terça-feira, 22 de setembro de 2009

POUCAS E BOAS

*Por Valério Mesquita

1 - Zé buchudo era um comerciante, proprietário de um pequeno açougue, nos fundos do mercado. Certa feita numa dessas manhãs chatas da cidade, foi convidado pelo farmacêutico Manoel Guedes e patota, a empreenderem uma viagem de circunavegação pelos bares da cidade. Guedes, capitão de longo curso, dirigiu logo a nau dos insensatos à cidade de Parnamirim, onde ancoraram no famoso cabaré de Tibinha. Desnecessário dizer das abluções profundas e repetidas até a hora vespertina, quando pressentiram que o náufrago Zé Buchudo havia mergulhado a estibordo, em abismal sono etílico. Retornaram a Macaíba e entregaram a domicílio o invólucro corpóreo do que restou do nosso heroi. Estirado no sofá da sala, Zé Buchudo sobreviveu a todos os exercícios de ressureição ministrados pela esposa inclinada sobre si, soltou a catastrófica exclamação denunciadora: "Mas, fia, que é que você está fazendo aqui no cabaré de Tibinha?" Depois dessa, Zé Buchudo era a imagem do próprio cristão trucidado.

2 - José Jeep era uma das mais populares figuras de Macaíba. Chamado assim pela sua baixa estatura, ele foi engraxate, palhaço de pastoril e trombonista. No carnaval de 1962, José Jeep foi contratado por um bloco de elite da cidade. Num dos "assaltos", ocorreu uma trajédia com o seu famoso instrumento na residência do comerciante Edmilson Dias, na hora dos "comes e bebes", José Jeep deixara o trombone sobre o sofá e nisso, o Bridenor Costa Jr., vulgo Costinha, sempre obeso e rotundo, passou mal com um porre de lança-perfume e desandando foi despencar os seus "quadris de jamanta" em cima do pobre trombone. Para consolar José Jeep e continuarmos a "jornada carnavalesca", o amassado instrumento foi amarrado de esparadrapo, o que obrigou a soprá-lo com muito mais força. Na visita seguinte, na casa de Seu Mesquita, o nosso José Jeep querendo impressionar o chefe político, soprou o trombone com tanta veemência que liberou um irreprimível e estrondoso peido. Comovido com o desempenho heróico do seu correligionário assustado, o velho Mesquita, ao seu lado comentou placidamente: "José, o trombone está soltando notas demais. Mas pra carnaval tá bom demais!!!".

*Valério Mesquita é escritor potiguar de Macaíba e membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.



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domingo, 20 de setembro de 2009

POESIA

Uma voz eu ouvi, vinda não sei de onde,
Dizendo-me que, algum dia,
Eu faria uma viagem para muito longe.

Uma voz eu ouvi, vinda das pequenas ondas do mar,
Dizendo-me que, eu deixaria este mundo por outro,
Esta vida, por uma vida melhor,
Esta estranha voz, agora eu sei, veio da noite,
Veio do rio, ou então, daquele sombrio cipreste, que,
Como a minha solidão, ofereço a Deus.

Walflan de Queiroz
(Livro de Tânia, 1963)

sábado, 19 de setembro de 2009

POESIA


LAGOA DAS MOÇAS

- Vancê tá vendo esse lago,
Pequeno, desse tamanho?
Apois bem é a lagoinha
Onde as moças tomam banho,
Quage toda manhanzinha.

- Eu num sei pruque razão
Essa água cheira tanto?
Num sei mesmo pruque é...
Mas, desconfio e agaranto:
Sê dos suó das muié.

- Mas, se eu fosse essa lagoa
Se ela eu pudesse sê!
Se quando as moças chegasse,
Eu pudesse as moças Vê...
Aí, os óios eu feixasse...

- Quando nágua elas caísse
Eu pegava, abria os óios.
Uns óios desse tamanho!!!
Só pra vê aqueles móios,
De moça tomando banho.

