sábado, 18 de junho de 2022

TIRADAS DE CHICO DIAS

 

                                               

Chico Dias, o da esquerda na fotografia, ano 1982.

 

Francisco Medeiros Dias ou simplesmente Chico Dias ainda menino chega à cidade de Assu, procedente do Ceará, para morar com seu tio, não sei ao certo se pelo lado paterno ou materno, então comerciante na cidade assuense. No início da sua juventude revelou-se líder estudantil presidindo o grêmio do Ginásio Pedro Amorim, importante instituição escolar da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos – CNEG. Trabalha na camisaria do seu primo Oscar Fernandes e foi empresário em vários ramos da atividade comercial. Fundou no início da década de setenta, o Clube de Diretores Legista do Assu – CDL. Ativista político, foi candidato a vereador várias vezes e cabo eleitoral. Ultimamente era corretor de imóveis.

Chico Dias era tipo manso, estatura mediana, irreverente, boêmio, romântico, bom de papo e de copo. Tive eu, o prazer de com ele ter convido desde os tempos de minha adolescência. Ele viveu no Assu, terra que adotara como sua, quase toda sua vida e conheceu quase todo Brasil. Gracioso, espirituoso, querido e admirado pelo povo assuense. Ele tinha a resposta certa na ponta da língua em qualquer ocasião.

Chico era primo próximo de Ronaldo Ferreira Dias, já falecido, alto funcionário do Senado Federal. Ronaldo era natural de Lages e quando adolescente morou no Assu e era uma figura de ótima qualidade. Pois bem, nas eleições de 1982, amigo do presidente Figueiredo que aconselhou Ronaldo se candidatar pelo Partido Democrático Social - PDS, a deputado Federal, pois Ronaldo com qualquer votação seria o primeiro suplente daquela agremiação partidária. Veio ao Rio Grande do Norte fazer campanha e procurou o primo Chico que era candidato a vereador, para fazer sua campanha no Vale do Açu, juntamente comigo. Dito e feito. Dias depois, Ronaldo resolve retornar a Brasília. Da capital Federal telefona para Chico (Ronaldo era uma figura humana de ótima qualidade, influente, porém muito sisudo e a fotografia ‘santinho’ de sua candidatura não aparentava simpatia) e pergunta: “Chico, como vai a aceitação da minha candidatura por aí?” Chico foi taxativo: “Primo, sai hoje de casa com mil ‘santinhos’ seus, pelas ruas da cidade na busca de votos, e voltei pra casa com duas mil.”

(O certo é que Ronaldo assumiu como titular a cadeira de deputado federal em razão de morte do deputado Djalma Marinho, durante seis meses, final da legislatura, 1983). Obteve apenas, dois mil e poucos votos).

Em 1982, Chico candidatou-se a vereador. Certo dia fora procurado por uma certa eleitora, mulher de “Capuz” (apelido) que lhe pedira para tirar o seu marido da cadeia, pois teria sido preso pela polícia por se encontrar embriagado pelas ruas da cidade. Chico procurou o prefeito da cidade à época e não encontrou, o chefe político também não. Não teve outro jeito: escreveu num papelzinho um bilhete e orientou aquela mulher aflita que fosse a delegacia e entregasse ao delegado aquele bilhete com a seguinte inscrição: “Senhor delegado, Capuz é meu afilhado. Peço soltá-lo!” Assinado, o prefeito.” E Capuz foi solto.

Chico Dias não perdia as oportunidades para soltar um dito espirituoso. Pois bem, certa vez, fora convidado para fazer parte de um grupo que defendia o meio ambiente na região do Vale do Açu. Não deixou para depois, dizendo: “Aceito não! Mataram Chico Mendes, imagine Chico Dias.”  

(Chico Mendes que Chico se referia era o ativista político e defensor dos seringueiros da Amazônia, assassinado em 1988).

Tempos atrás, foram instalados na cidade de Assu, mais um hospital e um cemitério público. Pois bem, numa das eleições para prefeito e vereadores, Chico fora convidado pelo grupo político do candidato a prefeito, ajudar na qualidade de cabo eleitoral com a promessa de um emprego comissionado. Passaram-se dias, meses, um ano, e nada de Chico ser nomeado naquela municipalidade. Certa vez, fora indagado por alguma pessoa “Chico, já foi nomeado funcionário da prefeitura? E o que você acha da administração do prefeito?” Chico respondeu: “A administração do prefeito está ótima. Agora, o emprego, ainda estou aguardando se vão me colocar no novo ou no velho!” Aquele amigo intrigou-se com aquela resposta e fez nova pergunta: "No Hospital?" Chico não se fez de rogado: "Não, amigo! No cemitério!”

Certa vez, no extinto Hiper Bom Preço, de Natal, estava eu e Chico Dias almoçando. De repente, um amigo advogado se aproxima. Naquele instante, apresentei aquele bacharel: "Amigo, apresento Chico Dias, meu conterrâneo.” “Muito prazer “Seu” Chico, o senhor é primo do deputado Álvaro Dias, de Caicó?” Falou aquele bacharel. Chico sem querer desfazer do Álvaro Dias potiguar, soltou essa: “Não, amigo. Sou primo de Álvaro Dias, senador pelo Paraná.” Era assim Chico Dias, mas tudo na simplicidade que lhe era peculiar. 

Chico foi ao médico que lhe prescreveu vários exames. Cumprindo o que foi solicitado pelo clinico, Chico retornou ao consultório. O doutor constatou que ele, Chico, era portador de uma doença que poderia em poucos meses lhe trazer complicações se não fosse tratado, rapidamente. O médico então perguntou: “Seu Francisco, o senhor tem plano de saúde?” “Não, doutor.” Responde Chico. O médico fez nova indagação: “Mas, por que o senhor não tem plano de saúde?” Chico sem nem pestanejar, respondeu: “É porque não tenho plano de morrer!”

(Essa estória também se atribui a Josué Dantas, figura muito conhecida na cidade de Assu).

 Por fim (as tiradas de Chico incontáveis). Perdeu o Assu, no último dia 14 de junho de 22, mais uma figura do folclore “Papa Jerimum”, como se diz no Nordeste brasileiro. Perdão meu amigo, por não ter comparecida a sua última despedida. Mas tenha certeza que o Assu que você tanto amou, ficou mais pobre e deserdado do dom que Deus lhe deu, de dizer num repente, suas poucas e boas.

Pena que você amigo Chico Dias, encantou-se logo no primeiro dia dos festejos do Padroeiro do Assu, São João Batista. Creia-me que chorei ao tomar conhecimento da sua partida, do seu encantamento

A última vez que vi Chico Dias, fora no leito de um hospital em Natal, há uns dois ou três meses atrás. Ao receber minha visita, não esqueceu de perguntar pelo amigo de longas datas Paulinho Montenegro. Chorou duas ou três vezes. Depois me disse que teria colocado algumas estórias ocorridas entre eu e ele, em seu livro sobre estórias pitorescas que ficou inédito.

Que você durma Chico Dias, o sono dos justos. Até o nosso reencontro no além!

(Fernando Caldas)

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