terça-feira, 29 de janeiro de 2013


CONTO

A COBRA
 
A comunidade de Juazeiro era para alguns de seus moradores o local ideal para se viver. Lá dinheiro não tinha muito valor, especialmente para os homens. Uma questão cultural. O macho que não gastasse tudo que ganhasse durante a semana no final da mesma, não era homem com H. Era manicaca, palerma, manobrado pela mulher. Se fosse solteiro era viado.
 O pescador Manoel era um dos que cultuava esta prática. Se o rendimento fosse um pouco maior passava até uma semana na esbórnia... Acordava de madrugada, selava e colocava os arreios no cavalo alazão - seu maior patrimônio, além de uma mulher e cinco filhos, aliás, uma “escadinha” onde o mais velho tinha oito anos – e rumava para a cidade. Parecia um doutor. Roupa branca, chapéu de massa preto, botas pretas com esporas prateadas. No braço um chicote de couro cru e sobre a sela do animal uma coxa macia confeccionada de retalhos brancos. Um revólver 38 na cintura e uma faca peixeira de 12 polegadas completavam a indumentária. 
 Quando Manoel chegava à feira livre do Assu, os feirantes ainda estavam organizando seus produtos para iniciarem a comercialização. Parava seu alazão debaixo dos pés de fícus localizados por trás da Matriz e dirigia-se para o Mercado. Na primeira bodega que abria ele já pedia uma dose de aguardente e solicitava ao proprietário guardar o coxim. Enrolado neste, ele entregava o revólver e dizia com ênfase:
- cuidado com este “coxim”, mais tarde eu pego!
 Manoel quando estava embriagado era metido a namorador, arruaceiro... Violento. Uma particularidade: sóbrio ou bêbado pagava bebida pra “gato e cachorro”.
 Certo dia, já meio embriagado, Manoel foi adentrando na Padaria Santa Cruz - de propriedade de Solon, quando ouviu, de soslaio:
- Um negro desse só quer ser doutor, só anda de branco...
 Manoel não procurou ouvir mais nada, mudando de rota, foi até o desafeto e sentou-lhe a mão no ‘pé’ do ouvido que o mocotó levantou.
- Taí... Essa é pra você respeitar um homem preto...! Galego cor de merda! - Falou Manoel com o dedo em riste. Deu meia volta e saiu sem dizer pra que veio à padaria.
 O homem levantou, passou a mão nas nádegas e tratou de sair rápido do recinto. Sabia que se revidasse morreria ali mesmo. Pensou consigo: “Também, o que eu tenho a ver com a maneira de vestir daquele negrão?”.
Naquele dia Manoel bebeu enraivado. Pensava constantemente: “Porque não acabei com a vida daquele amaldiçoado. Estou ficando mofino?”. – Depois de circular por todos os cabarés da cidade do Assu Manoel retornou para casa já quase à noitinha.
O cavalo caminhava lento, conhecia o percurso de volta para casa como nenhum outro. Somente assim seria possível conduzir seu proprietário de volta à comunidade naquele estado de embriaguez.
Ao chegar a Juazeiro, Manoel foi direto para uma bodega que também vendia cachaça. Parou o cavalo e desceu com dificuldade. Sentou num tamborete e pediu:
- Seu Romão, uma dose de cachaça bem grande. Hoje eu quero afogar minhas mágoas.
Seu Romão trouxe a dose de aguardente e colocou sobre a única mesa do alpendre. Aproveitou a oportunidade para perguntar:
- Já passou em casa? Deixou a feira dos meninos?
- Que nada seu Romão. Hoje foi um dia de cão! – Respondeu Manoel depois que tomou a cachaça, dando uma cusparada no canto da parede.
- Homem, vá para casa, você já bebeu demais, amanhã tem que trabalhar – Aconselhou o velho bodegueiro.
- Acho que vou tomar seu conselho. O senhor sabia que eu estou ficando mofino? Hoje um sujeitinho inventou de me desafiar... O senhor acredita que ele está vivo? Pois está vivo! Eu estou ficando covarde... Frouxo.
Manoel pagou a dose e saiu em direção ao cavalo. Montou no animal ajudado por Seu Romão. Ao sair o alazão levantou as duas patas e recuou assustado. Manoel caiu. Seu Romão gritou:
- É uma cobra, cuidado!
Manoel se levantou cambaleando.
- Essa é a segunda praga que me desacata hoje. Essa eu mato! – E saiu aos tombos em perseguição à cobra. Na penumbra da noite, ao tentar apanhar um pedaço de pau, pegou no corpo da cobra. A serpente se sentindo ameaçada o picou.
Naquele desespero, Manoel sem conter a raiva segurou a cobra com as duas mãos, levou-a a boca e com uma dentada partiu-a em dois pedaços... Cuspiu o pedaço que estava à sua boca dizendo:
- Você me morde diabo, mas eu lhe toro no meio!... - Ao pronunciar esta frase Manoel foi caindo lentamente.
- Quem está ai? Onde estou? Por que este escuro? Estou cego? - Pergunta Manoel.
- Sou eu Maria, sua mulher... Você foi picado por uma cobra de cipó. Escapou, mas o médico acha que você não vai mais voltar a enxergar...   
Mesmo cego Manoel nunca deixou de usar roupa branca e de andar a cavalo. Algumas coisas mudaram: diminuiu o hábito de tomar cachaça; aproximou-se mais da família e transformou-se num homem sereno... Covarde e frouxo, nunca!
O médico diagnosticou certo. Manoel morreu aos 83 anos de idade sem voltar a ver a luz do sol.

Livro: Dez Contos & Cem Causos - Ivan Pinheiro 


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"De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?"

Mia Couto

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"De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?"

Mia Couto

De: Onde pousa as borboletas

Quando amanhecer na praia de Pititinga, litoral norte do RN, pescadores saem para a labuta marinha de apanhar peixes...

Alex Gurgel
Quando amanhecer na praia de Pititinga, litoral norte do RN, pescadores saem para a labuta marinha de apanhar peixes...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


O amor não é desta vida, vem sempre de um outro lugar, de um outro tempo,
Morta e renascida a alma que se reconhece, como se num espelho se olhasse…

(Simples-mente)
[Emílio Miranda]

" Assista ao documentário "Ao seu tempo" sobre ansiedade e suas complicações"


A espera por um evento ou situações cotidianas consomem a energia dos mais ansiosos. A pressa, nesse caso, chega a paralisar. O ritmo acelerado é insuficiente para dar conta de tudo e perde-se o sono, o apetite. Os pensamentos são tomados por uma preocupação excessiva com algo que ainda não ocorreu – mas que tenta antecipar - ou por medo sem explicação. A sensação é de aperto no peito, nó na garganta, gelo na barriga, mãos e pés suando, sentindo o coração bater mais rápido. Se você se identificou com estes sinais, calma! É hora de desacelerar e buscar ajuda médica. Pode ser que a ansiedade comum a todos passou ao patamar crônico e tornou-se um transtorno de ansiedade generalizada, mais conhecido como TAG. A diferença, segundo especialistas, está na intensidade dos sintomas e o limite que impõe à vida do indivíduo.


Tribuna do Norte

SOBRE PEDRO AVELINO DE ANTIGAMENTO


Título do blog.

ANTIGAMENTE

DEPOIS DAS DEZ DA NOITE

Por Marcos calaça, jornalista da UFRN

Naquela época, depois das 22 horas, a luz movida a diesel pelo velho motor da Força e Luz se apagava, por isso, maioria da população da nossa querida Pedro Avelino já estava no primeiro sono, no entanto, os boêmios nem estavam aí para as noitadas. Uns faziam da balaustrada e da praça do Country Club o ponto do bate papo, o encosto dos bêbados, o fuxico da vida alheia, as histórias de lobisomem e tudo mais que vinha na imaginação.

Se fosse em um final de semana, da sexta-feira para o sábado, aí o movimento dos que não tinham mais o que fazer virava os ponteiros do relógio lá para as duas horas da madrugada ou mais. Outros chegavam a ouvir o cantar dos galos dos quintais. Na verdade todo mundo criava galinhas e galos em quintais, para um bom ensopado à cabidela, prato muito apreciado pelos nossos patrícios.

Outro ponto era iniciar os primeiros acordes da serenata improvisada, através de grandes seresteiros que tivemos. Bons momentos, velhos tempos, belas noites sob a luz prateada do luar sertanejo.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS


Andrea Cristina e outros 3 amigos compartilharam a foto de Fabrício Carpinejar.
A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS

Fabrício Carpinejar

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça. 

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta. 

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa. 

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013. 

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada. 

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa. 

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio. 

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda. 

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa. 

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.  

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo? 

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.  

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal. 

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso. 

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.











Fabrício Carpinejar

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.


  COMO VIVER 13 ANOS A MAIS E SEM DEMÊNCIA Rosangela Haydem Um estudo publicado em agosto de 2026 trouxe um dado que merece a nossa atenção:...