Renato Caldas

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

DE ROGACIANO LEITE E CEGO ADERALDO

O poeta-repentista cearense Chamado Cego Aderaldo era quem andava pelas feiras livres do Nordeste, acompanhando o também poeta-repentista  que chegou a morar no Rio Grande do Norte, Rogaciano Leite, autor da famosa canção "Cabelos Cor de Prata". Rogaciano era também advogado, jornalista, morou na paraíba e no Ceará. Pois bem, certa vez, numa certa feira livre de uma cidade nordestina, cercado por estusiastas dele e de Aderaldo, Rogaciano  saiu com essa: "Tô cantando com esse velho, esse velho que não serve pra mais nada, que tá todo enferrujado e já devia´estar na cama cercado de aplausos." Cego Aderaldo puxou da viola e cantou:

Andei procurando um besta
Um besta que fosse capaz
E de tanto procurar um besta
Encontrei esse rapaz
Que não serve pra ser besta
Porque é besta demais.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

HINO OFICIAL DO ASSÚ


A letra e música do Hino do Assú é de autoria da educadora, poetisa e também musicóloga assuense Maria Carolina Caldas Wanderley que na intimidade era chamada de Sinhazinha Wanderley. O Projeto de Lei é de n. 6/69, de 11 de setembro de 1969. Era prefeito do município do Assu João Batista Lacerda Montenegro. Vejamos o referido hino transcrito abaixo:

Qual um canto harmonioso
Das aves, pelo ramado
A minh'alma te festeja
Meu Assu, idolatrado.

Estribilho

Torrão bendito hei de amar-te
Dentro do meu coração
Salve, Assu estremecido.
Salve, salve o meu sertão

Palmeiral da minha terra
As várzeas cobrindo estás
Tu qu'és útil pelo inverno
E pela seca ainda mais

Valoroso, florecente,
Em face dos mais serões
Hão de erguer-te o nosso esforço
Nossos bravos corações.

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terça-feira, 15 de setembro de 2009

RENATO CALDAS, POETA PARA INGLÊS VER


Um fato importante que enriquece a biografia do poeta matuto Renato Caldas, veio a acontecer em 1991. Aquele bardo potiguar do Assu virou poeta para inglês ver, por intermédio do professor americano aposentado da Universidade da Flórida chamado Gerald Standley que na época da Segunda Grande Guerra morou em Natal trabalhando no Campo de Parnamirim (Base Aérea).

Standley já estando no seu país de origem, resolveu depois de mais de quarenta anos de ter conhecido a poesia renatocaldiana traduzir alguns poemas de Renato, para a língua inglesa, e remetê-los remetê-los para a revista cultural editada em Greensboro, Carolina do Norte, intitulada "Internacional Poetry review" (Poesia Internacional Revisitada, na tradução), que publicou as poesias intituladas "Arvorada Matuta" (Dawan in the backlands), "Juramento" e "Minha casinha", dentre outros, como  o célebre poema sob o título "Fulô do mato," que abre as páginas do seu afamado livro intitulado 'Fulô do Mato". Vejamos o original poema:

Sá dona, vossa mecê,
É a fulô mais cheirosa,
A fulô mais prefumosa
Qui o meu sertão já botô.
Podem fazê um cardume,
De tudo qui fô prefume
De tudo qui fô fulô
Qui nem um, nem uma só,
Tem o cheiro do suó
Qui o seu corpinho suô.
Tem cheiro de madrugada,
Fartum de areia muiáda,
Qui o uruváio inxombriô.
É cheiro bom, deferente,
Qui a gente sintindo, sente
Das outa coisa o fedô.
         
_______

M'am milady,
You are de most fragrat flower -
The most perfumed flower
Ever to bloom in my becloed backlands.
Make a collection
Of everytring that flowers -
Not one, not a single one
Wil have the delicious odor
Wil have the delicious odor
Of your sueet, sueet-little body.

Fernando Caldas

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

POESIA MATUTA


LUA CHEIA

Logo de noite,
Quando vórto do trabáio,
Pégo a vióla e me espáio.
Coméço logo a cantá.
Enquanto a lua
Tá no céo dipindurada
Ouvindo a minha toáda
Com vontade de chorá.

Oh! Lua cheia, oh! Lua cheia.
Não óie nas teia
da casa de meu amô.
Pruquê se oiá,
Se espiá,
Cabô-se lua cheia
O teu furgô.

Eu tenho raiva
quando vejo a lua cheia,
Espiando pelas teia
Da casinha de meu bem!
Eu penso inté
Qu'essa lua tão marvada,
Qué levá a minha amada
Pra uma casa que ela tem.

Mas, se eu pegasse
A lua pelas guéla,
Dava tanta tápa nela
Qui nem é bom se falá...
Que me importava
Que o mundão escurecesse,
Ou que ela se escondesse,
Só com mêdo de apanhá.

Se Deus deixasse,
Se Deus aconsentisse,
Que pro céo eu assubisse
E fosse lua tambem...
Passava a noite,
Lá no céo dipindurado,
Oiando pulo teiádo
Da casinha de meu bem.

Renato Caldas

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UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO