terça-feira, 16 de julho de 2024

 




Daniel Soares  

Minha casa não tinha geladeira
E nem moveis e nem energia
Mas tinha um pote de água fria
Em uma forquilha de aroeira
Tinha os copos numa copeira
E tinha as roupas de nós andar
E o guarda-roupa de guardar
Era os ganchos de um canbito
O meu passado não foi bonito
Más tenho prazer de recordar.

Se a água tivesse vida

Imagine a minha mágoa

Você no banho despida...

Ai quem me dera ser água!





sábado, 13 de julho de 2024

 O SOMBRA

 
Esse homem infeliz e sacrificado,                     
Os dias de sol que passaram sobre a sua cabeça,
As noites de chuva e tempestade,
As suas horas de esperança,
As suas horas de desespero,
Onde está ele, onde estão dele todas as suas tempestades?
 
O coração que lhe pulsa acelerado
De sangue, veia e veia, do seu corpo,
Seus nervos retorcidos, abalados,
Grisalho o seu cabelo, o olhar na noite,
A noite na sua alma, demorada,
Onde estão ele, a tempestade e a noite?
 
Sonâmbulos os passos, carregados,
Algidas as mãos de trémula brancura,
Tudo nele a sombria claridade..
 
Vejo, com vê-lo, nada ver no mundo.
Vejo, com vê-lo, já não ver mais nada.
 
Esse homem que se abriu um sepulcro no mundo.

(João Lins Caldas)
 

A foto digitalizada, restaurada e com o aspecto original dessa imagem faz parte do acervo do Projeto Memória Potiguar, um repositório digital com mais de 50 mil itens entre fotos, vídeos e documentos das 167 cidades do RN, reunidos ao longo de 25 anos e que estará disponível em breve de forma virtual e gratuita no site www.memoriapotiguar.com.br.




 


 Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.