Do face de Fernando Caldas
quarta-feira, 8 de maio de 2024
quinta-feira, 2 de maio de 2024
O INTELIGENTE E O SABIDO
O inteligente é aritmético. Consegue sobreviver. O sabido é geométrico. Quase sempre vive sobre. O inteligente é polivalente na ordem do conhecimento. O sabido, na ordem do aproveitamento. O inteligente é grosseiro às vezes, mas humano, profundamente humano. O sabido se irrita, mas é sempre fino. Fino e aderente. Sobretudo ao poder. E quando eu falo em Poder, não me refiro pura e simplesmente ao Sistema. Me refiro ao poder, podendo. Feito de números. Sobretudo de números.
O inteligente pode ser desligado. O sabido, nunca. O inteligente gosta de se encontrar com velhos amigos. O sabido prefere localizar novos. Se vão lhe render dividendos. O inteligente é simples. O sabido é complexo.
Chegar a ele, às vezes não é fácil. O mundo é dos sabidos. A vida, dos inteligentes. Na sua intensidade. A ambição do inteligente é limitada. Porque limitada, nem consegue ser ambição. O sabido é, sobretudo, ambicioso, explicação maior do seu sucesso. O inteligente poderá ser sábio. O sabido, jamais. A fé do inteligente é escatológica.
Do sabido, circunstancial. O inteligente não consegue ser audaz. A ousadia, porém, é o oxigênio do sabido. O inteligente aguarda a morte como passagem; para o sabido, ela não é objetivo de cogitações.
O inteligente gosta de bibliotecas; o sabido, de computadores. O inteligente sonha com Paris, escreve maravilhosamente sobre Paris, mas suas notas são escritas em Tibau ou na Redinha. O sabido dorme em Lisboa, acorda em Hong-Kong e janta em Ponta Negra.
O inteligente sorri. E no sorriso se esboça a silhueta da paz. O sabido ri. E ri gostosamente. O inteligente tem saudades; o sabido, nostalgia. O inteligente mergulha no silêncio. O sabido vira taciturno. O inteligente fica só, para estar com os outros; o sabido, para libertar-se deles.
O inteligente cria; o sabido amplia. O inteligente ilumina; o sabido ofusca. O inteligente pensa em canteiros de flores; o sabido, em projetos de reflorestamento. O antônimo de inteligente é burro, de sabido é besta; às vezes (quem sabe) viram sinônimos.
Ser, para o inteligente é fundamental. Parecer, para o sabido é prioritário. E como vivemos no mundo das aparências, nele o inteligente não terá vez. Desde que mude os seus critérios. Aí então, aflora a crise do desencanto.
É quando a mediocridade se entroniza, o supérfluo se instala e a inteligência se rende. A não ser que o inteligente se chame Unamuno, reitor imortal. Por isso, ele foi magnífico. Do contrário não teria sido reitor, mas feitor. E de feitores o Brasil está cheio. Sabidos, por sinal.
Sabido é Diógenes da Cunha Lima. Inteligente é Jarbas Martins.
Cascudo é inteligente. Sabida é sua entourage.
Inteligentes são Zila Mamede e Otto Guerra.
Inteligente é Waldson Pinheiro. Inteligente foi Miriam Coeli. Inteligente é Padre Ônio (de Cerro Corá) e Dom Heitor (de Caicó). Inteligente foi Dom Costa (de Mossoró). Inteligente foi o pastor José Fernandes Machado.
Inteligente é Anchieta Fernandes. Inteligente é Vingt-un.
O inteligente compra livros. O sabido, ações.
Para o sabido, as letras que realmente valem são letras de câmbio. Inteligente é quem trabalha para viver razoavelmente. Sabido é quem consegue que outros trabalhem para que ele viva maravilhosamente. O inteligente sua. O sabido transpira.
O inteligente acorda cedo. Para ele, Deus ajuda a quem madruga. O sabido acorda tarde. Outros madrugam por ele. Sem o inteligente, o que seria do sabido?
Inteligentes são Manoel Rodrigues de Melo e Raimundo Nonato.
Sabido é Paulo Macedo. Também “imortal”.
Inteligente é Dorian Jorge Freire. Sabido é Canindé Queiróz.
inteligentes são Eulício e Inácio Magalhães. Inteligente era Hélio Galvão. Sabido é Valério Mesquita.
Inteligentes eram José Bezerra Gomes e João Lins Caldas. Inteligente foi Jorge Fernandes. Sabido, Sebastião.
Inteligente é Erasmo Carlos. Sabido é Roberto.
Inteligente foi Garrincha. Sua inteligência, porém, não foi além de suas pernas. Com elas, encantava. Sabido é Pelé. Transformou suas pernas em objeto de lucro. Não é a toa que a cidade de Garrincha se chama Pau Grande. E Pelé nasceu onde? Não foi em Três Corações?
Ao mesmo tempo pode amar Xuxa, o Cosmos ou as audiências na Casa Branca.
Há um campo, porém, onde o número de sabidos é pródigo. Mas pelo menos hoje, eu não quero pensar nos inteligentes e sabidos quando se trata de competição eleitoral.
domingo, 28 de abril de 2024
sábado, 27 de abril de 2024
(TEXTO DO JORNALISTA E ESCRITOR CELSO DA SILVEIRA, PUBLICADO NO DIÁRIO DE NATAL, 1983, RECHEADO DE VERDADES, TEMOR, FICÇÃO SOBRE A BARRAGEM ARMANDO RIBEIRO GONÇALVES E O POLÊMICO E INTRANGENTE DEFENSOR DA NÃO CONSTRUÇÃO DA BARRAGEM DO ASSU DA FORMA QUE SE CONTRUIA, VEREADOR ADAUTO LEGÍTIMO BARBOSA, PERSONAGEM PRINCIPAL DO ARTIGO DE CELSO DA SILVEIRA, COMO ABAIXO PODEMOS CONFERIR).
segunda-feira, 22 de abril de 2024
UMA VEZ
Por Virgínia Victorino (1898/ 1967)
Ama-se uma vez só. Mais de um amor
de nada serve e nada o justifica.
Um só amor absolve, santifica.
Quem ama uma só vez ama melhor.
Qualquer pessoa, seja lá quem for,
se uma outra pessoa se dedica,
só com essa ternura será rica
e qualquer outra julgará pior...
Há dois amores? Qual é o verdadeiro?
Se há segundo, que é feito do primeiro?
Esta contradição quem foi que fez?
Quem ama assim julga que amou;
mas pode acreditar que se enganou
ou da primeira ou da segunda vez?
________________in, Namorados, 1938
sexta-feira, 19 de abril de 2024
Da solidão
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br
O ser humano, desde a caverna, tem medo da solidão. Há mais de dois mil anos sonha e procura companhias no Universo. Agora mesmo, o jornalista Salvador Nogueira, especializado em temas científicos, na Folha de S. Paulo, revelou detalhes da pesquisa mais recente do Instituto de Tecnologia de Massachutts, EUA, sobre a “chance de vida nas nuvens de vênus”. É uma hipótese, mas o texto revela que as suspeitas começaram bem antes, em 1960, portanto, há mais de 60 anos.
Os cientistas, segundo o texto, não negam que Vênus é teoricamente inabitável pelo que se sabe até agora. Mas, a ciência sempre partiu de hipóteses. Se a atmosfera de Vênus é noventa vezes mais densa do que a da terra, a suspeita parte do princípio que a temperatura de Vênus no solo tem “temperatura e pressão similares à Terra, ao nível do mar, toleráveis para microorganismos terrestres”. E estão certos: as “nuvens venusianas são ricas não em água, mas em ácido sulfúrico”.
Nogueira não nega a grande diferença entre ser habitável e ser habitado. As nuvens lá de Vênus são apenas nuvens, mas, provavelmente, há bilhões de anos, foram mais hospitaleiras, além da possibilidade real de ter abrigado “oceanos de água, antes que o efeito estufa descontrolado o transformasse no inferno quente que é hoje”. Para não cair no desafio de tentar explicar, num texto para leigos, os efeitos da fosfina e de uma estranha função de absorver o seu efeito ultravioleta.
A astrofísica sabe: o planeta Vênus é o mais próximo da Terra, há 61 bilhões de distância, com vulcões, montanhas e vales. Tem a nossa velha e secular simpatia de ser a nossa Estrela Dalva, anunciadora do amanhecer, e que, para os sertanejos, é também a ‘Papa-Ceia’, que chega no lusco-fusco da tarde a encantar os poetas românticos. Ninguém desejou mais ter a Estrela da Manhã do que o poeta Manuel Bandeira: “Meus amigos, meus inimigos / procurem a estrela da manhã”.
Não sou contra, declaro, que os cientistas venham a invadir com seus telescópios as nuvens de Vênus. Mas, que o façam com certa parcimônia.
Também não é possível sobreviver na Terra sem alguns mistérios. Deve ser muito desinteressante viver sem nada de misterioso, se a própria vida é um mistério. Vão mandar uma sonda, logo já, em janeiro e 2025, com seus olhos de células da mais fina nobreza eletrônica, mas não pensem eles que Vênus será tão fácil de ser conquistada.
É real a chance da sonda, na sondagem que é seu fim, voltar de Vênus com novidades em imagens perfeitas das nuvens. Ora, não duvido da ciência.
, acho que, às vezes, mesmo sendo legítima a boa curiosidade, os cientistas passam muito do ponto. Desconfio que não deve ser bom perder os mistérios que cercam a vida humana há milhões de anos. A solidão tem sua graça. Desde que alguém fez das mãos uma concha e, pela primeira vez, apanhou a água para matar a sede…
https://tribunadonorte.com.br/
Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.





