Meu patrão, essa é a verdade: O véio num tem vontade... Nem faz tudo quanto qué! Os fio é quem manda nele. Inté nas coisa que é dele, Quem manda mais é a muié.
- Quando aperta a cruviana E o frio véio se dana, A muié toma o lençó; Adespois, só de marvada num dá nem uma beirada... E o véio, qui druma só.
O véio fica gemendo, grunindo, se mardizendo Sem uma garra de lençó. Com uma dô nas canela! Grunindo qui nem cadela, Inté o saí do Só.
Se tem baile, o véio vai. Tem qui i - pruque é pai E tem qui se apresentá. Chega lá, fica assentado... É o papé mais safado Qui o home pode chegá.
Cada fia, um namorado Num nogento xixinado! A dança? Num é dança não. É aquela esfregadeira, Num se dança uma rancheira, Uma varsa, um xóte ou baião.
Num se vê um engravatado. É um bando de Pé rapado Qui só sabe arrufiá. A burundanga é tão feia! Nem o salão tem candeia Pru forró alumiá.
- Orilo Danta é quem diz: "Ah! tempo véio feliz Dos namorados no bêco... Aproveitando a rebarba... E os véio, sujando a barba Cum a goma do dôce sêco."
Hoje é sujando a vergonha. In vez de cana é maconha... Home faz vez de muié! Usa cabelo cumprido E pu riba o atrevido Inda confessa o qui é.
Deus é Pai, num é padrasto! - Nem sempre a luz de um astro Clareia a lama do chão... Morrendo o respeito humano, Nem mesmo por um engano Se pode têr sarvação.
A cunversinha tá boa! Porém, um vento de prôa Pode nos atrapaiá. Quem cunversa, muito erra E a água que imbebe a terra É a mesma qui vai pro Má.
Tudo quanto hoje recramo: É fulô, é fruita é ramo! Nasceu da mesma raiz. Para falá a verdade: São coisas da mocidade... Tudo isso eu também fiz.
No teu corpo é que eu me encontro.
Depois do amor o descanso
e essa paz infinita.
No teu corpo minhas mãos deslizam
e se firmam numa curva mais bonita.
No teu corpo o meu momento é mais perfeito
e eu sinto no teu peito o meu coração bater.
É no meio desse abraço
que eu me enlaço e que me entrego.
E continuo a viagem perdida nessa paisagem
onde tudo me fascina.
Deixo-me ser levada por um caminho encantado
que a natureza me ensina.
E embora eu conheça bem os teus caminhos
deixo-me envolver pelos teus carinhos.
E é ai que me encontro
quando me perco no teu corpo.
CC, poetiza portuguesa
Namôro Véio
Por Renato Caldas
A lua vinha cantando,
Suas canção pratiada!
Parô tão disfugurada...
Ficô oiando pru Má
E o Má sortando um gemido
Limpô os óio no vestido
Pratiado de Luá.
Ruas enfeitadas, festas por todos os lados, emoção à flor da pele,
demonstrações de “patriotismo”: no Brasil e em muitos países, a cada
quatro anos, vemos repetir-se a força de mobilização de uma Copa do
Mundo de Futebol, cujas finais, que atualmente contam com 32 seleções
nacionais, envolvem mais público, movimentam mais recursos e angariam
mais prestígio do que os Jogos Olímpicos, outro grande evento esportivo
que reúne mais de 20 modalidades.
As primeiras ideias de organizar uma competição mundial de futebol
surgiram em 1905, em um cenário em que havia muitas iniciativas de
criação de movimentos internacionais (escotismo, esperanto, Cruz
Vermelha, jogos olímpicos, entre outros). As iniciativas, todavia, não
chegaram a se concretizar por questões operacionais ou políticas, como a
Primeira Guerra Mundial.
Somente a partir da década de 1920, quando a FIFA (Federação
Internacional de Futebol Association, órgão máximo da modalidade, criada
em 1904) era dirigida por Jules Rimet, houve esforços mais sistemáticos
no sentido de operacionalizar a proposta, que culminaram com a
organização da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai, graças em
grande parte ao desempenho da diplomacia do país-sede.
Ao contrário dos Jogos Olímpicos, organizados por cidades, as Copas
do Mundo sempre foram promovidas por países. Do primeiro torneio, apenas
14 equipes nacionais participaram, sendo nove do continente americano e
cinco do europeu.
Naquela ocasião, provavelmente não se imaginava que a competição iria
crescer de tal forma que envolveria praticamente todos os países do
mundo. Vale citar que a FIFA possui mais associados do que a Organização
das Nações Unidas (ONU). Também no Brasil, essa primeira edição não
teve grande impacto, inclusive pelo fato de a equipe representativa ser
fruto de uma cisão entre paulistas e cariocas.
A seleção brasileira obteve um modesto sexto lugar. O Uruguai foi o
campeão, o que não surpreendeu por sua condição de bicampeão olímpico
(1924 e 1928) e país-sede.
A segunda edição do evento foi realizada em 1934, na Itália. A
competição começava a tornar-se mais popular, tendo sido inscritas 32
seleções para 16 vagas, tornando necessária a organização de
eliminatórias. Tal Copa coincide com o avanço do fascismo na Itália, bem
como de regimes autoritários na Alemanha, na Espanha e Portugal. Foi
concebida por Mussolini como uma forma de provar ossupostos avanços
possibilitados pelo novo regime. Até mesmo facilitou-se a naturalização
de estrangeiros, a fim de fortalecer a seleção italiana. Curiosamente,
um brasileiro, Anfilogino Guarisi, foi campeão jogando pela equipe da
casa.
Os torcedores brasileiros somente se empolgaram com a Copa do Mundo a
partir de 1938, realizada na França. Com os problemas de organização no
futebol nacional bastante amenizados, em função da intervenção
governamental (já em pleno Estado Novo), enviou-se uma equipe forte, que
contou com grande apoio popular. O Brasil conquistou o terceiro lugar,
tendo uma participação bastante destacada: perdeu a semifinal para a
Itália, um jogo bastante controverso por problemas de arbitragem.
Leônidas da Silva foi o artilheiro da competição.
Deve-se ter em conta que, no cenário brasileiro, o futebol começava a
ser mais comumente mobilizado como elemento discursivo na construção de
uma identidade nacional, inclusive por uma reabilitação dos fenômenos
culturais considerados mestiços, momento que tem como uma importante
marca a difusão das ideias de Gilberto Freyre.
Algo que contribuiu e foi mesmo fundamental para o crescimento da
popularidade do futebol e das Copas foi a atuação dos meios de
comunicação. No Brasil, se em 1930 os torcedores tinham de esperar pelas
notícias nas redações dos jornais, em 1938 já era possível acompanhar
os jogos pelo rádio e também se podia assistir posteriormente às
partidas nos cinemas.
Waldir
Pereira, o Didi, bicampeão mundial de futebol em 1958 e 1962, apertando
a mão do Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira –
Fonte – Arquivo Nacional.
Em 1958, os jogos já podiam ser acompanhados pela televisão, sempre
alguns dias depois de sua realização. Ao vivo, isso somente se tornou
possível a partir da Copa de 1970. Nessa ocasião, fora introduzido o
recurso do replay e, no decorrer do tempo, cada vez mais inovações
tecnológicas marcariam as coberturas esportivas. A transmissão dos jogos
tornou-se um verdadeiro espetáculo, transmitido por muitas emissoras de
todo o mundo, que pagam direitos caríssimos e buscam a todo custo
conquistar o público.
A Copa do Mundo é o evento líder mundial de audiência televisiva. Na
última edição do evento, realizada no Brasil, em 2014, estima-se que
houve cerca de 4,5 milhões de espectadores por partida, média superior à
obtida na África do Sul.
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, conversando com Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha – Fonte – Arquivo Nacional.
Vários recordes mundiais foram também quebrados nos outros meios de comunicação, inclusive na internet.
Aproximadamente 1 bilhão de torcedores acompanharam on-line os jogos
pelo site da FIFA No Brasil, se em 1938 o interesse foi grande, a Copa
do Mundo tornou-se mesmo uma febre quando o país organizou a edição de
1950, construindo para tal o que na época seria o maior estádio do mundo
e que ainda hoje, já bastante modificado por reformas recentes é uma
das grandes referências do futebol mundial: o Maracanã.
O
Preseidente da República João Melchior Marques Goulart abraçando o
goleiro bicampeão mundial Gilmar dos Santos Neves – Fonte – Arquivo
Nacional.
Depois de duas goleadas na fase final, ninguém esperava que o Uruguai
fosse sair vitorioso na partida decisiva contra a seleção brasileira. A
derrota por 2 × 1 foi uma das maiores tristezas do esporte brasileiro,
para alguns foi mesmo encarada como uma marca das debilidades da nação.
Na ocasião, a competição era retomada depois do fim da Segunda Grande
Guerra, e o Brasil, com a organização do evento, vislumbrava demonstrar
seu protagonismo no novo tabuleiro internacional. Essa postura
tornou-se comum no decorrer do século, inclusive em função da Guerra
Fria: os blocos socialista e capitalista transferiram parte de seus
conflitos e enfrentamentos para as instalações e competições esportivas.
O
general Castelo Branco apertando a mão de Garrincha. Ao lado do militar
vemos o então presidente da Confederação Brasilira de Desportos, CBD,
Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange – Fonte – Arquivo Nacional.
Depois do fracasso na Copa de 1950, repetido na edição de 1954,
realizada na Suíça, o país finalmente sagrou-se campeão em 1958, na
Suécia, em um torneio que ficou marcado pela aparição internacional de
uma das maiores estrelas da história do futebol e do esporte do século:
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, na época com 17 anos.
A seleção brasileira voltaria a se sagrar campeã em 1962, na Copa do
Chile, onde o grande destaque foi Garrincha, não se saindo bem em 1966,
na Inglaterra, uma edição marcada pela violência e pela benevolência dos
árbitros com a equipe da casa, que se sagrou vitoriosa em uma final
extremamente polêmica com o time nacional da Alemanha.
Pelé – Fonte – Arquivo Nacional.
Em 1970, no México, a equipe nacional tornou-se a primeira tricampeã
da competição, após uma fase da preparação marcada por conflitos
internos, com o técnico João Saldanha sendo substituído por Zagalo, mas
também por grandes investimentos no treinamento. Nunca antes uma seleção
brasileira fora tão bem preparada, com tanta antecedência.
Muitos autores sugerem que esses investimentos estariam ligados à
vontade dos militares, que comandavam o regime de exceção em vigor no
país, de provarem o quanto eram adequadas suas propostas para o país.
Além disso, estariam relacionados com uma estratégia de dispersão e
distração da população brasileira. Tais hipóteses têm sido muito
contestadas. Independentemente das polêmicas, não se pode negar a
ampliação da atenção ao esporte a partir de então, bem como o forte
clima de patriotismo que cercou a participação da seleção brasileira no
México.
A
Seleção Brasileira de Futebol que participou da Copa do Mundo de 1974,
na Alemanha Ocidental. Ao centro da foto, de paletó preto, está o
general Ernesto Geisel, tendo ao seu lado esquerdo o potiguar Francisco
das Chagas Marinho,o Marinhgo Chagas – Fonte – Arquivo Nacional.
As Copas de 1974 (Alemanha), 1978 (Argentina, uma edição muito
polêmica em função de o país-sede viver um período ditatorial, liderado
por militares, que cometiam constantes desrespeitos aos direitos
humanos), e 1982 (ao contrário da anterior, marcada pelo processo de
redemocratização da Espanha) foram marcadas por muitas mudanças, uma
tentativa de a FIFA se sintonizar com o novo cenário internacional, algo
que imediatamente repercutiu no aumento do número de participantes nas
finais do evento e numa maior atenção para as equipes asiáticas e
africanas.
Além disso, melhor se estruturavam as estratégias de negócios ao
redor do futebol. Em 1982, pela primeira vez foi introduzido o conceito
de “patrocinador oficial”. Se as primeiras propagandas apareceram de
forma muito embrionária já na Copa de 1934, a partir da Espanha essa
relação comercial tornou-se cada vez mais intensa. Basta lembrar que, no
Brasil, o personagem “Pacheco”, parte da propaganda de uma empresa de
lâmina de barbear, tornou-se um dos mais populares até hoje.
Arthur Antunes Coimbra, o Zico- Fonte – Arquivo Nacional.
Por trás dessas mudanças, deve-se citar o nome de João Havelange, que
desde 1974 assumira a FIFA e veio a tornando uma das mais poderosas
instituições do mundo. O dirigente tornou o futebol em um grande negócio
global. As Copas do Mundo passaram a ser um dos principais palcos de
lançamento de novidades, de estratégias comerciais e de badalação, a
faceta mais conhecida de um dos esportes mais influentes e populares.
Se essas mudanças definitivamente projetaram o futebol, também
trouxeram muitos problemas. Muitas têm sido as denúncias de que o
aspecto esportivo está sendo abandonado em função dos lucros e do
benefício dos investidores, para além de problemas de falcatruas
financeiras diversas.
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Dr. Sócrates – Arquivo Nacional.
A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, foi o momento auge
desses problemas, uma expressão das ambiguidades que cercam o evento. Se
de um lado alcançou popularidade e impacto jamais visto, foi marcada
também por manifestações e insatisfação da população com os gastos
públicos excessivos e com a interferência da FIFA na governança
nacional. Se de um lado, observou-se um dos melhores resultados
técnicos, foram também descobertas ilegalidades nos negócios que cercam a
competição.
Somente no futuro será possível melhor precisar o impacto dessas
ocorrências, mas provavelmente durante muitos anos ainda persistirá a
articulação entre governos instituídos e mercado na promoção das Copas
do Mundo. As próximas edições já têm sido marcadas por polêmicas em
função das características autoritárias do governo de Putin, cuja Copa
de 2018 ocorreu na Rússia e da compra de votos na escolha da sede de
2022 (Qatar), denúncia ainda não confirmada, que está sendo apreciada
pela FIFA, que também tem sido compelida a adotar posturas mais
transparentes em função de escândalos financeiros que cercam o mundo
futebolístico.
Livro – Enciclopédia de guerras e revolução, Volume 1, 1901 a 1919,
páginas 338 a 342. Organizadores – FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA DA SILVA,
SABRINA EVANGELISTA MEDEIROS e ALEXANDER MARTINS VIANNA.
Referências
HELAL, Ronaldo, CABO, Álvaro do. Copas do Mundo: comunicação e
identidade cultural no país do futebol. Rio de Janeiro: EdUerj, 2014.
HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; MELO, Victor Andrade de
(orgs.). O esporte na imprensa e a imprensa esportiva no Brasil. Rio de
Janeiro: 7Letras, 2012.
MASCARENHAS, Gilmar, BIENENSTEIN, Glauco, SANCHEZ, Fernanda (orgs.). O
jogo continua: megaeventos esportivos e cidades. Rio de Janeiro:
EdUerj, 2011.
PRIORE, Mary Del; MELO, Victor Andrade de (orgs.). História do
Esporte no Brasil: da colônia aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp,
2009.
*Oum-al-Maa [que literalmente significa "mãe da água"] é um oásis de lago situado no deserto de Idehan Ubari (Líbia). Ele está escondido entre as dunas de areia do Saara, sendo circundado por mais 16 lagos nas dunas ao redor. Alguns desaparecem de vez em quando e alguns como Gebraoun, Mafo e Umm-al-Maa têm presença constante no deserto. Os oásis são formados a partir de rios subterrâneos ou aquíferos, onde a água pode atingir a superfície naturalmente por pressão ou por poços artificiais. Saiba mais em: https://pt.wikipedia.org/wiki/O%C3%A1sis