quarta-feira, 25 de novembro de 2020
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
Geraldo Vieira: Território humano
VIEIRA, José Geraldo. Território humano. 2ª edição – texto reestruturado. São Paulo: Martins, 1972. 421 pp.

Tinha um nome longo: José Geraldo Manuel Germano Correia Vieira Drummond Machado da Costa Fortuna. Mas o chamemos José Geraldo ou José Germano.
Nascido em uma família de açorianos que fizeram a vida no Brasil, José foi um órfão criado com seus tios afluentes. Durante os estudos em um colégio de padres foi marcante a visita de índios bororos trazido por missionários para a Exposição Universal da Praia Vermelha. Cresceu familiarizado com o Rio e sua educação cosmopolita se completou em Paris. Tornou-se médico e escritor. Travou uma amizade com um poeta pobre, excêntrico e marginal.
Os apontamentos biográficos acima retratam a vida de José, tanto o autor José Geraldo Vieira quanto o personagem José Germano do romance Território Humano. Em um romance autobiográfico como esse é comum incorrer o risco de superinterpretação atribuindo coisas do personagem ao autor e vice-versa. E José Geraldo Vieira provocava com essa ficcionalização da realidade. Até Álvaro Lins, Gilberto Freyre, Octávio Tarquínio e José Lins do Rêgo fazem um cameo no livro.
A Primeira Parte é esse Bildungsroman acerca de José Germano. Na Segunda Parte, a relação com o poeta marginal domina a narrativa. Esse poeta, Cássio Murtinho, incrementalmente mais paranoico temendo que o amigo o plagie, também foi inspirado em uma pessoa: o poeta potiguar João Lins Caldas (1888 — 1967).
Em Território humano o conceito de Bildungsroman — romance de formação desdobrando o aprendizado, a construção da personalidade e da moral do personagem — confunde com Bildungsbürgertum — a valorização pelas classes médias altas da erudição, gosto e valores do cânone ocidental.
Como a Noite de Santa Valburga Clássica de Fausto e o Círculo 1 do Canto 4 do Inferno, o grand tour de José Germano pela Europa no final da Primeira Parte é um catálogo de cultura geral. Alude a Rilke, Hesse, Peer Gynt, os retábulos da Scuola di San Rocco, a Assunção de Ticiano, o mausoléu do doge Vendramini, o Canon de Avicena, o Colliget de Averróis, o Breviário de Alarico, De Universitati Mundi de Silvestre, o Institutio Oratoria de Quintiliano, Decameron, Savonarola, Miguel Angelo, Cimabue, Brunellesco, o Capitólio e a Ara Coeli, o Coliseu e a Basílica de São Pedro, Piazza di Spagna, o Caffè Grecco, Goethe, Gogol, Stendhal, Byron, Shelley, Goldoni, Chateaubriand, Taine, Leopardi, Thackeray, Schopenhauer, Henry James, Baudelaire, Gounod, Liszt, Wagner, Toscanini, Dante, Boccacio, Doctrinale de Villedieu, Institutio Gramatica de Prisciano, Megalogicon de Salisbury, Tratado de Ortografia de Cassiodoro, a Consolação pela filosofia de Boécio, Virgílio, Petrarca. Sem contar referências de leitura de Flaubert, Anatole, Tolstoi, Dostoiévski, a Bíblia, a Antologia de Fausto Barreto e Carlos de Laet usada durante a preparação aos exames de admissão à Faculdade de Medicina. Aqui e acolá menciona música e cinema; bem como visitas a cafés, livrarias e butiques. Fazendo jus ao termo “encyclopedic novel” do crítico Edward Mendelson, as referências à cultura erudita são copiosas através do livro. Mas nada que intimide ou que obscureça o texto: são reminiscências de quando a familiaridade com esses gênios dava o status de letrado.
Na Segunda Parte o protagonista José Germano volta ao Brasil, casa com a prima Norma, reata com os amigos. Em uma viagem encontra uma jovem senhora leitora de Rimbaud. Uma profecia irônica: como o poeta decadente Verlaine disparou contra o amante Rimbaud, o livro também termina em uma tragédia similar (bem, chega de spoilers). Conhece por meio de amigos comuns a tal jovem senhora, Maria Adriana, e começam uma relação platônica.
O Bildungsroman tipicamente seria uma abordagem histórica, ou seja, diacrônica; mas José Geraldo inova em fazê-lo também geográfico, ou seja, sincrônico. A humanidade é mapeada em Território humano: os vários personagens cuidadosamente trabalhados retratam as facetas possíveis das pessoas. Sendo sincrônico, o romance é tramado essencialmente a partir da alteridade. A relação com o Outro — parentes, colegas de classe ou de viagem, amigos e amores — definem José.
A alternância entre descrição, diálogos e ações faz do texto uma leitura fluida. Os diferentes cenários e registros de linguagem extirpam qualquer possibilidade de narrativa entediante em um enredo até singelo.
A geografia é importante na narrativa. O autor tem a mesma tranquilidade de citar as ruas do Rio como lugares de Paris ou cidades do interior paulista. Às vezes, a alusão é condescendente e pernóstica, como quando explica a toponímia da Villa Halifax:
— Bem, primeiro que tudo não é bangalô nem vilino. É um solar de estilo medieval. E o nome Villa Halifax decorre do fato do proprietário ser canadense.
— Que tem uma coisa com outra?
—Ora, ora! Halifax é a capital da Nova Escócia. (p.408)
José Geraldo Vieira (1897 — 1977), médico tornado escritor e tradutor, publicaria ainda mais romances, contos, poemas e ensaios. Seu aclamado livro Território Humano foi impresso somente duas vezes, uma em 1936 e outra em 1972. Talvez seu cosmopolitismo estivera em contramão aos temas regionais e nacionais dos modernistas, consequentemente sendo com o tempo esquecido. Desde os anos 2000 renasceu o interesse acadêmico pelo autor. Há de se esperar um merecido retorno da leitura da obra. A Editora Descaminhos publicou em 2014 uma versão digital do Território humano e outros livros do autor.
OUTRAS OBRAS DE JOSÉ GERALDO VIEIRA
- O Triste Epigrama. Poema em prosa. 1920.
- A Ronda do Deslumbramento. Contos. 1922.
- A Mulher que Fugiu de Sodoma. Romance.1931. (Edição espanhola: 1947)
- Território Humano. Romance. 1936. 2ª edição 1972.
- A Quadragésima Porta. Romance. 1943.
- Carta a Minha Filha em Prantos. “Romance verdade”. 1946.
- A Túnica e os Dados. Romance. 1947.
- A Ladeira da Memória. Romance. 1950.
- O Albatroz. Romance. 1952.
- Terreno Baldio. Romance. 1961.
- Djanira. Ensaio crítico. 1961.
- A Pintura de Sopp Baendereck. Ensaio crítico. 1965.
- Paralelo 16: Brasília. Romance. 1966.
- Minha Mãe Morrendo. Poema para a Série Trágica, de Flávio de Carvalho. 1967.
- Mansarda Acesa. Poemas. 1974.
- A Mais que Branca. Romance. 1974
sábado, 21 de novembro de 2020
A cada minuto alguém deixa esse mundo para trás.
O amor não é assim!
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
EXCELENTE INFORMAÇÃO
Jornal da Cidade: periódico mensal é distribuído de graça nas regiões Salineira e Vale do Açu
Já curculando com entrega grátis em municípios das regiões Salineira e Vale do Açu, o periódico mensal “Jornal da Cidade”, editado pelo jornalista Celso Amâncio com colaboração de Max Almeida.
A segunda edição que está sendo diatribuída traz análises dos resultados das eleições.
O jornal também pode ser consultado em sua versão digital e nas plataformas sociais.

Quando nasci, era preto.Quando cresci, era preto.Quando pego sol, fico preto.Quando sinto frio, continuo preto.Quando estou assustado, também fico preto.Quando estou doente, preto.E, quando eu morrer continuarei preto!E tu, cara branco.Quando nasce, é rosa.Quando cresce, é branco.Quando pega sol, fica vermelho.Quando sente frio, fica roxo.Quando se assusta, fica amarelo.Quando está doente, fica verde.Quando morrer, ficará cinzento.E vem me chamar de homem de cor?(Escrito por uma criança Angolana)
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
POUCAS E BOA
Valério Mesquita
Mesquita.valerio@gmail.com01) Era praxe em Assu construir-se nos quintais residenciais cacimbão para manutenção da casa. Certa vez, na residência de uma tia do saudoso deputado Arnóbio Abreu, aconteceu um fato no mínimo interessante, por má interpretação da nossa complicada língua portuguesa. Enquanto as senhoras conversavam amenidades nas calçadas, as criançasnbrincavam no extenso quintal. De repente, correram todos pela lateral do casarão e, um deles assustado gritou: “Mamãe! O “baldo” caiu dentro do cacimbão!”. Foi um Deus nos acuda. A mãe desmaiou; a avó entrou em estado de choque incontrolável, era grito pra todo o lado e, o remédio mais rápido chegando: álcool e alho para a desmaiada cheirar. Já se aglomerava uma pequena multidão, quando um curioso perguntou a uma das crianças: “Meu filho, como foi isso?”. O pequeno respondeu: “Nós fomos “puxar” água, a corda partiu-se e o “baldo” caiu lá no fundo...”. Estava explicada a situação. “Quem caiu no fundo do poço” foi O BALDE e não UBALDO, neto da velha.
02) Francisco Dantas ou Chico da prefeitura, como era conhecido em Mossoró, ingressou no folclore político local por haver se elegido “vereador” sem concorrer a eleição. Passava o tempo todo na calçada da Câmara Municipal varrendo aqui e acolá, convidando os amigos para conhecer o seu “gabinete”. Após longos meses de “legislatura” foi flagrado pelo presidente da Casa com três amigos ao redor do seu birô, ligando para o ramal da copa: “Dona Raimunda? (a copeira), por favor, traga aqui três “cafezes” para o meu gabinete por “obeseque””. Ali mesmo, perdeu o “mandato”.
03) Muitas são as atribuições enfrentadas pelo presidente da Fundação José Augusto. Pedidos de emprego eram rotinas que desafiavam a capacidade do escritor François Silvestre. Certa vez, foi procurado por um pai extremado que defendia com ardor um cargo comissionado para a sua filha. “Dr. François, a minha filha fala corretamente quatro idiomas. Onde o senhor pode colocá-la?”. Sem se perturbar, com a mão esquerda segurando a cabeça, silencioso, François, suspirou: “Só se for na Torre de Babel”.
04) Salatiel Rebouças, de São Gonçalo, falecido em 2005, dizia sempre aos amigos: “Se minha mulher me trair, eu matarei o cretino!”. “Que é isso, Salatiel”, ponderou um amigo, “não estrague sua vida. Se isso acontecer você deixa a mulher e arranja outra...”. “Não, colega”, retrucou Salatiel. “Minha mulher tem cento e trinta quilos, pernas de elefante, os peitos encostam no umbigo. Porque se isso acontecer a intenção de qualquer pé-de-lã com minha mulher é só para me desconsiderar. Amor e tesão com esse ‘troço’ é impossível!”.
UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO

