segunda-feira, 20 de julho de 2026

ANTÔNIO DAS ALMAS – O MULATO BENFEITOR


Ivan Pinheiro*

Dos inúmeros temores da minha meninice, a maioria arrogada pelos familiares para me manter em casa ou inibir minha ida a algum lugar guardo, com nitidez, lembranças arrepiantes de cidadãos que me metiam medo, muito medo. Lembro-me que certa vez cheguei a fazer xixi no calção, já que calça era coisa de adulto.
Chico Doido, Miguel da Lata, Perdido, Zé Vidal, Girome, Chico Veneno, Antônio das Almas... Eram tantos! Muitos desses faziam-me mudar de calçada ou retornar a toda carreira em qualquer circunstância. Geralmente, às escondidas, ficava acompanhando com o olhar a trajetória do “espantoso maluco” para retomar o caminho e concluir o meu destino.
Confesso que meu maior pânico era quando me deparava com Antônio das Almas (não encontrei ninguém que tivesse a certeza de onde ele veio... Surgiu. Dizem que tinha familiares em Pendências). Não tenho notícias de que ele tenha dado alguma carreira numa criança em todo o seu convívio em Assu. Os outros sim aconteciam com frequência, até por que eram provocados pela garotada, geralmente, influenciada pelos adultos.
Mas para “aperrear” Antônio das Almas era preciso coragem. Grandalhão, moreno, musculoso, maltrapilho (chapéu velho de palha na cabeça, camisa surrada e amassada, calça segurada na cintura por um pedaço de corda fazendo vez de cinto – que também servia para outras atividades -, pernas arregaçadas, pés descalços - dificilmente usava alpercatas). O cachimbo e um cassetete (um porrete de madeira) completavam sua indumentária. O mais aterrorizante: morava basicamente no cemitério. Ou seja, num quartinho ao lado, situado a atual Rua 29 de outubro. O local era conhecido como “Casa das Almas”. Lá eram guardados os caixões de defuntos para pobres e cadáveres desconhecidos. Tinha um branco para anjos, outro lilás para moças donzelas e o terceiro (o mais arrepiador - era preto retinto, com detalhes prateados) para os demais.
Cabe uma reserva. Quem já passou dos cinquenta sabe dessa realidade: Até final dos anos sessenta, meados dos anos setenta (com menor intensidade) a maioria dos pobres se enterrava em redes. As criancinhas (anjos) eram transportadas até o cemitério em caixas de sapatos, telhas de olaria ou caixotes de madeira improvisados pelos familiares. A pobreza, à época, era franciscana - como costumava dizer o saudoso João Marcolino de Vasconcelos – Dr. Lô.
O leitor poderá até perguntar: Por que somente três caixões? Porque todos retornavam àquela “Casa das Almas”. O(a) falecido(a) era colocado(a) na cova sem caixão. Depois mudaram o “depósito funerário” para a Igreja Matriz no patamar de onde se toca(va) o sino - primeiro andar do lado esquerdo.
E quem era responsável para levar e trazer de volta aqueles horrorosos caixões? Quem?... Antônio das Almas. Sabe o que era se deparar, num beco estreito, com aquele homenzarrão conduzindo um caixão preto nas costas, vindo em sua direção? Terror!
Uma determinada vez eu caminhava displicentemente pelo “Beco do Padre” (mais parecia um funil, começava razoavelmente largo e terminava estreito em frente à casa de Edgard) quando, de súbito, quase topei com o dito cujo... Fiz um giro de 180 graus tão rápido que o vento e a areia fizeram redemoinho. Acho que cheguei a cair, mas acredito que não toquei no solo. Levantei numa rapidez indescritível já muito próximo de Antônio das Almas que, rindo da situação (acredito), bateu fortemente seus pés no chão. Pernas pra que te quero... Esgoelando-se cheguei à minha casa em segundos, todo mijado.
Pois bem, continuando: Antônio das Almas era comunicado da morte e levava o ataúde, no ombro, até a residência do(a) falecido(a). Passava a noite ou o tempo necessário “bebendo o defunto” e, ao final, segurando uma das abas do caixão, acompanhava o cortejo fúnebre com destino ao cemitério São João Batista passando, quase sempre, pela Igreja Matriz para as exéquias.
Ao chegar ao Cemitério o caixão era assentado à beira da sepultura e, quando não apareciam familiares e/ou voluntários para ajudá-lo a retirar o corpo do ataúde, com naturalidade, ele descia para a cova, se agarrava com o cadáver e colocava-o no interior do sepulcro.
Na verdade Antônio das Almas que vivia ao “Deus dará” era um voluntário para servir aos pobres com ações humanitárias, gestos incomparáveis... Um cidadão de boa alma.
Nas horas vagas fazia favores braçais para as pessoas mais afortunadas, como cuidar das sepulturas, carregar água, lenha, dar fim aos animais mortos, entre outras atividades à custa de quase nada, financeiramente. Uma cuia de farinha, feijão, açúcar e às vezes um pedaço de salgado (carne ou peixe) servia como pagamento.
Já adulto, tomei conhecimento que o então vereador Durval de Sá Leitão propôs aos colegas da Câmara Municipal do Assu a concessão de um Título de Cidadão Assuense ao Antônio das Almas, entre muitos outros. A propositura (já esperada pelo Edil) foi rejeitada pelos nobres representantes do povo. Resultado: Durval nunca mais retornou a Câmara Municipal perdendo o mandato por abandono de função.
O tempo passou e devidamente abandonado, já alquebrado pelo tempo, doente e injustiçado, Antônio das Almas retornou ao seu solo berço para o convívio dos familiares e por fim poder repousar eternamente no campo santo de sua terra natal (?).
Aquele peregrino, na sua ingenuidade, tinha a consciência (quem sabe?) de que existiam muitos irmãos precisando da sua força divina transformada em caridade, amparo material e espiritual. Assim, sem receio ou vergonha, se apequenou perante o povo e, com determinação, derramou muito suor e lágrimas em favor da causa, criando a identidade expressiva da sua personificação. Atitudes raras, digo até, inimagináveis, nos dias atuais.
*Ivan Pinheiro Bezerra – Historiador e escritor contista.
Desenho ilustrativo: Ivan Pinheiro


sábado, 11 de julho de 2026

Um soneto de João Lins Calda no antigo Almanaque e estáticos de Porto Alegre.



 

As Musas de um Poeta - Por João Antônio Bezerra Neto

Walflan retratado por Newton Navarro
Walflan retratado por Newton Navarro
A presença da mulher na poesia de Walflan de Queiroz [1930-1995] é um dos temas predominantes na sua trajetória lírica. O poeta potiguar vivenciou paixões platônicas transfiguradas em versos que retomam a tradição romântica e simbolista de celebrar a Amada. Paixões e Amores irreconciliáveis. Amores tristes e sublimados.
Partilha suas paixões e suas inquietações existenciais com a leitura de poetas que admira, como John Keats, Shelley, Edgar Allan Poe, Hart Crane, Hölderlin, Rimbaud. O cânone ocidental exerce sobre o poeta Walflan uma inegável “angústia da influência”.
“Conheci Walflan de Queiroz antes e depois de sua aventura no mar, um mar amargo e sonoro que o impregnou de sal e de melodias distantes e nostálgicas”. Com estas palavras, o escritor Luís da Câmara Cascudo saudava o poeta e o seu livro de estreia, O Tempo da Solidão, publicado no ano de 1960, em Natal. Essa referência à aventura marítima não é ao acaso, uma vez que havia sido marinheiro mercante na juventude, tendo embarcado em cargueiros.
O Tempo da Solidão traz vivências do poeta e a partir delas ficamos sabendo da sua conturbada vida amorosa. Surgem as primeiras musas: Irene e Tereza. Na “Elegia para Irene”, proclama: “Deus fez primeiro a ti, depois o mar azul”. Noutro poema, a “Elegia para Tereza”, busca o enfoque espiritualista: “Tereza. Para mim, o eterno manuscrito da caça espiritual”. No poema “Angústia”, afirma convicto: “O que é romântico não pode desaparecer da vida nem da morte”.     
A mais conhecida de suas paixões resultaria em um livro rico de símbolos e de metáforas que retratam no plano emocional o sentimento amoroso. Estamos falando de O Livro de Tânia, lançado em 1963. Tânia, no texto poético, como a musa inspiradora, assume a função de um vocativo deflagrado em versos de acentuada melancolia a começar pela força misteriosa da dedicatória que se acha nas primeiras páginas: “Eis o teu livro, Tânia. O mar já não existe. E as rosas que te dei naquela noite de dezembro estão, tristes. Esperam pela tua ternura. Tocadas, como são, pelo orvalho e os ventos das manhãs”.
Tânia é a principal musa da sua poesia lírico amorosa. A sua Beatriz, a sua Ofélia, a sua Marília, a sua Annabel Lee, enfim, a Eurídice de seus versos. Tudo que possa representar o drama do Amor evocado pela literatura e pelos mitos Walflan de Queiroz absorveu através de uma dicção poética muito pessoal. Um exemplo, o poema a seguir:

A TÂNIA, NUMA TARDE DE CREPÚSCULO MÍSTICO

Esta tarde meus olhos estão cansados de te esperar
E de te desejar na tranquila paisagem do porto,
Onde os barcos balançam mansamente sob o crepúsculo.
Esta tarde eu te ouço no murmúrio das águas, no vôo
Da gaivota, quando desfalece em mim a visão da retirada ilha.
Esta tarde meu coração adormece docemente em tuas mãos
E penso no silêncio das estrelas e dos teus olhos.

            A descrição revela elementos típicos do simbolismo. A sugestão do crepúsculo tingindo o céu, o cenário do porto, dos barcos, o murmúrio das ondas, a imagem da gaivota, tudo isso são metáforas que fazem o poeta sentir a presença da Amada.   
Em 1965, publica O Testamento de Jó, dando continuidade ao lirismo sofredor, mas também aos temas religiosos. O seu livro é um divisor de águas dentro do conjunto de sua obra poética. Dedicado a Yahvé, marca o início da sua lírica voltada definitivamente para o Sagrado, para o Mistério, para o Absoluto. E, assim, no poema “Solidão de Jó”, revela a natureza mística de sua alma: “Fui criado como Jó, antiquíssimo antepassado bíblico, / E vivo entre a minha solidão e a sabedoria de Deus”. 
A partir de então, o discurso amoroso dividirá espaço com o discurso religioso, estendendo-se essa tendência para o restante de seus livros. Nesse sentido, a nova figura feminina surge ao lado dos já conhecidos nomes de Irene, Tereza e Tânia. Temos um punhado de poemas dedicados a Herna. Para a sua musa, o poeta dado a paixões arrebatadoras, declara: “Eu te amo / Como a única lágrima, / Como a morte em prontidão”.
Consciente de sua paixão não correspondida, amargurado por saber que não terá respostas consoladoras, busca então algum amparo divino, como percebemos na última estrofe do poema “Tristezas para Herna”:

Eu não me lembrei
De ti, Herna
Senão
Quando chorei,
Quando roguei,
Quando pedi
A Deus
Que entendesses
Minha tristeza.

Noutro poema, intitulado apenas “Para H.”, desabafa: “Tu nunca entenderás o mistério do pássaro. / Porque o pássaro é sol, nostalgia do Infinito”.
Os poemas sentimentais, por exemplo, estão presentes em seu livro, A Colina de Deus, publicado em 1967. O poeta expressa os seus lamentos, as suas queixas, recordando constantemente as suas paixões. Ele não consegue se libertar delas, como neste poema, cuja estrofe final diz:

Três amores
E uma solidão.
Irene azul.
Tânia amarga
E Herna triste.
                                  
O poeta evoca Irene, Tânia e Herna que representam a trindade afetiva e amorosa do seu espírito de romântico angustiado. Essa trindade se mistura ao discurso místico do poeta à medida que avançamos na leitura de seus livros. Em Nas Fontes da Salvação (1970), o eu lírico diz: “Chorei como Jeremias, sofri como Jó, / Por isso não me reconhecerás, Irene”. Para Tânia, escreve: “Em vão interroguei a Noite, / Em vão interroguei os astros, / Que me falaram de ti”. Para Herna, declara: “Pura / Como uma palavra, / Saída da boca de Jeová”. 
Apesar da presença cada vez maior do discurso para Deus, em Aos Teus Pés, Senhor (1972), o diálogo com as musas ainda continua em poemas como “Para o meu único amor” e “Noturno para Herna”. Na última fase de sua obra poética, que compreende os livros A Fonte de Zeus (1974) e A Noite de Allah (1977), o poeta parece ter renunciado os seus amores.
No entanto, não há como negar que a imagem da mulher idealizada e amada platonicamente representa um significativo eixo temático na poesia de Walflan de Queiroz. Irene, Tereza, Tânia, Herna e tantas outras são lembranças que ficaram presas em seu imaginário poético. No derradeiro livro, A Noite de Allah, influenciado pela teologia islâmica, cantou: “Do Gênio, quero um palácio azul / E Irene”.    
João Antônio Bezerra Neto
Pesquisador


domingo, 28 de junho de 2026

Todos os sentimentos, todas as ideias, o irrequieto de todos os nossos pensamentos partem sem dúvida de uma desintegração.

João Lins Caldas



terça-feira, 16 de junho de 2026

A  TIA

Por João Lins Caldas

A tia velhinha
Se eu tenho essa tia
Se viva ela mora
Se canta baixinho
Rendendo cantigas
Serzindo lembranças
As mãos enrugadas
A pele sem brilho
A tia distante
Seu ar de bondade
Carícia na boca
Carícia nos olhos
A tia lembrada
Terá na memória
Lembrando comigo
Que eu lembro com ela
O passo, o conselho
Da irmã recordada.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

 Paulo Varela, o Poeta Abandonado


Pelas ruas da cidade caminhava devagar,

levando nos ombros versos que ninguém quis escutar.

Era Paulo Varela, poeta de coração aberto,

mas vivia tão sozinho, mesmo estando tão perto.


Escrevia suas dores nas páginas do destino,

transformando sofrimento em poesia e desatino.

Falava de esperança, de amor e de emoção,

mas poucos perceberam a tristeza em seu coração.


Nas praças fez morada sob o frio do luar,

em bancos adormecia sem ter onde descansar.

Buscou abrigo nos amigos, procurou compreensão,

mas encontrou muitas portas fechadas na escuridão.


A depressão, silenciosa, foi roubando sua luz,

enquanto a indiferença aumentava sua cruz.

O homem que dava vida às palavras mais bonitas

via suas próprias lágrimas caírem tão aflitas.


Quantas vezes pediu ajuda? Quantas vezes quis falar?

Quantas noites enfrentou sem ninguém para escutar?

A cidade seguia o rumo de seus dias apressados,

sem notar que seus poetas também podem ser quebrados.


E quando a morte chegou, fria como o vento forte,

levou consigo um artista para além da própria sorte.

Partiu Paulo Varela, sem o abraço que esperava,

sem o reconhecimento que sua história merecia e sonhava.


Hoje ecoam seus versos nas esquinas da memória,

como um pedido de justiça gravado na sua história.

Que nunca mais se abandone quem carrega a criação,

pois um poeta não precisa apenas de aplausos, mas de mão.


E Paulo vive nos versos que o tempo não destrói,

na lembrança que resiste, na saudade que corrói.

Poeta que foi esquecido enquanto estava entre nós,

mas cuja voz permanece, eternamente, em nossa voz.

Josivan bezerra

domingo, 31 de maio de 2026

 

A BELA E INTERESSANTE “DEUSA DO ASSÚ”

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Sabemos que em março de 1828, em um dia que se perdeu no tempo, encalhou em um banco de areia na embocadura do rio Assú, um grande barco a vela e casco de madeira.

Quem assistiu o episódio, provavelmente deve ter ficado impressionado com o desembarque de um grande número de pessoas de pele clara, altos, cabelos loiros e falando uma língua estranha. Era um grupo de 122 colonos alemães, entre eles muitas mulheres e crianças, que migraram para ocupar terras no Brasil. Já o grande barco era um brigue holandês chamado Actief, ou Actif, mas que ficou conhecido por aqui como Ativo.

Brigue dos Estados Unidos chamado Salmon P. Chase, de três mastros. Talvez o barco holandês que encalhou próximo a Macau tivesse essas características.

A nave havia partido do porto de Amsterdã no dia 29 de abril de 1828 e, mesmo sem saber os detalhes, a viagem deve ter sido no mínimo horrível, pois levou quatro longos meses para atravessar o Oceano Atlântico. O destino era o Rio de Janeiro, mas a razão da chegada desse barco na embocadura do Rio Assú teria sido, supostamente, por problemas de alimentação a bordo, e aí teve seu itinerário alterado. Só que houve o acidente e o capitão desembarcou os imigrantes na costa.

O barco ficou destruído, mas foi possível salvar parte do seu carregamento de madeira de pinho de riga e pertences dos passageiros. Já os loiros colonos alemães descobriram que naquela praia ensolarada não havia barcos disponíveis para transportá-los para o seu destino. Eles então decidiram seguir a pé pela beira do mar até a pequena Natal, que provavelmente mal tinha 10.000 habitantes nessa época.

Jornal recifense comentando sobre os colonos alemães que chegaram no navio Ativo.

Não sabemos como foi a progressão pelas nossas belas praias dessa estranha e singular procissão de estrangeiros, em meio ao quente sol da terra potiguar. E nem ficou registro do contato desse pessoal com os moradores da capital, mas eles certamente foram aconselhados a seguir para Recife do mesmo jeito que chegaram a Natal, pois ficou registrado que surgiram na capital pernambucana caminhando. Uma verdadeira epopeia que chegou a quase 500 quilômetros de caminhada e durou vários dias e noites!

Em Recife, após as deliberações das autoridades, os alemães foram encaminhados para a região da Zona da Mata Norte, onde foi criado um núcleo de colonização chamado Santa Emília, em homenagem a princesa Amélia de Leuchtenberg, uma mulher de origem franco-bávara, segunda esposa do Imperador Pedro I e Imperatriz Consorte do Brasil de 1829 a 1831[1].

Amélia de Leuchtenberg – Obra da coleção Brasiliana Iconográfica – Fonte – Wikipédia.

Enquanto isso, em Macau o que restou do Ativo ficou sem uma destinação prática por doze anos, quando um leilão foi finalmente realizado em 1840.

Essa informação é interessante porque naqueles tempos, quando não existiam os aparelhos de GPS, fotos de satélite e sistemas de radar, era muito comum barcos encalharem nas praias, ou baterem em rochas desconhecidas e muitas vezes restava algo da embarcação para ser leiloado. Podia ser parte da carga que transportavam, o casco de madeira, velas, mastros, escaleres e outras coisas. Esse dinheiro servia como compensação para o dono do barco, ou para cobrir as despesas da tripulação e outras contas que surgiam. Só que pesquisando nos antigos jornais descobri que esses leilões eram realizados de maneira até célere, coisa de poucos dias ou semanas, com a ideia de arrecadar logo o dinheiro. Mas no caso desse brigue holandês eu não descobri a razão de toda essa demora!

Quem arrematou os salvados foi o italiano Antunino Campiello Maresco, um comerciante que morava no povoado Logradouro, próximo a Macau. Consta que Maresco utilizou a madeira do navio nos assoalhos de três casas e um sótão em Macau e no Logradouro[2].

A estátua de madeira de Ônfale, que chegou ao Rio Grande do Norte há quase 200 anos – Fonte – Ruben Fonseca

Mas havia algo mais nos salvados do navio – uma grande e bela estátua de madeira representando uma linda mulher. A mulher de um grande personagem da mitologia greco-romana!

Uma Bela Mulher do Reino da Lídia

Naqueles tempos, estátuas de madeira eram colocadas na frente dos antigos veleiros e eram chamadas de figuras de proa. Geralmente esculpidas em madeira e pintadas com cores vivas, eram muito comuns entre os séculos XVI e XIX, representavam figuras mitológicas, personagens históricos, animais ou símbolos, com o objetivo de proteger a embarcação e intimidar inimigos. Acreditava-se que as figuras de proa traziam boa sorte, proteção contra maus espíritos e indicavam o nome ou função do navio.

Consta que a estátua da figura de proa do Ativo foi esculpida em pinho de riga, com 2,40 metros de altura, mas existe graça nos gestos fixados: o braço esquerdo curvado onde existe um interessante detalhe de uma capa esculpida com uma figura de um leão, a perna direita está um pouco levantada, suas unhas perfeitíssimas e delicadas e sua cabeça era móvel. Os marinheiros, homens extremamente supersticiosos, giravam a cabeça da estátua em direção ao próximo porto e assim a viagem finalizava de maneira tranquila[3].

Já quem a estátua representava e sua origem foi motivo de muita discussão na Potyguarânia. Por conta de alguns detalhes existentes, acharam que ela podia ser de origem romana, nórdica, ou até seria de “antes do Descobrimento do Brasil”. Mas na entrevista concedida ao Diário de Pernambuco, Luís da Câmara Cascudo afirmou categoricamente que aquela majestosa obra em madeira era “Ônfale, uma das esposas de Hércules, que depois de conquistar seu amor, o obrigou a tecer uma capa e lhe tomou o manto feito de pele de leão”. Manto este que era reproduzido na estátua do navio Ativo e o felino era o mítico Leão de Nemeia, morto por Hércules no primeiro dos seus famosos doze trabalhos.

Em seu mito mais conhecido, Ônfale é a rainha (ou princesa) do reino da Lídia, na Ásia Menor, a quem Hércules foi escravizado como punição por ordem dos oráculos. Segundo a tradição, o valente herói aceita a ordem divina apenas para, no fim, sucumbir aos encantos de sua amada. A coragem e a vontade inabaláveis ​​do herói não resistem ao poder do amor e da beleza. Ele então oferece a Ônfale um dos seus atributos essenciais: a pele de leão.

Hércules and Ônfale (detalhe), de François Lemoyne, 1724, Mudeu do Louvre, Paris – Fonte – https://www.historytoday.com/archive/foundations/hercules-and-omphale

Dependendo da interpretação, este tema exalta tanto o dever da obediência, quanto a onipotência do amor. Essa narrativa também ofereceu a escritores e artistas a oportunidade de explorar papéis sexuais, temas eróticos e a submissão do herói ao poder do amor. Mas os gregos antigos não reconheciam Ônfale como uma deusa. Ainda segundo Cascudo, a estátua do navio era a segunda conhecida com a capa de Hércules, estando a primeira em um museu na França.

Mudando de Mãos

Não sabemos se o italiano Campiello Maresco conhecia essa história sobre a sua estátua, mas o certo foi que ele a levou para casa, onde as décadas seguintes chamava muita atenção dos membros da comunidade e dos visitantes. Aquele interessante objeto começou a ser conhecido como “Rainha da Costa D’África”, mas não descobri a razão disso. Havia também na sua casa portinholas e outros objetos do navio holandês.

Fonte – Ruben Fonseca

Edilson Siqueira, descendente do italiano Maresco, contou ao escritor Getúlio Moura que ouviu do seu avô e de sua mãe que havia uma segunda estátua no navio holandês. Era menor que a figura de proa e que seu antepassado a enviou para um amigo na Itália e o povo de Macau e região dizia que dentro dela “tinha muito ouro”.

A figura de proa do Ativo ficou por 135 anos com a família Campiello Maresco, passando de geração em geração nas mãos dos seus descendentes. Existe a informação que essa bela Ônfale de madeira teria servido de apoio de corte de macambira a facão. A reportagem do Diário de Pernambuco informou que faltava um pedaço do nariz e dois dedos de cada mão. Segundo Ruben Fonseca, o atual proprietário da antiga figura de proa do Ativo, lhe chegou a informação a sua estátua era utilizada para apoiar o corte de cana-de-açúcar e sua base também estava danificada.

A estátua de Ônfale e Ruben Fonseca

Então veio o ano de 1964, quando em Macau a Dona Pautilha Maresco fez negócio com o fazendeiro de Parnamirim Ezequiel Fonseca Neto, na sua casa com piso de pinho de riga. O negócio foi fechado por um milhão de cruzeiros e nessa época Ezequiel havia comprado uma bela residência na Rua Capitão Abdon Nunes, no bairro do Tirol. Ezequiel é o pai de Ruben.

Segundo o jornalista Paulo Macedo, na sua tradicional coluna social do extinto Diário de Natal, edição de quarta-feira, 16 de fevereiro de 1963, desde a chegada da estátua de Ônfale a Natal, muita gente, “mais de mil pessoas” segundo ele, esteve na casa de Ezequiel observando a beleza e a grandiosidade da antiga “Deusa do Assú”.

Fonte – Ruben Fonseca

Segundo Getúlio Moura, a última vez que essa estátua deixou a residência dos descendentes de Ezequiel Fonseca foi em 1999, quando seu filho Rubem e sua esposa Suzana exibiram a escultura na “Casa Bonita Brasil – Mostra Natal”, que fez parte do calendário de comemorações dos 400 anos da cidade de Natal. Atualmente essa bela estátua está em um local abrigado, completamente protegida e continua a ser admirada por Ruben, Suzana e seus familiares.

Um último detalhe. Porque a estátua ficou conhecida no Rio Grande do Norte como “Deusa do Assú”, se toda a sua relação histórica é ligada à cidade de Macau? A resposta é simples – Macau era uma povoação Em 1828, que então pertencia a vasta área territorial do município de Assú e só foi criado oficialmente pela Lei Provincial nº 158, de 2 de outubro de 1847, desmembrando-se de Angicos, que por sua vez havia se desmembrado de Assú em 11 de abril de 1833.

REFERÊNCIAS —————————————————————————————————————————————

[1] KONRAD ADENAUER STIFTUNG. O bicentenário da imigração alemã no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: 2024. p. 19, 34. Várias fontes informam que o número de colonos a bordo do Ativo era de 140 pessoas, mas nesse texto eu decidi utilizar o número fornecido por autoridades alemãs no livro do bicentenário da imigração alemã.

[2] MOURA, Getúlio. Um Rio Grande e Macau: cronologia da história geral. Natal: [s.n.], 2003. p. 140-141.

[3] FRANSINETTI, Paula, Deusa do Vale do Assú não é pré-histórica: Pertencia ao Ativo, naufragado em 1828. Diário de Pernambuco, Recife (PE), 16 de dezembro de 1964, p. 2.

 REVISTA SIUZA CRUZ, RIO DE JANEIRO