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"UM LIVRO INESQUECÍVEL"

"A doce voz de uma mineira de Lavras ressuscitou nestas páginas o mundo ambiente que constituía a sua paisagem familiar. Um encanto da evocação é ainda de não ter alterado, na marcha da própria cultura adquerida, as linhas melódicas da cantiga infantil. É a saudade vencendo o tempo. Essa menina de Minas Gerais. Maria Eugênia Maceira, hoje senhora Nelson Borges Montenegro, reconstrói a meninice feliz e despreocupada, na movimentação incessante e normal do cenário de Lavras, Sant'Ana de Lavras do Funil, Princesa do Sul, Atenas Mineira. O pai é português, emigrado do norte de Portugal, engenheiro, agrimensor, desenhista, fotógrafo, hortelão, jardineiro, matemático, trabalhando na estrada de ferro e nas rodovias, doutor formado na Universidae da Vida, com intuições geniais de adaptação técnica. A mãe, brasileira, com sete filhos, educa, vitaliza e enriquece o espírito de sua floração inquieta, sadia, natural. Maria Eugênia Maceira Montenegro reconduz os passos para a rua d. Inácia...

UM POUCO DE MOYSÉS SESYOM

Moysés Lopes Sesyom nasceu no dia 28 de julho de 1883 no sítio Baixa Verde, Caicó-RN e viveu grande parte da sua vida na cidade de Assu há partir de 1905. Naquela terra assuense começou a produzir versos satíricos, chistosos, fesceninos, que lhe fez poeta consagrado. Ficou conhecido como "O Bocage Riograndense". Câmara Cascudo no seu livro intitulado "O Livro das Velhas Figuras, volume 4, depõe que Sesyom (conta-se que ele começou a versejar já adulto, aos 30 anos de idade)"sem saber, era poeta verdadeiro, espontâneo, inesgotável, imaginoso, original." Certa dia, bebendo num certo botequim da cidade de Assu alguém lhe dera o seguinte mote: "Bebo, fumo, jogo e danço / Sou perdido por mulher". Aquele bardo boêmio de vida atribulada, escreveu na hora a seguinte décima que se tornou célebre: Vida longa não alcanço Na orgia ou no prazer, Mas, enquanto eu não morrer - Bebo, fumo, jogo e danço! Brinco, farreio, não canso, Me censure quem quiser......

UM POETA MATUTO

O poeta popular Paulo Varela é natural do Assu (RN), meu amigo e conterrâneo, considerado um dos melhores poetas populares do Nordeste brasileiro. Paulo é portador de gagueira, um disturbio neurológico que afeta a fala, porém é fluente declamando um poema. Ele j á se apresentou no Programa do Jô, da TV Globo, bem como é convidado para apresentar palestras e conferências sobre a sua poesia genuinamente matuta. Poucos dias depois da sua apresentação aquela emissora de televisão apresentou em reprizea em razão de ter sido um sucesso total em todo o Brasil. Ele participa de feiras de artesanatos e da Festa do Boi, em Parnamirim/RN, onde arma um stander (uma casa de taipa, típica do sertão do Nordeste, que ele mesmo constrói), onde vende seus folhetos de cordel e apresenta a sua arte de versejar, nas casas de shoows de Natal. A sua produção literária (poesias e causos populares é extensa, com mais de duas mil composições. Ele, Paulo, também é artista plástico e "se diz um cabôco escr...

"VARZEA DO ASSU"

"Manuel Rodrigues de Melo não sub-titulou seu livro romance, conto ou crônicas. Deu- lhe, como indicação justa: Paisagens, tipos e costumes do Vale do Assu. Não é um volume de imaginação. É um depoimento. Sua densidade é soberba de verdade e de força fiel. Nenhum livro apareceu, até abril de 1940, com tal riqueza de informes varzeanos, com tal ciência de minúcia, com detalhes registrados de maneira clara, simples, honesta. Sente-se que, aberta a comporta da reminescência, cantaram impetuosos as águas represadas, livres em seu ímpeto veloz. É a confusão aparente, indico, para olhos limpos, de uma grande massa de notícias que se comprimia, impaciente, nos recantos da memória. Trabalho de varzeano, traduz idioma, modismo deliciosos, usados na paisagem espiritual onde o autor viveu. Todas as figuras qe povoam Várzea do Assu vivem ou viveram. As ruas sem nomes dos povoados, os becos, as praças humildes, os pátios das fazendas que a seca de 1915 despovoou, todas as cenas de enchente e e...

SONETOS DE JOÃO LINS CALDAS

AO CORAÇÃO QUE UM CORAÇÃO TRAIU Ah! Se eu pudesse, coração ferido, Vingar as mágoas por que tens passado! Sentir-te duro te sentindo amado Por que te fez de coração traído. Ah! Se eu pudesse para ver vencido O ser que te fez de coração chagado, Já que de tanto não te é chegado , Já que de tanto não te é podido; Ver-te querida; e apaixonado e, louco; Ter-te no peito pelo mesmo afeto Mas, nesse afeto , de coragem firme Ao ver quem foi aos teus carinhos mouco Mostrar vingança pelo mesmo afeto E a estrangular te estrangulando a rir-me. O BUGARI De quem passou nas tuas mãos um dia, Do bugari mimoso que me deste Se evola um mundo de sua ambrosia Que a minha musa de ilusões se veste. Ao verem-me com ele: - "Hoje se veste O perfume do amor..." tudo anuncia Julgando alentá-la esse olhar celeste E não o pranto que dele se escondia... Ah! Nele o bugari cheiroso e lindo, Brilha o sonho desse gozo infindo Que nos transporta ao céu da fantasia. E, co...

POUCAS E BOAS

1 - O Vale do Açu além das suas terras férteis, é uma região rica de figuras chistosas, espirituosas, irreverentes. Pois bem, Vicente Queiroz era fazendeiro no município de Pendencias, localizado naquela região. Certo dia, conversava no alpendre da casa da sua propriedade agrícola com seu amigo chamada Agostinho também fazendeiro naquele localidade, que lhe fez a seguinte pergunta: "Ou compadre Vicente por quanto tá custando uma arroba de algodão"? "Compadre, eu ouvi alguém falar que não sei onde, tão pagando não sei quanto!" E seu Agostinho inocente e distraído, deixou escapar essa: "Mas, compadre já tá desse preço!" 2 - Monsehor Júlio Alves Bezerra (essa estória também se atribui a padre Freitas que, parece, dirigiu nos anos cinquenta, a paróquia de Baixa Verde) foi pároco de Assu durante muito tempo. Dia de batizado dominical na igreja Matriz de São João Batista, perguntou o nome da criança: "Frederico, Padre!" Respondeu aquela mulher"...

CHICO TRAIRA

Francisco Agripino de Alcaniz é o nome de registro de Chico Traira, um dos maiores poetas cordelistas que o Nordeste já teve. Alguns acham que ele, Traira, é natural do Assu, onde viveu parte da sua juventude e os dias finais de sua vida. Porém nasceu no sítio Pau de Jucá, povoado de Sacramento, hoje município de Ipanguaçu (RN). O Nordeste, a exemplo do poeta matuto Renato Caldas e de tantos outros, Chico Traira conheceu de ponta a ponta "nas suas intermináveis andanças", apresentando as suas cantorias, acompanhado da sua inseparável viola que um dia, teve que vendê-la por necessidades financeiras. Pois bem, certo ocasião, viajando com destino a litorânea cidade de Macau (RN), para apresentar uma cantoria, em companhia do seu colega chamado Patativa que, em razão da trepidante estrada esburaca, ainda carroçável, disse assim como se quisesse provocar o poeta: "Chico. Eu acho que nossa viagem não vai ser muito sublime!" Traíra pegou na deixa: Se o amigo não está Ac...