domingo, 1 de dezembro de 2013

O PRAZER NOSSO PELO CARRO NOVO – SÃO OS MILITARES AMERICANOS OS RESPONSÁVEIS POR ISSO?


Publicado em 30/11/2013


Militares americanos e brasileiros da FAB no portão da guarda da base de Parnamirim Field.
Militares americanos e brasileiros da FAB no portão da guarda da base de Parnamirim Field.
Autor – Rostand Medeiros
O natalense de maneira geral gosta de carro novo?
Ah como Gosta!
Gosta tanto que em recente pesquisa divulgada pelo setor de Estatística do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Norte (Detran/RN), o aumento no número de veículos no estado é maior que próprio crescimento populacional.
Segundo o site Nominuto.com, a pesquisa mostra que entre 2010, até outubro de 2013, a população norte-rio-grandense cresceu 6,5%, enquanto a quantidade de veículos automotores foi ampliada para a incrível cifra de 29,99% (para ver mais detalhes desta pesquisa vejahttp://nominuto.com/noticias/cidades/frota-de-veiculos-no-rn-cresce-quatro-vezes-mais-que-a-populacao/104434/).
Engarrafamento em Natal - Fonte - tribunadonorte.com.br
Trânsito em Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br
A cada mês uma média superior a 2.500 veículos novos deixam as concessionárias e passam a circular nas ruas de Natal. Logicamente que este fluxo contínuo cria sérios problemas de mobilidade urbana.
Para quem dirige em Natal isso não é nenhuma novidade. Há uns quinze anos atrás se dizia que você atravessava toda a capital potiguar em parcos 20 minutos. Hoje, se você tiver um compromisso importante, dependo da hora e onde você mora, se não sair de casa com muita antecedência vai chegar atrasado.
Mas está errado as pessoas buscarem comprar um veículo novinho?
Não, de forma alguma! Além do ditado popular comentar que “tudo que é novo é bom”, para uma cidade que tem um terrível, anacrônico e atrasado sistema de transporte urbano, um veículo automotor privado acaba sendo uma necessidade em Natal.
Carros novos em Natal - Fonte - tribunadonorte.com.br
Carros novos em Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br
Mas a questão que eu quero abordar não está na validade de se possuir um veículo, mas na intensa rotatividade e na quantidade de veículos novos que circulam aqui.
Uma História Sobre Rodas
Não sei quando o primeiro veículo automotor circulou pelas ruas de barro de Natal, certamente nos primeiros anos do século XX.
Poucos veículos circulavam por Natal nas primeiras décadas do séc. XX.
Poucos veículos circulavam por Natal nas primeiras décadas do séc. XX.
Mas sei que 483 veículos percorriam os caminhos do Rio Grande do Norte no ano de 1924. Em 1925 a quantidade passou para 539 e em 1926 chegou a 607 veículos. Neste último ano, exclusivamente em Natal, circulavam 218 dos chamados “modelos de autopropulsão”, para uma população em torno de 40.000 habitantes. Estes dados faziam parte de uma pesquisa a nível nacional do extinto Ministério da Viação, junto aos 1.407 municípios que oficialmente existiam no Brasil (ver jornal A República, pág. 3, 10 de julho de 1928).
Publicada em 1939, a Sinopse Estatística do Estado, produzida pelo Departamento Estadual de Estatística, traz na página 53 a informação que o número de automóveis de passeio, motocicletas, caminhões e veículos especiais circulando em Natal no ano de 1938 eram de 377 veículos, para uma população que superava 50.000 habitantes. Ou seja, de certa forma o crescimento foi proporcional durante algum tempo.
Natal vazia de veículos
Natal vazia de veículos
Mas em algum momento de nossa história isso mudou e dizem que os grandes responsáveis foram os americanos na época da Guerra.
Será?
E Os Americanos Chegaram…
Natal e o Rio Grande do Norte assistiram a grande máquina militar americana construir e utilizar as instalações da grande base de Parnamirim Field. Deste ponto estratégico, um dos aeródromos mais movimentados do mundo durante o conflito, partiam e chegavam centenas de milhares de militares Aliados em direção as áreas de combate.
Parnamirim Field
Parnamirim Field
Em Parnamirim Field e na Naval Air Station Natal (NAS Natal), que conhecemos como Rampa, uma cifra muito elevada de militares estadunidenses ficaram baseados durante certo período. Eram homens que trabalhavam em várias funções, exercendo muitas responsabilidades e num ritmo frenético.
Isso tudo são fatos mais que conhecidos. Entretanto existe a ideia que os militares estrangeiros em Natal tinham um grande número de veículos a sua disposição. Havia Fords, Chevrolets, Lincolns, Buicks e Mercurys, típicos sedans americanos da década de 1940. A maioria deles ostentando uma estrela branca nas laterais, padrão do exército americano.
Tripulação de uma B-17 em seus trajes de voo, recebendo instruções. Muitos destes aviões passaram por Parnamirim Field.
Tripulação de uma B-17 em seus trajes de voo, recebendo instruções. Muitos destes aviões passaram por Parnamirim Field.
Com o fim da guerra e a saída destas tropas de nossa terra, comenta-se que os americanos deixaram uma grande quantidade de materiais excedentes e que a maior parte dos materiais que aqui ficou eram veículos seminovos. Estes seriam carros com pouco tempo de uso e que foram vendidos por preços baixíssimos. Para alguns o preço teria sido uma verdadeira “mixaria”.
Logo vários natalenses estavam dirigindo veículos de ótima qualidade, ainda “cheirando a novo” e comprados por preços baixíssimos. Pessoas que andavam a pé, de bicicleta, ou de bonde, logo estavam rodando em um reluzente carrão americano, matando de inveja a vizinhança, principalmente quando ficavam lavando e limpado o possante por horas na porta de casa.
Seria Esta a Razão?
Pessoalmente nunca acreditei nesta versão.
Jipe na pista de Parnamirim Field.
Jipe na pista de Parnamirim Field.
Ao pesquisar o tema não descobri nas páginas do jornal potiguar “A República”, nenhuma referência, que os militares americanos publicaram convites a pessoas interessadas em participar da compra de lotes de carros de passeio.
Mas vamos partir do princípio que realmente os americanos venderam muitos destes tipos de carros por aqui. Aí logo surge uma questão básica – Militares em missões utilizam quais tipos de carros?
Parnamirim Field era um aeródromo que servia como um grande ponto de apoio para tropas e aviões.
Parnamirim Field era um aeródromo que servia como um grande ponto de apoio para tropas e aviões.
Concordo, até por possuir fotos do período, que os americanos tinham os tipos de veículos que supostamente venderam em quantidade e a preços baixos na nossa cidade. Provavelmente utilizavam estes carros no trajeto entre Natal e a base aérea, transportando oficiais de alta patente, autoridades, visitantes, jornalistas e outros. Mas certamente eram poucos veículos, pois o grosso da missão deles aqui era principalmente apoiar aeronaves militares. Para isso se utiliza jipes, caminhões de transporte, camionetes, caminhões de transporte de combustíveis, carros guinchos, ambulâncias e outros veículos especializados.
Sem Resposta,,,
Na busca de uma resposta fui atrás de quem conhece muito, embora ele diga que não, sobre a presença dos americanos no Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial. Entrei em contato com o amigo Laélio Ferreira de Melo para debatermos sobre o tema.
Parnamirim Field em 1944, Othoniel é o primeiro, em pé, à esquerda. Trabalhava no Posto de Engenharia.
Parnamirim Field em 1944, Othoniel é o primeiro, em pé, à esquerda. Trabalhava no Posto de Engenharia. Coincidentemente um veículo de passeio de fabricação americana está atrás das pessoas na foto – Fonte – glosandoomundo.blogspot.com.br
Laélio era garoto na época da Guerra, filho de Othoniel Menezes, que trabalhava na base de Parnamirim junto aos americanos. Othoniel Menezes é uma figura mais do que conhecida e respeitada no Rio Grande do Norte. Poeta, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras e criador dos versos da canção “Praieira”, de 1922, cuja musica foi composta pelo maestro Eduardo Medeiros no ano seguinte e considerada durante muitos anos a canção tradicional da cidade de Natal.
Laélio me comentou que seu pai trabalhava no posto de engenharia de Parnamirim Field e ocasionalmente o levava para ver o movimento na base. Para ele é fantasia esta história que os americanos venderam muitos veículos de passeio para os natalenses, até porque eles tinham poucos destes carros.  Corroborando minhas suspeitas, Laélio me confirmou que os americanos tinham principalmente utilitários, veículos militares e uns poucos carros de passeio utilizados no transporte de autoridades, principalmente Chevrolets ou Mercurys. Estes tinham realmente a estrela branca nas laterais, eram pintados com uma cor fosca e possuíam nos faróis materiais próprios para veículos que circulavam em áreas em regime de blackout.
Roosevelt e Vargas em Natal e de Jipe.
Roosevelt e Vargas em Natal e de Jipe.
Laélio me comentou que mesmo existindo estes poucos veículos, muitas autoridades circulavam pela cidade em veículos militares. Assim como os presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Dorneles Vargas transitaram por Natal de jipe, Laélio testemunhou a passagem da Sra. Soong May-ling, esposa do general Chiang Kai-shek e primeira dama da República da China, passando próximo a Rua Felipe Camarão, no centro da cidade, sentada na traseira de um simples jipe.
Quando os americanos foram embora eles levaram o que puderam e venderam (mas não doaram) veículos para nossas forças armadas. Para Laélio somente anos depois estes mesmos veículos, já bastante usados, foram revendidos a particulares. Como nunca vi uma documentação que traga os números, e os tipos dos veículos negociados pelos militares americanos ao deixarem o Rio Grande do Norte, só posso concordar com o amigo Laélio.
Natal década de 1950
Natal década de 1950
Para mim o gosto dos natalenses pela frequente compra de veículos novos está ligado a outras razões, que não sei quais são. Mas sei que esta necessidade do carro novo já afundou muita gente em dívidas e infindáveis renegociações de financiamentos com juros acachapantes.
Aqui é comum se ver um tremendo carrão na porta, diante de uma habitação simples, onde normalmente não se encontra nenhum livro dentro dela.
P.S. – Sobre as memórias do amigo Laélio Ferreira de Melo durante o período da guerra em Natal, veja este interessante artigo de sua autoria. –http://www2.uol.com.br/omossoroense/220806/conteudo/laelio_ferreira.htm

Fonte: Tok de História
Não viva de ilusões. Não venda e nem compre ilusões. Não permita ninguém se iludir com você e nem viver iludido ao seu lado. Eu ainda prefiro a mais amarga verdade do que a mais doce mentira. Mas, a verdade é quem tem pessoas que preferem viver de ilusões a ter que acordar para a verdade da vida. 

Roger Araújo

Defensora-geral acha que “pedido de Impeachment é infundado”

rosalba TN
A defensoria pública do RN está dividida diante de um tema que tem ganhado destaque político nos últimos dias: O Impeachment da governadora Rosalba Ciarlini (DEM). Afinal, enquanto a Associação dos Defensores Públicos do RN quer a saída da gestora, a defensora-geral (ainda não nomeada), Jeanne Karenina vê a denúncia contra a gestora como “infundada”.
“Eu acho que não existe motivo nenhum para que esse pedido de impeachment tenha sido formulado, até porque eu vejo a administração da governadora como algo transparente e sem escândalo. Eu acho que essa denúncia é infundada”, afirmou a defensora-geral Jeanne Karenina, que foi escolhida pela classe para continuar no cargo por um novo mandato, mas ainda precisa que a governadora oficialize a reeleição.
“Teve a eleição da listra tríplice, eu fui a mais votada e, geralmente, a governadora escolhe a mais votada. Estou na expectativa aguardando essa nomeação, até porque em outros momentos ela sempre respeito a escolha dos defensores, mas ela não é obrigada a isso. Estamos aguardando”, explicou Jeanne Karenina.
Do Jornal de Hoje

Carta constitucional de 1824 já nasceu polêmica: arbítrio da Coroa ou modelo inovador de governo representativo

Cecília Helena de Salles Oliveira

·         O texto constitucional de 1824 estabeleceu os fundamentos da organização do Estado monárquico e da nação durante o Império, mas, ao mesmo tempo, foi alvo de disputas, críticas e interpretações. Resultado das intensas lutas políticas que envolveram o movimento de Independência dois anos antes, o documento provocou inúmeras reações – na imprensa e entre os políticos – pelos princípios ali adotados e por ter sido outorgado por D. Pedro I, o que lhe valeu a denominação de Carta constitucional, e não Constituição.
Para diversos setores da sociedade brasileira à época, a experiência das Cortes em Lisboa, a separação de Portugal e a aclamação popular de Pedro I eram incompatíveis com o fechamento, em novembro de 1823, da Assembleia Constituinte. Mas foi sobretudo a inclusão do poder moderador, exercido exclusivamente pelo monarca, que alimentou vivas polêmicas até o final do Império.
A Carta foi redigida por um pequeno grupo de pessoas escolhidas a dedo por D. Pedro I: políticos de algumas das principais famílias de proprietários e negociantes radicadas na região Centro-Sul da América portuguesa, que desde a época de D. João VI ocupavam lugares importantes na administração pública e que tinham atuado na Assembleia Constituinte.  Na visão de membros de agremiações republicanas formadas no Brasil a partir de 1870, a Carta de 1824 era expressão do “absolutismo” de D. Pedro, manifestação cabal de que a Independência não trouxera mudanças substanciais nas relações de poder coloniais. Era um sinal do passado, da permanência da dinastia dos Bragança, das práticas “despóticas” herdadas da colonização portuguesa.
Por outro lado, diferentes intérpretes, a exemplo de José da Silva Lisboa, José Antônio Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente, e Paulino José de Souza, o Visconde de Uruguai, interpretavam a Carta como equivalente a Constituições monárquicas da época, ou até mesmo mais perfeita do que outras. Segundo esta visão, o poder moderador não só era adequado aos princípios dos governos representativos, como também possibilitava um equilíbrio entre o Executivo e o Parlamento, permitindo que o arbítrio da Coroa garantisse a centralização político-administrativa e a alternância de grupos no poder.
Mas quais seriam os significados deste quarto poder, visto por muitos historiadores como a característica mais marcante da Carta constitucional do Império?
            Foi o pensador franco-suíço Benjamin Constant (1767/1830) um dos que mais discutiram a teoria de um quarto poder a ser exercido pelo rei (ou por um presidente), que se colocaria acima de arranjos político-partidários, definindo-se como esfera “neutra”. Constant teve enorme influência no debate em torno da organização de regimes constitucionais no início do século XIX. Mas suas propostas derivavam tanto de considerações de Montesquieu acerca do equilíbrio dos poderes quanto de análises sobre a monarquia inglesa, que servia como modelo para muitos dos políticos que viveram a Revolução Francesa.
Mesmo antes da Revolução discutia-se que lugar o monarca deveria ocupar na nova ordem que surgia da crise do Antigo Regime. Nos fins do século XVIII, pela primeira vez, era colocada em prática uma profunda transformação no exercício do poder: o monopólio do rei era quebrado por assembleias eleitas e por Constituições, textos escritos e aprovados por representantes da sociedade que asseguravam os direitos dos cidadãos e sua participação nos governos e nas decisões públicas.
Assim, definir uma nova estrutura de Estado e dos poderes políticos significava estabelecer quem poderia expressar a vontade soberana do povo. Significava suprimir práticas absolutistas, o que acarretou na França, entre outras circunstâncias, a decapitação do monarca. Constant aprofundou esta discussão, especialmente entre 1814 e 1815, quando foi chamado a apresentar um estudo sobre a Carta francesa outorgada por Luís XVIII em plena Restauração da monarquia. Nessa obra, denominada Princípios de Política, expôs longa argumentação a respeito da soberania da nação e do modo como poderia ser concretizada.
 Constant cogitava que se a soberania da nação estivesse concentrada nas mãos dos deputados que a representavam, o governante teria função subalterna, contentando-se em executar as decisões do Legislativo, não podendo dissolvê-lo ou vetar as leis ali aprovadas. Em compensação, se prevalecesse o entendimento de que também ao governante cabia uma parcela da soberania nacional, então ele interferiria no andamento da administração pública e da legislação, podendo vetar ou suspender as deliberações do Legislativo, compartilhando com os deputados o exercício da soberania da nação.
Afirmava ainda que o Parlamento não podia concentrar em suas mãos a soberania e o poder decisórios, sob pena de substituir-se o despotismo de um pelo de muitos, como havia ocorrido, a seu ver, no período do Terror revolucionário. Ao mesmo tempo, criticava o absolutismo monárquico, defendendo conquistas da Revolução, como a garantia de direitos, especialmente as liberdades individuais. Buscando um meio-termo, defendia repartir a soberania do Estado entre quatro poderes: o Legislativo, composto por uma câmara eleita e outra vitalícia; o Judiciário, composto por magistrados e juízes vitalícios; o Executivo, representado pelo governante, mas exercido por ministros responsáveis perante a nação, e um quarto poder, que preservava a majestade e a capacidade do rei de governar.
A finalidade do quarto poder seria manter o funcionamento dos demais, impedindo choques de atribuições, bem como o comprometimento da atuação do governo e do Estado em razão de conflitos de autoridade. Seria uma espécie de guardião dos interesses nacionais e dos cidadãos, agindo em todas as ocasiões em que ministros, parlamentares e juízes ultrapassassem seus respectivos campos de ação. Colocando o governante na condição de representante perpétuo do povo, Constant julgava-o capaz de atuar como poder “conservador”, pois deveria garantir o curso da administração e das políticas públicas, e como “moderador”, já que seria um freio a controlar os limites dos outros poderes. Mas havia uma condição essencial: Constant alertava para a diferença e a separação que deveriam existir entre o poder “neutro” ou “real” e o poder executivo ou ministerial. Ainda que os ministros fossem nomeados pelo rei, não deveria haver sobreposição ou ingerência de uma esfera de poder na outra. Somente assim o rei poderia agir como força reguladora e preservadora do equilíbrio político sem, no entanto, ser agente de violência.
Tratava-se de complexa engenharia política. O que prevaleceu nas Constituições europeias do início do século XIX foi a concepção de três poderes de Estado, alocando-se no Poder Executivo, chefiado pelo rei, muitas das atribuições que Constant identificou no “poder neutro”. Foi única exceção à Carta de 1826, outorgada em Portugal por D. Pedro, quando, após a morte de seu pai, D. João VI, abdicou do trono português em favor de sua filha, D. Maria da Glória. O documento, aliás, era praticamente o mesmo que fora jurado, em 1824, no Brasil.
            Ainda que seja comum considerar-se Constant como o grande inspirador da Carta de 1824, a leitura do texto revela que os legisladores brasileiros conferiram sentidos originais ao ideário político que vinha sendo discutido na Europa e na América desde os fins do século XVIII. Levaram em conta a experiência acumulada em Cádiz e que resultou na Constituição espanhola de 1812 e, sobretudo, o debate promovido nas Cortes de Lisboa em torno da Constituição portuguesa, promulgada em 1822 [Ver artigo “Ventos liberais para o oeste”, RHBN 86] e produzida com o auxílio de deputados brasileiros, antes que fosse oficializada a separação, em setembro daquele ano.
Também orientaram suas opções pelas condições políticas do momento: nem externa nem internamente a autoridade do governo estabelecido no Rio de Janeiro estava reconhecida. Tal situação demandava a urgente conclusão de um texto constitucional que legitimasse o Império recém-fundado e desse respaldo para o reconhecimento internacional, assim como para negociações com lideranças políticas que desconfiavam do constitucionalismo de D. Pedro.
Por outro lado, o trabalho realizado durante o funcionamento da Assembleia Constituinte foi inteiramente incorporado. Não seria possível ao governo remeter, em meados de dezembro de 1823, portanto cerca de um mês após o seu fechamento, o projeto constitucional para a apreciação das Câmaras das vilas e cidades do Império. Órgãos que representavam os direitos civis da população, as Câmaras foram chamadas para se manifestar como tentativa de diminuir as repercussões do fechamento e mostrar que o governo tinha interesse em ouvir as demandas da sociedade.
No que diz respeito ao poder moderador, a Carta de 1824 determinava que a figura do Imperador era “inviolável e sagrada”, não estando “sujeita à responsabilidade alguma” . No exercício desse poder, o Imperador seria auxiliado por um Conselho de Estado e desempenharia as seguintes atribuições: nomear os senadores, escolhidos em listas tríplices pelos eleitores provinciais; convocar o Poder Legislativo extraordinariamente; sancionar decretos e resoluções do Poder Legislativo para que tivessem força de lei; aprovar ou suspender as resoluções dos conselhos provinciais; prorrogar ou adiar os trabalhos legislativos; dissolver a Câmara dos deputados “nos casos em que exigir a salvação do Estado”; nomear e demitir “livremente” os ministros de Estado; suspender magistrados acusados de irregularidades; perdoar ou moderar penas impostas a réus condenados; e conceder anistia.
Entretanto, como o Imperador também era o chefe do Poder Executivo, ainda que este fosse exercido pelos ministros, o documento não explicitava com todas as letras um dos pontos-chave da teoria de Constant, o da separação entre poder real e poder ministerial, e criava propositalmente ambiguidades sobre a esfera de atuação efetiva do monarca.
 Logo surgiram divergentes interpretações em torno da Carta. Elas podem ser entendidas como manifestações de projetos distintos do Império, de possibilidades históricas abertas com a Independência, em curso na primeira metade do século XIX.   Foram marcadas por conflitos nos quais ora o Estado se sobrepunha à nação, o que foi feito com a outorga da Carta de 1824, ora a nação enfrentava o Estado, como no momento da Abdicação, quando dentro e fora do Parlamento a sociedade cobrou de D. Pedro as liberdades prometidas com a Independência.
A partir de meados do século XIX, esse embate assumiu outros contornos, alimentado pela polêmica entre o princípio de que “o rei reina e não governa”, defendido por liberais, como Teófilo Ottoni (1807-1869), e o pressuposto de que o rei não só reina, mas governa e administra, defendido por conservadores, como o Visconde de Uruguai. Esta discussão manteve-se acesa até o final do Império e foi argumento poderoso usado pelos republicanos contra o regime monárquico.
Cecília Helena de Salles Oliveiraé professora titular no Museu Paulista da USP. Organizou, junto com Izabel Marson,Monarquia, Liberalismo e Negócios no Brasil, 1780/1860. São Paulo, EDUSP, 2013.

A MAIOR ÁRVORE DE NATAL FLUTUANTE DO MUNDO

Foi inaugurada ontem, 30, na Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, a maior Árvore de Natal flutuante do mundo, seguido de um espetáculo pirotécnico e musical, com a presença de milhares de pessoas. Mede 85 metros de altura, pesa 542 toneladas e 3,3 milhões de lâmpadas encantam a todos. É um dos atrativos turísticos daquela capital carioca. Aquela árvore será deslocada durante 30 de dezembro até seis de janeiro, para que possa ser vista de diversos pontos da lagoa.

Fernando Caldas

sábado, 30 de novembro de 2013

EXAME DE ADMISSÃO

E quem não se lembra do exame de admissão ao curso ginasial, no Assu com Maria da Glória Pessoa  - Dona Glorinha. No meu tempo era denominado Externato São José. A sala de aula era na garagem que ficava nos fundos da casa dela, Dona Glorinha, no tempo que ela morava na rua Professor Alfredo Simonette.

Fernando Caldas

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Emancipação pelas letras - Remando contra a submissão, mulheres escritoras avançaram no Brasil Império, combativas e inovadoras

Norma Telles
1/11/2013

Do que poderia tratar a literatura feminina no arcaico e patriarcal Brasil Império? A primeira surpresa está na seguinte informação: o cenário literário brasileiro no século XIX é composto por um grande número de escritoras, poetas e jornalistas. E elas não se restringem a escrever livros de etiqueta ou polidez. Operam deslocamentos, desconstroem estereótipos e incluem na linguagem novos sentidos e ambiguidades em busca de soluções alternativas para a vida e para a arte.
Com a urbanização incipiente, disseminava-se um discurso sobre a “natureza feminina” formulado nos países europeus a partir do século XVIII e difundido aqui pela intelectualidade, mas também por médicos, higienistas e sacerdotes: a mulher seria maternal e delicada, força do bem dedicada aos familiares, pronta a qualquer sacrifício, um ser sem história ou desejos próprios. O outro lado deste “anjo do lar”, sempre à espreita, era sombrio e poderia torná-la o oposto, verdadeira potência do mal, caso descumprisse seus deveres. Neste caso, ela saía da esfera privada ou usurpava atividades que não lhe eram permitidas culturalmente. A ciência, a literatura e a moralidade da época negavam à mulher a autonomia e a subjetividade exigidas pela criação artística ou profissional. Tidas como musas ou criaturas, nunca poderiam ser criadoras.
Foi durante o século XIX, no entanto, que por todo o Ocidente inúmeras mulheres não só escreveram, como publicaram. Educadas como meninas para papéis domésticos específicos, sem acesso à educação para a vida, e por tudo isso donas de vocabulário limitado e que não deveria abordar emoções como a raiva ou a paixão, era preciso, antes de qualquer coisa, que elas fizessem uma revisão dessa socialização que lhes repetia serem incapazes de pensar, discutir, criar. Era preciso que conseguissem superar o que se convencionou chamar, no século XX, de “ansiedade de autoria”, ou seja, a dúvida em relação à própria capacidade criativa, em meio a uma tradição estética que definia a criação como dom essencialmente masculino, na qual o artista era um progenitor e patriarca estético.
Na época da Independência, algumas brasileiras se pronunciaram através de dois manifestos com mais de 120 assinaturas, número então significativo. Publicados em 1823 pelo jornal Sentinela da Liberdade, de Cipriano Barata, davam voz a mulheres da província da Paraíba que se afirmavam como “metade da sociedade” na luta contra o despotismo, e propunham reassumir direitos que há muito lhes haviam sido roubados. Como cidadãs, queriam “lutar pela independência”. No manifesto ouvem-se ecos dos escritos da francesa Olympe de Gourges (1748-1793) e da britânica Mary Wollstonecraft (1759-1797), ambas famosas por suas reivindicações pelos direitos das mulheres.

Um dos livros de Wollstonecraft recebeu tradução em 1832, feita por Dionísia Gonçalves Pinto, natural do Rio Grande do Norte, e conhecida como Nísia Brasileia Augusta Floresta (1810-1885) – como assinou todos os seus 15 livros de vários gêneros. Publicado no Recife, onde Nísia morava, a obra recebeu em português o título Direitos das mulheres e injustiças dos homens. Editado logo depois em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, o livro deixava perceber várias influências da autora brasileira, mostrando a mulher como a “classe oprimida” pelo costume, como acontecia na Europa, e promovendo a educação como fundamental para modificar tal situação. Nísia Floresta foi republicana, abolicionista, escritora e jornalista, e logo receberia oposição cerrada, como a campanha difamatória anônima através de jornais do Rio de Janeiro cerca de 1850. Mudou-se em 1849 para a França, onde moraria até o fim da vida, tendo seu trabalho apreciado em meio a intelectuais e a escritores de renome.

A partir de meados do século surgem em maior número romances e jornais de propriedade de mulheres, apesar de todos os obstáculos sociais. Um dos primeiros romances desse período, Ursula, apareceu em 1859. Como a maioria das escritoras de então, a autora, Maranhense de Guimarães – pseudônimo de Maria Firmina dos Reis (1825-1917) – se desculpava para poder ser aceita: “Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor (...). Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados” – assim começa o livro. A obra se distingue pelo tratamento dado aos escravos, individualizando-os e dotando-os de histórias próprias, que remetem à vida em liberdade na África mais de duas décadas antes desses temas se tornarem presentes na literatura nacional. A autora fala também de liberdade para a mulher, mas esta era ainda mais difícil de imaginar. Em outro texto, chamado “A escrava”, publicado na Revista Maranhense, em 3 de novembro de 1887, a escritora amplia a paisagem, incluindo os caminhos perigosos através dos quais grupos favoráveis à abolição, que contavam com mulheres, conduziam escravos até a liberdade. 

No Rio de Janeiro, no mesmo ano de 1859, outra escritora, Indígena do Ipiranga – na verdade, Ana Luísa de Azevedo Castro (1823-1869) – publicava o romance Dona Narcisa Vilar. Aqui, a narradora culta intercala o que ouvira de contadoras de histórias indígenas sobre as tradições da Ilha de Mel, na barra de São Francisco, com seus próprios comentários, defendendo as mulheres e os naturais da terra contra os governadores “cruéis e devassos” enviados pela Coroa.

Estes dois romances, juntamente com A lágrima de um Caeté (1849), de Nísia Floresta, além de terem indígenas e africanos como figuras concretas não idealizadas, tratam as mulheres como criaturas espoliadas pela chamada “civilização”.

A conquista do território da escrita pelas mulheres no Brasil foi longa e difícil, assim como foi difícil derrubar as paredes da casa-prisão e da prisão-textual que as confinavam por terem “cientificamente” um corpo frágil e enfermiço, um cérebro menor que o dos homens e meio mole, o que as incapacitaria para as lides da vida, dos ofícios e das artes. Narcisa Amália de Campos (1852-1924), escritora festejada no início dos anos 1870, indaga no jornal O Garatuja: “Como há a mulher de revelar-se artista se os preconceitos sociais exigem que o seu coração cedo perca a probidade, habituando-se ao balbucio de insignificantes frases convencionais?”.

Jornais de propriedade das mulheres crescem em número e repercussão nos anos 1870. Em 1873, surge em Campanha da Princesa, Minas Gerais, O Sexo Feminino, de Francisca Senhorinha da Motta Diniz. Jornal de sucesso, tinha muitas assinaturas e vendia bem. Dois anos depois foi transferido para o Rio e durou até 1896. Em editoriais publicados de 1873 a 1890, Senhorinha pleiteava educação para as mulheres e chamava a atenção para a violência de serem elas mantidas na ignorância pela ciência dos homens. Em Porto Alegre, foram as irmãs Julieta de Melo Monteiro e Revocata Heloisa de Melo que mantiveram o periódico literário de mais longa duração, o Corymbo,que circulou entre 1884 e 1944 e contou com dezenas de colaboradoras.Josefina Alvares de Azevedo fundou A Família em 1888, em São Paulo, mais tarde transferido para a capital. Lutava por condições iguais para as mulheres e escreveu a peça O voto feminino,encenada no Rio em 1890. Também em São Paulo circulou A Mensageira, de Priciliana Duarte de Almeida.

O que essas e muitas outras publicações fizeram foi criar uma rede de informação e comunicação entre mulheres, artistas e novas profissionais em vários pontos do país. Algumas escritoras se tornavam também cronistas e autoras de folhetins em jornais de ampla circulação, em especial na então capital federal. Maria Benedita Bormann – ou Délia, como se assinava – publicou em 1883 o folhetim Aurélia, na Gazeta de Notícias, escreveu romances e colaborou com jornais de prestígio. Julia Lopes de Almeida começou nos jornais pela mesma época e continuou durante toda a sua prestigiosa carreira, com 27 livros publicados. Outras viriam, como Carmem Dolores e depois sua filha Gilka Machado, Corina Coaricy, a anarquista Maria Lacerda de Moura e tantas mais que pavimentaram o caminho para as escritoras que seriam admiradas em todo o Brasil no século XX.

As pioneiras do XIX merecem ser mais conhecidas e lembradas.
Norma Abreu Telles é professora aposentada da PUC-SP



Augusto dos Anjos


 
Incógnita
Augusto dos Anjos/Chico Xavier

Por que misterioso incompreensível
Vomito ainda em náuseas para o mundo
Todo o fel, toda a bílis do iracundo,
Se eu já não tenho a bílis putrescível?

Insondável arcano! Por que inundo
Meu exótico ser ultra sensível
Em plena luz e atendo ao gosto horrível
De apostrofar o pobre corpo imundo?

Fluidos teledinâmicos me servem,
Transmitindo as ideias que me fervem
No cérebro candente, ígneo, em brasa...

De que concavidade do Universo
Vem-me o açoite flamívomo do verso,
Chama da mesma chama que me abrasa?

Auta de SouzA
Carta à minha mãe
Auta de Souza/Chico Xavier

Quis visitar-te o anônimo jazigo
Em que a humildade em paz se nos revela,
Contemplo a cruz, antiga sentinela
Erguida ao lado de um cipreste amigo.

Busco a memória e vejo-te comigo;
Estamos sob o verde da aguarela,
Teu sorriso na túnica singela
É luz brilhando neste doce abrigo.

Recordo o ouro, Mãe, que não quiseste,
Subindo para os sóis do lar Celeste
Para ensinar as trilhas da ascensão.

Venho falar-te, em prece enternecida
Do amor imenso que me deste à vida,
Nas saudades sem fim do coração.

FONTE: http://www.ceifpvz.com/poesia/
ASSÚ

Por Edivan Bezerra

Qual teu canto és harmoniosa.
Entre sonhos e tabas a mais vistosa
Teus filhos garridos são teus ideais
Teus grãos de areia me lembram um terço
Ao juntá-los, um a um, construí meu berço,
Onde adormeço coberto por teus carnaubais.

Este teu sol quente, este teu ar silvestre,
Tua fala, vinda do quintal campestre,
Prende aquele que sobre te pisar
E como uma máquina, ao seguir seu trilho,
Amo-te terra, como uma mãe ama a um filho,
Sem querer nunca te deixar.

  A BELA E INTERESSANTE “DEUSA DO ASSÚ” Imagem 24/04/2026 TOK DE HISTÓRIA Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros...