sábado, 9 de agosto de 2014

RECORDAÇÃO DE INFÂNCIA
VELHAS BODEGAS
Ainda criança eu gostava de observar e analisar as casas comerciais e mercearias de Pedro Avelino. Muitos conterrâneos sabem que entre os anos 60 e 70 existiam algumas lojas comerciais e mercearias bem sortidas. Mas eu quero comentar é a respeito das bodegas, aquelas que exalavam um cheirinho tradicional.
Inicialmente gostaria de dizer que as bodegas tinham várias portas abertas, outras, apenas a porta de entrada, logo, deparávamos com um balcão repleto de velhos jornais, alguns litros de raiz de pau, vinho de Jurubeba Leão do Norte, Catuaba, Conhaque de Alcatrão São João da Barra, alguns pacotes de Arrozina, Maisena e sabão em barra exposto nas prateleiras de madeira e também uma lata com torneira contendo querosene.
As paredes eram decoradas com propagandas de pasta dental Kolipe, cartelas de Gillette, creme Bozzano. Alguns remédios como Sulfato Ferroso, Óleo de Peixe Boi, Pílulas de Vida Dr. Ross, Sonrisal e Melhoral. Não faltavam gatos repousando sobre sacos de estopa e perambulando embaixo do balcão.
As bodegas possuíam um cheirinho bem peculiar, bem sortidas, e sobre o balcão, papel almaço e, ao lado, um rolo de fumo e uma velha faca enferrujada, presa em um pedaço de madeira, além de caixões de madeira contendo milho, feijão e farinha. Outras bodegas exalavam um cheiro de carbureto e de querosene com um odor muito forte.
Na minha infância, eu me lembro das bodegas com pavio de candeeiro, lamparina, penico, papel de fumo, cortador de unhas, novelos de linha, óleo em retalho, sabão de coco, confeito de rapadura, feijão, açúcar, farinha, arroz, tudo em litro ou em cuia com a boca do saco arregaçada; rapadura preta, sabonete Vale Quanto Pesa, Gessy e Palmolive, café em grão, Café Vencedor, Café São Luís, querosene Jacaré, biscoito em lata, anzol, chumbo, espoleta, pólvora, canivete, mamadeira, chupeta, liga de baladeira, parafuso, porca, prego, alicate, marreta, martelo, lanterna, pilha, foquito, tinta, cola, breu, corda, cordão, barbante, caderno de caligrafia, caderneta, tabuada, cartilha do ABC, linha, botão, agulha, bobina, panela de alumínio e tantos outros produtos que eu não me recordo.
Eu como sempre fui um menino observador e, hoje, saudosista, faço essa homenagem a todos que tiveram bodega no nosso município:

'Velha bodega
De tempos antigos
Que não voltam mais,
Te louvo agora
Para preservar
As raízes culturais',

Marcos Calaça, jornalista matuto (UFRN)

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