segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A Ponte

Por João Lins Caldas

A ponte vai transpor o rio
Para o trem de ferro passar carregando as mercadorias
Passarão os carros de bois
Os automóveis lotados
Os mendigos que vão, dois a dois, os grandes chapeis de abas longos esburacados.

Mata a uma, mata a outra margem do rio
Adivinho os veados, as jacutingas engurujadas, pesadas de gordas.
E a Irara, o símio, o coelho, a raposa matreira sob as moitas injariabadas

O chão está toldado de verde.
A prata das água carreia nas balsas
Líquens e algas, de par com peixes de escamas frias.




Belos Poemas Que Viraram Músicas – Fanatismo.

Da série “Belos Poemas Que Viraram Música” o destaque de hoje é Fanatismo, soneto da poetisa portuguesa Florbela Espanca. O poema foi musicado por Fagner e gravado no disco Traduzir-se de 1981.

Fanatismo é um soneto (dois quartetos e dois tercetos) publicado pela primeira vez no “Livro de Sóror Saudade”, uma coletânea de 36 sonetos, editado em janeiro de 1923, cuja primeira edição de 200 livros esgotou-se rapidamente.

 O poema foge, um pouco, dos argumentos melancólicos da maioria das suas poesias, embora também se perceba componentes de dor e sofrimento. Desta vez, a poetisa optou por escancarar todo o seu amor e lirismo.

A paixão, nesta poesia, é levada ao extremo ("[...] Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: princípio e fim”), justificando, plenamente, o título. O amor de Florbela, em fanatismo é arrebatador. É tratado de forma hiperbólica, possessiva e, ao mesmo tempo, submissa, resultado, talvez, da eterna procura de um amado (“[...] a mesma história tantas vezes lida [...]”). 

Desde jovem, Florbela já dava sinais de onde iria buscar suas inspirações: as coisas da alma e seus conflitos internos, decorrência de uma vida marcada por desilusões, decepções e tragédias pessoais, temas que foram transportados de forma comovente para suas obras. Sua mãe, Mariana Toscana, não podia ter filhos. Florbela e Apeles, seu irmão mais novo, embora criados por Mariana Toscana, são frutos do relacionamento extraconjugal do pai, João Maria Espanca, com Antônia da Conceição Lobo. 

Florbela de Alma Conceição Espanca, (1894-1930), nasceu em Vila Viçosa e faleceu tragicamente em Matosinhos - Portugal: cometeu suicídio ainda jovem, no dia do seu aniversário, 8 de dezembro. A trajetória da, talvez, maior sonetista de Portugal não foi comum: sua mãe de criação morreu jovem aos 29 anos. O irmão querido, Apeles, faleceu em um trágico desastre de avião. A curta vida da escritora, ainda foi marcada por vários casamentos desfeitos. 

Tantos acontecimentos em tão pouco tempo de vida, aliado a um estilo literário único e comportamento não usual para a época, transformaram a poetisa portuguesa em um verdadeiro mito, chegando a se tornar símbolo de movimentos feministas. 

Na verdade, Florbela era poetisa de extremada sensibilidade, jovem triste que falava da dor e do amor sem economia na criatividade dos versos. Ser poeta, para Florbela, “é ser mais alto, é ser maior dos que os homens...” como ela deixa claro no soneto “Ser Poeta”.

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Já o autor da música, o cantor e compositor Fagner, é um mestre em musicar poemas. A grande maioria das belas poesias musicadas pelo cearense se tornou grande sucesso. Já passaram pelo seu violão, por exemplo, poemas da lavra de Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Ferreira Gullar, dentre outros grandes nomes. Um dos Posts desta série, por sinal, remete a outra poesia musicada por Fagner: o poema “Traduzir-se” de Ferreira Gullar (acesse aqui).

Uma curiosidade: em Fanatismo, ao final da música, o compositor acrescentou trechos de Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo, música que Roberto Carlos fez para o pai, uma licença poética para homenagear o Rei. O disco Traduzir-se foi gravado na Espanha por sugestão de Joan Manuel Serrat. Sobre a inclusão de Fanatismo no disco o cantor declarou:

“[...] é um disco que marcou demais. Até hoje o pessoal do mundo do disco fala dele [...] foi disco de ouro, lançado no mundo inteiro. [...] Este disco tinha uma idéia fechada, onde coube o 'Fanatismo' porque, na época, eu tinha que ter uma música em português.

