segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Luiz Rabelo (1921/1996) é, penso eu, um dos poetas potiguares, assim como João Lins Caldas (1888/1967), pouco lembrado. Em, “O Poti”, jornal de Natal, caderno Letras e Artes, edição de 30 de março de 1958 encontro um belo poema de autoria de Rabelo intitulado de ‘Cântico da criação’. Vejamos para o nosso deleite:
Abra-te para mim como as portas de um templo
Onde penetro e encontro o Deus do amor.
Caminhas sobre labaredas de impossíveis,
Transfigurada de metamorfoses.
Ah! Os teus pés surgem das trevas,
Mas o teu corpo é um mundo de libertação!
Ergo-me obscuro dos sonhos antigos do silêncio
Para proclamar-te branco e puro céu
E anjos anunciam já o lúcido milagre
Em que caminho do pó para a ressurreição
Aureolado de mirtos e de sonhos,
Transmites ao mundo a minha ânsia da vida.
Oh! Abres-te para mim como as portas de um templo
Onde penetro e encontro o Deus do amor! ...

(Da Linha do Tempo/Facebook de Fernando Caldas)

domingo, 6 de outubro de 2019

Algumas páginas

Por João Lins Caldas, poeta do Assu

A dor irmã, a grande dor alucinada,
Beijou meu coração, beijou meus versos...
... Podem ferir-me  todos os perversos,
Já tive tudo... não me importa nada...

E quero me esquecer, que não quero lembrar:
Um coração, si se me oferecer,
Deve saber da vida por chorar...

O coração como uma mão fechada...
... E um dia eu soube do meu coração
Uma e mais outra e outra mais pancada
... As marteladas da desilusão...

Deixai-me vós, ó sempre vós, passar...
Deixai-me, com soluços  na garganta,
A minha vida sempre amargurar...

_________________Em, Phoenix, 1924, revista do Rio de Janeiro.


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Por João Lins Caldas

Eu sou aquele que acordou chorando,
E das horas amargas, imprudentes.
Vim num negro país de velhas gentes
E deixei o mais duro, já por brando.

Meu coração foi lágrima rolando
E deturpado corpo entre os mais dentes...
Vejo os dias de fogo, reluzentes,
E tudo as garras para o negro bando.

Gemendo no gemente deturpado,
A alma alastrada e para si ferida,
Toda a estrada a crescer e sempre abrolhos.

Vi-me no mundo e pelo mundo entrado
- Coração com pavor dentro da vida,
- Mocidade... com lágrimas nos olhos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019


NO DIA EM QUE NASCI

No dia em que nasci como um vulcão se abria
A garganta do mal, em lágrimas coberta...
A estrada da ventura era sem flor, deserta,
O corpo do pesar por tudo se estendia.

O sol não quis brilhar... e a lua, que tremia,
Errando pelo céu, amargamente incerta,
Para mais se afastar do mundo, que gemia.

Houve negro rumor pelos ramos floridos...
A dor tinha de riso o quanto tem de males
A sombra da saudade em sombras multicores...

Foi preciso florir a terra dos gemidos...]
Floriu o desprazer brilhando em todo vales
E a terra cresceu maios para conter mais dores...

(João Lins Caldas)
SONHOS
Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte
Despedaçar esses laços!...
...É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!
Florbela Espanca

UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO