quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ASSÚ

Por Renato Caldas

Assú de chapéu de palha!
Que luta... vive e trabalha
Somente para comer.
Assú que vive sofrendo
A própria dor escondendo
A angústia do seu viver!

Heróis, poetas, escritores
Boêmios e trovadores
Ilustraram tradições!
Que não serão sepultadas
Para serem proclamadas
Pelas novas gerações.

Meu Assú das vaquejadas!
Das noites enluaradas...
- Que gratas recordações! -
Cantigas feitas de sonhos
Dos seresteiros risonhos,
Conquistando corações.

Dança dos Congos, Lapinha,
Folguedos da argolinha,
Bumba meu boi! Pastoril
Eram brincos engraçados,
Hoje porém divulgados
De norte a sul do Brasil.

E, como o tempo é cruel!
Jogos de prenda... e anel
Ninguém sabe onde ficou?!
Sei eu, onde está guardado
O meu Assú do passado,
Minha saudade guardou

Barragem/Itajá
Barragem/Itajá, por Saionara Waguinho

MARIA AUXILIADORA, UMA PRESENÇA


Por Paulo Montenegro
"Na véspera da tentativa de Lampião entrar em Mossoró, na distante cidade de Assu, nascia Maria Auxiliadora Caldas Macedo.Vindo ao mundo de uma gravidez inesperada, já tinha seu destino traçado: O de não ter conhecido seu pai e conviver com o sofrimento da mãe (aleijada) durante toda sua vida. Filha do português João Macedo, que se arremediou em Assu vendendo alfinin e de Tereza Caldas dos Caldas de Sacramento hoje Ipanguaçu, esta, não presenciou a saída do marido acompanhado da mulher do juiz da cidade para nunca mais voltar, deixando para trás uma filha na barriga, várias propriedades (Farol, Mutamba, Cumbe, Recreio), ruas de casa no Assu, uma pequena fortuna, vivendo no Recife até 1936.

Moreno, meu filho tem o nome de nossa raça, nossa latinidade, Mas Maria Tereza minha filha carrega o seu nome, o de sua mãe e o de Maria Angelita de Carvalho (Hinha), que veio de Tapera hoje Triunfo para cuidar das duas, a partir de 1927.

Católica, mas não apostólica, nem romana, sempre achava que a benção fosse uma formalidade, porque o respeito para ela sempre foi uma questão de atitude. Não sei se ela é uma mulher do seu tempo, só sei que ela é simplesmente Maria. Calma por natureza e com os princípios fundamentais da vida nunca a vi cometer nenhum dos pecados convencionais ou capitais. Mulher sem preconceito, honesta, com um amor pela vida tão profundo de fazer inveja a morte. Posso citar, em vários episódios, dezenas de exemplos de sua postura (ética), seja no âmbito familiar, político ou no cotidiano. Em todas as suas interferências lá estava Maria Auxiliadora com sua opinião carregada de dignidade.

Em 1946, casa-se com seu primo filho do Major Montenegro, que veio doutor de Lavras para casar com Maria Auxiliadora e ser político na região do Vale do Assu, Edgard Montenegro. Agora, como coadjuvante, vivendo um outro momento, entre a inteligência dos Caldas e a importância dos Montenegros, continuou pontuando sua vida perseguindo a Paz e a Justiça, binômio que conjugou em toda sua trajetória.

A arte e a natureza, foram suas duas grandes paixões. Uma vez em 1989 fomos ao centro de convenção assistir a um teatro de dança contemporânea. Na volta para casa ela me disse: "A arte é quem vai salvar o mundo". Aí me chegou a comprovação de que na política, faltam muitos ingredientes para que o jogo do poder seja o caminho das transformações sociais.

Hoje, sua cidadania é representada por sua filha Rejane Maria, que nasceu também em Assu em 1956 pelas mãos hábeis do doutor Sales, quando ainda não tinha maternidade.

Há oito anos dirigida pelas mãos dos outros (Delmira, Graça, Telúzia, Maria Selma, Dona Edite, família) ainda assim comanda sua casa. E a cada dia mais debilitada, andando menos, falando menos, nunca vi reclamar de nada, como também nunca vi ninguém se dirigir a ela com sentimento de pena. Quando André, neto de Dona Janoca, vinha a sua casa todas as manhãs ela encontrava motivos para viver, E quando Arlete, filha de Aldenoura, vem todas as tardes em sua casa passando para a padaria seu olhar brilha e emociona quem passa pela Floriano. Toda codificação da linguagem ela perdeu, mas sua consciência lhe deixa em pé. Em pé de igualdade para com a vida.

As borboletas e os canários amarelos do farol seus companheiros de toda infância, não são mais uma prova de sua presença. Mas o flambyant vermelho plantado por Pau de Lenha, o eco da pancada do Machado de Pedro de Melo e os oitizeiros da Floriano Peixoto são testemunhas que por aqui vive uma mulher forte e corajosa.

Ainda espero vê-la sorrir. Talvez na possibilidade de voltar a sua terra e pisar o chão do farol, onde tudo começou. Um sorriso, igual aquele de Telê Santana, quando do gol de Rair, se tornando campeão do mundo na década de 90. E cumprindo um ditado que sempre defendeu, concluo esse simples artigo, nem alegre nem triste, que escrevo com seus óculos (hoje meu), molhando o rascunho desse texto com lágrimas de orgulho."

O violinista solitário


“Um homem sentou-se numa estação de metrô de Washington DC e começou a tocar violino, era uma fria manhã de Janeiro; Ele tocou seis peças de Bach durante aproximadamente 45 minutos. Durante esse tempo, já que era hora de ponta, calcula-se que cerca de 1,100 pessoas atravessaram a estação, a sua maioria, a caminho do trabalho.

Três minutos passaram quando um homem de meia idade notou que o músico estava a tocar, abrandou o passo e parou por alguns segundos, mas continuou depois o seu percurso para não chegar atrasado.

Um minuto depois, o violinista recebeu o seu primeiro dólar, uma senhora atirou o dinheiro sem sequer parar e continuou o seu caminho.

Alguns minutos depois, alguém se encostou à parede para o ouvir, mas olhando para o relógio retomou a marcha. Estava claramente atrasado para o trabalho.

Quem prestou maior atenção foi um menino de 3 anos. A mãe trazia-o pela mão, apressada, mas a criança parou para olhar para o violinista. Finalmente, a mãe puxou-o com mais força e o miúdo continuou a andar, virando a cabeça várias vezes para ver o violinista. Esta ação foi repetida por várias outras crianças. Todos os pais, sem exceção, obrigaram as crianças a prosseguir.

Nos 45 minutos em que o músico tocou, somente 6 pessoas pararam por algum tempo. Cerca de 20 deram-lhe dinheiro mas continuaram no seu passo normal. Ele recoletou cerca de 32 dls. Quando ele parou de tocar e o silencio tomou conta do lugar, ninguém se deu conta. Ninguém aplaudiu, nem houve qualquer tipo de reconhecimento.

Ninguém sabia que este violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele tocou algumas das peças mais elaboradas alguma vez escritas num violino de 3,5 milhões de dólares.

Dois dias antes de tocar no metro, Joshua Bell esgotou um teatro em Boston, onde cada lugar custou em média 100 dls.

Esta é uma história real, Joshua Bell tocou incógnito na estação de metrô num evento organizado pelo Washington Post que fazia parte de uma experiência social sobre percepção, gostos e prioridades.

O outline era: num lugar comum, numa hora inapropriada: Somos capazes de perceber a beleza? Paramos para a apreciar? Reconhecemos o talento num contexto inesperado?

Uma das possíveis conclusões que se podem sacar desta experiência podem ser: Se não temos um momento para parar e escutar a um dos melhores músicos do mundo tocar algumas das músicas mais bem escritas de sempre, quantas outras coisas estaremos perdendo?”
O violinista solitário

“Um homem sentou-se numa estação de metrô de Washington DC e começou a tocar violino, era uma fria manhã de Janeiro; Ele tocou seis peças de Bach durante aproximadamente 45 minutos. Durante esse tempo, já que era hora de ponta, calcula-se que cerca de 1,100 pessoas atravessaram a estação, a sua maioria, a caminho do trabalho.