A gravadora não entendeu e eu sabia que 'Años' iria tocar (música em espanhol que teve a participação de Mercedes Sosa), como aconteceu. Me pediram para gravar uma música só comigo cantando em português. Foi onde conheci o trabalho da Florbela Espanca, o Fausto me deu um livro lá em Portugal na volta desta viagem da Espanha. Fiz estas músicas, cheguei aqui e gravei. Deu para acoplar ainda no disco. Mas também foi uma música feita com a influência das coisas da região, veio no clima, não se afastou muito da idéia deste disco''
. (*)
(*) trechos de entrevista publicada em Http://www.nordesteweb.com/not01_0304/ne_not_20040305d.htm

Clique no marcador "Belos poemas que viraram músicas", à direita, para ver outros post sobre poemas musicados.  

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

Livro de Soror Saudade (1923)

Fonte:http://www.drzem.com.br/
Fernando Caldas compartilhou um link.
6 min
Ingredientes: 500 g de batatas , 2 ovos , 2 colheres (sopa) de amido de milho , 2 colheres (sopa) de queijo ralado , 200 g de carne seca desfiada sem gordura, ou…
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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SOBRE MADRE CRISTINA, EX-DIRETORA DO EDUCANDÁRIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS

MADRE CRISTINAWLASTNICK

Poucas vezes temos assistido uma manifestação de apreço, tão espontânea, tão sincera, quanto esta que, as alunas do Educandário N. S. das Vitórias, prestaram à Madre Cristina Wlastnick, ex-diretôra deste estabelecimento, no dia de sua partida para Caicó, em obediência às determinações da Madre Geral da Congregação das Filhas do Amor Divino.

Impossível, nos estreitos limites de uma notícia de jornal, dizer o que foi esta demonstração de estima e de gratidão à abnegada religiosa, que por mais de 20 anos, dirigiu este modelar estabelecimento de educação e ensino, com inexcedível dedicação e paternal carinho.

Realmente, Madre Cristina Wlastnick, é preciso que se repita sempre, foi dentro do “Educandário N. S. das Vitórias, uma mãe carinhosa que as centenas dirigiu as suas alunas, merecendo a confiança especial das famílias assuenses e os aplausos de toda população.

Amável, dedicada, tendo sempre um riso acolhedor e carinhoso para todos, Madre Cristina Wlastnick, deixa em nossa terra, fundas saudades – fruto do seu esforço e de sua dedicação, em cooperar conosco, para o desenvolvimento intelectual e moral da mocidade assuense.

Por ocasião da solene despedida, falou em nome do povo assuense, o jornalista Francisco Amorim e em nome das alunas do “Educandário Nossa Senhora das Vitórias”, a senhorita Terezinha Leitão, cujas palavras foram proferidas, entrecortadas de soluços.

Para fielmente descrever a emoção do momento, teríamos de alongar esta nota, feita já a última hora.

Limitando-nos a este ligeiro registro, na primeira página de “ATUALIDADE”, como justa homenagem ao autêntico valor de Madre Cristina Wlastnick, ex-diretôra do “Educandário Nossa Senhora das Vitórias”, que, com amor, desprendimento e abnegação, somente próprios nos espíritos crentes e iluminados pela graça da fé, vinha dirigindo este nosso importante estabelecimento educacional, que constitui um dos motivos de que se pode orgulhar a nossa querida terra, temos, assim, expressado a nossa admiração e, tornada público o reconhecimento do povo assuense


De: Jornal Atualidade, de Assu, edição de 19 de Março de 1950.


