GARIMPEIRO DA ILUSÃO
Tal qual, os garimpeiros,
aventureiros,
mergulhado, nas águas
turvas dos ribeiros,
a procura do ouro!...
Eu, em vão procuro
no caudal das minhas máguas
um oculto tesouro.
Trabalho noite e dia,
a cata de ilusões...
necessito apenas de alegria,
pra amenizar
minhas decepções!
E, quanto mais procuro,
mais escuro
parece ficar
o corrente das minhas fantasias.
Na ansiedade
de encontrar
me aprofundo nás águas...
Ao retornar,
trago nas mãos
lavadas e vazias...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .
E a razão
me diz: -
Garimpeiro infeliz
da ilusão,
Por que?... e para que
tanto labor?!
Jamais terás a palma
de encontrares no fundo
da tu'alma,
outra coisa a não ser,
a SAUDADE e a DOR.
Renato Caldas
segunda-feira, 18 de maio de 2009
sábado, 16 de maio de 2009
O CABAÇO DE DASDORES ABRIU-SE EM BANDAS
*Por Gilberto Freire de Melo
Quem não viveu, mas se aventurou pela várzea do Açu, certamente participou do crucial e ao mesmo tempo divertido processo de extração da cera de carnaúba. Ou, no mínimo, conviveu com a população afeita às tarefas dessa atividade.
Na indústria rudimentar de extração da cera de carnaúba, havia, dentre outros, o processo de batimento para decolar o pó existente nas palhas que, depois de secas, eram transpotadas, em trincheiras, pelos homens e batidas, a cacetes, pelas mulheres, num processo trabalho manual feito à noite para evitar que os ventos prejudicassem a fixação do pó, que mais tarde seria transformado em cera, no piso que era igualmente forrado por lona para que não se misturasse com areia. Cada rachador tinha a sua ou as suas batedeiras, pois os mais habilidosos rachavam palhas para mais de uma mulher.
Não havia trabalho mais árduo, porém, ao mesmo tempo, mais divertido. As pilhérias, as chacotas, os ditos, as brincadeiras amenizavam as asperezas e divertiam sempre, sem, porém, ofender pessoas ou ferir a dignidade das famílias, moças, senhoras e crianças que ali trabalhavam. Uns cantavam "cocos" e "emboladas" ao rítmo do batuque improvisado por alguém mais competente que soubesse arremedar a batucada do "baião". O que não deixava, entretanto, de reservar certas intimidades a casais, dada a aproximação que, evoluindo, entremeava-se de afeto, de contatos, de esfregação, de namoro e de xamego, num ambiente estritamente de trabalho, porém com doses de acentuados encantos e estimulantes sexuais.
Como ninguém é de ferro, vez por outra alguém passava os pés adiante das mãos e os tampos voavam.
Foi o que ocorreu com Dasdores, filha de Zé Beradeiro, um cinquentão respeitável, trabalhador, de procedência ignorada, porém com muitos indícios seridoenses. que alí viera ter ainda moço e ali contituíra numerosa família, após seu casamento com Maria do Rosário, uma varziana de dezoito quilates.
Dasdores, já moça feita, era a filha mais velha do primeiro casamento de Zé Beradeiro que inviuvara e vivia àquela época, com D. Esmerina, com quem os filhos se davam relativamente bem, sem ter que se queixar. Com atrativos e exuberâncias capazes de desarticular exércitos, Dasdores engraçou-se de Chico Bozó, fornido caboclo, rachador de palhas, bem parecido, que não desmerecia a família da namorada e que rachava palha para Dasdores bater.
Zé Beradeiro, num daqueles famosos batimentos de palha, surpreendeu casualmente uns lances de que não gostou. Sua filha, Dasdores, se espojava com o namorado, Chico Bozó, sobre uns montes de palha batida, fora da empanada, a quem se entregava de corpo e coração, sem qualquer reserva. O pai ficou calado, porém furioso, e no outro dia, chamando o conquistador aos carretéis, disse não aceitar o que havia presenciado, sendo necessário providenciarem o casamento. Chico, o sedutor, argumentou que precisava pensar, pois casamento era coisa séria. Zé Beradeiro, que também não estava brincando, disse que não queria conversa. E não estava disposto a bater boca. Queria uma decisão.
Os ânimos se alteraram e Zé Beradeiro acabou ouvindo o que não queria:
- A sua filha não era mais moça e eu não sou pedreiro pra tapar buraco de ninguém. Ela já é de maior e pode procurar seus direitos.
Zé Beradeiro, porém, não engoliu o bocado. E não era para um pai de família ficar calado diante de semelhante situação. Tinha que tomar alguma providência. Nem que fosse a última decisão de sua vida. Não podia aceitar a desonra da filha, de seu nome e de sua família. Não seria qualquer Chico Bozó que iria desfeiteá-lo. Tinha pouca coisa na sua vida e a honra da família era o mais importante. Teria que agir ligeiro, antes que o atrevido comentasse com alguém e se espalhasse o boato de sua desdita. Era questão de vida ou morte.
O desapareciemento de Chico até que não foi notado imediatamente, vez que ele era acostumado a sumir por alguns dias, visitando alguns parentes, reapareccendo, em seguida, pouco tempo depois. Mas não tanto assim como da última vez. Já dava o que falar. Parentes seus perguntavam sem obter qualquer notícia.
Foi-se avolumando a ausência de Chico, já consubstanciada pelos boatos do namoro que tivera, conforme insinuações motivadas por gabolices do próprio, de intimidades mantidas com a filha de Zé Beradeiro. Dissera ainda a alguns vizinhos que ela não era mais moça. E que fora chamado às favas pelo pai que queria casamento. E que ele não era otário para pagar pecado que não havia cometido.
Os comentários se faziam e nada de Chico aparecer. Já fazia mais de um ano que havia sumido. Zé Beradeiro, há muito, havia-se mudado dali com a família.
A polícia, tomando conhecimento do sumiço do homem através de queixa prestada por familiares, abriu inquérito e passou a ouvir pessoas da localidade. O próprio Zé Beradeiro fora localizado e ouvido, com sua filha, pelo delegado. Permaneceu preso ainda, por alguns dias e solto depois, enquanto se investigava o caso que, por falta de qualquer prova, acabou arquivado o processo e esquecido o assunto. Só que os familiares não aceitavam e mantinham a suspeita do assassinato de Chico. Mas como provar se nem o cadáver aparecia?
Não se podia justificar. O sumiço de Chico deixava inconformados os seus parentes. E Seu José também havia saído do cenário da culpa.
A família de Chico apelou para tudo. Chegou até a insinuar que, em certo local, onde se havia construído uma vila de casas residenciais, ali antes, Chico havia sido enterrado. Derrubaram-se algumas casas, sem qualquer sucesso, até que desistiram dada a inconviniência de se derrubar todo o arruado.
Dasdores, noutras paragens, já com os burros n'agua, passou a viver amancebada com um vaqueiro com quem teve alguns filhos sem maldizer a vida e sem queixar da sorte.
O sedutor é que nunca justificou o seu desapracecimento.
* Gilberto Freire de Melo é sociólogo, escritor potiguar de Pendências
Blogdofernandocaldas.blogspot.com
Quem não viveu, mas se aventurou pela várzea do Açu, certamente participou do crucial e ao mesmo tempo divertido processo de extração da cera de carnaúba. Ou, no mínimo, conviveu com a população afeita às tarefas dessa atividade.
Na indústria rudimentar de extração da cera de carnaúba, havia, dentre outros, o processo de batimento para decolar o pó existente nas palhas que, depois de secas, eram transpotadas, em trincheiras, pelos homens e batidas, a cacetes, pelas mulheres, num processo trabalho manual feito à noite para evitar que os ventos prejudicassem a fixação do pó, que mais tarde seria transformado em cera, no piso que era igualmente forrado por lona para que não se misturasse com areia. Cada rachador tinha a sua ou as suas batedeiras, pois os mais habilidosos rachavam palhas para mais de uma mulher.
Não havia trabalho mais árduo, porém, ao mesmo tempo, mais divertido. As pilhérias, as chacotas, os ditos, as brincadeiras amenizavam as asperezas e divertiam sempre, sem, porém, ofender pessoas ou ferir a dignidade das famílias, moças, senhoras e crianças que ali trabalhavam. Uns cantavam "cocos" e "emboladas" ao rítmo do batuque improvisado por alguém mais competente que soubesse arremedar a batucada do "baião". O que não deixava, entretanto, de reservar certas intimidades a casais, dada a aproximação que, evoluindo, entremeava-se de afeto, de contatos, de esfregação, de namoro e de xamego, num ambiente estritamente de trabalho, porém com doses de acentuados encantos e estimulantes sexuais.
Como ninguém é de ferro, vez por outra alguém passava os pés adiante das mãos e os tampos voavam.
Foi o que ocorreu com Dasdores, filha de Zé Beradeiro, um cinquentão respeitável, trabalhador, de procedência ignorada, porém com muitos indícios seridoenses. que alí viera ter ainda moço e ali contituíra numerosa família, após seu casamento com Maria do Rosário, uma varziana de dezoito quilates.
Dasdores, já moça feita, era a filha mais velha do primeiro casamento de Zé Beradeiro que inviuvara e vivia àquela época, com D. Esmerina, com quem os filhos se davam relativamente bem, sem ter que se queixar. Com atrativos e exuberâncias capazes de desarticular exércitos, Dasdores engraçou-se de Chico Bozó, fornido caboclo, rachador de palhas, bem parecido, que não desmerecia a família da namorada e que rachava palha para Dasdores bater.
Zé Beradeiro, num daqueles famosos batimentos de palha, surpreendeu casualmente uns lances de que não gostou. Sua filha, Dasdores, se espojava com o namorado, Chico Bozó, sobre uns montes de palha batida, fora da empanada, a quem se entregava de corpo e coração, sem qualquer reserva. O pai ficou calado, porém furioso, e no outro dia, chamando o conquistador aos carretéis, disse não aceitar o que havia presenciado, sendo necessário providenciarem o casamento. Chico, o sedutor, argumentou que precisava pensar, pois casamento era coisa séria. Zé Beradeiro, que também não estava brincando, disse que não queria conversa. E não estava disposto a bater boca. Queria uma decisão.
Os ânimos se alteraram e Zé Beradeiro acabou ouvindo o que não queria:
- A sua filha não era mais moça e eu não sou pedreiro pra tapar buraco de ninguém. Ela já é de maior e pode procurar seus direitos.
Zé Beradeiro, porém, não engoliu o bocado. E não era para um pai de família ficar calado diante de semelhante situação. Tinha que tomar alguma providência. Nem que fosse a última decisão de sua vida. Não podia aceitar a desonra da filha, de seu nome e de sua família. Não seria qualquer Chico Bozó que iria desfeiteá-lo. Tinha pouca coisa na sua vida e a honra da família era o mais importante. Teria que agir ligeiro, antes que o atrevido comentasse com alguém e se espalhasse o boato de sua desdita. Era questão de vida ou morte.
O desapareciemento de Chico até que não foi notado imediatamente, vez que ele era acostumado a sumir por alguns dias, visitando alguns parentes, reapareccendo, em seguida, pouco tempo depois. Mas não tanto assim como da última vez. Já dava o que falar. Parentes seus perguntavam sem obter qualquer notícia.
Foi-se avolumando a ausência de Chico, já consubstanciada pelos boatos do namoro que tivera, conforme insinuações motivadas por gabolices do próprio, de intimidades mantidas com a filha de Zé Beradeiro. Dissera ainda a alguns vizinhos que ela não era mais moça. E que fora chamado às favas pelo pai que queria casamento. E que ele não era otário para pagar pecado que não havia cometido.
Os comentários se faziam e nada de Chico aparecer. Já fazia mais de um ano que havia sumido. Zé Beradeiro, há muito, havia-se mudado dali com a família.
A polícia, tomando conhecimento do sumiço do homem através de queixa prestada por familiares, abriu inquérito e passou a ouvir pessoas da localidade. O próprio Zé Beradeiro fora localizado e ouvido, com sua filha, pelo delegado. Permaneceu preso ainda, por alguns dias e solto depois, enquanto se investigava o caso que, por falta de qualquer prova, acabou arquivado o processo e esquecido o assunto. Só que os familiares não aceitavam e mantinham a suspeita do assassinato de Chico. Mas como provar se nem o cadáver aparecia?
Não se podia justificar. O sumiço de Chico deixava inconformados os seus parentes. E Seu José também havia saído do cenário da culpa.
A família de Chico apelou para tudo. Chegou até a insinuar que, em certo local, onde se havia construído uma vila de casas residenciais, ali antes, Chico havia sido enterrado. Derrubaram-se algumas casas, sem qualquer sucesso, até que desistiram dada a inconviniência de se derrubar todo o arruado.
Dasdores, noutras paragens, já com os burros n'agua, passou a viver amancebada com um vaqueiro com quem teve alguns filhos sem maldizer a vida e sem queixar da sorte.
O sedutor é que nunca justificou o seu desapracecimento.
* Gilberto Freire de Melo é sociólogo, escritor potiguar de Pendências
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quinta-feira, 14 de maio de 2009
POESIA
O VALÔ DO ANÉ
Seu dotô, pode me crê:
Se tenho aprendido a lê,
Eu era dotô também.
Pruque hoje na cidade,
Nós só temo validade
Pela péda qui o ané tem?
Meu pai, era home pobre,
Porém morreu como nóbre,
Honesto e trabaiadô!
Morreu no mez de Dezembro
Ainda hoje eu me alembro...
Cuma a cidade chorô.
Era amigo da pobresa,
Inimigo da avaresa,
Cuma todo home de bem!
Num media sacrifíço
Para fazê benefíço...
Num despresava ninguem.
Veja a força do destino:
Morreu... Eu fiquei menino
Sem dinheiro pra estudá!
Fui cantadô e poéta;
Do mundo peguei a réta,
Num queria trabaiá.
Mas, graças a Providença,
Tenho o ané da inteligença,
Maió riqueza qui hai...
Num precisô de inventaro.
Sô rico, milionaro,
Do que herdei de meu pai.
Dotô, num é caçoada.
O ané num vale nada,
Sô mióra a posição!
Parece uma coisa incrive,
Quarqué um, compra no ourive,
Por cem cruzeiro, um anelão.
Olegaro Mariano
Poéta pernambucano,
Home de muito valô!...
Entrô para a cademia,
Amostrando a poesia,
Não, o ané de dotô!
... Adeus dotô, vô me embora.
Está chegando a hóra...
Eu preciso viajá.
Mas, pense na deferença
- Num se compra inteligença
E ané se póde comprá.
Renato Caldas
Seu dotô, pode me crê:
Se tenho aprendido a lê,
Eu era dotô também.
Pruque hoje na cidade,
Nós só temo validade
Pela péda qui o ané tem?
Meu pai, era home pobre,
Porém morreu como nóbre,
Honesto e trabaiadô!
Morreu no mez de Dezembro
Ainda hoje eu me alembro...
Cuma a cidade chorô.
Era amigo da pobresa,
Inimigo da avaresa,
Cuma todo home de bem!
Num media sacrifíço
Para fazê benefíço...
Num despresava ninguem.
Veja a força do destino:
Morreu... Eu fiquei menino
Sem dinheiro pra estudá!
Fui cantadô e poéta;
Do mundo peguei a réta,
Num queria trabaiá.
Mas, graças a Providença,
Tenho o ané da inteligença,
Maió riqueza qui hai...
Num precisô de inventaro.
Sô rico, milionaro,
Do que herdei de meu pai.
Dotô, num é caçoada.
O ané num vale nada,
Sô mióra a posição!
Parece uma coisa incrive,
Quarqué um, compra no ourive,
Por cem cruzeiro, um anelão.
Olegaro Mariano
Poéta pernambucano,
Home de muito valô!...
Entrô para a cademia,
Amostrando a poesia,
Não, o ané de dotô!
... Adeus dotô, vô me embora.
Está chegando a hóra...
Eu preciso viajá.
Mas, pense na deferença
- Num se compra inteligença
E ané se póde comprá.
Renato Caldas
A PONTE FELIPE GUERRA E FRANCISCO GAAG
A ponte sobre o Rio Piranhas/Assu, denominada Felipe Guerra (ele foi bacharel em direito, desembargador, deputado constituinte, secretário de educação e ainda é nome de um município potiguar, na Chapada do Apodi). Aquela ponte começou a ser construída em 1948 e a sua conclusão se deu em 1952. Naquela época era o prefeito do município do Assu, Edgard Borges Montenegro. A sua extenção é de 555 metros. Ainda hoje é a maior ponte de concreto armado do Nordeste. Foi construída pelo técnico em carpintaria Francisco Gaag, de nacionalidade austríaca, naturalizado brasileiro. Gaag, a quem reverencio com saudades, foi o mesmo técnico que reconstruiu a parede do Açude Pataxó, em Ipanguaçu, quando esteve para ser arrombada, salvo engano, em 1966. Por sinal, naquela época, Seu Gaag, hospedava-se na casa de meu pai (em Assu) Edmilson Caldas que também trabalhou na construção daquela ponte. Ele, Seu Gaag, comentava que teria também participado da construção do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro). Finalmente, aquela ponte hoje faz a divisa entre entre os municípios de Assu, Itajá e Ipanguaçu. E Gaag, faleceu em Natal (onde morava), na década de setenta.blogdofernandocaldas.blogspot.com
quarta-feira, 13 de maio de 2009
CONTO
ACIDENTE UTÓPICO
*Por Ivan Pinheiro
Traga cerveja aí como quem trás oró pra burro!... Estão olhando o quê? Eu tenho dinheiro! - Gritou Aléxis para as mulheres presentes na sala central do "Mina de Couro".
"Mina de Couro" era o mais caro e requintado cabaré de Coruripe, no Estado de Alagoas. Aléxis era um comerciante. Vendia mangalhos e telhas industrializadas no pólo cerâmico do Assú. Naquele dia ele tinha ido entregar trinta mil telhas encomendadas pela cooperativa de Pindorama. A carga foi transportada em um caminhão Mercedes trucado.
Tão logo recebeu o pagamento. Aléxis quitou o frete do veículo e liberou-o. Retornaria à cidade do Assú, no Rio Grande do Norte, onde morava, de ônibus. Logicamente depois de umas boas farras.
Todo entusiasmado, Aléxis jogou sobre a mesa um maço de notas de cinquenta reais atadas com ligas. Quando a putada viu o dinheiro, a animação tomou conta do recinto. Ele rapidamente recolocou o pacote de cédulas em sua boça capanga.
- Meu filho, está estressado? Calma, fique tranquilo... Nós resolveremos seu estresse. - falou uma garota passando o braço sobre o ombro de Aléxis.
- Sua cerveja, bem geladinha. - A garçonete puxou uma cadeira e o convidou a sentar-se. - Deseja mais alguma coisa?
Aléxis estava radiante com o recinto e o atendimento. Observou quando a garçonete se afastava da mesa. Ela usava uma mini-saia de aproximadamente vinte centímetros. Cada passada que dava, mostrava a pequenina calça vermelha de rendas.
Em menos de três minutos, a mesa estava composta por três belas jovens. Uma loira, uma morena e a outra ruiva. O "Mina de Couro" tinha mulher para todos os gostos e gastos.
- Podemos pedir umas doses de Campari, meu tesão? - Perguntou alisando o peito de Aléxis, a loira.
- Se pode? Eu vim aqui pra farrear. Quero beber e comer até dar uma coisa ruim.
A farra se estendeu até à noite. A cidade começava a repousar. Aléxis já estava em estado de putrefação alcoólica. Chamou a garçonete e apontando para a piscina ordenou.
- A partir de agora quero vocês desfilando nuas na beira da piscina. E a primeira será você.
Todas se entreolharam discordando da proposta. A garçonete tomou a palavra.
- Vamos fazer o seguinte: o senhor paga esta primeira despesa e a partir de agora, nós iremos negociar as suas exigências. Aqui quem manda é o freguês.
- Fechado!... Traga a conta, feche as portas dessa espelunca e vamos fazer um bacanal... Cada mulher que desfilar pelada ganha "cin-quen-tinha". - Falou Aléxis, retirando um maço de notas da capanga.
A realização de Aléxis foi plena quando a garçonete tirou a última peça, a calcinha vermelha de rendas, e a passou delicadamente sobre seu rosto. A loira que ele estava a namorar reclamou.
- Deixa de tolices mulher. Acabe com esse ciúme besta, você será a última a desfilar... Quero ver agora na passarela a vermeinha! - Disse Aléxis apontando o dedo indicador em direção à ruíva.
Quando ele acordou, estranhou o recinto. O dia já tinha amanhecido. Olhou para o lado e viu a loira dormindo ao seu lado. Levantou rápido e foi até sua roupa pendurada num cabide no canto do quarto. Abriu a capanga. Restavam-lhe apenas quatro notas de cinquenta reais. Rapidamente, tomou banho, vestiu-se e foi saindo quando viu a voz da "companheira".
- Já vai meu bem? Não se esqueça de deixar meus cem.
- Vá roubar outro abestalhada, rapariga imunda! - esbravejou Aléxis, saindo do quarto apressado. Na rua tomou um táxi com destino a rodoviária.
O vento norte soprava com suavidade as últimas brisas da tarde. A força da luz solar já havia sido quebrada pelo crepúsculo da noite. Madalena sentada na calçada de sua casa, rodeada por cinco crianças, respirava aquele ar agradável. Seu pensamento era em Aléxis, seu marido, havia três dias que tinha saído pelo "meio do mundo" negociando.
- Mamãe, lá vem papai! - Gritou uma das crianças. Madelena olhou rapidamente para a rua sombria. O aspecto maltrapilho de Aléxis dificultou o reconhecimento à primeira vista. Ela levantou, correu ao encontro do esposo que chorava aos soluços.
- O que aconteceu homem de Deus? Você está todo arranhado, sujo, esmolambado, o que houve?
- Madalena, a história é longa. Dê graças a Deus eu estar vivo. O carro que levava a telha virou... Sic... Escapei por pouco. Perdi tudo mulher!
Os meninos abraçaram o pai chorando, enquanto Madalena agradecia de mãos postas o retorno do esposo ao lar. Ela providenciou o banho, colocou mercúrio nos seus leves ferimentos e serviu o jantar.
"Como fui tão imbecil... Como pude arranhar-me com cacos de telha para simular um acidente? Como gastei tanto dinheiro em vão? Como vou viver em paz com minha consciência e minha família? E o dinheiro para voltar a negociar?... Se perguntava Aléxis , recolhido e encolhido em sua rede.
* Ivan Pinheiro é historiador e secretário de Governo da Prefeitura Municipal do Assu.
(texto extraído do livro de sua autoria intitulado "Dez Contos Cem Causos, 2008).
*Por Ivan Pinheiro
Traga cerveja aí como quem trás oró pra burro!... Estão olhando o quê? Eu tenho dinheiro! - Gritou Aléxis para as mulheres presentes na sala central do "Mina de Couro".
"Mina de Couro" era o mais caro e requintado cabaré de Coruripe, no Estado de Alagoas. Aléxis era um comerciante. Vendia mangalhos e telhas industrializadas no pólo cerâmico do Assú. Naquele dia ele tinha ido entregar trinta mil telhas encomendadas pela cooperativa de Pindorama. A carga foi transportada em um caminhão Mercedes trucado.
Tão logo recebeu o pagamento. Aléxis quitou o frete do veículo e liberou-o. Retornaria à cidade do Assú, no Rio Grande do Norte, onde morava, de ônibus. Logicamente depois de umas boas farras.
Todo entusiasmado, Aléxis jogou sobre a mesa um maço de notas de cinquenta reais atadas com ligas. Quando a putada viu o dinheiro, a animação tomou conta do recinto. Ele rapidamente recolocou o pacote de cédulas em sua boça capanga.
- Meu filho, está estressado? Calma, fique tranquilo... Nós resolveremos seu estresse. - falou uma garota passando o braço sobre o ombro de Aléxis.
- Sua cerveja, bem geladinha. - A garçonete puxou uma cadeira e o convidou a sentar-se. - Deseja mais alguma coisa?
Aléxis estava radiante com o recinto e o atendimento. Observou quando a garçonete se afastava da mesa. Ela usava uma mini-saia de aproximadamente vinte centímetros. Cada passada que dava, mostrava a pequenina calça vermelha de rendas.
Em menos de três minutos, a mesa estava composta por três belas jovens. Uma loira, uma morena e a outra ruiva. O "Mina de Couro" tinha mulher para todos os gostos e gastos.
- Podemos pedir umas doses de Campari, meu tesão? - Perguntou alisando o peito de Aléxis, a loira.
- Se pode? Eu vim aqui pra farrear. Quero beber e comer até dar uma coisa ruim.
A farra se estendeu até à noite. A cidade começava a repousar. Aléxis já estava em estado de putrefação alcoólica. Chamou a garçonete e apontando para a piscina ordenou.
- A partir de agora quero vocês desfilando nuas na beira da piscina. E a primeira será você.
Todas se entreolharam discordando da proposta. A garçonete tomou a palavra.
- Vamos fazer o seguinte: o senhor paga esta primeira despesa e a partir de agora, nós iremos negociar as suas exigências. Aqui quem manda é o freguês.
- Fechado!... Traga a conta, feche as portas dessa espelunca e vamos fazer um bacanal... Cada mulher que desfilar pelada ganha "cin-quen-tinha". - Falou Aléxis, retirando um maço de notas da capanga.
A realização de Aléxis foi plena quando a garçonete tirou a última peça, a calcinha vermelha de rendas, e a passou delicadamente sobre seu rosto. A loira que ele estava a namorar reclamou.
- Deixa de tolices mulher. Acabe com esse ciúme besta, você será a última a desfilar... Quero ver agora na passarela a vermeinha! - Disse Aléxis apontando o dedo indicador em direção à ruíva.
Quando ele acordou, estranhou o recinto. O dia já tinha amanhecido. Olhou para o lado e viu a loira dormindo ao seu lado. Levantou rápido e foi até sua roupa pendurada num cabide no canto do quarto. Abriu a capanga. Restavam-lhe apenas quatro notas de cinquenta reais. Rapidamente, tomou banho, vestiu-se e foi saindo quando viu a voz da "companheira".
- Já vai meu bem? Não se esqueça de deixar meus cem.
- Vá roubar outro abestalhada, rapariga imunda! - esbravejou Aléxis, saindo do quarto apressado. Na rua tomou um táxi com destino a rodoviária.
O vento norte soprava com suavidade as últimas brisas da tarde. A força da luz solar já havia sido quebrada pelo crepúsculo da noite. Madalena sentada na calçada de sua casa, rodeada por cinco crianças, respirava aquele ar agradável. Seu pensamento era em Aléxis, seu marido, havia três dias que tinha saído pelo "meio do mundo" negociando.
- Mamãe, lá vem papai! - Gritou uma das crianças. Madelena olhou rapidamente para a rua sombria. O aspecto maltrapilho de Aléxis dificultou o reconhecimento à primeira vista. Ela levantou, correu ao encontro do esposo que chorava aos soluços.
- O que aconteceu homem de Deus? Você está todo arranhado, sujo, esmolambado, o que houve?
- Madalena, a história é longa. Dê graças a Deus eu estar vivo. O carro que levava a telha virou... Sic... Escapei por pouco. Perdi tudo mulher!
Os meninos abraçaram o pai chorando, enquanto Madalena agradecia de mãos postas o retorno do esposo ao lar. Ela providenciou o banho, colocou mercúrio nos seus leves ferimentos e serviu o jantar.
"Como fui tão imbecil... Como pude arranhar-me com cacos de telha para simular um acidente? Como gastei tanto dinheiro em vão? Como vou viver em paz com minha consciência e minha família? E o dinheiro para voltar a negociar?... Se perguntava Aléxis , recolhido e encolhido em sua rede.
* Ivan Pinheiro é historiador e secretário de Governo da Prefeitura Municipal do Assu.
(texto extraído do livro de sua autoria intitulado "Dez Contos Cem Causos, 2008).
segunda-feira, 11 de maio de 2009
SONETO DO POETA CALDAS
PRAGA
Persigam-te meus beijos e carinhos.
A bênção do amor e o coração da vida,
Sejam de flores teus lindos caminhos...
Estação da luz e estação florida.
Que te comova o fazer dos ninhos
E, em cada rosa de ilusão sentida,
Longe da mágoa e livre dos espinhos,
Palpite a tua imagem reflorida...
Que cante em as noites luminosas,
Dentro em teu seio, o teu sonho, vindo
D'alma das flores do íntimo das rosas...
E que teu nome só de luz imerso,
Um dia seja no meu verso, lindo,
A rica chave do meu triste verso.
Publicado em Almanaque de Pernambuco, para 1909
Persigam-te meus beijos e carinhos.
A bênção do amor e o coração da vida,
Sejam de flores teus lindos caminhos...
Estação da luz e estação florida.
Que te comova o fazer dos ninhos
E, em cada rosa de ilusão sentida,
Longe da mágoa e livre dos espinhos,
Palpite a tua imagem reflorida...
Que cante em as noites luminosas,
Dentro em teu seio, o teu sonho, vindo
D'alma das flores do íntimo das rosas...
E que teu nome só de luz imerso,
Um dia seja no meu verso, lindo,
A rica chave do meu triste verso.
Publicado em Almanaque de Pernambuco, para 1909
POESIA
Aquela casa branca, edificada
Sobre um alto, no meio do sertão,
Parece uma igrejinha iluminada
para a festa do amor e da ilusão.
Aquela casa, em noite constelada
Ou mesmo em dias quentes de verão
Tem para mim sorrisos de alvorada
E carícias de um terno coração.
Vejo-a sempre cercada de verdura
De borboletas e singelas rosas
Como o reino dourado da ventura.
Vivem nela, a sorrir, sempre vibrando
Duas almasa felizes e ditosas
Como um casal de pássaros cantando.
Júlio Soares
(Poeta do Assu)
blogdofernandocaldas.blogspot.com
Sobre um alto, no meio do sertão,
Parece uma igrejinha iluminada
para a festa do amor e da ilusão.
Aquela casa, em noite constelada
Ou mesmo em dias quentes de verão
Tem para mim sorrisos de alvorada
E carícias de um terno coração.
Vejo-a sempre cercada de verdura
De borboletas e singelas rosas
Como o reino dourado da ventura.
Vivem nela, a sorrir, sempre vibrando
Duas almasa felizes e ditosas
Como um casal de pássaros cantando.
Júlio Soares
(Poeta do Assu)
blogdofernandocaldas.blogspot.com
POESIA
Qual o remédio jocundo
Que ao mal nos serve de escudo?
"Fechai os olhos a tudo
Sorrir de tudo no mundo."
Foi esta a receita clara
Que me deu certa vez interrogado
Um homem que tinha achado coisa rara
A ventura neste mundo.
João Lins Caldas
Que ao mal nos serve de escudo?
"Fechai os olhos a tudo
Sorrir de tudo no mundo."
Foi esta a receita clara
Que me deu certa vez interrogado
Um homem que tinha achado coisa rara
A ventura neste mundo.
João Lins Caldas
quinta-feira, 7 de maio de 2009
O GRACIOSO CHICO DIAS
Francisco de Medeiros Dias, alcunhado de "Chico Dias", é uma figura querida e das mais espirituosas da cidade de Assu. Ele é cearense de nascimento e assuense por opção e escolha. Naquela terra do interior norte-riograndense ele chegou ainda menino de calças curtas. Lá, foi comerciário trabalhando na camisaria de seu primo também espirituoso chamado Oscarzinho Fernandes. Chico em Assu foi presidente do Grêmio Estudantil do Ginásio Pedro Amorim (da CNEG), fundou o Clube de Diretores Logistas (CDL), foi candidato a vereador por várias vezes, cabo eleitoral, comerciante e, atualmente é corretor de imóveis. Figura andarilha quando jovem. O Brasil ele conhece de ponta a ponta. "Era um romântico caminheiro". Pois bem, na década de noventa ou começo dos anos dois mil, salvo engano, foi instalado na cidade de Assu um novo hospital e um cemitério público ). Numa das campanhas políticas de Ronaldo Soares e Zeca Abreu candidatos a prefeito e vice-prefeito respectivamente, Chico trabalhou na certeza de arranjar uma colocação na prefeitura daquele importante município. Ronaldo e Zeca foram eleitos e, já passados mais de seis meses, nada de chico ser nomeado naquela edilidade. Foi quando um certo amigo perguntou-lhe: "Chico Dias e aí, já arranjaram um emprego pra você na prefeitura? Como vai a nova administração de Ronaldo?" " Ótima, estou aguardando se vão me colocar no novo ou no velho!" Respondeu Chico. Aquele amigo intrigou-se com aquele resposta e lhe fez nova pergunta: "No Hospital?" Chico que sempre tem a resposta na ponta da língua, não se fez de rogado, soltou essa de tal modo: "Não amigo! No cemitério!
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VALE DE LÁGRIMAS
O escritor veríssimo de Melo no seu livro intitulado sob o título "Várzea do Açu", primeira edição, diz que a região do Assu "se por um lado possui todos os dons que a Natureza é pródiga em conferir-lhe, não deixa, vez por outra, de sofrer os revezes caprichosos do clima e do meio, levando ao desespero o grosso da sua população.
pode ser, acertadamente, classificada como a "região dos contrastes".
Quando não é inverno copioso, com as cheias torturantes, é a seca dizimadora dos rebanhos, provocadora da fome, arrebatando as famílias ao seio bom e sossegado dos lares, arruinadora do comércio e da vida em geral". Afinal, qual é a solução para resolver o problema das enchentes? Será que somente com a Barragem de Oiticica, no leito do Piranhas/Assu (o terceiro maior rio do Nordeste), pode evitar as enchentes no Vale do Assu? A Barragem Ribeiro Gonçalves foi projetada também com o objetivo de evitar as enchentes naquela região! Mas, como "não sou médico para abrir barriga de ninguém", vou ficando por aqui.
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pode ser, acertadamente, classificada como a "região dos contrastes".
Quando não é inverno copioso, com as cheias torturantes, é a seca dizimadora dos rebanhos, provocadora da fome, arrebatando as famílias ao seio bom e sossegado dos lares, arruinadora do comércio e da vida em geral". Afinal, qual é a solução para resolver o problema das enchentes? Será que somente com a Barragem de Oiticica, no leito do Piranhas/Assu (o terceiro maior rio do Nordeste), pode evitar as enchentes no Vale do Assu? A Barragem Ribeiro Gonçalves foi projetada também com o objetivo de evitar as enchentes naquela região! Mas, como "não sou médico para abrir barriga de ninguém", vou ficando por aqui.
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UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO