quinta-feira, 22 de agosto de 2024

 Fotografia do centro histórico do Assu, por Jean Lopes.


 


 "Talvez eu seja

O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.
Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas."
— Hilda Hilst
🎨 Damian Lechoszest




segunda-feira, 19 de agosto de 2024





Os escombros que veremos na fotografia abaixo eram da igreja do Rosário, onde hoje está assentado a praça do Rosario construída com recursos da prefeitura e em cooperação com o povo na administração de Edgard Montenegro. Conta-se que ali, a informação é verdadeira porque custumava os mais antigos enterrar seus mortos nas proximidades de igrejas (nos lugares onde não existia cemitérios). Vejamos também o sobrado que fora demolido ou reformado para funcionar a prefeitura Municipal. Ali, funcionou também a Cadeira Pública, que começara a ser construída em 1810, afirma Koster, o viajante, em seu livro Travels in Brazil / Viagem ao Nordeste do Brasil, na tradução, quando visitara o Assu, de passagem para o Ceará.
Fernando Caldas 



sábado, 10 de agosto de 2024

EM LÁGRIMAS

Tarda demais. Em lágrimas prospero.

E por que não me chega o seu consolo,
Sou lágrima, sou dor, sou desconsolo.
E' unúltel que tento, é em vão que espero.
Olho o caminho, o meu cuidado altero.
Escuto aflito si ela vem... Descolo
A crença boa de encontrá-la... e rolo
Tento esperá-la e espero e desespero.

João Lins Caldas
Assu, 1909

 


A vida é necessariamente celeste. E por ser necessariamente celeste, necessariamente imortal. Daí o alvo contínuo na marcha que se nos faz para Deus. – O homem tem a seu alvo uma plenitude imortal.

Caldas, pensador potiguar de Assu



sexta-feira, 9 de agosto de 2024


DE JOELHOS

Na areia brilhante nos dias de calma
Chegaste. A minha tentação. De joelhos
Me sinto a morder os lábios teus vermelhos...
Caio... E’ a febre... E tu morres e eu morro
Transfigurado a ti pedir socorro...
Vem... chega mais perto... o braço estende
Entre o teu, o meu corpo aperta e prende...
Flores à noite... a madrugada em flores...
E aqui meu coração e os teus ardores...
O silêncio vacila, a treva ordena.
Vamos!... a plateia é deserta... ao palco! Acena!
Afasta as rendas, do teu corpo afasta...
Esta roupa que odeio, esta camisa gasta...
Um trono a madrugada, a relva um ninho.
Deixa... eu aperto a tua mão no meu carinho...
Nua... a tua carne branca num arrepio
Me anuncia o calor a bendizer o frio
Soo... a tua carne cansa e o coração a vida
Um beijo... mas outro... a tua carne em brasa...
O meu instinto ao teu instinto casa.
.. .. .. .. .. .. .. .. ... .. .. .. .. .. .. .... .. .. .. 

João Lins Caldas


 

 Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.