sábado, 4 de março de 2017
quinta-feira, 2 de março de 2017
O INSTANTE ANTES DO BEIJO
Mia Couto
Não quero o primeiro beijo:
basta-me
O instante antes do beijo.
basta-me
O instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.
(Da Linha do Tempo/Facebook de Lis Borghi)
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
ANA ANGELINA, UMA POETISA DA BOA SAFRA ASSUNSE
Por Fernando Caldas
Ana Angelina Soares de Amorim nasceu no dia 22 de janeiro de de 1875. Adquiriu o sobrenome Macedo, por ter se casado com João Francisco Soares de Macedo, de tradicional família assuense, o qual, filho de português nascido no Porto, Portugal. Angelina morreu vítima de tuberculose, no dia 5 de junho de 1906, aos 31 anos de idade. Deu a sua colaboração literária em diversos jornais e revistas do Rio Grande do Norte, publicando seus poemas, sonetos, charadas, contos.
Angelina empresta o seu nome a uma rua do bairro Candelária, da capital potiguar, bem como na cidade de Assu. Rua Poetisa Ana Angelina de Amorim Macedo.
O antologista Ezequiel Fonseca Filho, que aos 84 anos estreou nas letras norte-riograndenses, publicando o livro Poetas e Boêmios do Açu, 1984, prefaciado por Manoel Rodrigues de Melo, depõe que “há quem atribua o estilo e a tristeza dos seus versos a influência exercida por Auta de Souza de quem era fã lendo frequentemente e decorando seus sonetos”. E vais mais adiante aquele autor ao dizer que Angelina tinha um "temperamento sentimental, sofreu muito na vida, não encontrando no matrimônio a realização de seus sonhos de adolescente". "O lirismo de Angelina também está marcado pela melancolia, pela religiosidade e por acentuados elementos românticos e simbolistas."
E na sua melancolia Angelina escrevera o soneto datado de 1903, cujos versos, penso eu, parece com o estilo de poetar da poetiza sonetista portuguesa, uma das maiores vozes da poesia lusitana do século XX chamada Florbela Espanca, publicado no Almanaque do Açu. Se não vejamos, para o nosso deleite:
Sonhei que era feliz e era amada,
Que ao lado de meus pais tranquilamente,
Passava minha vida sorridente,
Sem nunca pela dor ser perturbada.
Que ao lado de meus pais tranquilamente,
Passava minha vida sorridente,
Sem nunca pela dor ser perturbada.
Nessa doce ilusão, sendo embalada,
Áureos castelos levantei na mente
E por linda visão aurifulgente,
Era ao céu de fantasia arrebatada.
Áureos castelos levantei na mente
E por linda visão aurifulgente,
Era ao céu de fantasia arrebatada.
Porém ao despertar do grato sonho,
Ao ver o meu presente tão tristonho,
Tão negro como fora o meu passado.
Ao ver o meu presente tão tristonho,
Tão negro como fora o meu passado.
Quisera viver sempre adormecida,
Do mundo e de todos esquecida,
Ou ao menos, meu Deus, não ter sonha
Do mundo e de todos esquecida,
Ou ao menos, meu Deus, não ter sonha
"PELEJANDO NA GLOSA..."
PELEJANDO NA GLOSA...

Xilogravura-Museu UFCE
ANTONIEL CAMPOS
VERSUS
LAÉLIO FERREIRA
( I )
Laélio eu vou lhe ensinar.
na volta de Antoniel
Laélio, chegue mais cá,
puxe a cadeira e se sente.
Fazer glosa inteligente,
Laélio eu vou lhe ensinar.
Sou o tampa do lugar,
na Terra, inferno e no céu,
e o filho de Otoniel,
parece não herdou nada,
vai ter que ler tabuada
na volta de Antoniel
(AC)
( II )
A sua tampa, Engenheiro,
eu destampo num minuto!
Não invada o meu terreiro
pois aqui galo sou eu !
- Veja só onde meteu
a sua tampa, Engenheiro !
Fique longe, no aceiro
dos sonetos – seu produto...
Nas glosas cobro tributo,
tiro-lhe a régua e o compasso,
esculhambo, e o seu parnasso
eu destampo num minuto !
LF
( III )
Quer na glosa ou no soneto,
Aqui quem manda sou eu!
Botar-lhe-ia num gueto,
se nos "quatorze" o enfrentasse.
Não há ninguém que me passe
quer na glosa ou no soneto.
e o seu tributo, eu prometo,
será ver meu apogeu
lhe ensinando em meu liceu
a rima que não lhe chega.
Você manda em suas "nêga",
aqui quem manda sou eu!
AC
(IV)
“Quer na glosa ou no soneto
aqui quem manda sou eu”
Sou chama de carbureto,
você pra mim é um fracote
- aceito até o seu mote:
“quer na glosa ou no soneto” !
De Satanás peço o espeto,
vou invocar Asmodeu:
na encruzilhada o seu
boneco todo furado
vou despachar com agrado
- aqui quem manda sou eu !
LF
( V )
Eu canto ao Beco da Lama
O meu mais sublime verso
A quem fracote me chama,
já sabe que eu canto mais.
Você canta a Satanás,
Eu canto ao Beco da Lama.
Minha glosa é pra quem ama,
mas também sei ser perverso:
tem pé-quebrado, disperso,
no seu verso sete, acima,
e assina embaixo e em cima
O meu mais sublime verso !
AC
( VI )
“Quer na glosa ou no soneto
aqui quem manda sou eu”
A ripa, já, já, lhe meto
se demorar na resposta
- sua equipe é muito bosta
quer na glosa ou no soneto...!
Não procure calafeto
de aspones do Silogeu,
não verseje em priapeu
pois minha glosa é formosa,
deixe de goga e de prosa
- aqui quem manda sou eu !
LF
(VII)
Eu canto ao Beco da Lama
O meu mais sublime verso
O meu peito chora e clama,
quero cantar a “Praieira” !
Com saudade, a vida inteira,
eu canto ao Beco da Lama !
É amplo o seu cosmorama,
palco de vida diverso,
é variado, disperso...-
Mas é onde eu quero, um dia,
fazer com muita harmonia
o meu mais sublime verso !
LF
(VIII)
“Satanás” rima com “mais”,
“disfarce” rima com “face” ?
Antoniel, mo digas: vais
dar um jeito às tuas rimas?
Não mo venhas com pinimas
- “Satanás” rima com “mais”?
E não cometas, jamais,
afirmação tão fugace,
me jogando à anteface
pé-quebrado inexistente !
- Diga agora, meu decente:
“disfarce” rima com “face” ?
LF
( IX )
Minha rima é no fonema,
já nasci metrificado.
Não vejo nenhum problema:
assonância? consonância?
eu rimo é com elegância:
minha rima é no fonema!
você quer mudar de tema,
mas eu volto ao pé-quebrado
— sou assim mesmo, abusado:
seu primeiro verso é falho!
pedindo, quebro seu galho:
já nasci metrificado !
AC(
X)
No bom ardor da refrega
cometi um pé-quebrado!
Nosso embate não foi brega,
não parti pro fescenino,
você deu sorte, menino,
no bom ardor da refrega !
Não virei de bordo à cega
do Sesiom aloprado,
não lhe chamei de cagado,
sequer falei de Clotilde
- mas confesso, muito humilde,
cometi um pé-quebrado !
LF
Natal, abril/maio/2005
POSTADO POR LAÉLIO FERREIRA (DE MELO)
sábado, 25 de fevereiro de 2017
UM POEMA DE LÊDO IVO
Valsa Fúnebre de Hermengarda é o título de um poema célebre, do poeta alagoano de Maceió chamado Lêdo Ivo (1924-2012). Eu era ainda adolescente, escutei muitas vezes, os boêmios apaixonados do Assu, minha terra natal, declamar nos encontros literários, nos bares e botequins daquela terra de tantas figuras boêmias e poéticas, o referenciado poema que diz assim: :
Eis-me junto à tua sepultura, Hermengarda.
para chorar a carne pobre e pura que nenhum de nós viu apodrecer.
Outros viriam lúcidos e enlutados,
porém eu venho bêbado, Hermengarda, eu venho bêbado.
E se amanhã encontrarem a cruz de tua cova jogada ao chão
não foi a noite, Hermengarda, nem foi o vento.
Fui eu.
Quis amparar a minha embriaguez à tua cruz
e rolei ao chão onde repousas
coberta de boninas, triste embora.
Eis´me junto à tua cova, Hermengarda,
para chorar o nosso amor de sempre.
Não é a noite, Hermengarda, nem é o vento.
Sou eu.
____________Em, As Imaginações.
(O poema acima também está publicado em A Vida Eterna, de Fernando Savater).

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Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.
