terça-feira, 21 de julho de 2026

CÂNDIO CAMBÃO

                         

O cantador - é bom deixar bem claro - não é cantor, aquele que apenas canta, chamado de intérprete. Há conotações e peculiaridades próprias que identificam o CANTADOR, que, além de cantar, faz de improviso os versos com que trabalha. Canta, compõe, cria e produz. Quando aparece nas recomendações gramaticais, cantador é adjetivo: O pássaro cantador, o carro-de-bois cantador, etc. No caso de poeta repentista, violeiro, se diz CANTADOR e se usa como substantivo - o cantador. É o poeta da viola, o repentista, uma arte que só se concilia com o cantador. E são cantadores todos os poetas violeiros, improvisadores, repentistas, produzidos por este Nordeste que, através deles, viu nascer e morrer cantando as dores e as alegrias suas e de seu povo.

Encontramos em Guerra Junqueiro, um dos mais nobres poetas portugueses, contemporâneo de Camões, no prefácio que fez a um trabalho de um de seus confrades, intitulado O Cantador de Setúbal - uma referência que glorifica esse profissional. Ele diz: "Que título augusto, que nome ideal para um vivente - O Cantador! Que nome ideal para um destino! Cantar o riso, o beijo, o olhar, a dor e a lágrima. Como eu te invejo, cantador!"

Em Orlando Tejo, autor de Zé Limeira - O Poeta do Absurdo, vemos o que constitui a glorificação do poeta improvisador: "Os cantadores constituem imensa legião de homens que cantam, sonham, sofrem e brincam de viver no mundo, pescando estrelas, caçando ilusões, plantando tardes, colhendo manhãs, levando a sua mensagem sutil e profunda, tímida e vigorosa, ao povo ávido de poesia que os ouve embevecido".

Perpetuaram-se, na literatura do Nordeste, como cantadores, nomes que honram a nossa cultura, cantando e escrevendo, como: Fabião das Queimadas, Romano da Mãe Dágua, os irmãos Dimas, Otacílio e Lourival Batista, Zé Pretinho do Piauí, Cego Aderaldo, Oliveira de Panelas, Manoel Calixto, Eliseu Ventania, Chico Traíra, os irmãos João, José e Sebastião Zacarias, Alípio Tavares, José Alves Sobrinho, Inácio da Catingueira, Severino Ferreira, Zé Limeira, Cândio Cambão, e tantos que o tempo levou, mas deixaram sucessores que honram a sua memória. E estão ainda por aí: Ivanildo Vilanova, Antônio Francisco, Crispiniano Neto, Antônio Sobrinho, Joaci Zacarias, Alípio Tavares Filho, Paulo Varela, os mais próximos de nós, e uma legião de outros que transmitem literatura tradicional, consagram a nossa cultura e dão ao Nordeste brasileiro a sua roupagem para acesso aos centros culturais, às academias hoje existentes no Brasil e alhures. Está aí Antônio Francisco, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com muita honra para o Rio Grande do Norte e para o Nordeste brasileiro.

E o ritmo, o estilo não é um só. Há os tipos de conjunto de versos, nomeados de acordo com a técnica, o ritmo, o diapasão, o tema, o número de versos, o número de sílabas, que têm padrões, características e melodias próprias, porém tudo sem fugir ao referencial que é CANTORIA e seus artistas são CANTADORES. Cantador ou cantoria se refere exclusivamente ao produtor e ao produto da improvisação em versos rimados, cantados sob diversas formas: desafios, chamados pelejas, como a do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Piauí, Riachão com o Diabo, na cidade de Açu, epopéias históricas, trágicas ou cômicas, como Os Doze Pares de França; romances e amores locais ou de outros horizontes, como a história do Pavão Misterioso; e uma antologia de louvações ou de críticas ao cotidiano. São apresentados, geralmente, em duplas de cantadores ou em unidades isoladas, que se esmeram no ritmo, na rima, na métrica e no palavreado, um linguajar próprio, tudo dentro dos padrões da cultura local.

O tipo de versos, de acordo com a formação e a melodia é que identificam o sistema que pode ser baião, martelo, galope, quadrão, sextilha, sete-linhas, mourão, mourão-em-sete, você cai, mourão voltado, quadrão em oito, quadrão em dez, quadrão à beira mar, martelo alagoano, gabinete, toada alagoana, oitava rebatida, nove palavras por seis, gemedeira, galope à beira-mar, martelo agalopado e glosa. São as principais formas como se apresenta a cantoria no Nordeste, onde nasceu, e se espalhou hoje pelo Brasil inteiro.

Manoel Bandeira, o grande autor de VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA, certa vez, em Pernambuco, depois de ouvir um festival em que se apresentavam, dentre outros não menos famosos, Dimas e Otacílio Batista, confessou, contrito, a sua incompetência, diante daqueles gênios, e publicou, em 1937:

"Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão.
Quer a rima fosse em inha,
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão.
Tudo muito bem medido
No galope do sertão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não".

CÂNDIO CAMBÃO - Irreverente, porém poeta

Quem conhece a literatura hoje chamada de cordel sabe que os versos não se limitam a quadras, a sextilhas, ou a alguns outros padrões isolados da poesia universal. O Cantador, como é chamado o poeta repentista, pode fazer seus versos de acordo com as circunstâncias e exigências do momento. O seu universo se restringe ao Nordeste brasileiro. Antigamente, quando se falava em versos ou estilo alexandrino, não havia dúvida. Tratava-se do soneto - aquele poema inconfundível, de 14 versos, alinhados em dois quartetos e dois tercetos. Ainda hoje, quando se fala em trova, todos sabemos que são estrofes de quatro versos, de sete sílabas cada verso e todos os quatro com rimas do primeiro com o terceiro e do segundo com o quarto.

CÂNDIO CAMBÃO, nunca se soube se teve, de batismo ou de registro, outro nome ou sobrenome. Também nunca foi obrigado a exibir documento de identidade. Sua identidade era a viola que representava o grande poeta repentista da Várzea do Açu. Era um tipo especial. Apresentava-se nas funções com uma viola maltratada, porém super afinada. Vestia um paletó, que não tinha mais cor original, mas que, pelas dobras de baixo da gola dava a impressão de haver sido branco. Estava sempre de pés descalços.

Abraçava carinhosamente a sua viola, com veemente apreço, por quem demonstrava raríssima e incondicional afeição. Impunha-se pela personalidade, pela altivez de seus versos, mesmo irreverentes; pela liberalidade de sua poesia; pela intimidade com a população; pela auto-suficiência dos temas e dos motes que glosava num improviso sem titubeios; enfim era um beradeiro autêntico, um poeta sem fronteiras e sem preocupações com os estilos ou com a censura.

Nas memoráveis cantorias que estrelou, sozinho ou acompanhado, tinha por hábito abrir os trabalhos com estes versos:

Eu aqui me chamo Cândio
Por apelido Cambão,
Moradô no Logradô,
Manicípo do Alemão
Se não tem com que me pague
Eu recebo inté feijão.

Sabe-se que tinha dois filhos. Um, chamado Pascoal que às vezes aparecia cantando com ele e um outro, chamado Juvenal, que vivia de fazer recados, e de entregar encomendas a troco de um pão doce que recebia como recompensa. Quando era solicitado para uma empreitada dessas, perguntava ao empreiteiro como queria que fosse: de avião, de motocicleta, de caminhão ou de cavalo. Conforme a preferência do mandante, ele saía de Porto do Mangue para a Redonda, uma distância aproximada de 20 quilômetros, exibindo a posição do transporte em que imaginava estar viajando. Se fosse de avião, ele iria de "asas abertas" desde a origem até o destino. Às vezes, o dono da encomenda perguntava a viajantes que o encontravam no percurso e recebia informações de que o haviam encontrado na mesma posição usada ao iniciar a jornada.

Andarilho, nômade, sem origem e sem destino, pernoitando onde lhe permitissem arranchar-se, Cândio Cambão, tendo por companhia apenas a sua viola, aceitava desafios e convites para cantorias, sem preferência de temas que podiam ser história, geografia, política, religião, as asperezas e as ternuras do varzeano, enrolava tudo no seu linguajar. Às vezes, até debates conhecidos por PELEJAS, em que se discutiam em versos rimados e metrificados, discorrendo sobre a conduta, os atributos e o currículo pessoal, em que os desaforos de parte a parte tinha a preferência da platéia.

Não costumava ser chamado duas vezes para cantar na mesma residência, vez que os padrões de sua linguagem não se conciliavam com as exigências e com os conceitos de moral das famílias da várzea do Açu. A ele pouco interessava se fosse acolhido até o final da função ou se fosse expulso pelos donos da casa. Alguns varzeanos, porém, como Manoel Antônio da Fonseca, faziam questão de reunir familiares e vizinhos que convidava para um festival de poesia, estrelado por Cândio Cambão. Dava imensas risadas e incentivava os assistentes a aplaudir o vate, o gênio, o poeta e seus versos esplendorosos. Quem não concordasse que saísse.

Certa vez, no Guaxinim, uma praia perto de Logradouro e de Porto do Mangue, era época de eleição e os candidatos contrataram o tabelião de Pendências, Absalão Pinheiro Maia, para fazer, de uma só vez, 25 casamentos naquele lugarejo. Reuniram-se, no Grupo Escolar, os noivos, os convidados, as testemunhas, os parentes e os curiosos, sob a liderança de Joaquim Maria, um funcionário graduado da salina Matarazzo, que mantinha considerável liderança no povoado. Presentes também os candidatos, Dr. Limeira, a vereador, no município de Macau, e Dr. Gerôncio Queiroz, a deputado estadual. Não se falava ainda em compra de votos, corrupção eleitoral, nem coisa parecida. O pecado desses eventos com finalidade de angariar sufrágios, se chamava "voto de cabresto" que não era tão grave como querem mostrar os "puristas" de hoje. Não se anulava eleição nem se cassava mandato. O negócio corria mais frouxo.

E os cinqüenta noivos reunidos, seus parentes e os habitantes da comunidade se comprometiam a votar, e votavam mesmo, com os candidatos que patrocinavam eventos dessa natureza.

Dentre os 25 pares de noivos ali reunidos, estava Manteiga, um cidadão que na sua mocidade havia sofrido um castigo de "castração no cepo", por questões de enxerimento com a filha dum fazendeiro, na Várzea do Açu. Como não se perdoavam pecados dessa natureza, a pena imposta ao inditoso Manteiga foi a mutilação de seus testículos no macete, uma cirurgia em que se punham os ovos do condenado sobre um toro de madeira e, com outro, se batia até inutilizar os órgãos reprodutores do infeliz. Assim mesmo. Sem qualquer anestesia, Não há necessidades de se nomear os verdugos de Manteiga, pois em qualquer esquina do universo varzeano se conhece a história e se sabe quais foram os seus autores. É só assobiar.

No ato de celebração das bodas, tomando conhecimento de que dentre os nubentes se encontrava Manteiga, o antológico Absalão chamou-o pelo nome, mandou levantar-se e perguntou à noiva :

- Mulher, tu vais casar com Manteiga, mesmo sabendo que ele foi capado?

Não houve necessidade da resposta da noiva que, se foi dada, não foi ouvida, em virtude da estrondosa gargalhada da platéia. Mesmo assim, não deixou Manteiga de se casar. Só que, acabada a solenidade, por obra e graça de Joaquim Maria, apareceu no recinto, com sua inseparável viola, o poeta da região que não fazia falta em ajuntamentos comunitários. Para abrilhantar a consumação das bodas, foram os presentes convidados a tomar umas talagadas na bodega de Zé de Joaninha, ali na praia, para o que não poderia faltar Cândio Cambão, o mais afamado repentista, o cantador mais liberal, de improvisos mais coerentes com a linguagem dos beradeiros, com os costumes e com os padrões de vida de toda a ribeira do Açu, até as margens do Oceano Atlântico, ou para além se tivessem como divulgar. Que não precisava de concorrente, de companheiro ou de colega para fazer brilhar os seus versos, os seus temas, as suas rimas, os seus galopes, tudo ao sabor da população que o assimilava, embora fosse censurado nas casas de família, onde os costumes, os hábitos, a moral não se conciliavam com a liberalidade irreverente do artista que não se apresentava uma segunda vez, dada a prosaica e peculiar qualidade de seu linguajar e de suas rimas.

Se Zé Limeira, descoberto por Orlando Tejo, lá na Paraíba, foi considerado o Poeta do Absurdo, por tiradas dessa natureza, não era favor nenhum nomear Cândio Cambão O ABSURDO DOS POETAS.

Naquele dia memorável, o tema era o casamento de Manteiga. Acomodaram Cândio Cambão num canto do alpendre, abriram-se as garrafas e tome versos. E tome cachaça. Sem companheiro que não lhe fazia falta, Seu Cândio, trajado tipicamente: chapéu de palha de abas não muito pequenas, calça de mescla azul bem surrada, camisa de peito aberto e paletó igualmente meio envelhecido pelo uso e pela falta de sabão e de quaradô, sem calçados nos pés, desde que não era comum esse uso nas areias da praia, começou e seu vozeirão passou a ser ouvido além da costa, das ondas e dos manguezais, mais ou menos assim:

Eu aqui me chamo Cândio,
Por Apelido Cambão,
Nascido no Logradô,
Manicípio de Alemão
Manteiga casou capado,
Só milagre de eleição.
Já vi milagre de santo,
De Padre Ciço Romão
Mas casá home capado
Na véspa de eleição,
Ou é astuça do demo
Ou coisa de Absalão.
Já vi a Mãe-de-Pantanha
Revirá o meu sertão,
Preto Ruívo de noite
Mascarar um barbatão.
Mas casá home capado,
Só milagre de São João.
Já vi coisa nesse mundo
De cortar meu coração,
Vi couro de lobisome,
Rasto de alma no chão.
Só não tinha visto ainda
Home casá sem cunhão.
Valei-me meu São Francisco
Ou Padre Ciço Romão.
Se me fartá um dos dois
Me serve Frei Damião.
Como vai tirá cabaço
Home qui não tem cunhão?
Ao noivo amigo Manteiga
Eu dou um conselho assim.
Em dia de casamento
Não se pensa em coisa ruim.
Se não tem mastro pra vela
Dê um cheiro no xinim.

Saudando os noivos, na hora da saída, Seu Cândio, em voz alta, disse:

Viva a noiva, viva o noivo
E o seu acumpanhamento,
Viva a boceta da noiva
De noite com o pau dento.

E prosseguia nesse diapasão. Não há necessidade de dizer que a platéia se embriagava mais com os versos do poeta do que com a bebida patrocinada pelos candidatos. Essas bodas foram mais comentadas, na Várzea de Açu e na ribeira de Macau, do que aquelas outras de Caná de que o vate também não se descuida e aborda através de referências ao Novo Testamento.

