domingo, 12 de abril de 2026

ISABEL

Uma Isabel morreu no mundo. 
Tinha pai e mãe, irmãos e  sobrinhos, aquele mundo de primos nomundo. 
Avós enterrados, bisavós trepidantes nos cernes duros de árvores agigantadas. 
Ascendentes outros na nervura de asas e barbatanas de peixes. 
Isabel hoje estava cansada. 
Remontava das suas origens a dias muito anteriores aos dias de Tebas, 
Viveu de fresco os poemas de Homero, 
A guerra de Tróia, 
O passado de Sócrates,
E,caída Cartago, soldados ruivos, assalariados, mortos.
Não soube nada de sua crônica. Era uma mulher, vestida de saia, os cabelos compridos 
E se alimentava de pão,  rapadura e mel. 
Isabel tinha linhas nas mãos, 
Uma sorte que estava escrita, diferente sem dúvida das  outras sortes. 
O destino de Isabel, o destino da vida como dos outros  que carrega a morte. 
Eu nunca vi Isabel.

 (João Lins Caldas



Arte: Portinare.



Nenhum comentário:

ISABEL Uma Isabel morreu no mundo.  Tinha pai e mãe, irmãos e  sobrinhos, aquele mundo de primos nomundo.  Avós enterrados, bisavós trepidan...