Três minutos passaram quando um homem de meia idade notou que o músico estava a tocar, abrandou o passo e parou por alguns segundos, mas continuou depois o seu percurso para não chegar atrasado.

Um minuto depois, o violinista recebeu o seu primeiro dólar, uma senhora atirou o dinheiro sem sequer parar e continuou o seu caminho.

Alguns minutos depois, alguém se encostou à parede para o ouvir, mas olhando para o relógio retomou a marcha. Estava claramente atrasado para o trabalho.

Quem prestou maior atenção foi um menino de 3 anos. A mãe trazia-o pela mão, apressada, mas a criança parou para olhar para o violinista. Finalmente, a mãe puxou-o com mais força e o miúdo continuou a andar, virando a cabeça várias vezes para ver o violinista. Esta ação foi repetida por várias outras crianças. Todos os pais, sem exceção, obrigaram as crianças a prosseguir.

Nos 45 minutos em que o músico tocou, somente 6 pessoas pararam por algum tempo. Cerca de 20 deram-lhe dinheiro mas continuaram no seu passo normal. Ele recoletou cerca de 32 dls. Quando ele parou de tocar e o silencio tomou conta do lugar, ninguém se deu conta. Ninguém aplaudiu, nem houve qualquer tipo de reconhecimento.

Ninguém sabia que este violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele tocou algumas das peças mais elaboradas alguma vez escritas num violino de 3,5 milhões de dólares.

Dois dias antes de tocar no metro, Joshua Bell esgotou um teatro em Boston, onde cada lugar custou em média 100 dls.

Esta é uma história real, Joshua Bell tocou incógnito na estação de metro num evento organizado pelo Washington Post que fazia parte de uma experiência social sobre percepção, gostos e prioridades.

O outline era: num lugar comum, numa hora inapropriada: Somo capazes de perceber a beleza? Paramos para a apreciar? Reconhecemos o talento num contexto inesperado?

Uma das possíveis conclusões que se podem sacar desta experiência podem ser: Se não temos um momento para parar e escutar a um dos melhores músicos do mundo tocar algumas das músicas mais bem escritas de sempre, quantas outras coisas estaremos perdendo?”

terça-feira, 29 de janeiro de 2013


CONTO

A COBRA
 
A comunidade de Juazeiro era para alguns de seus moradores o local ideal para se viver. Lá dinheiro não tinha muito valor, especialmente para os homens. Uma questão cultural. O macho que não gastasse tudo que ganhasse durante a semana no final da mesma, não era homem com H. Era manicaca, palerma, manobrado pela mulher. Se fosse solteiro era viado.
 O pescador Manoel era um dos que cultuava esta prática. Se o rendimento fosse um pouco maior passava até uma semana na esbórnia... Acordava de madrugada, selava e colocava os arreios no cavalo alazão - seu maior patrimônio, além de uma mulher e cinco filhos, aliás, uma “escadinha” onde o mais velho tinha oito anos – e rumava para a cidade. Parecia um doutor. Roupa branca, chapéu de massa preto, botas pretas com esporas prateadas. No braço um chicote de couro cru e sobre a sela do animal uma coxa macia confeccionada de retalhos brancos. Um revólver 38 na cintura e uma faca peixeira de 12 polegadas completavam a indumentária. 
 Quando Manoel chegava à feira livre do Assu, os feirantes ainda estavam organizando seus produtos para iniciarem a comercialização. Parava seu alazão debaixo dos pés de fícus localizados por trás da Matriz e dirigia-se para o Mercado. Na primeira bodega que abria ele já pedia uma dose de aguardente e solicitava ao proprietário guardar o coxim. Enrolado neste, ele entregava o revólver e dizia com ênfase:
- cuidado com este “coxim”, mais tarde eu pego!
 Manoel quando estava embriagado era metido a namorador, arruaceiro... Violento. Uma particularidade: sóbrio ou bêbado pagava bebida pra “gato e cachorro”.
 Certo dia, já meio embriagado, Manoel foi adentrando na Padaria Santa Cruz - de propriedade de Solon, quando ouviu, de soslaio:
- Um negro desse só quer ser doutor, só anda de branco...
 Manoel não procurou ouvir mais nada, mudando de rota, foi até o desafeto e sentou-lhe a mão no ‘pé’ do ouvido que o mocotó levantou.
- Taí... Essa é pra você respeitar um homem preto...! Galego cor de merda! - Falou Manoel com o dedo em riste. Deu meia volta e saiu sem dizer pra que veio à padaria.
 O homem levantou, passou a mão nas nádegas e tratou de sair rápido do recinto. Sabia que se revidasse morreria ali mesmo. Pensou consigo: “Também, o que eu tenho a ver com a maneira de vestir daquele negrão?”.
Naquele dia Manoel bebeu enraivado. Pensava constantemente: “Porque não acabei com a vida daquele amaldiçoado. Estou ficando mofino?”. – Depois de circular por todos os cabarés da cidade do Assu Manoel retornou para casa já quase à noitinha.
O cavalo caminhava lento, conhecia o percurso de volta para casa como nenhum outro. Somente assim seria possível conduzir seu proprietário de volta à comunidade naquele estado de embriaguez.
Ao chegar a Juazeiro, Manoel foi direto para uma bodega que também vendia cachaça. Parou o cavalo e desceu com dificuldade. Sentou num tamborete e pediu:
- Seu Romão, uma dose de cachaça bem grande. Hoje eu quero afogar minhas mágoas.
Seu Romão trouxe a dose de aguardente e colocou sobre a única mesa do alpendre. Aproveitou a oportunidade para perguntar:
- Já passou em casa? Deixou a feira dos meninos?
- Que nada seu Romão. Hoje foi um dia de cão! – Respondeu Manoel depois que tomou a cachaça, dando uma cusparada no canto da parede.
- Homem, vá para casa, você já bebeu demais, amanhã tem que trabalhar – Aconselhou o velho bodegueiro.
- Acho que vou tomar seu conselho. O senhor sabia que eu estou ficando mofino? Hoje um sujeitinho inventou de me desafiar... O senhor acredita que ele está vivo? Pois está vivo! Eu estou ficando covarde... Frouxo.
Manoel pagou a dose e saiu em direção ao cavalo. Montou no animal ajudado por Seu Romão. Ao sair o alazão levantou as duas patas e recuou assustado. Manoel caiu. Seu Romão gritou:
- É uma cobra, cuidado!
Manoel se levantou cambaleando.
- Essa é a segunda praga que me desacata hoje. Essa eu mato! – E saiu aos tombos em perseguição à cobra. Na penumbra da noite, ao tentar apanhar um pedaço de pau, pegou no corpo da cobra. A serpente se sentindo ameaçada o picou.
Naquele desespero, Manoel sem conter a raiva segurou a cobra com as duas mãos, levou-a a boca e com uma dentada partiu-a em dois pedaços... Cuspiu o pedaço que estava à sua boca dizendo:
- Você me morde diabo, mas eu lhe toro no meio!... - Ao pronunciar esta frase Manoel foi caindo lentamente.
- Quem está ai? Onde estou? Por que este escuro? Estou cego? - Pergunta Manoel.
- Sou eu Maria, sua mulher... Você foi picado por uma cobra de cipó. Escapou, mas o médico acha que você não vai mais voltar a enxergar...   
Mesmo cego Manoel nunca deixou de usar roupa branca e de andar a cavalo. Algumas coisas mudaram: diminuiu o hábito de tomar cachaça; aproximou-se mais da família e transformou-se num homem sereno... Covarde e frouxo, nunca!
O médico diagnosticou certo. Manoel morreu aos 83 anos de idade sem voltar a ver a luz do sol.

Livro: Dez Contos & Cem Causos - Ivan Pinheiro 


♥♪ ⊱✿◕‿◕✿⊰♪♥♥♪ ⊱✿◕‿◕✿⊰♪♥

"De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?"

Mia Couto

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"De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?"

Mia Couto

De: Onde pousa as borboletas

Quando amanhecer na praia de Pititinga, litoral norte do RN, pescadores saem para a labuta marinha de apanhar peixes...

Alex Gurgel
Quando amanhecer na praia de Pititinga, litoral norte do RN, pescadores saem para a labuta marinha de apanhar peixes...

 REVISTA SIUZA CRUZ, RIO DE JANEIRO