Embora a sua fidelidade aos padrões de linguagem usados na região, hajam sido mais para os ranchos das salinas, os cortes de palha, os terreiros nas noites de festa de Santa Luzia, do que nos alpendres familiares, Cândio Cambão não deixava de ser convidado para algumas casas de família, cujos chefes aceitavam os padrões de linguagem exibidos, vez que eram os mesmos do cotidiano e da vida dos varzeanos. O resto era falsa moral. Seu Manoel Antônio da Fonseca, já nosso conhecido, mantinha, afastado da casa onde morava com os familiares, um alpendre de um armazém desocupado, que reservava para as apresentações de Cândio Cambão, transformadas em verdadeiros festivais de rimas e de poesia que embalavam as noites e quebrava a rotina da comunidade. Convidava os amigos e quem quisesse assistir, levando ou não os seus familiares. E quase morria de rir com os improvisos, com a maestria das rimas, com a métrica impecável dos versos e especialmente com o padrão de linguagem que não considerava falta de respeito, mas coerência, intimidade com um vocabulário que a hipocrisia batizava de imoral. E nem por isso, Seu Manoel Fonseca deixou de produzir uma das mais nobres e castas famílias que ainda honra a sua procedência.

Os "fracos de espírito", os preconceituosos têm medo do tipo de linguagem de Cândio Cambão, de Zé Limeira, de Moysés Sesyom ou Jorge Amado e chamam de imoral. Por isso são desaconselhados a ler, não apenas este, mas diversos e célebres tratados da literatura universal, como:

- Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, de Orlando Tejo;
- Eu conheci Sesyom, de Francisco Amorim;
- Os Capitães da Areia e quase toda a obra de Jorge Amado, ainda não superado, no Brasil, que triunfou na mídia universal com a clarividência de seus relatos, descrevendo, em linguagem nua e crua, as ações de seus personagens;

- Michaut e sua História da Comédia Romana;

- William Falkner, Prêmio Nobel de Literatura que publicou Réquiem para uma Prostituta, Santuário, Enquanto Agonizo e outros trabalhos que o celebrizaram, mesmo considerados, pela fraqueza dos preconceituosos, absurdos e até imorais para a sua época.

Existia, na época, em Porto do Mangue, um comerciante chamado João Abreu, de origem paraibana. Entendia de tudo um pouco, vez que era dado à leitura de tudo quanto fosse escrito que passasse por suas mãos. Há colaboradores deste trabalho que afirmam haver Seu Cândio aprendido alguns lances de história e de geografia, nas conversas mantidas com Seu João Abreu, quando, sem ter o que fazer, sentava-se à calçada da bodega e ficava ouvindo leituras e informações que Seu João divulgava com prazer. Gostava dos versos de Seu Cândio e o acolhia em sua bodega para cantar sem qualquer tipo de censura. E fiava seus produtos aos conhecidos, inclusive a Cândio Cambão que, certa vez, sem ter esperança de faturar qualquer trocado que lhe cortasse a corda do pescoço, apelou para João Abreu, oferecendo-lhe versos como aval de uma cuia de farinha que pagaria depois. Obtendo a concordância do comerciante, Cândio Cambão, que já conduzia afinada a sua viola, mandou a seguinte glosa.

Este é Seu João Abreu
Home de ação e de paz,
Apaga fogo com gás,
Sabe onde Jesus se perdeu..
É como o errante judeu
Parente e mulher sem ter
Dá o cu não tem pra quê,
Empresta grana a ladrão
Vende farinha a Cambão
Pra nunca mais receber.

Numa certa noite, Seu Cândio apareceu em Lagoa de Bestas, acompanhado de um filho, chamado Pascoal, já nosso conhecido, igualmente cantador, que foi apresentado à platéia e, embora fossem pai e filho, não estariam livres de se enfrentar em desafios de versos quentes, apimentados, em que predominassem os ataques pessoais, a linguagem habitualmente utilizada e o padrão de rimas livres, sem censura, e sem limites de conceito, de moral ou de outras "machavelices", como dizia Engrácia de Lula, lá no Alemão.

Depois de farto jantar, refogado com umas birinaites, acomodaram-se os poetas no alpendre de um prédio onde, durante o dia funcionava a escola local, e, sob o prestígio de numerosa e selecionada platéia, iniciarem o debate à boca da noite que se prolongou até o quebrar da barra, em que as gargalhadas e os aplausos ecoavam por entre as carnaubeiras e se perdiam por onde o sabão não lava.

Comentando os disparates do evento, alguns dos assistentes, no dia seguinte, repetiam, nas bodegas e nas estradas, versos assim:

Me chamo Cândio Cambão
Nágua doce e na maré,
Negro da barba de bode,
Pescoço de Jacaré,
Vou passar na tua casa
Vou comer tua mulé.

Respondendo, no mesmo diapasão, o filho cantou:

Deixe de cantar lorota
Que comigo ninguém pode,
Pescoço de jacaré,
Véio da barba de bode,
Vou cortar os teus cunhão,
Cuma é que você fode?

Cândio Cambão, de todos os naturais da Várzea do Açu, foi o que mais se identificou com os costumes, com as paisagens, com a linguagem dos beradeiros, vez que não conheceu outros horizontes. Nunca foi além das cidades de Açu e de Macau, os limites geográficos da várzea que percorria a pé, sem necessidade de outras referências a não ser a sua viola e a sua fama de cantador.

E, se gabando, glosava o seguinte mote:

Minha casa é meu chapéu,
Meu currico é a viola.
Fui falá cum a secretára
No tempo do impaludismo,
Sem entendê dos modismo,
Pra me impregá na malára.
A mulé de dura cara
Me pediu meio gabola:
- Documento, meu pachola?
Respondi no meu cordel:
- Minha casa é meu chapéu
Meu currico é a viola

E, quando era convidado a uma apresentação, sempre aceitava sem se fazer de rogado, consciente de seu talento e de seu poder de versejador, de glosador dos mais variados temas, enfim auto-suficiente como cantador e dono de uma linguagem, por alguns considerada imprópria, censurada, por outros, porém, digna de aplausos e de repetidos comentários nos diversos ajuntamentos comunitários e que hoje, apesar da censura da época, ilustram comentários e narrativas dos mais variados e ilustres autores.

Nos assistentes, havia sempre alguns que davam motes para ser glosados. E não faltava, dentre esses, uns mais inconvenientes que provocavam a irreverência do poeta, só pra ver a confusão. Seu Cândio tinha como lema não deixar pergunta sem resposta e mote sem glosar. Achava que o mote era um desafio a sua capacidade. Mais aguçado do que os outros, brincalhão e debochado, Parrudo, lá em Porto do Mangue, um dos assistentes, escolhia motes para provocar a censura, a confusão e o entusiasmo da maioria. Numa certa noite, deu ao cantador o seguinte mote:

O dono da casa é corno
E a dona foi feme minha.

Cândio Cambão que não deixava mote sem resposta, disparou:

Discurpe o dono da festa
Mas o mote eu vou rimá
Eu conheço o meu lugá
E sei inté quem não presta
Marco no couro da testa
Pra mostrá que a posse eu tinha
Ando uma légua todinha
Pra comê mulé no torno.
O dono da casa é corno
E a dona foi feme minha.

Outras vezes, era solicitado para louvar as moças da platéia e os versos pulavam como pipoca no tacho.

Morena dos ói azul
Dos beiço munto incarnado
Vou fazê o meu reinado.
Lá na cidade do Açu.
Vou comê o teu angu
Nem que precise casá
Mesmo assim eu vou botá
Teu retrato num espeio,
Vou fazê dos teus penteio
Uma corda de laçá.

Tinha, raras vezes, crises de decoro e fazia versos assim:

Na ponta daquele sítio
Tem quatro classe de gente
Qui só anda de magote:
Batata com Catapirra,
Cambão, Pandoca e Timote.
Duravam pouco essas crises.

Na praia de Pedra Grande, perto do Rosado, atual município de Porto do Mangue, cantava na casa de Antônio Carreiro, quando uma lagartixa caiu do teto no meio da sala e, apavorada com o burburinho que criou, correu subiu pelas pernas de uma moça que fez uma zoada medonha, pulando e gritando, sem se livrar da lagartixa que, quanto mais fechava mais prendia a bicha entre as pernas. Seu Cândio aproveitou o momento e o motivo e fez uns versos que terminavam assim:

A Lagatixa caiu
E levantou-se depressa,
Subiu nas pernas da moça.
Quanto mais ela pulava
Mais se escondia na brecha.

Os parentes e amigos da moça ficaram ressentidos e não aceitaram a referência. CândioO Cambão quis correr, mas era tarde. Acabou apanhando, dessa vez.

Cantando, doutra feita, na casa de um novato chamado Antero, recém chegado na Várzea e pouco conhecedor das pessoas, dos hábitos e da conduta de Cândio Cambão, aceitou a proposta de uma cantoria, para o que convidou os vizinhos e a comunidade. Lá para as tantas, já meio "chulado", Cândio Cambão começou a cantar loas aos presentes e se saiu com esta:

No dia qui eu amanheço
Cum três quente e dois queimando,
Cum o cabelo fumaçando,
Os amigo eu discunheço.
Pego do fim pro começo
Desprezo o qui Deus mi deu
Esqueço inté quem sou eu,

Mas vou lhe falá sincero:

Eu como o cu de Antero
E Antero num come o meu.

Foi suficiente para ser decretado o encerramento da cantoria e a expulsão do cantador.

Outra noite, não ficou bem esclarecido se na casa de Manoel Fonseca (hein, Tibúrcio? foi lá?), Cândio Cambão, desinibido, cantava assim:

Eu cantei no Juazeiro
Do Pade Ciço Romão
Me pagaro cum feijão,
Mas cantei um mês inteiro.
Me atraquei cum violeiro
Do cariri, do sertão,
Cantei martelo e quadrão
Cum um tá de Zé Limeiro
Deixei prenha num puteiro
A mulé de Lampião.
Inda sou bom nesse prato,
Me censure quem quisé,
Pra comê uma mulé
Corro, brigo, morro e mato
Topo quarqué desacato,
Enfrento inté bataião.
Eu faço qui nem Adão
Como Eva, a maçã, e a cobra.
Sou pau para toda obra
E tenho munta tesão.

Não se escusava de fazer seus versos sobre qualquer tema e se gabava de haver aprendido história, especialmente a sagrada. Vibrava quando lhe pediam para glosar motes do Novo Testamento, sobre o que discorria com relativa sabedoria adquirida em palestras com Seu João Abreu, um comerciante ali instalado, sem familiares, que lia muito e fazia questão de dividir com o poeta a cultura adquirida. E são a Cândio Cambão atribuídas, por colaboradores de fé, as seguintes produções:

Para ele, Jesus Cristo e os seus pares que citava eram seres humanos como ele, como os demais que conhecia. Usava sua irreverência sem problemas com heresia, com blasfêmia, com sacrilégio, que não constavam de seu vocabulário. E os personagens da história religiosa se apresentavam mais humanizados, sem a auréola de divindade, que ele exibia assim:

Jesus quando veio ao mundo
Foi na Barca de Noé,
Se casou cum Salomé,
Sobrinha de São Raimundo.
Correu o mundo e o fundo
Amuntado num jumento.
Fez um grande movimento,
Tocando uma concertina.
Se arranchou na Palestrina
Diz o Novo Testamento.
Não tendo mais qui fazê
Jesus foi pra Galiléia,
Armuçando na Judéia
Comeu siri cum dendê,
Depois passou a dizê
Suas missa em pé quebrado
Batizô improvisado
São João e Santo Expedito
Assim é que tá escrito
No testamento sagrado.
São José desconfiado
Da gravidez de Maria,
Mandô fazê na Bahia
Exame balanceado.
Não gostou do risultado
Que apareceu no momento
E já menos ciumento
Disse: deixa isso pra lá.
Assumiu sem recramá,
Diz o Novo Testamento
De barro Adão foi formado
E Eva duma costela,
Ele deitado mais ela
Fez o primeiro pecado.
E quando tava escanchado
Qui parecia um jumento,
Cum o pauzão todo dento,
Lembrou-se qui tava nu.
Deu-lhe uma câimbra no cu
Diz o Novo Testamento.
Se a história é verdadeira
E não me falha a memóra,
Adão não contou históra
Passou Eva na madeira
Numa grande bebedeira,
Sem esperá casamento
Tarado qui nem jumento,
Comeu maçã, cobra e tudo.
Quem duvidar fica mudo,
Diz o novo testamento.
Jesus curava ferida
De toda espécie da terra.
Desde a febre berra-berra
A espinhela caída
Ressuscitou e deu vida
A branco, preto e amarelo.
Curou até um sunguelo
Qui tinha mal de travage,
Só não curou a fogage
Qui deu no cu do guachelo.

Tinha também seus rasgos de patriotismo, de amor à terra. Não aceitava que ninguém destratasse as pessoas nem a localidade onde morava. O vigário de Açu, Mons. Júlio Alves Bezerra, se indignou, certa vez, com a negativa dos pescadores locais em contribuir com recursos para recuperação do telhado da capela. Os pescadores alegavam que todo o dinheiro arrecadado em Porto do Mangue, era levado para o Açu. O vigário, ameaçando, disse que o dinheiro dos pescadores, utilizado em bebedeira, jogo e prostituição, em vez de recuperar o telhado da capela, iria servir aos moradores para a compra de medicamento e luto para seus familiares, numa autêntica ameaça de tragédia e de praga rogada para cair sobre a localidade.. Realmente, em seguida a essa premonição, ocorreu a epidemia do impaludismo que matou a maioria dos habitantes do vilarejo..

Cândio Cambão, inconformado e sem outra forma de resistência, divulgou, numa cantoria, os seguintes versos:

Padre Júlio do Açu,
Se veste cumo urubu,
Pra benzer e excomungar
Anda com um ajudante,
De andar mei rebolante,
Seu fresco particular.

São poucos os varzeanos ainda existentes, admiradores da velocidade, da segurança e da espontaneidade das glosas de Cândio Cambão, aliadas a uma criatividade somente nos gênios identificada. Se fosse vivo ainda, poderíamos, com muita justiça, batizá-lo de Sabiá das Carnaubeiras

Não se enfadava. Estava sempre inspirado e, a troco de uma bicada de cana, em qualquer bodega, atendendo aos pedidos dos amigos mais curiosos e desafiadores de seu talento, rimava de improviso loas, críticas ou elogios. Tanto fazia louvar as qualidades quanto descrever os defeitos. Seguem algumas localizadas na memória dos admiradores, sem origem ou identificação:

Foi poucas vezes à cidade de Macau. Numa delas, lhe mostraram um rapaz alegre, desses que hoje chamam boiola, e Seu Cândio, sem gaguejar, emendou:

Os frescos de hoje em dia
Têm mania de Polu(*)
De coçar a própria tripa
Quando a coceira é no cu.

(*) Polu era um veado velho, seu conhecido.

E não lhe faltava inspiração. Estava pronto e fazia, de improviso, com ou sem censura, versos críticos ou elogiosos. Suas loas saíam bem rimadas, rigorosamente metrificadas, sem obediência a métodos, estilos, ética ou moral. As rimas lhe saltavam da mente, sobre qualquer assunto, sem obrigação de escolher outro linguajar que não fosse o seu habitual.

Vejo mocinhas bacana
Procurá lugá escuro
Com os noivo em toda festa
Agarrada no pau duro,
Diz arriando a calcinha:
- Bote essa porra todinha,
Encoste testa com testa.
Pressas mocinhas vadias
Que andam de corpo nu
Eu queria ter a pomba
Do tamanho de um muçu,
Pra empurrá na buceta
E sair atrás do cu.
Indo de Açu pra Macau
E de Macau para o Açu,
Eu tanto como buceta
Cumo também como cu.
Já diz um ditado nobre.
Toda roupa serve um nu.
Não, mas você de colete
E de gravata não cobre
A cabeça do cacete
Nem a regada do cu.
Eu gosto munto de vinho
Mas só me dão aguardente
Mesmo assim desce macia
Cumo pica em cu de gente.
Eu já fui e já vortei
E agora não vorto mais
Qui eu num sou coro de pica
Pra tá pra frente e pra trás.

Glosas

Já tive pica afiada
Mais dura do que macete,
Às vezes era um cacete
De quebrar castanha assada
Hoje não vale mais nada
Não há força que descole,
Se a boceta for um fole,
Eu empurro com o dedo.
Já fodi de fazer medo
Hoje tô de pica mole.
Já fudi uma tabaca
Cum mei palmo de pinguelo
Fiquei azul, amarelo,
Cum a catinga de suvaca.
Fazendo vez de macaca
Me encosntei num pé de muro.
Era uma noite de escuro.
Chegou uma mulé preta,
Fudi cu, fudi boceta
Inda saí de pau duro.

(*) Agradecendo a valiosíssima colaboração de Álvaro Fernandes Freire, Nelson Borges, José Lopes, Francisco Almeida, Tibúrcio Fonseca, o autor reconhece que não seria possível o resgate e o registro das facetas poéticas de Cândio Cambão, sem o incentivo e sem as informações aqui catalogadas.

CULTURA REGIONAL

CÂNDIO CAMBÃO

Resgate de Valores Culturais

GILBERTO FREIRE DE MELO

CULTURA REGIONAL

Postado por Falando de Saberes

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Um soneto do poeta potiguar João Lins Caldas no jornal Arealense, do Rio de Janeiro, 1923. Dê um zoom na imagem.



ANTÔNIO DAS ALMAS – O MULATO BENFEITOR


Ivan Pinheiro*

Dos inúmeros temores da minha meninice, a maioria arrogada pelos familiares para me manter em casa ou inibir minha ida a algum lugar guardo, com nitidez, lembranças arrepiantes de cidadãos que me metiam medo, muito medo. Lembro-me que certa vez cheguei a fazer xixi no calção, já que calça era coisa de adulto.
Chico Doido, Miguel da Lata, Perdido, Zé Vidal, Girome, Chico Veneno, Antônio das Almas... Eram tantos! Muitos desses faziam-me mudar de calçada ou retornar a toda carreira em qualquer circunstância. Geralmente, às escondidas, ficava acompanhando com o olhar a trajetória do “espantoso maluco” para retomar o caminho e concluir o meu destino.
Confesso que meu maior pânico era quando me deparava com Antônio das Almas (não encontrei ninguém que tivesse a certeza de onde ele veio... Surgiu. Dizem que tinha familiares em Pendências). Não tenho notícias de que ele tenha dado alguma carreira numa criança em todo o seu convívio em Assu. Os outros sim aconteciam com frequência, até por que eram provocados pela garotada, geralmente, influenciada pelos adultos.
Mas para “aperrear” Antônio das Almas era preciso coragem. Grandalhão, moreno, musculoso, maltrapilho (chapéu velho de palha na cabeça, camisa surrada e amassada, calça segurada na cintura por um pedaço de corda fazendo vez de cinto – que também servia para outras atividades -, pernas arregaçadas, pés descalços - dificilmente usava alpercatas). O cachimbo e um cassetete (um porrete de madeira) completavam sua indumentária. O mais aterrorizante: morava basicamente no cemitério. Ou seja, num quartinho ao lado, situado a atual Rua 29 de outubro. O local era conhecido como “Casa das Almas”. Lá eram guardados os caixões de defuntos para pobres e cadáveres desconhecidos. Tinha um branco para anjos, outro lilás para moças donzelas e o terceiro (o mais arrepiador - era preto retinto, com detalhes prateados) para os demais.
Cabe uma reserva. Quem já passou dos cinquenta sabe dessa realidade: Até final dos anos sessenta, meados dos anos setenta (com menor intensidade) a maioria dos pobres se enterrava em redes. As criancinhas (anjos) eram transportadas até o cemitério em caixas de sapatos, telhas de olaria ou caixotes de madeira improvisados pelos familiares. A pobreza, à época, era franciscana - como costumava dizer o saudoso João Marcolino de Vasconcelos – Dr. Lô.
O leitor poderá até perguntar: Por que somente três caixões? Porque todos retornavam àquela “Casa das Almas”. O(a) falecido(a) era colocado(a) na cova sem caixão. Depois mudaram o “depósito funerário” para a Igreja Matriz no patamar de onde se toca(va) o sino - primeiro andar do lado esquerdo.
E quem era responsável para levar e trazer de volta aqueles horrorosos caixões? Quem?... Antônio das Almas. Sabe o que era se deparar, num beco estreito, com aquele homenzarrão conduzindo um caixão preto nas costas, vindo em sua direção? Terror!
Uma determinada vez eu caminhava displicentemente pelo “Beco do Padre” (mais parecia um funil, começava razoavelmente largo e terminava estreito em frente à casa de Edgard) quando, de súbito, quase topei com o dito cujo... Fiz um giro de 180 graus tão rápido que o vento e a areia fizeram redemoinho. Acho que cheguei a cair, mas acredito que não toquei no solo. Levantei numa rapidez indescritível já muito próximo de Antônio das Almas que, rindo da situação (acredito), bateu fortemente seus pés no chão. Pernas pra que te quero... Esgoelando-se cheguei à minha casa em segundos, todo mijado.
Pois bem, continuando: Antônio das Almas era comunicado da morte e levava o ataúde, no ombro, até a residência do(a) falecido(a). Passava a noite ou o tempo necessário “bebendo o defunto” e, ao final, segurando uma das abas do caixão, acompanhava o cortejo fúnebre com destino ao cemitério São João Batista passando, quase sempre, pela Igreja Matriz para as exéquias.
Ao chegar ao Cemitério o caixão era assentado à beira da sepultura e, quando não apareciam familiares e/ou voluntários para ajudá-lo a retirar o corpo do ataúde, com naturalidade, ele descia para a cova, se agarrava com o cadáver e colocava-o no interior do sepulcro.
Na verdade Antônio das Almas que vivia ao “Deus dará” era um voluntário para servir aos pobres com ações humanitárias, gestos incomparáveis... Um cidadão de boa alma.
Nas horas vagas fazia favores braçais para as pessoas mais afortunadas, como cuidar das sepulturas, carregar água, lenha, dar fim aos animais mortos, entre outras atividades à custa de quase nada, financeiramente. Uma cuia de farinha, feijão, açúcar e às vezes um pedaço de salgado (carne ou peixe) servia como pagamento.
Já adulto, tomei conhecimento que o então vereador Durval de Sá Leitão propôs aos colegas da Câmara Municipal do Assu a concessão de um Título de Cidadão Assuense ao Antônio das Almas, entre muitos outros. A propositura (já esperada pelo Edil) foi rejeitada pelos nobres representantes do povo. Resultado: Durval nunca mais retornou a Câmara Municipal perdendo o mandato por abandono de função.
O tempo passou e devidamente abandonado, já alquebrado pelo tempo, doente e injustiçado, Antônio das Almas retornou ao seu solo berço para o convívio dos familiares e por fim poder repousar eternamente no campo santo de sua terra natal (?).
Aquele peregrino, na sua ingenuidade, tinha a consciência (quem sabe?) de que existiam muitos irmãos precisando da sua força divina transformada em caridade, amparo material e espiritual. Assim, sem receio ou vergonha, se apequenou perante o povo e, com determinação, derramou muito suor e lágrimas em favor da causa, criando a identidade expressiva da sua personificação. Atitudes raras, digo até, inimagináveis, nos dias atuais.
*Ivan Pinheiro Bezerra – Historiador e escritor contista.
Desenho ilustrativo: Ivan Pinheiro


sábado, 11 de julho de 2026

Um soneto de João Lins Calda no antigo Almanaque e estáticos de Porto Alegre.



 

As Musas de um Poeta - Por João Antônio Bezerra Neto

Walflan retratado por Newton Navarro
Walflan retratado por Newton Navarro
A presença da mulher na poesia de Walflan de Queiroz [1930-1995] é um dos temas predominantes na sua trajetória lírica. O poeta potiguar vivenciou paixões platônicas transfiguradas em versos que retomam a tradição romântica e simbolista de celebrar a Amada. Paixões e Amores irreconciliáveis. Amores tristes e sublimados.
Partilha suas paixões e suas inquietações existenciais com a leitura de poetas que admira, como John Keats, Shelley, Edgar Allan Poe, Hart Crane, Hölderlin, Rimbaud. O cânone ocidental exerce sobre o poeta Walflan uma inegável “angústia da influência”.
“Conheci Walflan de Queiroz antes e depois de sua aventura no mar, um mar amargo e sonoro que o impregnou de sal e de melodias distantes e nostálgicas”. Com estas palavras, o escritor Luís da Câmara Cascudo saudava o poeta e o seu livro de estreia, O Tempo da Solidão, publicado no ano de 1960, em Natal. Essa referência à aventura marítima não é ao acaso, uma vez que havia sido marinheiro mercante na juventude, tendo embarcado em cargueiros.
O Tempo da Solidão traz vivências do poeta e a partir delas ficamos sabendo da sua conturbada vida amorosa. Surgem as primeiras musas: Irene e Tereza. Na “Elegia para Irene”, proclama: “Deus fez primeiro a ti, depois o mar azul”. Noutro poema, a “Elegia para Tereza”, busca o enfoque espiritualista: “Tereza. Para mim, o eterno manuscrito da caça espiritual”. No poema “Angústia”, afirma convicto: “O que é romântico não pode desaparecer da vida nem da morte”.     
A mais conhecida de suas paixões resultaria em um livro rico de símbolos e de metáforas que retratam no plano emocional o sentimento amoroso. Estamos falando de O Livro de Tânia, lançado em 1963. Tânia, no texto poético, como a musa inspiradora, assume a função de um vocativo deflagrado em versos de acentuada melancolia a começar pela força misteriosa da dedicatória que se acha nas primeiras páginas: “Eis o teu livro, Tânia. O mar já não existe. E as rosas que te dei naquela noite de dezembro estão, tristes. Esperam pela tua ternura. Tocadas, como são, pelo orvalho e os ventos das manhãs”.
Tânia é a principal musa da sua poesia lírico amorosa. A sua Beatriz, a sua Ofélia, a sua Marília, a sua Annabel Lee, enfim, a Eurídice de seus versos. Tudo que possa representar o drama do Amor evocado pela literatura e pelos mitos Walflan de Queiroz absorveu através de uma dicção poética muito pessoal. Um exemplo, o poema a seguir:

A TÂNIA, NUMA TARDE DE CREPÚSCULO MÍSTICO

Esta tarde meus olhos estão cansados de te esperar
E de te desejar na tranquila paisagem do porto,
Onde os barcos balançam mansamente sob o crepúsculo.
Esta tarde eu te ouço no murmúrio das águas, no vôo
Da gaivota, quando desfalece em mim a visão da retirada ilha.
Esta tarde meu coração adormece docemente em tuas mãos
E penso no silêncio das estrelas e dos teus olhos.

            A descrição revela elementos típicos do simbolismo. A sugestão do crepúsculo tingindo o céu, o cenário do porto, dos barcos, o murmúrio das ondas, a imagem da gaivota, tudo isso são metáforas que fazem o poeta sentir a presença da Amada.   
Em 1965, publica O Testamento de Jó, dando continuidade ao lirismo sofredor, mas também aos temas religiosos. O seu livro é um divisor de águas dentro do conjunto de sua obra poética. Dedicado a Yahvé, marca o início da sua lírica voltada definitivamente para o Sagrado, para o Mistério, para o Absoluto. E, assim, no poema “Solidão de Jó”, revela a natureza mística de sua alma: “Fui criado como Jó, antiquíssimo antepassado bíblico, / E vivo entre a minha solidão e a sabedoria de Deus”. 
A partir de então, o discurso amoroso dividirá espaço com o discurso religioso, estendendo-se essa tendência para o restante de seus livros. Nesse sentido, a nova figura feminina surge ao lado dos já conhecidos nomes de Irene, Tereza e Tânia. Temos um punhado de poemas dedicados a Herna. Para a sua musa, o poeta dado a paixões arrebatadoras, declara: “Eu te amo / Como a única lágrima, / Como a morte em prontidão”.
Consciente de sua paixão não correspondida, amargurado por saber que não terá respostas consoladoras, busca então algum amparo divino, como percebemos na última estrofe do poema “Tristezas para Herna”:

Eu não me lembrei
De ti, Herna
Senão
Quando chorei,
Quando roguei,
Quando pedi
A Deus
Que entendesses
Minha tristeza.

Noutro poema, intitulado apenas “Para H.”, desabafa: “Tu nunca entenderás o mistério do pássaro. / Porque o pássaro é sol, nostalgia do Infinito”.
Os poemas sentimentais, por exemplo, estão presentes em seu livro, A Colina de Deus, publicado em 1967. O poeta expressa os seus lamentos, as suas queixas, recordando constantemente as suas paixões. Ele não consegue se libertar delas, como neste poema, cuja estrofe final diz:

Três amores
E uma solidão.
Irene azul.
Tânia amarga
E Herna triste.
                                  
O poeta evoca Irene, Tânia e Herna que representam a trindade afetiva e amorosa do seu espírito de romântico angustiado. Essa trindade se mistura ao discurso místico do poeta à medida que avançamos na leitura de seus livros. Em Nas Fontes da Salvação (1970), o eu lírico diz: “Chorei como Jeremias, sofri como Jó, / Por isso não me reconhecerás, Irene”. Para Tânia, escreve: “Em vão interroguei a Noite, / Em vão interroguei os astros, / Que me falaram de ti”. Para Herna, declara: “Pura / Como uma palavra, / Saída da boca de Jeová”. 
Apesar da presença cada vez maior do discurso para Deus, em Aos Teus Pés, Senhor (1972), o diálogo com as musas ainda continua em poemas como “Para o meu único amor” e “Noturno para Herna”. Na última fase de sua obra poética, que compreende os livros A Fonte de Zeus (1974) e A Noite de Allah (1977), o poeta parece ter renunciado os seus amores.
No entanto, não há como negar que a imagem da mulher idealizada e amada platonicamente representa um significativo eixo temático na poesia de Walflan de Queiroz. Irene, Tereza, Tânia, Herna e tantas outras são lembranças que ficaram presas em seu imaginário poético. No derradeiro livro, A Noite de Allah, influenciado pela teologia islâmica, cantou: “Do Gênio, quero um palácio azul / E Irene”.    
João Antônio Bezerra Neto
Pesquisador


domingo, 28 de junho de 2026

Todos os sentimentos, todas as ideias, o irrequieto de todos os nossos pensamentos partem sem dúvida de uma desintegração.

João Lins Caldas



terça-feira, 16 de junho de 2026

A  TIA

Por João Lins Caldas

A tia velhinha
Se eu tenho essa tia
Se viva ela mora
Se canta baixinho
Rendendo cantigas
Serzindo lembranças
As mãos enrugadas
A pele sem brilho
A tia distante
Seu ar de bondade
Carícia na boca
Carícia nos olhos
A tia lembrada
Terá na memória
Lembrando comigo
Que eu lembro com ela
O passo, o conselho
Da irmã recordada.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

 Paulo Varela, o Poeta Abandonado


Pelas ruas da cidade caminhava devagar,

levando nos ombros versos que ninguém quis escutar.

Era Paulo Varela, poeta de coração aberto,

mas vivia tão sozinho, mesmo estando tão perto.


Escrevia suas dores nas páginas do destino,

transformando sofrimento em poesia e desatino.

Falava de esperança, de amor e de emoção,

mas poucos perceberam a tristeza em seu coração.


Nas praças fez morada sob o frio do luar,

em bancos adormecia sem ter onde descansar.

Buscou abrigo nos amigos, procurou compreensão,

mas encontrou muitas portas fechadas na escuridão.


A depressão, silenciosa, foi roubando sua luz,

enquanto a indiferença aumentava sua cruz.

O homem que dava vida às palavras mais bonitas

via suas próprias lágrimas caírem tão aflitas.


Quantas vezes pediu ajuda? Quantas vezes quis falar?

Quantas noites enfrentou sem ninguém para escutar?

A cidade seguia o rumo de seus dias apressados,

sem notar que seus poetas também podem ser quebrados.


E quando a morte chegou, fria como o vento forte,

levou consigo um artista para além da própria sorte.

Partiu Paulo Varela, sem o abraço que esperava,

sem o reconhecimento que sua história merecia e sonhava.


Hoje ecoam seus versos nas esquinas da memória,

como um pedido de justiça gravado na sua história.

Que nunca mais se abandone quem carrega a criação,

pois um poeta não precisa apenas de aplausos, mas de mão.


E Paulo vive nos versos que o tempo não destrói,

na lembrança que resiste, na saudade que corrói.

Poeta que foi esquecido enquanto estava entre nós,

mas cuja voz permanece, eternamente, em nossa voz.

Josivan bezerra

domingo, 31 de maio de 2026

 

A BELA E INTERESSANTE “DEUSA DO ASSÚ”

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Sabemos que em março de 1828, em um dia que se perdeu no tempo, encalhou em um banco de areia na embocadura do rio Assú, um grande barco a vela e casco de madeira.

Quem assistiu o episódio, provavelmente deve ter ficado impressionado com o desembarque de um grande número de pessoas de pele clara, altos, cabelos loiros e falando uma língua estranha. Era um grupo de 122 colonos alemães, entre eles muitas mulheres e crianças, que migraram para ocupar terras no Brasil. Já o grande barco era um brigue holandês chamado Actief, ou Actif, mas que ficou conhecido por aqui como Ativo.

Brigue dos Estados Unidos chamado Salmon P. Chase, de três mastros. Talvez o barco holandês que encalhou próximo a Macau tivesse essas características.

A nave havia partido do porto de Amsterdã no dia 29 de abril de 1828 e, mesmo sem saber os detalhes, a viagem deve ter sido no mínimo horrível, pois levou quatro longos meses para atravessar o Oceano Atlântico. O destino era o Rio de Janeiro, mas a razão da chegada desse barco na embocadura do Rio Assú teria sido, supostamente, por problemas de alimentação a bordo, e aí teve seu itinerário alterado. Só que houve o acidente e o capitão desembarcou os imigrantes na costa.

O barco ficou destruído, mas foi possível salvar parte do seu carregamento de madeira de pinho de riga e pertences dos passageiros. Já os loiros colonos alemães descobriram que naquela praia ensolarada não havia barcos disponíveis para transportá-los para o seu destino. Eles então decidiram seguir a pé pela beira do mar até a pequena Natal, que provavelmente mal tinha 10.000 habitantes nessa época.

Jornal recifense comentando sobre os colonos alemães que chegaram no navio Ativo.

Não sabemos como foi a progressão pelas nossas belas praias dessa estranha e singular procissão de estrangeiros, em meio ao quente sol da terra potiguar. E nem ficou registro do contato desse pessoal com os moradores da capital, mas eles certamente foram aconselhados a seguir para Recife do mesmo jeito que chegaram a Natal, pois ficou registrado que surgiram na capital pernambucana caminhando. Uma verdadeira epopeia que chegou a quase 500 quilômetros de caminhada e durou vários dias e noites!

Em Recife, após as deliberações das autoridades, os alemães foram encaminhados para a região da Zona da Mata Norte, onde foi criado um núcleo de colonização chamado Santa Emília, em homenagem a princesa Amélia de Leuchtenberg, uma mulher de origem franco-bávara, segunda esposa do Imperador Pedro I e Imperatriz Consorte do Brasil de 1829 a 1831[1].

Amélia de Leuchtenberg – Obra da coleção Brasiliana Iconográfica – Fonte – Wikipédia.

Enquanto isso, em Macau o que restou do Ativo ficou sem uma destinação prática por doze anos, quando um leilão foi finalmente realizado em 1840.

Essa informação é interessante porque naqueles tempos, quando não existiam os aparelhos de GPS, fotos de satélite e sistemas de radar, era muito comum barcos encalharem nas praias, ou baterem em rochas desconhecidas e muitas vezes restava algo da embarcação para ser leiloado. Podia ser parte da carga que transportavam, o casco de madeira, velas, mastros, escaleres e outras coisas. Esse dinheiro servia como compensação para o dono do barco, ou para cobrir as despesas da tripulação e outras contas que surgiam. Só que pesquisando nos antigos jornais descobri que esses leilões eram realizados de maneira até célere, coisa de poucos dias ou semanas, com a ideia de arrecadar logo o dinheiro. Mas no caso desse brigue holandês eu não descobri a razão de toda essa demora!

Quem arrematou os salvados foi o italiano Antunino Campiello Maresco, um comerciante que morava no povoado Logradouro, próximo a Macau. Consta que Maresco utilizou a madeira do navio nos assoalhos de três casas e um sótão em Macau e no Logradouro[2].

A estátua de madeira de Ônfale, que chegou ao Rio Grande do Norte há quase 200 anos – Fonte – Ruben Fonseca

Mas havia algo mais nos salvados do navio – uma grande e bela estátua de madeira representando uma linda mulher. A mulher de um grande personagem da mitologia greco-romana!

Uma Bela Mulher do Reino da Lídia

Naqueles tempos, estátuas de madeira eram colocadas na frente dos antigos veleiros e eram chamadas de figuras de proa. Geralmente esculpidas em madeira e pintadas com cores vivas, eram muito comuns entre os séculos XVI e XIX, representavam figuras mitológicas, personagens históricos, animais ou símbolos, com o objetivo de proteger a embarcação e intimidar inimigos. Acreditava-se que as figuras de proa traziam boa sorte, proteção contra maus espíritos e indicavam o nome ou função do navio.

Consta que a estátua da figura de proa do Ativo foi esculpida em pinho de riga, com 2,40 metros de altura, mas existe graça nos gestos fixados: o braço esquerdo curvado onde existe um interessante detalhe de uma capa esculpida com uma figura de um leão, a perna direita está um pouco levantada, suas unhas perfeitíssimas e delicadas e sua cabeça era móvel. Os marinheiros, homens extremamente supersticiosos, giravam a cabeça da estátua em direção ao próximo porto e assim a viagem finalizava de maneira tranquila[3].

Já quem a estátua representava e sua origem foi motivo de muita discussão na Potyguarânia. Por conta de alguns detalhes existentes, acharam que ela podia ser de origem romana, nórdica, ou até seria de “antes do Descobrimento do Brasil”. Mas na entrevista concedida ao Diário de Pernambuco, Luís da Câmara Cascudo afirmou categoricamente que aquela majestosa obra em madeira era “Ônfale, uma das esposas de Hércules, que depois de conquistar seu amor, o obrigou a tecer uma capa e lhe tomou o manto feito de pele de leão”. Manto este que era reproduzido na estátua do navio Ativo e o felino era o mítico Leão de Nemeia, morto por Hércules no primeiro dos seus famosos doze trabalhos.

Em seu mito mais conhecido, Ônfale é a rainha (ou princesa) do reino da Lídia, na Ásia Menor, a quem Hércules foi escravizado como punição por ordem dos oráculos. Segundo a tradição, o valente herói aceita a ordem divina apenas para, no fim, sucumbir aos encantos de sua amada. A coragem e a vontade inabaláveis ​​do herói não resistem ao poder do amor e da beleza. Ele então oferece a Ônfale um dos seus atributos essenciais: a pele de leão.

Hércules and Ônfale (detalhe), de François Lemoyne, 1724, Mudeu do Louvre, Paris – Fonte – https://www.historytoday.com/archive/foundations/hercules-and-omphale

Dependendo da interpretação, este tema exalta tanto o dever da obediência, quanto a onipotência do amor. Essa narrativa também ofereceu a escritores e artistas a oportunidade de explorar papéis sexuais, temas eróticos e a submissão do herói ao poder do amor. Mas os gregos antigos não reconheciam Ônfale como uma deusa. Ainda segundo Cascudo, a estátua do navio era a segunda conhecida com a capa de Hércules, estando a primeira em um museu na França.

Mudando de Mãos

Não sabemos se o italiano Campiello Maresco conhecia essa história sobre a sua estátua, mas o certo foi que ele a levou para casa, onde as décadas seguintes chamava muita atenção dos membros da comunidade e dos visitantes. Aquele interessante objeto começou a ser conhecido como “Rainha da Costa D’África”, mas não descobri a razão disso. Havia também na sua casa portinholas e outros objetos do navio holandês.

Fonte – Ruben Fonseca

Edilson Siqueira, descendente do italiano Maresco, contou ao escritor Getúlio Moura que ouviu do seu avô e de sua mãe que havia uma segunda estátua no navio holandês. Era menor que a figura de proa e que seu antepassado a enviou para um amigo na Itália e o povo de Macau e região dizia que dentro dela “tinha muito ouro”.

A figura de proa do Ativo ficou por 135 anos com a família Campiello Maresco, passando de geração em geração nas mãos dos seus descendentes. Existe a informação que essa bela Ônfale de madeira teria servido de apoio de corte de macambira a facão. A reportagem do Diário de Pernambuco informou que faltava um pedaço do nariz e dois dedos de cada mão. Segundo Ruben Fonseca, o atual proprietário da antiga figura de proa do Ativo, lhe chegou a informação a sua estátua era utilizada para apoiar o corte de cana-de-açúcar e sua base também estava danificada.

A estátua de Ônfale e Ruben Fonseca

Então veio o ano de 1964, quando em Macau a Dona Pautilha Maresco fez negócio com o fazendeiro de Parnamirim Ezequiel Fonseca Neto, na sua casa com piso de pinho de riga. O negócio foi fechado por um milhão de cruzeiros e nessa época Ezequiel havia comprado uma bela residência na Rua Capitão Abdon Nunes, no bairro do Tirol. Ezequiel é o pai de Ruben.

Segundo o jornalista Paulo Macedo, na sua tradicional coluna social do extinto Diário de Natal, edição de quarta-feira, 16 de fevereiro de 1963, desde a chegada da estátua de Ônfale a Natal, muita gente, “mais de mil pessoas” segundo ele, esteve na casa de Ezequiel observando a beleza e a grandiosidade da antiga “Deusa do Assú”.

Fonte – Ruben Fonseca

Segundo Getúlio Moura, a última vez que essa estátua deixou a residência dos descendentes de Ezequiel Fonseca foi em 1999, quando seu filho Rubem e sua esposa Suzana exibiram a escultura na “Casa Bonita Brasil – Mostra Natal”, que fez parte do calendário de comemorações dos 400 anos da cidade de Natal. Atualmente essa bela estátua está em um local abrigado, completamente protegida e continua a ser admirada por Ruben, Suzana e seus familiares.

Um último detalhe. Porque a estátua ficou conhecida no Rio Grande do Norte como “Deusa do Assú”, se toda a sua relação histórica é ligada à cidade de Macau? A resposta é simples – Macau era uma povoação Em 1828, que então pertencia a vasta área territorial do município de Assú e só foi criado oficialmente pela Lei Provincial nº 158, de 2 de outubro de 1847, desmembrando-se de Angicos, que por sua vez havia se desmembrado de Assú em 11 de abril de 1833.

REFERÊNCIAS —————————————————————————————————————————————

[1] KONRAD ADENAUER STIFTUNG. O bicentenário da imigração alemã no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: 2024. p. 19, 34. Várias fontes informam que o número de colonos a bordo do Ativo era de 140 pessoas, mas nesse texto eu decidi utilizar o número fornecido por autoridades alemãs no livro do bicentenário da imigração alemã.

[2] MOURA, Getúlio. Um Rio Grande e Macau: cronologia da história geral. Natal: [s.n.], 2003. p. 140-141.

[3] FRANSINETTI, Paula, Deusa do Vale do Assú não é pré-histórica: Pertencia ao Ativo, naufragado em 1828. Diário de Pernambuco, Recife (PE), 16 de dezembro de 1964, p. 2.

CÂNDIO CAMBÃO                           O cantador - é bom deixar bem claro - não é cantor, aquele que apenas canta, chamado de intérprete. ...