O poeta boêmio e bonachão Renato Caldas era funcionário público aposentado pelo
Poder Judiciário do Rio Grande do Norte (Fórum João Celso Filho, da Comarca do Assu) por onde recebia um miserável salário,
apesar da influência que tinha com grandes nomes da vida social, literária e
política da terra potiguar. Pois bem, certa vez, sem dinheiro pra beber, Renato
resolveu vender uma lâmpada Coleman (lampião a querosene então muito usado no
Nordeste brasileiro, nos lugares onde não tinha luz elétrica). Fato este
comunicado a sua mulher chamada Fausta, que logo se dirigiu ao armazém de Amaro
Sena, vizinho a sua casa da praça Pedro Velho, da cidade de Assu, para prevenir
aquele comerciante que não comprasse o lampião se Renato chegasse a lhe
oferecer. Dito e feito. Renato foi ao armazém de Amaro e, ao chegar naquele
estabelecimento comercial ofereceu aquele objeto por três mil cruzeiros (moeda
da época). "Quero não Renato, disse Amaro". "Homem me compre
esse lampião!" Com muita insistência Amaro resolvei satisfazer o desejo do
poeta, da seguinte forma: mil cruzeiros avista e o restante em duas
prestações: trinta e sessenta dias. Negócio fechado, Renato recebeu os mil
cruzeiros e, no primeiro cabaré que chegou gastou todo o dinheiro com bebidas
e mulheres, claro. Sem mais dinheiro pra gastar, querendo dá continuidade a sua
vida boêmia voltou ao armazém de Amaro, solicitando dele um
adiantamento de mil cruzeiros, referente a primeira parcela vincenda. Não
podendo ser atendido, vingou-se colocando de manhã cedinho um papel de cigarros por debaixo da porta, com a seguinte inscrição em forma de versos (sextilha), que diz assim:
Caro amigo Amaro Sena
Sei que você tem pena
Da minha situação
Eu sou um amigo raro
Fiz você ficar no claro
E fiquei na escuridão.
De outra feita, Renato Caldas pedira a Amaro Sena (que administrava uma das
propriedades agrícolas de seu pai Antão Sena, localizado no Farol, zona rural
próxima à cidade de Assu), um carneiro que desejava matar e comer tomando
umas e outras, no dia do seu aniversário que se avizinhava. Amaro se
comprometeu em atender o pedido de Renato e, quando já se passava três
dias da promessa chega Amaro na casa de Renato com o animal prometido.
Renato com aquele seu jeitão matuto, baforando o seu inseparável cigarro de
palha, ironizou ao vistoriar aquele animal, dizendo: "Amaro. Antão (pai de
Amaro) não vai tomar, não?" "Besteira, homem, tá dado e
pronto!". Como ele não perdia as oportunidades para produzir um versinho
jocoso, mandou brasa, conforme transcrito adiante:
O Bode que Amaro me deu,
Só tem cabeça, chifre e colhão
Bem cedinho eu vou matar
O bode que Amaro me deu
Sei que isso aconteceu
Porque houve intervenção
O que chamou atenção
É que o presente de Amaro
É um aleijado raro:
Só tem cabeça, chifre e colhão.
(As estórias acima, me fora contadas pelo assuense Amarilson Sena, filho de
Amaro Sena)
Walter Leitão quando prefeito do Assu (1972-75), juntamente com Amaro Sena vistoriava a periferia da cidade assuense num Jipe de sua propriedade. Ao
se aproximar da Bueira, bairro então periférico daquele município, Amaro teve
que desviar o veículo que conduzia, pois uma enorme vala impedia a passagem de automóveis,
tendo que passar por dentro de um campo de futebol daquela comunidade. Naquela
ocasião realizava-se uma partida futebolística entre as equipes do Palmeiras
(lembrar os irmãos Clóvis e Damião) versus Granja, de Assu. Foi aí que um
dos jogadores (Walter era portador de uma calvície desde a sua juventude),
gritou indignado pela breve interrupção do jogo, dizendo aos gritos, de tal
modo: “Prefeito cabeça de ‘pica’. Walter irritou-se, pediu a Amaro que parasse aquele
veículo, pois desejava replicar. Amaro, calmamente advertiu ao amigo: “Homem,
deixe pra lá”! Walter pensou, repensou e, voltando ao seu bom humor, saiu-se
com essa: “É mesmo, Amaro. Vamos embora. Eu sou isso mesmo e pronto!"
Luiz de Rosa era comerciante em Assu, onde foi proprietário de hotel, além de negociante
de cereais. Ele andou todo o Rio Grande do Norte conduzindo um caminhão lotado
de mercadorias: Açúcar, feijão, etc, para vender nas feiras livres por onde
chegasse. Luiz era farrista inveterado, gastava todo o dinheiro que ganhava no
jogo de cartas (baralho) e com mulheres de vida fácil. Já adiantado na idade, frequentava
o bar e mercearia de Chico do Boi, no Centro da cidade de Assu, onde, certo dia, deixou um 'pendura', umas cervejas pra pagar posteriormente, logo que
saísse o pagamento da sua aposentadoria. Passaram-se dias, meses, anos e nada
de Luiz quitar a dívida com Chico do Boi que, ao vê-lo passar em frente ao seu
estabelecimento comercial, não perdeu a oportunidade: "Seu Luiz. Tem um
negócio aqui do Senhor". Disse Seu Chico em voz alta. Luiz não se fez de rogado: "Pode ficar pro
Senhor mesmo, Seu Chico". E Luiz de Rosa continuou ligeirinho a sua
caminhada.
Ainda sobre Luiz de Rosa (ele era aposentado pelo FUNRURAL - Fundo de Amparo ao
Trabalhador Rural, recebia um valor praticamente irrisório, não representava
quase nada para quem viveu toda a sua juventude e parte da maturidade vida de riqueza,
recheada de orgia, farras intermináveis. Foi quando Walter Leitão lhe fez o
convite para trabalhar na agricultura, plantar de meia, na sua propriedade
agrícola. Pois bem, inverno
chegando, Luiz em conversa amistosa nos alpendres daquela fazenda perguntou a seu novo patrão: "Compadre Walter. O inverno tá chegando, o
que é que nós vamos plantar?" Walter que não estava de bom humor respondeu com aquela irreverência que lhe era peculiar: ‘Pica’ Luiz! Vamos
plantar Pica!" Luiz não se deu por calado: "Compadre Walter. Plantar
eu planto! Mas, não colho!”.
Fernando Caldas