segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Esta vida

Por Guilherme de Almeida

Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa; 
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.


Guilherme de Almeida

                                          Do blog: https://carnaubaisparatodos.blogspot.com/
A vida cumpre os seus ciclos. Nenhuma dor é para sempre! Depois de cada inverno a primavera volta! 


Helena Tannure

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

"Já aconteceu alguma vez de você procurar um lápis e estar com ele na mão? Pois algo semelhante acontece com a felicidade."


CALDAS
Hoje, 1/8, há exatamente 130 anos, nascia em Goianinha, região agreste ao sul do litoral do Rio Grande do Norte, o menino que veio a se chamar João Lins Caldas. Seu pai também chamado João Lins Caldas explorava a agricultura em terra goianense, bem como chegou a ser nomeado interinamente Promotor Público da Comarca daquele importante município, e sua mãe Josefa Leopoldina Lins Caldas natural de Goianinha era de tradicional família (Torres Galvão).
Caldas viveu o sudeste do Brasil (Rio de Janeiro e Bauru-SP) entre 1912-33, convivendo com grandes vultos das letras nacionais como, por exemplo, José Geraldo Vieira, considerado um dos precursores do romance moderno brasileiro.
Autor compulsivo, não conseguido publicar-se, retorna em 1933 a cidade de Assu/RN, terra dos seus ancestrais paternos, onde antes teria vivido parte da sua infância e começo da juventude, para viver parte da sua vida adulta e morar com sua mãe e depois sozinho até morrer numa manhã de 19 de maio de 1967.
Em 1936, já estando em terras assuenses, é surpreendido por José Geraldo que o colocou como personagem principal, na segunda fase do seu romance urbano intitulado Território Humano, encarnado no personagem '”Cássio Murtinho”.
Outro fato importante que engrandece a sua trajetória ocorreu, salvo engano, na década de quarenta, pois o célebre poema de sua autoria sob o titulo ‘Minha dor na grande guerra’, teria sido lido através da rádio britânica BBC, um feito que poucos poetas brasileiros conseguiam, para orgulho do poeta e a terra potiguar.
A propósito do referenciado poema, depõe o poeta norte-rio-grandense João Celso Neto conforme transcrito adiante:
“Sempre soube que um de seus poemas fora lido na BBC de Londres, “A minha dor nas dores da grande guerra”. É causa de admiração constatar que aquele poeta, nos rincões perdidos do Nordeste, demonstrava sua cultura, como dizer que maior que a dor pela segunda grande guerra era a que sentia pelo fim que levara Chénier, guilhotinado pelos que ajudara a fazer a Revolução Francesa.”
Por fim, transcrevo abaixo, para o nosso deleite, o citado poema de Caldas a quem o Brasil, como insinua Vicente Serejo, “deve um gesto merecido de consagração”.
A minha não é, na grande guerra, a dor de todo o sangue que foi derramado.
Nem a das casas desmoronadas,
Nem a dos barcos perdidos
Nem dos bois, os campos talados,
Nem a do trigo,
Nem a dos ferros em sacrifícios sacrificados,
Cruzes ao chão, os cemitérios estilhaçados.
Nada, não.
A minha dor nas dores da grande guerra, não é, verdadeiramente a dor de todo o sangue que foi derramado.
Nem a dos inocentes que foram trucidados,
Nem a das virgens que foram violadas,
Nem a dos velhos,
Nem a dos moços,
Nem a da fome pelos estômagos enfraquecidos e depauperados,
Nem a dos que afundados no mar,
Nem a dos que, estilhaçados, ainda para se espedaçarem na terra,
Nem a de todos os filhos,
Nem a de todas as mães,
Nem a de todas as noivas nos seus anseios e nas suas saudades,
Nem a da irmã para o irmão,
Nem a do amigo para o amigo,
Nada, não.
A minha dor nas dores da grande guerra, não é, verdadeiramente, a dor de todo o sangue que foi derramado.
Nem a da sede, nas ressequidas gargantas, cheias de febre,
Nem a do frio, sob as trincheiras, os homens para se verem tiritantes e desabrigados...
Nada, não.
Chénier decapitado pela maldade dos homens,
Pela inconsciência da maldade dos homens,
Pela inveja, no desvario todo de toda sua maldade,
E a ignorância de sua avareza,
E a sua pobreza toda de espiritualidade,
Nada em nada da menor grandeza;
A minha dor nas dores da grande guerra é a dor dos cérebros que foram trucidados,
Dos Chénier que nada deram e que tudo sentiram para dar,
Daqueles que sentiam o mar,
Daqueles que sentiam a terra,
E que sentiam o céu, o céu para todo deles se desdobrar,
O céu que era neles tudo de todas as estrelas
E que deles para se refletir como as estrelas se refletem para o mar.
Postado por Fernando Caldas

terça-feira, 31 de julho de 2018

Diário-Novenário Vespertino do Assu "A MUTUCA". Anno I. Assu, 18 de junho de 1918.
Completou, nesse ano de 2018, 100 anos do quinto número da edição do "A MUTUCA". Adiante, uma notícia da festa de junho daquele ano:
A FESTA SAN JOANESCA
Continuam bem animadas as festas ao nosso glorioso Padroeiro São João Baptista. Hontem (5 noite) dos negociantes foi de realce, havendo uma estrondosa salva de foguetões, fogos de vista e um leilão em benefícios dos serviços que vão ser iniciados na Igreja do Rosário.

Pedro Otávio Oliveira
*Mote*
*No banquete infeliz da desventura,*
*Sinto a fome do amor que se desfez.*
*Glosa*
Nossa vida era só felicidade
O amor para nós sempre sorria
Nossos dias eram sempre de alegria
O amor era de cumplicidade
Mas, um dia a inveja por maldade
Acabou nossa vida de uma vez
No orgulho da minha insensatez
Promovi uma festa de loucura
*No banquete infeliz da desventura*
*Sinto a fome do amor que se desfez.**
Dedé de Dedeca.
Das primeiras linhas de uma glosa de Heliodoro Morais, criei o mote e fiz esta glosa./

Do blog: Dedé de Dedeca é o apelido de Lindomar paiva que foi funcionário do Banco do Brasil de Assu).

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Pequeno, feio, antipático, chato, besta, prepotente, arrogante. Tudo isso já se disse de mim. Agora, de ladrão ninguém nunca me chamou.

Geraldo Melo, pré candidato a senador - PSDB

Usaram seu cartão? O banco poderia ter evitado essa dor de cabeça


João Antônio Motta
30/07/2018 04h00

Não é de hoje que as pessoas em geral se veem às voltas com o problema de débitos indevidos, seja por clonagem de cartões, seja por fraude em contas correntes, seja por qualquer artimanha da bandidagem.
Há anos tenho um cartão de crédito de certo banco internacional, desde quando "gold" era o fino da bossa, e quando o "fino da bossa" era uma expressão usual (pode-se ver que faz tempo). Se é feita qualquer operação fora de meu perfil de compras ou débitos, o cartão simplesmente é bloqueado. Imediatamente, a central de relacionamento me envia mensagens de texto por todos os canais possíveis e imagináveis, manda e-mail e ainda liga para os telefones residencial, comercial e celular.
É chato, muito chato. Mas nunca, em momento algum, tive qualquer problema com débitos indevidos neste cartão, ao qual devoto uma fidelidade canina.
Pois bem, este tipo de cerco à fraude não é nenhum caso de outro mundo a ser desvendado e, a bem da verdade, é decorrente de um sistema de interação banco/cliente muito comum. O banco,  por meio de programas de computador, diariamente varre sua vida, verifica o que você compra, onde compra e como compra.
A imagem abaixo mostra como o banco acompanha a utilização de um cartão: 
Como se verifica com exatidão, o banco sabe exatamente o que você consome, onde usualmente consome e qual o gasto com cada item. No caso acima, por exemplo, uma compra de R$ 3.000 em alimentação deveria soar o alarme.
Esse tipo de situação, via de regra, é controlada por algoritmos, que, apesar do nome, nada mais são do que a "receita do bolo". Um algoritmo é uma instrução, uma receita, que mostra passo a passo os procedimentos necessários para a resolução de uma tarefa. Segundo o dicionário Michaelis, algoritmo é o "conjunto de regras e operações e procedimentos, definidos e ordenados usados na solução de um problema, ou de classe de problemas, em um número finito de etapas".
Dessa forma, basta o banco informar ao computador que seu cliente compra tal e qual determinadas coisas e autoriza tais e quais débitos e que, se ocorrer algo fora do padrão, deve imediatamente bloquear o cartão e entrar em contato com o cliente.
Com esse procedimento simples, os bancos poderiam evitar enormes gastos com ações, que, sem exceção, os condenam a pagar danos materiais e  indenizações por tais débitos e, não raro, danos morais, seja por alguma situação vexatória enfrentada pelo cliente ou por cobranças abusivas posteriormente desencadeadas por um débito que poderia ser evitado.

UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO