segunda-feira, 15 de abril de 2019

UM DIA NO CASARÃO DA RUA DAS HORTAS SÉRGIO SIMONETTI CAPÍTULO LXIII

Por Sérgio Simonetti


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Joaquim entra na cozinha, acompanhado de Sinharica. Ele é um homem alto, magro, rosto comprido de testa larga e barba cerrada. Educado e elegante, tem um olhar sereno, mas firme.

– Bom dia, pessoal! Acabamos de chegar da missa, e eu quero aproveitar a presença de todos e conversar sobre um assunto que Sinharica me falou hoje.
Sinharica chama a novata.
– Galdina, venha cá!
Nenê de Maria Flor tenta interromper.
– Mas, Dona Sinharica...
– Nenê, você fique calado. – Diz Sinharica.
Sinharica vira-se para Galdina.
– Galdina, Seu Chico Matias fez ótimas referências suas e você me apronta uma dessas? Uma moça tão nova, tão cheia de vida.
Nenê de Maria Flor interrompe novamente, tentando colocar água fria na fervura.
– Dona Sinharica, a senhora me perdoe, mas não é melhor esperar Adolfinho voltar pra poder resolver esse assunto com calma?
– Não, senhor, vamos resolver isso agora. – Interfere Joaquim. – É que desapareceu um envelope com dinheiro da caixinha da gaveta da escrivaninha da sala de jantar e vocês sabem que isso nunca tinha acontecido antes aqui no Casarão.
– Ufa!, então é isso?! – Nenê suspira aliviado.

domingo, 14 de abril de 2019

Sertão. Em pleno inverno. Os rios descem,
As margens alagadas. Os marmeleiros
Ressequidos, agora reverdecem...
Ouve-se, ao longe, a voz dos boiadeiros.
O gado muge nas campinas. Crescem
Os ramos e o capim nos tabuleiros.
As messes de oiro fulvo amarelecem,
Partem para o labor os vis roceiros.
O Peixe, nas lagoas, em cardume,
Pontilha à face d´água. Um vaga-lume
De quando em vez, no espaço relampeja...
E, enquanto a noite desce, misteriosa,
A chuva cai em bátegas, copiosa,
Ressuscitando a terra sertaneja!
João Celso Filho
Da Linha do Tempo/Facebook de Pedro Otávio.
Queres embriagar-te
E abastecer de amor
Queres ser bem amada
E esquecer o dissabor!
Cai aqui em meus braços
Ao sentir o meu abraço
Tu jamais sentiras dor!
Porque da dor do amor
Vais ficar adormecida
O veneno do meu beijo
Vai curar tua ferida
De prazer vou saciar-te
Para sempre vou amar-te
E terás prazer na vida.
(Rita de Cassia Quereira)

Imagem de Cristina Costa.
Farol de Mãe Luíza. Natal

IPANGUAÇU?RN
Aluísio de França
Ipanguaçu uma cidade com lugares lindos para Se visitar.
Barragem de Lagoa de Pedra uma das sete maravilhas de Ipanguaçu
"Onde tem o amor, tem beleza".
Fotografia de anteontem. Encontro de alguns membros da Academia Assuense de Letras, no Café São Braz (Shaping Myduey, Natal), discutindo o lançamento do livro sobre um pouco da história da terra assuense, bem como os patronos daquela instituição cultural. É preciso dizer que o livro será editado as custas de verba pública, indicação do deputado estadual George Soares. Na fotografia, da esquerda: Perpetuo Wanderley de Castro, Fernando Caldas, Francisco Costa, Ivan Pinheiro, Chagas h e Auricéia Lima. O livro sera lançado no dia 22 de junho de 19 durante a festa do padroeira do Assu, São João Batista. Vale a pena registrar. Bom sábado!
A FEIRA
Feira de louças de barro - anos 70, no Assu

Feira Livre no Assu - foto Jean Lopes
Feira Livre no Assu - foto Jean Lopes
 
A FEIRA

É sábado, amanhece o dia
Chegam primeiro os feirantes
Loroteiros, arrogantes
Arrumam as mercadorias.
Mais tarde vem os feireiros
Sempre em grupos separados
Ainda desconfiados
Com as sacolas vazias. 
 
Grita logo um barraqueiro:
“- Olha aqui feijão novinho
Tem enxofre e mulatinho
Tem o preto e o macaça
Esse amarelinho é bom
O pintado é um azeite
Se quer levar aproveite
Que hoje é quase de graça”. 
 
Muitos trazem pra vender
Couro de bode, algodão,
Batata, milho verde e feijão,
Porco, carneiro e peru,
Depois que terminam as vendas
Se reúnem, vão beber,
As mulheres vão comer
Pé-de-moleque e angu. 
 
Entra um rebanho no bar,
Lá já tem outra patota,
Ali começa a lorota
Pois o prazer é profundo.
Tomam a primeira dosagem
Logo após, outra bicada,
Com a terceira rodada,
Haja mentira no mundo.
 
Diz um, nunca me faltou
Dinheiro pra brincar
Quando eu quero vadiar
Boto a sela no jumento.
Responde outro, melado
Eu juro no evangelho
Que no meu cavalo velho
Derrubo até pensamento. 
 
Grita um mais exaltado
Comigo não tem ladeira
Eu topo toda zonzeira
Toda brincadeira é festa.
Grita outro, eu também sou
Osso duro de roer
Quem quiser venha saber
Um velho pra quanto presta.
 
A coisa está esquentando
Vai acabar o zum-zum
Chega a mulher de um
Do outro chega a esposa
Com pouco o filho do outro
Chega pra dar o recado
“- Mamãe está no mercado
Vamos comprar qualquer coisa"
 
O vendedor de galinha
Fala alto, “aqui freguês
Essa galinha pedrês
É pesada de gordura,
Esse pescoço pelado
É boa pra criar,
Eu garanto ela botar
Cem ovos numa postura.
 
Um galo velho surú
Pra cantar não tem mais som
O vendedor diz “É bom!
Pode levar que é novinho.
Esse galo, meu amigo,
Ainda tem outra coisa
Tem dado surra em raposa
Que ela perde o caminho. 
 
“- Olha a ovelhinha gorda!”
Gritam lá na criação
Grita o do porco “O leitão
É novinho, cavalheiro”!
O velho que está melado
Não presta muita atenção,
No porco compra barrão;
No bode, pai de chiqueiro. 
 
Na carne de gado mostram
Uma manta do pescoço
“- Aqui é carne sem osso,
Compra boa, quem conhece!”
A carne velha encardida
Como que foi de murrinha
Na panela não cozinha
Na brasa não amolece. 
 
Aquele que se entreteu
Na birita o dia inteiro
Acabou todo o dinheiro
Passou o tempo e não viu
Ficou sem nenhum tostão
No bolso da velha calça
O que sobrou da cachaça
O pife-pafe engoliu.
 
Arranja uma confusão
Quase ao morrer do dia
Vai para a delegacia
Para um repouso forçado
Coitado, caiu à crista.
De manhã faz a faxina
Inda vai dar entrevista
Com o doutor delegado. 

Chico Traíra
Do poeta Francisco Agripino de Alcaniz, o popular Chico Traíra – grande violeiro, assuense de coração, nascido no sítio Pau de Jucá – Ipanguaçu/RN. Em Assu existe uma rua, no Bairro Frutilândia, que tem Chico Traíra como patrono. Também é patrono da Academia Assuense de Letras.

sábado, 13 de abril de 2019

SPVA (Sociedade dos poetas vivos e afins-RN).
Sarau poético no Parque das Dunas.
AMOR DE UMA SERTANEJA
Verdadeiro nosso amor
É bonito no torrão
Comendo uma feijoada
Sobremesa de melão
À noite tem bom cuscuz
Carne guizada e pirão.
Eu beijo a mulher amada
Na linda colcha macia
Eu pego a fruta madura
Na rama da melancia
É grande o amor pelos filhos
Todo dia acaricia.
A minha linda mulher
Cheira mais que coalhada
Boneca de milho verde
É uma menina amada
Na varanda numa rede
Ela olha a noite estrelada.
Toma banho no açude
À sombra da quixabeira
E para se perfumar
Sabonete de aroeira
Depois passa no seu corpo
Líquido duma roseira.
Marcos Calaça é poeta matuto e cordelista

segunda-feira, 8 de abril de 2019


Vou-me embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira



Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu năo sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a măe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilizaçăo
Tem um processo seguro
De impedir a concepçăo
Tem telefone automático
Tem alcalóide ŕ vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de năo ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
– Manuel Bandeira, do livro “Bandeira a Vida Inteira”. Rio de Janeiro: Editora Alumbramento, 1986.
Assista aqui na voz de Antônio Abujamra
Saiba mais sobre Manuel Bandeira
Manuel Bandeira – estrela da vida inteira

UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO