mais acolhedor do que a incerteza da luz do dia e a presen√ßa de cangaceiros na regi√£o.

A caverna da Carrapateira fica localizada no Lajedo do Rosário, próximo ao atual distrito de Passagem Funda e a pouco mais de mil metros da margem esquerda do Rio Apodi. Entre as várias cavernas deste lajedo, essa é a que apresenta a maior facilidade de penetração.

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

Sua entrada tem formato oval, com quatro metros de altura e possui desenvolvimento horizontal, no seu início encontram-se alguns blocos caídos e deslocados, também presentes localmente no interior da caverna.

Chama a aten√ß√£o a forma como a natureza moldou o t√ļnel principal, sendo muito largo e alto para os padr√Ķes das cavernas nas proximidades. Sua sinuosidade apresenta contornos de fluxo d’√°gua, marcados nas paredes bastante lisas, lavradas, de rocha calc√°ria limpa e de cor amarelada, com n√≠veis de sedimenta√ß√£o √† mostra. Os espeleotemas, as famosas forma√ß√Ķes rochosas que ocorrem tipicamente no interior de cavernas como resultado da sedimenta√ß√£o e cristaliza√ß√£o de minerais dissolvidos na √°gua, criando muitas vezes materiais de rara beleza, s√£o encontrados nessa cavidade. S√£o escorrimentos de calcita, cortinas, algumas estalactites e estalagmites. Na parte posterior do corredor principal, aparecem outros tipos de espeleotema muito comum nas cavidades da regi√£o: o couve-flor.

Conforme adentramos a caverna da Carrapateira, o ch√£o vai apresentando uma menor continuidade, mostrando reentr√Ęncias, blocos rolados, at√© desembocar em uma bifurca√ß√£o, de onde a caverna segue para sal√Ķes mais apertados, seguindo por condutos menores. Neste setor, tem-se uma clarab√≥ia de poucos metros de altura, aproximadamente tr√™s metros. Por ela pode-se sair do interior com facilidade.

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

Pelas dimens√Ķes do seu interior, pela proximidade com o rio e como na regi√£o encontram-se diversas provas da passagem de grupos de ca√ßadores e de coletores, entre 5.000 e 2.000 anos atr√°s, essa caverna √© a que melhor poderia sugerir a possibilidade de algum ind√≠cio arqueol√≥gico. Contudo, n√£o foram vistos pinturas ou evid√™ncias nesse sentido. Sua litologia √© o calc√°rio e at√© anos recentes n√£o apresenta nenhuma depreda√ß√£o.

Durante nossas visitas à caverna da Carrapateira não foram encontrados vestígios da ocupação dos habitantes de Pedra de Abelha na caverna.

Quando das nossas visitas √† regi√£o, ouvimos repetidas vezes relatos de pessoas cujos av√≥s e outros familiares buscaram abrigo nesse local. Entretanto o tempo, o Senhor de tudo e de todos, chegou √† nossa frente, pois aqueles que buscaram esse local como abrigo j√° n√£o estavam mais nesse plano. Mas percebi que o n√ļmero de pessoas que buscaram esse abrigo foi pequeno. Al√©m disso, foi poss√≠vel observar que, diferentemente de outras pessoas que guardam na mem√≥ria relatos daqueles que tiveram experi√™ncias com cangaceiros na regi√£o, os poucos parentes daqueles que buscaram abrigo na caverna da Carrapateira, pouco tem a comentar. 

Foto РSolón Rodrigues Almeida Netto.

Como, para a sorte dos refugiados escondidos na caverna da Carrapateira, não houve nenhum tipo de contato com os cangaceiros e quase certamente os que buscaram esse abrigo em 1927 foram poucos, ao longo do tempo esse tema caiu no esquecimento. Pois no final das contas, sobreviver naquela região é parte da rotina diária.

Fim Do Ato

Lampi√£o seguiu seu caminho.

Na Segunda-feira, 13 de junho de 1927, dia de São Francisco, às 16:30 da tarde, com o céu nublado, os cangaceiros, divididos em três colunas, atacaram a maior cidade do interior do Rio Grande do Norte. O seu Prefeito, Rodolfo Fernandes, sem ajuda do governo do estado, conseguiu reunir desde advogados, dentistas, comerciantes, padres e pessoas comuns, entrincheirando-os em vários locais.

Os cangaceiros foram derrotados depois de uma hora de combate, n√£o mataram ningu√©m e perderam um cangaceiro na hora e outro, o tem√≠vel Jararaca, foi ferido e capturado no outro dia. Acabou assassinado pela pol√≠cia local no dia 20 de junho e o mais incr√≠vel √© que seu t√ļmulo se tornou um local de peregrina√ß√£o religiosa popular.

Lampi√£o sofreu a sua mais terr√≠vel derrota, comentou que “Cidade com mais de quatro torres de igreja n√£o √© para cangaceiro”. Sem conhecer o seu tamanho e a sua capacidade de defesa, acabou enganado pela promessa de Massilon de pouca resist√™ncia e muito dinheiro.

O seu ataque a Mossoró causou repercussão em todo país, sendo noticiado em muitos jornais. Foi um verdadeiro choque, que impulsionou ainda mais a sua fama. Foi a partir deste episódio que o seu nome ficou muito conhecido no sul do país.

Após fugir do Rio Grande do Norte, para onde nunca mais voltou, o bando seguiu para o Ceará, onde pensavam que estariam protegidos e foram implacavelmente perseguidos. O mesmo ocorreu na Paraíba e em Pernambuco. Em 1928 cruzou o Rio São Francisco e conseguiu uma sobrevida de mais dez anos, praticando atrocidades na Bahia, Alagoas e Sergipe, onde foi morto, com a sua companheira Maria Bonita, na Grota do Angico.

Para a popula√ß√£o de Pedra de Abelha, sempre que as not√≠cias sobre Lampi√£o surgiam, voltava as lembran√ßas dos medos e afli√ß√Ķes de junho de 1927. Com a sua morte (1938) e o desbaratamento do canga√ßo (1940), passa a existir um al√≠vio. Com o passar dos anos, ocorre o natural desaparecimento das v√≠timas sobreviventes dos atos cru√©is dos cangaceiros e muitos dos descendentes destas v√≠timas deixam a regi√£o, emigrando para grandes centros. Falar sobre os fatos da √©poca do canga√ßo deixou de ser um tabu.

A partir dos anos 1960, o mito deste cangaceiro o torna um dos personagens históricos mais famosos da cultura popular brasileira, onde em muitos lugares do país a figura de Lampião é encarada como símbolo de nacionalidade e o Cangaço como um expoente da luta da cultura e do povo nordestino.

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Bibliografia:

FERNANDES, Raul, A MARCHA DE LAMPI√ÉO, ASSALTO A MOSSOR√ď. 3 ed. Natal, Editora Universit√°ria, 1985.

NONATO, Raimundo, LAMPI√ÉO EM MOSSOR√ď. 5 ed. Mossor√≥, Cole√ß√£o Mossoroense, Funda√ß√£o Vingt-Un-Rosado, 1998.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira, HIST√ďRIA DO CANGA√áO, 4 ed. S√£o Paulo, Global Editora, 1991.

CHANDLER, Billy Jaynes, LAMPIÃO, O REI DOS CANGACEIROS, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1980.

FAC√ď Rui, CANGACEIROS E FAN√ĀTICOS, G√äNESE E LUTAS, 7 Ed. Rio de Janeiro, Editora Civiliza√ß√£o Brasileira, 1983.

PERNAMBUCANO DE MELLO, Frederico, QUEM FOI LAMPIÃO, Recife, Editora Stahli, 1993.

DELLA CAVA, Ralph, MILAGRE EM JUAZEIRO, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1976.

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