quarta-feira, 4 de março de 2026

SOB A TREVA

Ontem de madrugada encontrara-se as duas,
A minha e a tu'alma.
Deserta rua entre as desertas ruas,
Era a hora mais calma.
Sem ver a min mãos trementes,
ha que sozinha errava
A tua ia de frente.
Súbito a minha súbito parava...
Ali passava gente.
Parado o olhar nas orbitas dormentes,
A minha reparou
Tinhas na tua as alvas mão trementes...
Meu Deus! hoje o que eu sou.
A verdade tão longe do meu sonho,
Eu sonhava e te via
O teu olhar, tão doce, tão risonho,
Eu sonhava e te via
O teu olhar, tão doce, tão risonho,
Para mim que sorria.
E agora és longe, e longe eternamente,
Para mim és perdida.
Baldado o sonho deste amor fremente...
Baldada a minha vida.
Não me valeu por toda a natureza
Por tudo prourar,
Provado o fogo da imortal beleza
Quiz o fogo de amar.
E do mundo tão belo, tão perfeito,
- A terra prometida,
Vi o céu da minha vida.
E por tudo do tudo divisado
Que se foi, que cresceu,
Alguma cousa houve  com meu brado...
Minha fé que morreu.

João Lins Caldas

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