terça-feira, 11 de maio de 2010
ASSU EM VERSOS II
ASSU
Por Olegário de Oliveira Júnior
Sal, terra natal! Assu, berço de heróis!
Princesa do sertão, terra da liberdade,
Solo fecundo e bom, pátria de tantos sóis,
Sempre farta de luz, cheia de amenidade.
Teus verdes carnaubais trescalam suavidade
A doce orquestração dos ledos rouxinóis,
Sinto o olor da tristeza e amargo da saudade,
Assim longe de ti, gleba dos meus avós.
Tens glórias no passado e luzes no presente
Nas páginas da história, esplendorosamente
Teu nome jpa fulgura em letra multicor,
Salve glorioso Assu! Majestoso luzeiro
Berço róseo e gentil do meu sonho primeiro,
Terra que viu nascer o meu primeiro amor.
Postado por Fernando Caldas Fanfa
segunda-feira, 10 de maio de 2010
ASSU EM VERSOS I
ASSU
Por Edinor Avelino, escrito em 18.2.1923
Assu, formoso vale! Expressão, harmonia
Para um canto divino, poema superior
Daquele que, Anacreante, em seu tempo, dizia
Cantando a formosura, a natureza e o amor.
Terra boa! Visão que o habitante extasia
- Terra mãe lhe estendendo o seio acolhedor -
Onde ele achou a paz, a esperança, a alegria,
A abundância da seara e o perfume da flor!
Jardim da inspiração! Retiro doce e branco!
Cercanias que têm rebanho e zagais!
Várzea onde o rio vai, claro, se debruçando,
A distância a vence com as águas musicais,
E onde se escuta a voz dos pássaros louvando
A selva e a ostentação dos verdes carnaubais.
Postado por Fernando Caldas Fanfa
ME ENGANA QUE EU GOSTO
Por Paulo Sérgio Martins, jornalista
O mundo gira, os anos passam, o buraco de ozônio aumenta e as pessoas continuam a acreditar em discursos seculares sem propósito algum. “Vamos nos separar, mas vamos continuar amigos”, diz a fulana para as colegas na academia de ginástica. Por mais que você acredite neste discurso, no fundo sabe ser humanamente impossível gostar muito de alguém e vê-la nos braços de outra pessoa e ainda ser aquele amigo para as horas de angústia ou alegria. É balela do tipo premium.
Convívio civilizado não é amizade. E às vezes é pura necessidade quando há filhos na equação. Ex-namorados podem ser amantes, jamais amigos. Se forem, na prática é porque nunca sentiram nada realmente comovente ou foi só um passatempo ou namorico de adolescência. Em geral, um dos dois sempre vai gostar mais do que o outro. E não vai engolir essa de amizade depois que a gente vai embora. Até tentam, mas não leva muito tempo para um dos lados pedir penico e sumir do mapa. A gente conhece outras pessoas, se apaixona novamente, casa e tem filhos, se separa, casa de novo, mas ninguém fica amigo de ninguém.
Se nem Albert Einsten conseguiu decifrar os mistérios matemáticos do tempo, os casais acham que vão conseguir a proeza quando pedem “um tempo”. Metade das vezes, se você pede um tempo é porque está de olho em outra pessoa e quer ter a certeza que vai dar certo com ele (ou ela), nunca é para refletir coisa alguma. Na outra metade das vezes, é um jeito relativamente sincero de dizer que aquilo não vai dar certo em tempo algum.
Em uma pequena parcela das situações, os casais voltam a se encontrar depois do tal tempo. E até tentam se reconciliar. E funciona até o dia em que você descobre que o tempo serviu para um dos lados dormir com 37 pessoas diferentes que vão se transformar em 37 fantasmas iguais. Mas os dois melhores discursos são mesmo o da fidelidade e o do ex-marido.
Quando uma mulher compromissada vira para você e faz questão de dizer que é “super fiel”, pode pedir a conta do jantar e ir para o motel. É batata. Se alguém lhe diz que nunca fez “isso” antes, é porque já pulou mais cercas do que as ovelhinhas carnudas de Abrãao no Velho Testamento.
Fidelidade nunca foi um registro em cartório. Se alguém precisa dizer com todas as letras, é melhor você aceitar – ou aproveitar logo – porque é exatamente o inverso. E se a pessoa na sua frente falar mal do ex-marido ou ex-esposa, esqueça. É tesão enrustido, no mínimo.
Perceba como todo ex-marido é cafajeste, cachorro, egoísta, não vale um centavo. E toda ex-mulher é louca, surtada, ignorante e ruim de cama. O mais lógico seria a gente perguntar: e você precisou casar com ele para descobrir? Nada, foi preciso mesmo casar e ter filhos para descobrir a verdadeira face do mal, do carcará, do anhangá-tinhoso, do cão chupando manga, do belzebu disfarçado de ex-marido.
Mas a gente mantém a civilidade e concorda, faz até coro e dá apoio, principalmente se a divorciada for bonita. Mesmo quando a gente acha que em boca fechada não entra mosquito. Vai que no futuro sobra uma casquinha para você, né? Não tem jeito, nem assim, todos vão continuar falando mal do ex para todos os novos pretendentes, como se fosse um atestado de interesse por você.
Os discursos são realmente infalíveis e a lista é extensa. Tem o tal do “foi só um beijo”, tem aquele “somos apenas bons amigos”, além do imbatível “foi apenas uma vez” ou “não significou nada”. Geralmente não significa nada mesmo, o problema é definir o grau de intensidade do “nada” para você e para ela.
Às vezes a gente gosta tanto de alguém que ainda acredita nessas pequenas mentiras mesmo quando não acreditamos nem no começo. É o tal do bem maior. Ou do medo de perder, sem entender que às vezes a perda é o nosso maior ganho. Afinal, como diria a poeta Elizabeth Bishop, “a arte de perder não tarda aprender”.
O problema do discurso não são as palavras em si, é a necessidade que as pessoas têm de querer empurrar essas mentiras verdadeiras goela abaixo. Dos outros. É como uma verdade universal oriunda de uma sinceridade que simplesmente não existe.
No dia que a gente aprender a dar menos valor às palavras e mais valor às atitudes, quando uma pessoa abrir a boca para soltar um discurso infalível você pode voltar para casa com a consciência tranquila por ter ido embora antes de ouvir o resto da história. Evidente, seria um mundo inalcançável quando as mulheres vão parar de fazer questão de mostrar às amigas o namorado novo, mesmo sem gostar dele.
Até esse dia, resta-nos a complacência de ouvir um clássico “não sinto mais nada por você” e ver nos olhos dela que bastaria o som do primeiro pingo de chuva no chão para ela jogar tudo para o alto e entrar no primeiro táxi com você rumo ao desconhecido. Porque discurso sincero de verdade é aquele que a gente não responde falando. Muito menos escrevendo.
O JUMENTO NO SERIDÓ
Foto: Ilustração do blog.
Por Paulo de Balá, carta a Wodem Madruga, Tribuna do Norte 25 de abril de 2010
Entre um chuvisco e uma chuva e um relâmpago no meio, que ainda não definem uma quadra regular de inverno, como aconteceu no ano passado, o doutor Paulo Bezerra desvia o olhar do horizonte para cuidar de escrever suas cartas. Esta semana me chegou uma dando conta de quando o jumento apareceu no sertão e da enorme e valiosa serventia do muar para o desenvolvimento da região. É uma delícia sentar nessa garupa recontada pelo ilustre missivista:
- Woden, quando o jumento (Equus asinus) chegou ao sertão, significou uma enorme força de progresso e falam da entrada dele, no chão do Seridó, num prazo dilatado de trinta anos que vai de 1840 a 1870. Com a cruz nas costas e o casco duro e resistente a ponto de nunca estropiar, abriu veredas, carregou feira, levantou açude, transportou xiquexique, levou cangalha e sela, multiplicou a raça e deu origem ao híbrido burro(a)-mulo(a) – (Equius asinus caballo), outra peça importante no desenvolvimento do sertão. Por isso que os artesãos de Nova Jerusalém, em Pernambuco, num belo talhe de cantaria, lhe prestaram significativa e justa homenagem em monumento erigido à beira da estrada.
