segunda-feira, 16 de novembro de 2015



A VELHA MARIA CUNHAÚ DO ENGENHO OUTEIRO



MARIA CUNHAÚ
Francisco Galvão
Sociólogo

Entre os membros da famosa família Maranhão do engenho Cunhaú existiu uma senhora que o povo contava histórias que o tempo guardou. Seu nome de registro já nem importa muito, pois de Maria Cunhaú ficou conhecida por todos. Sobrinha do histórico André de Albuquerque Maranhão, vivia de arengas com o irmão, Dendé Arcoverde, herdeiro das fortunas do Cunháu.
É muito interessante como esses personagens da aristocracia açucareira do século XIX foram tratados pela memória popular e chegaram até os livros acadêmicos pelas letras de Câmara Cascudo. O intelectual era fã dessa Família aristocrática que dominou o litoral sul do Rio Grande do Norte, mas repetiu as mesmas palavras que ouviu dos populares em sua Actas Diurnas, quando tratou daqueles membros mais arquétipos.
Maria Cunhaú se tornou famosa no meio da plebe miúda pela soberba exagerada que ostentava. Dona do engenho Outeiro, terra que herdou do tio poderoso. As línguas afirmam que ela não vestia a mesma roupa duas vezes e vivia com melindres ásperos de uma entediada princesa em sua casa-grande inacessível aos pequenos. Era lá que ela judiava dos seus escravos domésticos para se divertir. Os escravos do eito não passavam nem por perto de sua macabra cozinha.
Sem preocupações profundas, ela foi avançando na idade. Nunca encontrou um varão que lhe domasse. Suas preocupações era comer e dormir sem incômodos. Em suas viagens curtas por seus domínios, seu cocheiro apanhava mais que os cavalos que puxavam a charrete. Internou-se em sua própria ignorância, vivendo isolada em seu próprio mundo.
O irmão afirmava que ela era louca e não tinha condições de administrar a propriedade que possuía. Por isso pediu na justiça o direito de posse sobre as terras da irmã. O caso fez com ela ficasse mais perturbada ainda. Dizem que ela deixava os escravos pregados pelas orelhas no portal de trás e gritava esbaforada por eles na varanda da frente.
Gostava de ser atendida, gostava de mandar e, por isso, morria de medo de perder as terras que possuía nas lamacentas várzeas de Canguaretama. Quando lembrava que podia perde tudo, se desesperava e era sua escravaria que sofria as consequências diretas. Havia choro, ranger de dentes, fogo e dor. As marcas ficavam no corpo e todos seus escravos possuíam sinais claros de suas torturas.
Ficava desesperada com a situação, mas nem seu advogado conseguia reverter o processo de perda das terras para o seu irmão. No século XIX uma mulher solteira não teria chances nos tribunais machistas e opressores. O advogado de Maria Cunhaú era Amaro Cavalcanti, um jovem muito talentoso na política, mas que via a situação de sua cliente se agravar nos tribunais.
Ele entendia bem do Direito e sabia perfeitamente que a velha perderia as terras para o irmão. Por esse motivo, ele fez um último e admirável esforço para reverter toda aquela situação adversa. Astucioso que era, foi até o engenho Outeiro e se ofereceu em casamento para a velha. Convenceu-lhe que, desse modo, ficaria como tutor legítimo dela e que, só assim, salvaria suas posses da ganância do irmão.
Ela teria aceitado sem nenhuma relutância. O advogado de fino trato agia de forma exemplar e encantadora, levando a velha ao êxtase. Ela não poderia se negar, mas se envolveu profundamente com aquele galã adorável. O trato era bem elaborado, mas dentro de um acordo simples: ele seria um marido sem exercer as funções nupciais.
Ela morrida de ciúmes e fazia sofrer as escravas jovens. Quebrava os dentes das coitadas para que não atraíssem o olhar do jovem príncipe que surgia naquelas terras. Marcou com ferro em brasa o rosto de cada uma para arrancar-lhe a beleza. Ficava admirando os presentes que recebia, espalhando vestidos sobre a cama que dormia solitária. Em seu ócio improdutivo ficava brincando com dinheiro velho, suas moedas carcomidas pela passagem dos anos.
O advogado nunca morou com a velha. Apenas esperou, pacientemente, seu falecimento para herdar a propriedade. Ficava a lhe agraciar, de longe, com presentes que ela acumulava na casa-grande do engenho. Dizem que ele foi embora para morar com a tal “Ressuscitada” no capital do império, onde viveu como um príncipe, quem sabe com as moedas que Maria Cunhaú guardou por tanto tempo.  
Esse arquétipo de mulher sádica não foi único no Rio Grande do Norte. Em Ceará Mirim, outro centro de produção açucareira, tivemos uma figura feminina que infringia os mesmos castigos físicos aos seus escravos. Em seu porão, ela sempre tinha um escravo para torturar. A senhora do engenho Timbó era tão cruel e desumana com seus escravos, que outros proprietários de engenhos e de terras se revoltaram com sua prática.
A senhora faleceu repentinamente e seu corpo se transformou em uma serpente. Seu túmulo, devido as grandes rachaduras, teria sido acorrentado para manter a serpente presa. Seu esposo, que temia sua crueldade, mudou seus hábitos com os empregados.
Maria Cunhaú foi um arquétipo entre os senhores de escravos no Litoral Sul e que encontra parâmetros em outros locais. Fruto da oralidade fantástica de um povo que contava sua versão de história como forma de resistir.

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