ASSUENSE TERÁ A MISSÃO DE TREINAR A SELEÇÃO BRASILEIRA FEMININA NO PERU

Atual treinador do Team Taekwondo Escola, em Assú, o professor Fábio Lourenço da Silva tem desde a última sexta-feira (23) mais uma atribuição de peso.
Ele foi nomeado pela direção técnica da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) para assumir a condição de técnico da Seleção Brasileira feminina da referida modalidade na categoria Juvenil.
Sua estreia no comando técnico da representação brasileira ocorrerá dia 17 de novembro, quando se dará a realização do Campeonato Sul-americano da modalidade, competição que será disputada em Lima, capital do Peru, segundo informação do blog Assurn.com.br.
Além de Fábio Lourenço na condição de treinador, outros assuenses estarão no torneio como lutadores defendendo o selecionado brasileiro: Paulo Ricardo, Peterson Endres, Maria Eduarda, Nívia Barros e Clécia Albano. Fábio Lourenço embarca no dia 14 do mês que vem para participar de um estágio preparatório organizado pela WTF, sigla em inglês da Federação Mundial de Taekwondo, visando bem desempenhar a missão que tem pela frente.
IMORTAL ASSUENSE TEM LIVRO PUBLICADO NA ALEMANHA
Fruto do trabalho final de pesquisa do Curso de Mestrado em Linguística pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte foi publicado, esta semana na Alemanha, o livro Procedimentos de Abertura e Fechamento de Tópicos na Interação em Sala de Aula, de autoria do Acadêmico Francisco José Costa dos Santos, ocupante da cadeira de número 04, na Academia Assuense de Letras, que tem por patrono Francisco Agripino de Alcaniz - Chico Traíra.

A obra trata da organização de tópicos discursivos na interação que se desenvolve no interior da sala de aula entre professor e alunos e prima pela observação nas funções exercidas pelo marcador discursivo ENTÃO.

O livro foi publicado pela Editora “Novas Edições Acadêmicas” sediada na cidade de Saarbrücken – Alemanha e tem 193 páginas, na qual o autor realiza “uma viagem teórica” ao ambiente da interação na sala de aula.

O autor comemora mais essa publicação. Anteriormente, ele já havia publicado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeiro – RN, quatro obras também da área de linguística e publicará, provavelmente em janeiro de 2016 pela mesma editora carioca, a obraRetalhos de Mim que tem cunho poético/histórico e se volta para decantar o Assu. 

Parabenizamos o amigo e confrade Francisco José Costa dos Santos por mais esta vitória nos caminhos garranchentos e difíceis da literatura.  


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ENTRE HISTÓRIA E FICÇÃO, UMA VIDA

resenha-dora-bruder-patrick-modiano-livro-capa
Livro de Patrick Modiano, Nobel de literatura em 2014, mostra que a criação literária é um caminho de sensibilização histórica e de rememoramento
As fronteiras entre pesquisa histórica e criação literária sempre foram bastante porosas, capazes de permitir contatos e intercâmbios interessantes. A própria dimensão da narrativa é fundamental no âmbito da investigação e reconstituição histórica do passado, embora durante certo tempo tivesse sido como que colocada no escanteio, quase abandonada em favor de abordagens que privilegiavam as análises quantitativas e seriais.  Mas fazer história é também saber narrar uma boa história, construindo pontes entre seus leitores e aqueles pilares que sustentam o trabalho do historiador: os documentos e as fontes.
Portões do Campo de Concentração de Auschwitz. Foto: Tulio Bertorini
Portões do Campo de Concentração de Auschwitz. Foto: Tulio Bertorini
De forma análoga age o bom escritor quando sua criação literária busca pontos de sustentação ou de referência em eventos históricos, fatos do passado comum de um país ou de uma sociedade. De Tolstói a Stendhal, de Júlio Verne a Thomas Mann, os exemplos são inúmeros, mas chegando mais próximos dos tempos atuais, baste pensar na Festa do Bode, de Vargas Llosa ou em obras de Javier Cercas, como Soldados de Salamina ou Anatomia de um instante, ou ainda em O Cemitério de Praga de Umberto Eco, em HHhH de Laurent Binet, ou O Projeto Lazarus, de Hemon. Cada um segundo um estilo e uma dinâmica própria, mas sempre buscando indagar limites e possibilidades do encontro entre ficção literária e realidade histórica
Assim, o simples anúncio do desaparecimento de uma jovem, denunciado por seus pais, encontrado, já no final dos anos ’90, numa edição de 1941 de Paris Soir, faz com que o escritor mobilize sua fantasia para tentar imaginar os caminhos da garota numa Paris ocupada pelos nazistas, e ao mesmo tempo se lance, com faro de autentico historiador, em busca de rastros, sinais, pegadas, isto é, documentos, que sustentem sua narração.  O autor da obra – Dora Bruder, publicada pela Editora Rocco – é o premio Nobel de Literatura de 2014, o francês Patrick Modiano, e a jovem desaparecida é a que dá o titulo ao livro.  As seis linhas do anúncio no diário parisiense apresentam elementos a partir dos quais o narrador vai elaborando reflexões, perguntas, considerações e sugestões, misturadas com lembranças de sua própria vida, do relacionamento doloroso com o pai, da Paris de antigamente, de seu perambular de juventude pelas ruas da cidade.
Patrick Modiano, Nobel de literatura em 2014
Patrick Modiano, Nobel de literatura em 2014
Dramas e feridas que a ocupação nazista deixou no tecido urbano e social da França aparecem no livro como pano de fundo de uma história de vida e luta de uma família judia, o pai austríaco, a mãe húngara, ambos judeus aportados a Paris em anos difíceis, vivendo em meio a mil dificuldades. E Dora, a filha de quinze anos, que abandona repentinamente o colégio católico onde estuda e desaparece. A polícia, as buscas, ao mesmo tempo as investigações e prisões de cidadãos de origem judaica, as cumplicidades das autoridades francesas com os ocupantes alemães, os campos de concentração ao redor da capital, as viagens para a morte.
Fotografias de identificação de prisioneiros de Auschwitz feitas por Wilhelm Brasse, fotógrafo polonês e sobrevivente do campo
Fotografias de identificação de prisioneiros de Auschwitz feitas por Wilhelm Brasse, fotógrafo polonês e sobrevivente do campo
E as perguntas, que perpassam as páginas e levam a sucessivos questionamentos e buscas, e encontros, às vezes, com fios de memoria e fragmentos de documentos: anônimos relatos policiais, listas de alunos de colégio, fotografias sem datas. Para onde foi Dora naquelas semanas e meses de fuga? Por que se subtraiu à escola, aos pais, ao seu cotidiano? Quem a encontrou e/ou a denunciou? Como e quando se reencontrou com a família e em que circunstâncias foi enviada para Auschwitz?  Deste modo o pesquisador, junto ao escritor, tece a teia de sua imaginação narrativa. Mas confessa também, encerrando seu livro: “Ignorarei para sempre como ela passava seus dias, onde se escondia, em companhia de quem se encontrava no inverno de sua primeira fuga e nas poucas semanas daquela primavera em que fugiu de novo. É o segredo dela. Pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos da polícia, as autoridades assim chamadas de ocupação, os quarteis, os campos, a História, o tempo – tudo o que suja e destrói – não conseguiram roubar-lhe”.
Ficção e realidade. Acontecimentos documentados, fatos e registros históricos e livre exercício da capacidade criativa.  O resultado é um livro intrigante, doloroso em sua tentativa de resgate de fragmentos de existência, magnificamente escrito.
AUTOR – Marcello Scarrone é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e autor da tese “Nello, Libero e Giuseppe: do Rio contra Mussolini. Percursos políticos do Antifascismo Italiano na Capital Federal (1922-1945)” (UFRJ, 2013)
Do blog:

ENTRE HISTÓRIA E FICÇÃO, UMA VIDA

resenha-dora-bruder-patrick-modiano-livro-capa
Livro de Patrick Modiano, Nobel de literatura em 2014, mostra que a criação literária é um caminho de sensibilização histórica e de rememoramento
As fronteiras entre pesquisa histórica e criação literária sempre foram bastante porosas, capazes de permitir contatos e intercâmbios interessantes. A própria dimensão da narrativa é fundamental no âmbito da investigação e reconstituição histórica do passado, embora durante certo tempo tivesse sido como que colocada no escanteio, quase abandonada em favor de abordagens que privilegiavam as análises quantitativas e seriais.  Mas fazer história é também saber narrar uma boa história, construindo pontes entre seus leitores e aqueles pilares que sustentam o trabalho do historiador: os documentos e as fontes.
Portões do Campo de Concentração de Auschwitz. Foto: Tulio Bertorini
Portões do Campo de Concentração de Auschwitz. Foto: Tulio Bertorini
De forma análoga age o bom escritor quando sua criação literária busca pontos de sustentação ou de referência em eventos históricos, fatos do passado comum de um país ou de uma sociedade. De Tolstói a Stendhal, de Júlio Verne a Thomas Mann, os exemplos são inúmeros, mas chegando mais próximos dos tempos atuais, baste pensar na Festa do Bode, de Vargas Llosa ou em obras de Javier Cercas, como Soldados de Salamina ou Anatomia de um instante, ou ainda em O Cemitério de Praga de Umberto Eco, em HHhH de Laurent Binet, ou O Projeto Lazarus, de Hemon. Cada um segundo um estilo e uma dinâmica própria, mas sempre buscando indagar limites e possibilidades do encontro entre ficção literária e realidade histórica
Assim, o simples anúncio do desaparecimento de uma jovem, denunciado por seus pais, encontrado, já no final dos anos ’90, numa edição de 1941 de Paris Soir, faz com que o escritor mobilize sua fantasia para tentar imaginar os caminhos da garota numa Paris ocupada pelos nazistas, e ao mesmo tempo se lance, com faro de autentico historiador, em busca de rastros, sinais, pegadas, isto é, documentos, que sustentem sua narração.  O autor da obra – Dora Bruder, publicada pela Editora Rocco – é o premio Nobel de Literatura de 2014, o francês Patrick Modiano, e a jovem desaparecida é a que dá o titulo ao livro.  As seis linhas do anúncio no diário parisiense apresentam elementos a partir dos quais o narrador vai elaborando reflexões, perguntas, considerações e sugestões, misturadas com lembranças de sua própria vida, do relacionamento doloroso com o pai, da Paris de antigamente, de seu perambular de juventude pelas ruas da cidade.
Patrick Modiano, Nobel de literatura em 2014
Patrick Modiano, Nobel de literatura em 2014
Dramas e feridas que a ocupação nazista deixou no tecido urbano e social da França aparecem no livro como pano de fundo de uma história de vida e luta de uma família judia, o pai austríaco, a mãe húngara, ambos judeus aportados a Paris em anos difíceis, vivendo em meio a mil dificuldades. E Dora, a filha de quinze anos, que abandona repentinamente o colégio católico onde estuda e desaparece. A polícia, as buscas, ao mesmo tempo as investigações e prisões de cidadãos de origem judaica, as cumplicidades das autoridades francesas com os ocupantes alemães, os campos de concentração ao redor da capital, as viagens para a morte.
Fotografias de identificação de prisioneiros de Auschwitz feitas por Wilhelm Brasse, fotógrafo polonês e sobrevivente do campo
Fotografias de identificação de prisioneiros de Auschwitz feitas por Wilhelm Brasse, fotógrafo polonês e sobrevivente do campo
E as perguntas, que perpassam as páginas e levam a sucessivos questionamentos e buscas, e encontros, às vezes, com fios de memoria e fragmentos de documentos: anônimos relatos policiais, listas de alunos de colégio, fotografias sem datas. Para onde foi Dora naquelas semanas e meses de fuga? Por que se subtraiu à escola, aos pais, ao seu cotidiano? Quem a encontrou e/ou a denunciou? Como e quando se reencontrou com a família e em que circunstâncias foi enviada para Auschwitz?  Deste modo o pesquisador, junto ao escritor, tece a teia de sua imaginação narrativa. Mas confessa também, encerrando seu livro: “Ignorarei para sempre como ela passava seus dias, onde se escondia, em companhia de quem se encontrava no inverno de sua primeira fuga e nas poucas semanas daquela primavera em que fugiu de novo. É o segredo dela. Pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos da polícia, as autoridades assim chamadas de ocupação, os quarteis, os campos, a História, o tempo – tudo o que suja e destrói – não conseguiram roubar-lhe”.
Ficção e realidade. Acontecimentos documentados, fatos e registros históricos e livre exercício da capacidade criativa.  O resultado é um livro intrigante, doloroso em sua tentativa de resgate de fragmentos de existência, magnificamente escrito.
AUTOR – Marcello Scarrone é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e autor da tese “Nello, Libero e Giuseppe: do Rio contra Mussolini. Percursos políticos do Antifascismo Italiano na Capital Federal (1922-1945)” (UFRJ, 2013)
Do blog:http://tokdehistoria.com.br/

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