quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

GLOSADORES DO ASSU I

O povo assuense sempre teve inclinação para a poesia. Assu depois de Natal, é a cidade potiguar que mais poeta tem, considerados dos melhores. Seus bardos populares os chamados glosadores aproveitam os momentos, as ocasiões, as acontecências do dia-a-dia, para fazer uma décima, uma trova ou sextilha. "O tema escolhido varia ao sabor do tempo, da ocorrência, da oportunidade. Abrange todos os aspectos: amoroso, satírico, histórico, pilhérico chegando até ao comercial-propagandista. Na seara política a sua fertilidade era imensa. O ingresso da máquina e o desenvolvimento cultural não estacionaram a sua proliferação" (Francisco Amorim).

O poeta assuense João Celso Neto radicado em Brasília, funcionário aposentado da EMBRATEL, atualmente exerce a advocacia naquela capital federal, comenta no livro por ele organizado intitulado "Glosas de Hélio Neves de Oliveira", 1980, que a palavra "GLOSA, ensina o Aurélio, deriva do grego GLOSA, que significa "termo obscuro". Na língua portuguesa, quer dizer "nota explicativa de palavra ou sentido de um texto, comentário, interpretação". E vai mais além aquele bardo potiguar ao dizer que "GLOSA é o nome de uma composição poética, geralmente em décimas. desenvolvendo um tema (ou um mote) de um, dois e até quatro versos."

Vamos reviver e conhecer um pouco das produções de alguns dos poetas glosadores do Assu:

A minha idade requer
Saudade e recordação.
Vivendo na solidão
Por causa de uma mulher.
Nem sonhando ela me quer...
Por causa disso chorei;
Bebendo raciocinei:
É astúcia do demônio
E ao meu triste patrimônio
"Novos tormentos juntei".

(Renato Caldas)

Passeando nesta praça
Não sinto mais alegria,
Achando a vida vazia
Na venda bebi cachaça.
Na vida não acho graça,
Pensando no meu sofrer,
Já de tanto padecer
Eu já vivo amargurado,
Continuo embriagado
Me lembrando de você.

(Manoel de Bobagem)

De madrugada, na rua,
Num luar claro de agosto,
Para almentar o meu gosto,
Eu vi o seio da lua
Sem sutiã, quase nua.
Parei atônito ao vê-la:
Custava mesmo a entendê-la.
Qual Diana, pura e terna,
Tomava a forma materna
Amamentando uma estrela.

(Hélio Oliveira)


No tempo da antiguidade
O Assu era falado.
Mas hoje vive coitado
De qualquer futilidade.
Vejam pois: a mocidade
Inteligente e jocosa
Por distração ansiosa
De, tudo faz arrelia...
E a toda hora do dia
Faz-se um mote e haja glosa.

(Solon Wanderley)

É vulgar esse conceito,
Pobre mundo, eu não te entendo,
Por tudo que estou vendo
Em pobre tudo é defeito.
Pode o pobre ser direito
E o rico nunca ser nobre,
Mas, a quem lhe falta o cobre
Não lhe sabe uma censura,
No pobre tudo se apura,
Defeito em rico se encobre.

(Luiz Lucas Lins Caldas Neto)

Venham ânsias e desmaios
Quantas tem a morte fera,
Rebente a azulada esfera
Caiam sobre mim os raios,
Faça Joana D'arc ensaios
Com seu poder fulminante
Caia o fogo crepitante
que, vem dos polos eternos,
Converta-me nos infernos
Se eu deixar de ser amante

(Manuel Lins Caldas)
(Glosa ´produzida em 16 de abril de 1862)

Já era quase uma hora,
Quando Ele disse à roceira
Que veio abrir à porteira:
Puxe o pau, minha senhora:
Puxe-o todo para fora,
Faça força, dê-lhe um soco,
Agora arrede esse toco,
Tá duro? Empurre, que vai,
Não, tá mole, agora sai,
Seu Elói, demore um pouco.

(João Celso Filho)

Criei-os com igualdade,
Com amor, sem preferência,
Se hoje me fere a ausência
Sou mãe e sinto saudade.
E, com o peso da idade
Tenho sempre eles presentes,
As horas passam frequentes,
Sem ter direito à alegria,
Sofro o mal da nostalgia
Dos meus dois filhos ausentes.

(Martinha Santiago)

Já estou desesperado,
Já não tenho paciência,
Se assemelha a penitência
A vida que vou levando.
Meus amigos se acabando.
Aqueles que tanto amei...
Eu, também, já comecei
A morrer por prestação,
E se tentar salvação
Tem caminhos que eu não sei.

(Walter de Sá Leitão)

Eu respeito a castidade
Inda mesmo presumida,
Que mantém pra toda vida,
A mulher de certa idade.
Mas, afirmo, sem maldade,
Que, na vida, errada, incerta,
Muita coisa se concerta
Que parece nova e boa:
- Mulher que vira "corôa"
Não tem idade certa.

(Mariano Coelho)

Serei uma alma esquecida
Ninguém vai lembrar de mim,
E por isso antes do fim
Sinto saudade da vida
Minha filha, a mais querida,
A quem lhe dei o viver,
Na certa vai esquecer
Do pai que a morte levou
Por isso tristonho estou
Em lembrar que vou morrer.

(Boanerges Wanderley)







































quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

SONETOS DE JOÃO LINS CALDAS

AO CORAÇÃO QUE UM CORAÇÃO TRAIU

Ah! Se eu pudesse, coração ferido,
Vingar as mágoas por que tens passado!
Sentir-te duro te sentindo amado
Por que te fez de coração traído.

Ah! Se eu pudesse para ver vencido
O ser que te fez de coração chagado,
Já que de tanto não te é chegado,
Já que de tanto não te é podido;

Ver-te querido; e apaixonado e, louco;
Ter-te no peito pelo mesmo afeto
Mas, nesse afeto, de coragem firme

Ao ver quem foi aos teus carinhos mouco
Mostrar vingança pelo mesmo afeto
E a estrangular te estrangulando a rir-me.

O BUGARI

De quem passou nas tuas mãos um dia,
Do bugari mimoso que me deste
Se evola um mundo de sua ambrosia
Que a minha musa de ilusões se veste.

Ao verem-me com ele: - "Hoje se veste
O perfume do amor..." tudo anuncia
Julgando alentá-la esse olhar celeste
E não o pranto que dele se escondia...

Ah! Nele o bugari cheiroso e lindo,
Brilha o sonho desse gozo infindo
Que nos transporta ao céu da fantasia.

E, como se novo ele ainda fosse...
Conserva a essência jubilosa e doce
De quem passou nas tuas mãos um dia...


SONETO

Vais... vais partir e, aqui, amargurado
Não cessarei de ti chorar um dia.
Em tudo, cruel, a dor se me anuncia,
E, todos, ressurgem os sonhos do passado.

Longas noites no sofrer gelado
Eu sei que vou passar... a nostalgia
Encherá os peitos dessa letargia
Onde soluça o Amor que foi sonhado...

Tudo que em mim de ti falando vê-se
Segreda-me com ânsia de queixume:
"Sei que, quem parte bem cedo se esquece..."

"Vais... meu amor! Minha doce ilusão!"
E´ loucura de mim teres ciúme
Aqui fica meu corpo e segue o coração...
































terça-feira, 22 de janeiro de 2008

OUTRAS POUCAS E BOAS

1 - O Vale do Assu além das suas terras férteis, é uma região rica de figuras chistosas, espirituosas, irreverentes. Pois bem, Vicente Queiroz era fazendeiro no município de Pendencias, localizado naquela microregião. Certo dia, conversava no alpendre da casa da sua propriedade agrícola com seu amigo chamada Agostinho também fazendeiro naquele localidade, que lhe fez a seguinte pergunta: "Ou compadre Vicente por quanto tá custando uma arroba de algodão"? "Compadre, eu ouvi alguém falar que não sei onde, tão pagando não sei quanto!" E seu Agostinho inocente e destraido, deixou escapar essa: "Mas, compadre já tá desse preço!"

2 - Monsehor Júlio Alves Bezerra - essa também se atribui a padre Freitas que, parece, dirigiu nos anos cinquenta, a paróquia de Baixa Verde - foi páraco de Assu durante muito tempo. Dia de batizado dominical na igreja Matriz de São João Batista, perguntou a mãe da criança pelo seu nome: "Frederico, Padre!" Respondeu aquela mulher". Monsenhor num gesto intempestivo e preconceituoso, disse assim: "Deixe de besteira, mulher, nome de negro é Benedito!"

3 - Waldemar Campielo foi vereador do Assu e depois prefeito de Carnaubais (RN). Pois bem, recém empossado na prefeitura daquele município que fora distrito de Assu, resolveu viajar a Natal em busca de recursos para aquela terra de Santa Luzia. Aí Waldemar perguntou ao seu secretário de Administração Walter de Sá Leitão o que estava faltando para ele comprar para aquela edilidade: Walter solicitou: "Prefeito, compre uma bandeira do Brasil." Uma segunda pergunta, entretanto, denunciaria um prefeito deslumbrado com a própria vitória: "Walter e de que cor eu compro?"

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

TIRADAS DE ESPÍRITOS

1 - Chico do Pó como é conhecido na cidade de Assu (não tenho certeza se ele ainda vive) é vendedor de erva, garrafada, todo tipo de remédio da medicina popular. Ele sai vendendo nas casas da cidade inteira e nas feiras livres daquela terra assuense. Alguém, ao vê-lo pelas ruas da cidade, indagou-lhe a título de brincadeira: "Chico, qual o remédio que você tem pra corno?" E Chico respondeu na horinha, dizendo assim:"Paciência!"

2 - João Lira era comerciante na cidade de Assu. Certo dia, recebeu em seu estabelecimento comercial um fiscal da Recebedoria de Rendas. Aquele fiscal foi logo solicitando dele, Lira, os talões de notas fiscais para uma averiguação. As prateleiras daquele comércio se encontravam todas cheias até o teto. O fiscal comparando o estoque com o livro de entrada de mercadorias, constatou que não batia de jeito nenhum. "Seu João eu vou apenas lhe notificar na base de uma estimativa." João apavorou-se, levantou-se do birô e saiu empurrando as caixas, dizendo: "Seu fiscal num tá vendo que é só caixa seca". E foi caixa seca pra tudo que era canto.

3 - Justino Piaba era funcionário do Mercado Público , da cidade de Assu. Bebia inveteradamente. Certo dia, saiu daquele mercado embriagado, com destino a sua casa, passando pelo beco estreito que os mais antigos ainda chamam de "Beco do Padre", atual travessa Fernando Tavares. Um observador da sena pilheriou ao vê-lo tombando: " Justino, o beco tá é estreito, hein!" Conhecendo a voz daquela pessoa, saiu-se com essa: "Meu amigo, é que meus pés estão largos!"

Fernando Caldas

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

CHICO TRAIRA

Francisco Agripino de Alcaniz é o nome de registro de Chico Traira, um dos maiores poetas cordelistas que o Nordeste já teve. Alguns acham que ele, Traira, é natural do Assu, onde viveu parte da sua juventude e os dias finais de sua vida. Porém nasceu no sítio Pau de Jucá, povoado de Sacramento, hoje município de Ipanguaçu (RN). O Nordeste, a exemplo do poeta matuto Renato Caldas e de tantos outros, Chico Traira conheceu de ponta a ponta "nas suas intermináveis andanças", apresentando as suas cantorias, acompanhado da sua inseparável viola que um dia, teve que vendê-la por necessidades financeiras. Pois bem, certo ocasião, viajando com destino a litorânea cidade de Macau (RN), para apresentar uma cantoria, em companhia do seu colega chamado Patativa que, em razão da trepidante estrada esburaca, ainda carroçável, disse assim como se quisesse provocar o poeta: "Chico. Eu acho que nossa viagem não vai ser muito sublime!" Traíra pegou na deixa:

Se o amigo não está
Achando a viagem boa
Você é pássaro, eu sou peixe
Eu mergulho e você voa
Você volta para o ninho
E eu volto à minha lagoa.


De outra feita, cantando com outro afamado poeta violeiro chamado Manoel Calixto, na cidade de Areia Branca, interior do litoral do Rio Grande do Norte, na casa de certo seu admirador fora desafiado com a seguinte estrofe:

Aviso ao dono da casa
Que não vá fazer asneira
Tenha cuidado em Traira
Que ele tem uma coceira
Se não quiser que ele pegue
De manhã queime a cadeira.

Chico prontamente respondeu:

Você é que tem coceira
Dessas que rebenta a calça
Está tomando por dia
dezoito banhos de salsa
Quando a coceira se dana
Num dia acaba uma calça.


Fernando Caldas

sábado, 12 de janeiro de 2008

GLOSADORES DO ASSU II

A minha idade requer
Saudade e recordação.
Vivendo na solidão
Por causa de uma mulher.
Nem sonhando ela me quer...
Po causa disso chorei;
Bebendo raciocinei:
É astúcia do Demônio
E ao meu triste patrimônio
"Novos tormentos juntei".

Renato Caldas

Passeando nesta praça
Não sinto mais alegria,
Achando a vida vazia
Na venda bebi cachaça.
Na vida não acho graça,
Pensando no meu sofrer,
Já de tanto padecer
Eu já vivo amargurado,
Continuo embriagado
Me lembrando de você.

Manoel de Bobagem

Ouvido Sua Eminência
Por imensa multidão
Humilde, beijou o chão
No país da violência
Pregou a paz com clemência
De modo convencedor,
Rogou a Nosso Senhor
Que aos cristãos todos conduz
Como servo de Jesus
O papa, pregou o amor.
Solon Wanderley

Serei uma alma esquecida
Ninguém vai lembrar de mim,
E por isso antes do fim
Sinto saudade da vida
Minha filha, a mais querida,
A quem lhe dei o viver,
Na certa vai esquecer
Do pai que a morte levou
Por isso tristonho estou
Em lembrar que vou morrer.

Boanerges Wanderley

Eu respeito a castidade
Inda mesmo presumida,
Que mantém pra toda vida,
"A mulher de certa idade."
Mas, afirmo, sem maldade,
Que, na vida, errada, incerta,
Muita coisa se concerta
Que parece nova e boa:
- Mulher que vira "coroa"
Não tem nunca idade certa.

Mariano Coelho

Mesmo sem acreditar
Nas sagradas escrituras
Devem ter as criaturas
"Um minuto pra rezar."
Também devem programar
O seu modo de viver,
E dessa forma obter
O perdão da eternidade,
E ter com serenidade
"Um segundo pra morrer."

Francisco Amorim

Já estou desesperado,
Já não tenho paciência,
Se assemelha à penitência
A vida que vou levando.
Meus amigos se acabando.
Aqueles que tanto amei...
Eu, também, já comecei
A morrer por prestação,
E se tentar salvação
Tem caminhos que eu não sei.

Walter de Sá Leitão

A dor, a angústia, o gemido,
São prenúncios de um ocaso,
Mas, às vezes tem um prazo
Pois nem tudo está perdido.
Tudo por Deus é regido
A tempestade, a bonança,
Convém rever na lembrança.
Dia a dia o que acontece,
Veio fazer uma prece
Quando resta uma esperança.

Núcio Pinto

Pedindo paz pra meu povo
Súde e tranquilidade,
Com grande felicidade,
Quero entrar o ano novo.
A Jesus Cristo, sim, louvo
O seu natal tão contente
Peço a Deus Onipotente,
Com fé de não ter engano,
Pra subir o novo ano
Com o pé direito na frente.

João Adolfo Soares

Como tudo é passageiro
No decorrer desta vida,
No jardim, triste, esquecida,
Cai a flor do jasmineiro
Seu orvalho derradeiro,
Por sobre a relva deslisa
O seu perfume ameniza
O travor da soledade
Deixando odor de saudade
Ao leve sopro da brisa.

Oliveira Junior

De madrugada, na rua
Num luar claro de agosto,
Eu vi o seio da lua.
Sem "sutien", quase nua,
Eu pasmei, nervoso, ao vê-la
Custava, mesmo entendê-la,
Qual Diana pura e terna
Tomava a forma materna
Amamentando uma estrela.

Hélio Oliveira

Fico na área cantando
Admirando a beleza
Feita pela natureza
Me sinto bem contemplando
E o perfume aspirando
Das rosas e do jasmim
Foi Deus que me fez assim
Pra ser amiga das flores
Em mim não tem dissabores
Contemplando o meu jardim.

Martinha Santiago

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

CARNAUBEIRA, A "ÁRVORE DA VIDA"




A carnaubeira é uma palmeira originária do semi-árido nordestino, muito comum em solos argilosos e de aluvião (beira de rios), bastante resistente às secas e com grande longevidade (ciclo de aproximadamente 200 anos). Há quem diga que a carnaubeira é eterna. Ela é chamada cientificamente de Copernícia Cerífera (Miller), em homenagem ao naturalista alemão Humbadt, quando este visitou o Brasil no século XII e conheceu a carnaubeira e suas numerosas finalidades, passando a chamá-la com o apodo de "árvore da vida." Ela também é conhecida popularmente como "O Boi Vegetal". Os mais antigos diziam: "Do boi tudo se aproveita, da carnaúba não se perde nada." O seu descobrimento é data de 1790. Em 1857, o norte-rio-grandense chamado Manoel Antônio de Macedo foi quem descobriu o processo de extração da cera da planta e por ele provavelmente feito as primeiras experiências de beneficiamento, "muito antes do petróleo e da luz elétrica". Celso da Silveira depõe que "o emprego na confecções de currais de gado teve influência decisiva no desenvolvimento do ciclo da pecuária determinante das primeiras charqueadas no Brasil."

No Vale do Assu (RN), a carnaubeira cobria uma área de aproximadamente 17 mil hectares. Até pouco tempo atrás (antes da fruticultura irrigada naquela região, explorada principalmente pelas empresas agrícolas de porte) era a principal economia do Vale do Assu. Praticamente toda produção de cera era exportada para os estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha e França.

A carnaubeira é uma árvore nativa muito comum em solo argiloso e de aluvião (margem de rios) natural da regiao nordeste do Brasil, como Rio Grande do Norte, Ceará e Piaui. Estes dois últimos Estados com maior frequência

"Em outros países da América do sul existe a carnaubeira, mas somente a palmeira. Devido à irregularidade da extração chuvosa não desenvolve o mecanismo defensor do vegetal, não havendo assim o pó cerífero servindo somente para adorno." Existe ainda a carnaubeira no Ceilão, Africa Equatorial.

A carnaubeira além de ser uma planta nativa, também se planta. Se plantada leva aproximadamente 10 anos para chegar ao ponto da colheita. No Brasil os maiores produtores são os Estados nordestinos como Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, com 87 por cento da produção nacional. No Rio Grande do Norte são produtores os municípios de Assu, Ipanguaçu, Carnaubais, Auto do Rodrigues, Pendências, Upanema, além dos município da região oeste do estado potiguar como Mossoró, Pau dos Ferros, Felipe Guerra, Apodi e Governador Dix-sept Rosado. Ainda se produz o pó cerífero nos município de Campo Grande, Santana de Matos, Ceará Mirim, Macau, Touros, Martins, entre outros municípios com pequena produção.

A extração da palha da carnaubeira - corte de suas palhas - é feito através de grandes varas de aproximadamente dez metros de comprimento, tamanho maior da carnaubeira, podendo excepcionalmente chegar a 15 metros, com tronco (esquife) perfeitamente reto e cilíndrico de 15-25 cm de diâmetro, com uma foice na extremidade, sem causar danos ao meio ambiente. A colheita é feita entre entre os meses de agosto e dezembro e, após a extração da palha bota-se para secar em estaleiros, exposta ao sol para depois proceder ao seu batimento e posteriormente extrair o pó. (Tempos atrás se procedia o seu batimento na calada da noite, hora em que o vento está brando, depois, veio a ser batida mecanicamente através de uma máquina (chamada de "Maquina de Cortar Palha"), salvo engano, inventado no Estado do Piaui, coisa semelhante a uma forrageira de triturar ração animal, acoplada a um caminhão, que depois de extraído o pó dar-se-á o seu cozimento em grandes tachos de ferro fundido revestido de tijolo (alvenaria), em alta temperatura, com adicionalmente de um produto chamado sal azedo e outros produtos químicos, para dar melhor qualidade ao produto.


Da (suas palhas) faz-se chapéus, bolças, esteiras, bem como a sua madeira serve para cobertura de casas, galpões, ou qualquer outro tipo de cobertura que o homem possa idealizar. A sua madeira (tronco) é de grande durabilidade, faz-se linhas, ripas e serve também para confeccionar utensílios domésticos. Do tronco faz-se também porteiras para fazendas e pontes, por acreditar que a sua durabilidade é eterna se utilizada de trocnco completamente maduro. A semente da carnaubeira serve para ração animal bovina e se triturada da um pó semelhante ao café, servindo de alimento ao homem com inúmeras propriedades medicinais, Dá suas raízes dá uma bebida muito usada na medicina depurativa que, quando queimadas e pulverizadas substituem o sal de cozinha, sendo também indicado popularmente contra o reumatismo e artrite. O seu fruto é de cor preta e têm um gosto adocicado. A sua polpa quando processada produz farinha.

"A PETROBRAS - através da Unidade de Negócios, Exploração e produção do Rio Grande do Norte e Ceará (UNRNCE) - adotou uma tecnologia autenticamente norte-rio-grandense para revestir os dutos por onde passa vapor a ser injetado nos poços terrestres de extração de petróleo. A palha da carnaubeira serve a fabricação de esteiras e reduz em ate 4o por cento os custos da companhia somente com esse tipo de aplicação . Tecnologia em forma de esteiras com palha de carnaúba trancada, que sai das mãos hábeis de pelo menos 5o mulheres do assentamento Palheiros III (município de Upanema).

O uso das esteiras de palhas de carnaúba pela companhia trará uma economia de ate 3 milhões e 700 mil reais, somente considerando a demanda inicial de cem quilômetros de dutos. Onde a PETROBRAS aplicará o revestimento que dará proteção mecânica a estrutura metálica por onde passa o vapor a 280 graus".

A carnaúba é classificada de quatro tipos: Tipo 1 (cera olho de cor amarela, de melhor qualidade e maior valor comercial, tipo 2 (cera gorda de cor verde), tipo 3 e 4.

A cêra começou a perder espaço em solo nordestino logo apos a explosão do consumo dos anos cinquenta. Por esse tempo, o Brasil produziu 100 mil toneladas. Foi o auge de sua produção. A cêra foi muito usada na confecção de disco de venil pelas gravadores e ainda é muito usada pelas industrias de graxa de sapato.

No Rio Grande do Norte, era o município do Assu, onde se concentravam seus maiores produtores, beneficiadores e comerciantes. Lembrar Zequinha Pinheiro (produtor de cêra que chegou até a ter uma casa bancária no Rio de Janeiro com os recursos da cêra de carnaúba), Francisco Martins Fernandes, Minervino Wanderley, Fernando Tavares (Vem-Vem), Mercantil Martins Irmãos (dirigida por Sandoval Martins), Carvalho & Cia que depois veio a ser Pimentel e Cia, Cooperativa Agro Pecuária do Vale do Açu Ltda (presidida por Francisco Amorim e gerenciada por Edmilson Caldas, chegando aquela cooperativa em virtude da comercialização daquele produto, a ser na década de setenta, o maior cliente do banco do Brasil, de Assu, além de um grande fornecedor a industria Johnson, de Fortaleza-CE), Sebastião Alves, Nilo Gouveia (Seu Nilo), Luiz Tavares, Seu Ananias, entre outros da várzea do Assu.

A Mercantil Martins Irmãos foi quem primeiro inovou para o beneficiamento da Cera de Carnaúba, no Estado potiguar, implantando na década de setenta (onde hoje está assentado o Centro Administrativo da Prefeitura Municipal do Assu), uma usina com tecnologia moderna, deixando de comercializar a cêra em forma de tablete para ser beneficiada tipo escama de peixe, conforme exigência do mercado importador.

Pena que a carnaubeira no Vale do Assu está ainda sendo destruída para dar lugar o cultivo da banana entre outras frutas.

Fernando Caldas