- Na caatinga das Barrentas, terra adquirida de João Raimundo, meu pai criava um magote de jumentas soltas com o “pai do lote”, para produção do valioso animal de trabalho. Terreno de caatinga com muito espinho, jurema e pereiro e, nos anos de chuva, capim panasco que de verde chegava a amarelo-dourado quando seco. Na cacimba, já funda de tanto lhe cavarem o fundo em busca d’água nos repetidos anos de estiagem, era onde os bichos iam matar a sede. Notavam-se muitos rastos nos caminhos e veredas e na praça da cacimba, levando a presumir a presença de animais além dos da fazenda e, como estercavam sempre no mesmo canto, o volume de esterco levava à mesma conclusão. Foi dado um aviso aos vizinhos, sem resultado. Feito um ajuntamento, os de dentro foram entregues a Cornélio do Bico pra lhes dar descaminho, mas na segunda apartação eram poucos os de fora e os donos estavam lá para resgatá-los. Depois disso os limites da terra foram respeitados.
- A maior concentração de jumentos era vista quando se levantava a parede de um açude. Dezenas deles e até centenas... Cada tropa se compunha de quatro a seis jumentos que carregados iam a passo curto, gemendo com o peso da terra e de volta, parede abaixo e escoteiros, chouteando. Logo se habituavam a andar na mesma trilha, ir ao ponde onde esvaziar as caçambas e voltar ao mesmo lugar de origem para enchê-las de novo, sempre na mesma ordem. A ração principal era o milho posto de molho de véspera pra amolecer, servido em mochila com um punhado de sal. Tropeiros chegavam de longe para o trabalho que principiava cedo, tinha uma pausa ao meio dia e se encerrava quando o sol ia se escondendo no poente. Fichas de zinco gravadas com o valor unitário de 1, 10, 50, 100 e 500, eram o comprovante das cargas de terra despejadas. Com o feitor da parede, de quem recebia a ficha, o tangedor trocava as fichas menores pelas maiores.
- Além dos jumentos de carga que eram muitos, havia os de sela que eram poços e os de besta, mais escassos ainda. Foi um corisco, num ano seco, que matou o jumento andaluz da sela de seu Antão da Ping’água e, de sangue pega, era o jumento roxo e graúdo dado por Tiburtino Bezerra ao irmão Silvino para cobrir as éguas do seu rebanho. Mas tudo foi passando, sobretudo, depois do abatedouro de Belo Jardim, em Pernambuco, que quase acaba com a raça. As apostas quanto ao número deles à direita ou à esquerda das estradas desapareceram e até a sua presença no “Beco da Troca” das cidades interioranas minguou. Na oportunidade em que um cidadão tecia loas ao seu jerico, por que isso, por que aquilo, um “caboco” bom de verso arrancou do miolo do seu versejar, o repente depreciativo:
“Não eleve esse jumento
Que isso é coisa muito à-toa
No caminho ele se deita
No terreiro ele se ‘acoa’
Apertado na espora
Solta um peido e a merda avoa.”
- O trator passou a fazer muito do que faziam os jegues. A carroça puxada a boi, que tem força no cangote, substituiu a do jumento, que tem força no espinhaço; os que andavam a cavalo passaram para o caminhão que anda mais ligeiro e pega mais gente e leva para a escola os poucos estudantes da zona rural. As motos se multiplicaram até por atender com mais ligeireza nas necessidades. Aos jegues, porém, continuam reservadas afazeres de grande valia.
- A velha Angélica, uma vitalina contadora de história de Trancoso e mestra em fiar algodão, morreu em consequência da queda de um jumento assim como o meu avô Félix da Pendanga que caiu de Moleque, um jumento preto, em 1937.
- Em Carnaúba dos Dantas, contou-me o Dr. Humberto Dantas, menino bom de lá, houve uma corrida de jegues onde dois eram os favoritos. Logo tomou distância Zé Cabeçote em sua monetária que botou boa dianteira na de Caco de Naninha. Folgado na frente, no entanto, ao passar diante de um grupo de pessoas, um sem vergonha gritou: “Vai Zé Cabeçote, vai!” como a incentivá-lo. Odiando o apelido, riscou o jumento e já se apeou de manga arregaçada, brabo, comendo um galo, grossas as veias do pescoço, investindo contra o povo, furioso: “Qual foi o ‘fela’? Apareça!”. Ninguém se mexeu, mas ele abufelado perdeu a corrida que estava ganha.
- E o rincho deles, amigo velho, como substituir? Aí, não. Aí há de sempre haver um casal procriando para que seus descendentes continuem a rinchar marcando as horas e quebrando o silêncio do sertão seja durante o dia, seja em noites claras de luar, seja em noites escuras que nem breu, daquela se meter dedo no olho.
- E lá no seu mundo chove? No meu chuvisca e, vez por outra, chove. Ronald Gurgel repete que o chão do Seridó é muito bom; o céu é que não presta...”
O burro dos poetas
Jorge Luis Borges também tem o seu jumento, “o asno de três patas”, criação de Zaratustra, que vive no meio do oceano e “que três é o número de seus cascos e seis o de seus olhos e nove o de suas bocas e dois o de suas orelhas”. Diz ainda que o “âmbar é o esterco do asno de três patas”. Está escrito em O livro dos seres imaginários.
Outro poeta, o espanhol Juan Ramõn Jiménez, Prêmio Nobel de Literatura de 1956, tinha o jumentinho Platero (Platero e Eu) com quem conversava sobre filosofia, debulhando “reflexões sobre os mistérios da vida e da alma”. E o burro de Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote, heim? Glória maior só o do jumentinho baixeiro que conduziu Jesus, o filho do Senhor, pelas ladeiras pedregosas de Jerusalém.
- Woden, quando o jumento (Equus asinus) chegou ao sertão, significou uma enorme força de progresso e falam da entrada dele, no chão do Seridó, num prazo dilatado de trinta anos que vai de 1840 a 1870. Com a cruz nas costas e o casco duro e resistente a ponto de nunca estropiar, abriu veredas, carregou feira, levantou açude, transportou xiquexique, levou cangalha e sela, multiplicou a raça e deu origem ao híbrido burro(a)-mulo(a) – (Equius asinus caballo), outra peça importante no desenvolvimento do sertão. Por isso que os artesãos de Nova Jerusalém, em Pernambuco, num belo talhe de cantaria, lhe prestaram significativa e justa homenagem em monumento erigido à beira da estrada.
- Na caatinga das Barrentas, terra adquirida de João Raimundo, meu pai criava um magote de jumentas soltas com o “pai do lote”, para produção do valioso animal de trabalho. Terreno de caatinga com muito espinho, jurema e pereiro e, nos anos de chuva, capim panasco que de verde chegava a amarelo-dourado quando seco. Na cacimba, já funda de tanto lhe cavarem o fundo em busca d’água nos repetidos anos de estiagem, era onde os bichos iam matar a sede. Notavam-se muitos rastos nos caminhos e veredas e na praça da cacimba, levando a presumir a presença de animais além dos da fazenda e, como estercavam sempre no mesmo canto, o volume de esterco levava à mesma conclusão. Foi dado um aviso aos vizinhos, sem resultado. Feito um ajuntamento, os de dentro foram entregues a Cornélio do Bico pra lhes dar descaminho, mas na segunda apartação eram poucos os de fora e os donos estavam lá para resgatá-los. Depois disso os limites da terra foram respeitados.
- A maior concentração de jumentos era vista quando se levantava a parede de um açude. Dezenas deles e até centenas... Cada tropa se compunha de quatro a seis jumentos que carregados iam a passo curto, gemendo com o peso da terra e de volta, parede abaixo e escoteiros, chouteando. Logo se habituavam a andar na mesma trilha, ir ao ponde onde esvaziar as caçambas e voltar ao mesmo lugar de origem para enchê-las de novo, sempre na mesma ordem. A ração principal era o milho posto de molho de véspera pra amolecer, servido em mochila com um punhado de sal. Tropeiros chegavam de longe para o trabalho que principiava cedo, tinha uma pausa ao meio dia e se encerrava quando o sol ia se escondendo no poente. Fichas de zinco gravadas com o valor unitário de 1, 10, 50, 100 e 500, eram o comprovante das cargas de terra despejadas. Com o feitor da parede, de quem recebia a ficha, o tangedor trocava as fichas menores pelas maiores.
- Além dos jumentos de carga que eram muitos, havia os de sela que eram poços e os de besta, mais escassos ainda. Foi um corisco, num ano seco, que matou o jumento andaluz da sela de seu Antão da Ping’água e, de sangue pega, era o jumento roxo e graúdo dado por Tiburtino Bezerra ao irmão Silvino para cobrir as éguas do seu rebanho. Mas tudo foi passando, sobretudo, depois do abatedouro de Belo Jardim, em Pernambuco, que quase acaba com a raça. As apostas quanto ao número deles à direita ou à esquerda das estradas desapareceram e até a sua presença no “Beco da Troca” das cidades interioranas minguou. Na oportunidade em que um cidadão tecia loas ao seu jerico, por que isso, por que aquilo, um “caboco” bom de verso arrancou do miolo do seu versejar, o repente depreciativo:
“Não eleve esse jumento
Que isso é coisa muito à-toa
No caminho ele se deita
No terreiro ele se ‘acoa’
Apertado na espora
Solta um peido e a merda avoa.”
- O trator passou a fazer muito do que faziam os jegues. A carroça puxada a boi, que tem força no cangote, substituiu a do jumento, que tem força no espinhaço; os que andavam a cavalo passaram para o caminhão que anda mais ligeiro e pega mais gente e leva para a escola os poucos estudantes da zona rural. As motos se multiplicaram até por atender com mais ligeireza nas necessidades. Aos jegues, porém, continuam reservadas afazeres de grande valia.
- A velha Angélica, uma vitalina contadora de história de Trancoso e mestra em fiar algodão, morreu em consequência da queda de um jumento assim como o meu avô Félix da Pendanga que caiu de Moleque, um jumento preto, em 1937.
- Em Carnaúba dos Dantas, contou-me o Dr. Humberto Dantas, menino bom de lá, houve uma corrida de jegues onde dois eram os favoritos. Logo tomou distância Zé Cabeçote em sua monetária que botou boa dianteira na de Caco de Naninha. Folgado na frente, no entanto, ao passar diante de um grupo de pessoas, um sem vergonha gritou: “Vai Zé Cabeçote, vai!” como a incentivá-lo. Odiando o apelido, riscou o jumento e já se apeou de manga arregaçada, brabo, comendo um galo, grossas as veias do pescoço, investindo contra o povo, furioso: “Qual foi o ‘fela’? Apareça!”. Ninguém se mexeu, mas ele abufelado perdeu a corrida que estava ganha.
- E o rincho deles, amigo velho, como substituir? Aí, não. Aí há de sempre haver um casal procriando para que seus descendentes continuem a rinchar marcando as horas e quebrando o silêncio do sertão seja durante o dia, seja em noites claras de luar, seja em noites escuras que nem breu, daquela se meter dedo no olho.
- E lá no seu mundo chove? No meu chuvisca e, vez por outra, chove. Ronald Gurgel repete que o chão do Seridó é muito bom; o céu é que não presta...”
O burro dos poetas
Jorge Luis Borges também tem o seu jumento, “o asno de três patas”, criação de Zaratustra, que vive no meio do oceano e “que três é o número de seus cascos e seis o de seus olhos e nove o de suas bocas e dois o de suas orelhas”. Diz ainda que o “âmbar é o esterco do asno de três patas”. Está escrito em O livro dos seres imaginários.
Outro poeta, o espanhol Juan Ramõn Jiménez, Prêmio Nobel de Literatura de 1956, tinha o jumentinho Platero (Platero e Eu) com quem conversava sobre filosofia, debulhando “reflexões sobre os mistérios da vida e da alma”. E o burro de Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote, heim? Glória maior só o do jumentinho baixeiro que conduziu Jesus, o filho do Senhor, pelas ladeiras pedregosas de Jerusalém.
VIAJANDO O SERTÃO (III)
L. da C. C.[Percurso – Santa Cruz – Cabeço Branco – Serro Corá – São Romão – Angicos – Assú]"Assú dá-nos impressões várias. Aqui houve o ‘fogo de 40’, ali falavam os oradores na campanha da abolição que foi vitoriosa antes da lei de 13 de maio, além apruma-se o mais velho sobrado. As andorinhas passam, inúmeras, povoando o ar de sonoridade pelo frêmito do vôo rápido. A praça é deserta sob o palor das lâmpadas. Eu falo de integralismo, toponímia, algodão. (...)""Pela manhã tivemos a linda festa do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. A vitória maior é viver aquelas freiras ilustres, quase todas nórdicas, num clima ardente como do Assú. O colégio é uma maravilha de ordem, disciplina, rendimento educacional e beleza de espírito. Sente-se que ali se trabalha para receber no outro mundo paga maior.""Na saída sei que iremos para o Centro Artístico Operário Assulense. Mas o Ângelo Pessoa tem um operário para mostrar-me e atravesso os areais da cidade (...) onde, numa casa caindo de velha e negra de velhice, mora José Leão, sexagenário, ‘fazedor de santos’.Esse José Leão, como as andorinhas, são duas fortes impressões do Assú. É o tipo do imaginário primitivo, sereno, resignado, incompreendido, passando fome, trabalhando sem esperança, sem ambiente, sem auxílio, sem estímulo, insensível e obstinado, artista legítimo, com uma intuição de escultura, um senso decorativo, um tipo de moldar as fisionomias que lembra a rudeza elegante e máscula de Memling. José Leão mostra-me dezenas de santos, crucifixos, anjos, ovelhas místicas. Não tem instrumentos. São pedaços de canivetes (...), cacos de louça, pires bolorentos, quingas de coco (...). Longe de ter nossa mania de beleza dos Santos moldados em gesso e feito à maquina, iguais e bonitinhos, José Leão grava na imburana plástica rostos humanos, bem semelhantes ao tipo humano, possíveis e naturais. Ninguém compreende a maestria daquela intuição que lá fora o faria rico e aqui o mata de fome. Eu tive nas mão uma Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro verdadeiramente maravilhosa. Um São José, um São João Batista, que estão sem preço, pedem uma página de elogio pela firmeza incrível com que aquele velho gravou os traços morais na árvore que lhes deu nascimento e vesti-os com uma precisão minuciosa e pictórica dum desenhista à Batps.O studio é fumacento e frio. Andrajoso e triste, com uma melancolia superior e expontânea, o imaginário recebeu-nos erguendo-se devagar duma rede sem cor. Na mão havia um livro. Não era o ‘Flos Santorum’. Era a ‘Retirada da Laguna’ E creio que o símbolo é fiel. Aqui esta ele fazendo sua retirada, sem roupa, sem pão, sem aliados, sem abrigo mas guardando todas as armas do trabalho, as forças da vontade e as bandeiras da fé. José Leão trabalhador sem reclame, saúdo-te em nome dos que trabalham com alma e morrem sem glória."Assina desta forma:
- O jornal publica novamente a versão oficial da viagem ao Sertão.
"No dia 18 o Interventor chegou a vila de Augusto Severo (...).""O Dr. Mário Camara teve uma magnífica recepção por parte dos mais significativos elementos sociais de Augusto Severo (...).""Às 16 horas deu-se a partida falando o Dr. Câmara Cascudo, despedindo-se da terra de seus pais e avós e evocando as famílias tradicionais dos Melos, Veras e Jacomes, sendo demoradamente aplaudido.""A viagem para Caraúbas retardou-se pelo estado do caminho (...).""Realizou-se o banquete assistido pelo escol local. (...) Dr. Mário Camara , (...) pediu ao Dr. Câmara Cascudo que, em nome dos presentes da comitiva, saudasse a Família de Caraúbas, ali representadas pelos seus mais legítimos elementos. O Dr. Câmara Cascudo (...) levantando sua taça em saudação à mulher caraubense, mãe, esposa e filha, tecedeira de felicidade, artífice da paz, mãe de soldados e de marinheiros e de lavradores, seiva de fé que se perpetua na coragem com que o sertanejo enfrenta e vence a natureza, corrigindo-lhe a fisionomia (...)."
Rosalba Ciarlini destaca licença maternidade no dia das mães
- Publicado por Robson Pires,A senadora Rosalba Ciarlini aproveitou o Dia das Mães para lembrar a Proposta de Emenda à Constituição(PEC) da Licença Maternidade de seis meses para todas as mães trabalhadoras. “Nossa Proposta que universaliza o direito para as mães já foi aprovada nas Comissões e está esperando apenas a votação no plenário do Senado”, informou a senadora, adiantando que está confiante na aprovação unânime da Casa.
Rosalba voltou a falar sobre a PEC, na Festa das Mães da pequena comunidade de Entrocamento, município de Carnaubais. Ao lado do ex-prefeito Zenildo Batista, vereador Keide Soares – que promove a confraternização desde 2004-, deputado José Adécio, prefeito de Açu, Ivan Júnior e lideranças comunitárias, a senadora defendeu mais creches, escolas, saúde de qualidade e segurança pública. “Esses direitos sociais trazem tranqüilidade para as mães”, declarou, ressaltando as oportunidades de geração de emprego pelas potencialidades econômicas do Vale.
Durante o discurso Rosalba também se emocionou ao lembrar da mãe Conchecita, que morreu há 6 anos, no Dia das Mães. Depois da confraternização, a senadora participou de almoço em homenagem a sogra dela, Adalgisa Rosado, viúva do ex-governador Dix-sept Rosado, em Mossoró.
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domingo, 9 de maio de 2010
MÃES DA LITERATURA FEMININA ACADEMIA FEMININA DE LETRAS E MEMORIAL DA MULHER SOBREVIVEM COM GARRA AO IMORTALIZAR AS ILUSTRES POTIGUARES
Sérgio Vilar- sergiovilar.rn@dabr.com.br
A Academia Feminina de Letras vai além da difusão da literatura produzida pela mulher potiguar. Mesmo confundida com a atmosfera conservadora das academias de letras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, ela representa os novos tempos, distante do espaço renegado às mulheres durante séculos. É hoje mãe e guardiã da produção literária feminina, tendo como baluarte a figura de Nísia Floresta e Zila Mamede. A figura feminina esteve à margem das decisões sócio-políticas, religiosas e culturais.
Figuras como Nísia Floresta, Auta de Souza e Isabel Gondim têm espaço privilegiado na Academia e também no Memorial Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press
Na literatura, embora consagrada por nomes como Clarice Lispector e Hilda Hilst, a mulher sempre esteve vertiginosamente atrás dos homens. A Academia Norte-Riograndense de Letras (ANL) tem três mulheres e 37 homens como patronos. Apenas Nísia Floresta, Isabel Gondim e Auta de Souza. Na ocupação das cadeiras atuais, apenas Ana Maria Cascudo, Sônia Ferreira e a indicação da poetiza Diva Cunha.
A pedagoga e escritora Zelma Furtado fundou a AFL há dez anos para abrigar todo o talento feminino renegado pela cultura machista ainda persistente na dita modernidade. Das 40 vagas disponibilizadas, apenas 25 estão ocupadas. Como mãe, a instituição protege sob as suas asas um rico acervo ja produzido, a exemplo de obras raras de Nísia Floresta, expostas recentemente no I Encontro de Escritores da Língua Portuguesa de Natal.
Zelma também é responsável por intermináveis pesquisas sobre o papel da mulher na literatura potiguar. Foi a partir dessas pesquisas que descobriu a tentativa de se fundar a Academia Feminina de Letras da Casa Bertha Guilherme, em 1952. Bertha foi uma professora de português do colégio Atheneu. Morreu em 1951, quando a poeta Elione Dantas mobilizou escritoras potiguares a fundar a academia. As poucas reuniões ocorreram no antigo cinema Rio Grande. Mas logo Elione se mudaria para Recife para cursar Filosofia e a ideia ficaria esquecida nas entrelilnhas da história.
Uma década "Quando li sobre a ideia, em 1998, procurei criar a nossa AFL, fundada em 22 de abril de 2000". Zelma conta que a instituição nunca recebeu apoio dos governos. Todo o custo é cotizado entre as integrantes da AFL. Se a sede da academia tradicional do Rio Grande do Norte foi cedida e recebe manutenção do Governo do Estado, a AFL chegou a ser proibida, via decreto, de se reunir uma vez ao mês no Palácio da Cultura. A solução foi transformar a própria casa da presidente, Zelma Furtado, em sede.
(Transcrito do jornal Diário de Natal, edição de domingo, 9 de maio de 2010)
A Academia Feminina de Letras vai além da difusão da literatura produzida pela mulher potiguar. Mesmo confundida com a atmosfera conservadora das academias de letras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, ela representa os novos tempos, distante do espaço renegado às mulheres durante séculos. É hoje mãe e guardiã da produção literária feminina, tendo como baluarte a figura de Nísia Floresta e Zila Mamede. A figura feminina esteve à margem das decisões sócio-políticas, religiosas e culturais.
Figuras como Nísia Floresta, Auta de Souza e Isabel Gondim têm espaço privilegiado na Academia e também no Memorial Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press
Na literatura, embora consagrada por nomes como Clarice Lispector e Hilda Hilst, a mulher sempre esteve vertiginosamente atrás dos homens. A Academia Norte-Riograndense de Letras (ANL) tem três mulheres e 37 homens como patronos. Apenas Nísia Floresta, Isabel Gondim e Auta de Souza. Na ocupação das cadeiras atuais, apenas Ana Maria Cascudo, Sônia Ferreira e a indicação da poetiza Diva Cunha.
A pedagoga e escritora Zelma Furtado fundou a AFL há dez anos para abrigar todo o talento feminino renegado pela cultura machista ainda persistente na dita modernidade. Das 40 vagas disponibilizadas, apenas 25 estão ocupadas. Como mãe, a instituição protege sob as suas asas um rico acervo ja produzido, a exemplo de obras raras de Nísia Floresta, expostas recentemente no I Encontro de Escritores da Língua Portuguesa de Natal.
Zelma também é responsável por intermináveis pesquisas sobre o papel da mulher na literatura potiguar. Foi a partir dessas pesquisas que descobriu a tentativa de se fundar a Academia Feminina de Letras da Casa Bertha Guilherme, em 1952. Bertha foi uma professora de português do colégio Atheneu. Morreu em 1951, quando a poeta Elione Dantas mobilizou escritoras potiguares a fundar a academia. As poucas reuniões ocorreram no antigo cinema Rio Grande. Mas logo Elione se mudaria para Recife para cursar Filosofia e a ideia ficaria esquecida nas entrelilnhas da história.
Uma década "Quando li sobre a ideia, em 1998, procurei criar a nossa AFL, fundada em 22 de abril de 2000". Zelma conta que a instituição nunca recebeu apoio dos governos. Todo o custo é cotizado entre as integrantes da AFL. Se a sede da academia tradicional do Rio Grande do Norte foi cedida e recebe manutenção do Governo do Estado, a AFL chegou a ser proibida, via decreto, de se reunir uma vez ao mês no Palácio da Cultura. A solução foi transformar a própria casa da presidente, Zelma Furtado, em sede.
(Transcrito do jornal Diário de Natal, edição de domingo, 9 de maio de 2010)
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Paulo Varela, o Poeta Abandonado Pelas ruas da cidade caminhava devagar, levando nos ombros versos que ninguém quis escutar. Era Paulo Vare...

