DOIS POEMAS DE JOÃO LINS CALDAS
Pelo dia Nacional da Poesia, vale a pena lembrar João Lins Caldas (1888/1967). Poeta de versificação complexa de diversos estilos e temas. Autodidata (ele tinha a sua própria forma de construção gramatical), autor compulsivo e leitor voraz. No Rio de janeiro, para onde um dia de 1912 partiu com o objetivo de se aperfeiçoar literariamente e publicar-se, compôs milhares de páginas de poesias, colaborando em vários importantes periódicos daquela época de quase todo o Brasil. Portanto, se Caldas tivesse publicado todos os seus treze livros de poesias e pensamentos filosóficos que tinha organizado em manuscritos, teria se consagrado um dos maiores ícones da poesia universal. Foi Caldas, um dos maiores poetas da língua portuguesa: do parnaso simbolismo e da poesia moderna brasileira. Por fim. Sonhava Caldas ganhar um Nobel de Literatura e ver todo seu trabalho literário chegar ao conhecimento da humanidade. E escreveu na grandeza do seu poetar:
DENTRO D'ALMA
Não creiam ser na vida a morte o que eu mais temo.
A dor não me intimida, o mal não me apavora.
Eu só temo no fim, é o fim daquela aurora
Que fez grande Camões e que é meu bem supremo.
Pela morte eu não tremo e pela vida eu tremo.
Mas, a vida, que é mãe e do pesar senhora.
O sonho que me deu pesadamente escora
Com o gosto de querer da glória o sonho extremo.
Esse sonho me doma, esse sonho me arrasta:
Por ele adoro a vida esse profundo inferno
Por ele odeio a morte, essa miséria casta.
Braços dados com a vida, eu de de seguir-lhe o norte.
Braços dados com a vida, eu de segui-la eterno
Com os olhos para a vida e os braços para a morte.
__________
OS ACONTECIMENTOS DO MUNDO SÃO SENSÍVEIS AOS MEUS PENSAMENTOS.
O meu pensamento, para os acontecimentTODOSos do mundo,
Em tudo que dos meus sentidos, os meus sentidos para virem um a um, de todas as raízes do mundo.
Eu sou o meu sentido
A expressão de todos os meus sentidos
A expressão de todo o meu sentido todo o meu mundo.
Da treva impenetrável â luz perfuradora de todas as trevas,
Dos campos devastados ao mundo de cadáveres apodrecidos,
O alasca pestilento, as feridas de todas as terras,
Os vermes, como pequenos monstros sonolentos,
E os grandes monstros, as garras afiadas, agitadas mandíbulas,
Tudo há que se alastra para o mundo que a arder de que particular ao meu pensamento
As casas demolidas,
Os corpos mutilados
As árvores, para o céu, os galhos ressequidos.
A multidão a relutar de todos os apedrejados,
O mundo todo de todos os gemidos,
A cósmica amargura de todos os condenados,
A dor profunda de todo os perseguidos,
Ah! que assim são as chagas profundas de todos os meus sentidos....
Penso dos meus pensamentos estrangulados,
Dos meus sentidos devastados,
Das sombras, para o chão, tudo meu cérebro para enterrado...
As misérias do chão,
Tudo que dos infernos na sua miséria,
- Eu preciso morder, e rasgar, e triturar tudo D’aquele maldito coração...
A sombra incolor da minha vida,
Tudo em que fui transformado...
O mundo do meu céu como um morto perdido...
- E ri dos seus dentes, e ri dos seus olhos o riso maldito do condenado...
Senhor, cegai-o; varrei-o, ventos, atirai-o para longe das fronteiras da terra.
E de tudo que for céu, e tudo que for graça, e de tudo que for amor e que for sentimento.
Deus, amaldiçoai-o; negai-o, todos vós energias da terra
E todos para enterrá-lo, todos para sepultá-lo em todos e em tudo todas as forças do raio...
(Poema inédito)
Caldas e o romancista Geraldo Vieira
Postado por Fernando Caldas
Assu Antigo
Nenhum comentário:
Postar um comentário