quarta-feira, 4 de junho de 2025

 Poema do Sol em Lua

Os poemas fugiram com a minha dor
rebelaram-se e gritaram :
-não queremos ser assim autobiográficos,
ter esse ar de desamparo
e um certo escárnio da visão de quem nos lê.
não...
queremos falar palavras suaves
brincar de eternidade
fecundar o vento com boas novas.
não...
nada de escuro breu e alardes
em ver corpos caírem
após a alma jurar plena comodidade
não...
nada desse lirismo dantesco
e febril de paixões pela lua
nada de rimas e métricas
feitas por um escritor solitário
guardaremos os seus motivos e mistérios
e assim seguiram encantados,
os poemas
rindo de mim e de meus problemas
e nessa hora descobri que estava
-completamente nua-
Adriane Lima




segunda-feira, 26 de maio de 2025

 A TIA

Por João Lins Caldas
A tia velhinha
Se eu tenho essa tia
Se viva ela mora
Se canta baixinho
Rendendo cantigas
Serzindo lembranças
As mãos enrugadas
A pele sem brilho
A tia distante
Seu ar de bondade
Carícia na boca
Carícia nos olhos
A tia lembrada
Terá na memória
Lembrando comigo
Que eu lembro com ela
O passo, o conselho
da irmã recordada.
(João Lins Caldas)



domingo, 18 de maio de 2025

 trágicos, saudade...

E vista em tudo a mesma negra aurora,

Tudo é um profundo caos - morto descora...

Olho em torno de mim a imensidade.

 

Para nascer, gemendo, fui gemido...

Meu verbo nunca foi na terra ouvido,

Minha voz nunca foi na Voz se vendo...

 

E, solitario, como a morte em tudo,

Fui cada vez mais frágil, mais mudo

E mais mudo, mais trágico, nascendo...


João Lins Caldas

 

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Por João Lins Caldas (1888- 1967), poeta potiguar do Assu, Poema inédito e sem epigrafe, publicado na popular revista Fon-Fon, do Rio de Janeiro, em 1924. Esse poema, sem dúvida, mostra a grandeza do seu poetar. Vejamos:

Eu acendi o relâmpago do ódio.
A noite tem ladrões engurujados
E tem traidores
E tem invejosos
E tem morcegos
E tem corujas
Eu preciso com os seus relâmpagos queimar toda essa fauna da noite.
A noite tem ladrões engurujados
Eles são lemáticos e frios,
Desencantados
O encanto dos charcos mais sombrios,
A sombra de todos os malvados,
- Condenados,
As suas ânsias, os seus arrepios...
A noite tem, com a traição, a inveja, os invejosos...
São da noite
Todos esses negros partos monstruosos...
São da noite
Os ladrões, a traição, os invejosos...
Mas da noite
Luminosos
Os relâmpagos que hão de queimar também todos os invejosos...
Acendam-se todos os meus relâmpagos.
(Postado por Fernando Caldas)



A vida tem muitas perguntas, mas aqui uma única resposta: a vida vive-se.

Caldas, pensador potiguar de Assu
Certa vez, um sábio perguntou:
- qual o preço de um homem?
O discípulo respondeu:
- depende do tamanho de sua covardia.

 Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.