Há fotografias que guardam mais do que a simples pose de seus personagens; guardam o silêncio que antecede as grandes rupturas históricas. É o caso deste impressionante registro feito em Natal, no dia 15 de novembro de 1935. À primeira vista, a imagem colorizada através de Inteligência Artificial, nos apresenta o brilho de uma festividade cívica impecável. Contudo, cruzar os detalhes dessa cena com as páginas dos jornais da época revela que aquele era, literalmente, o último sopro de normalidade de uma capital prestes a explodir. |
Apenas 17 dias de Governo e uma Sexta-feira de Festa |
O cenário é a Avenida Rio Branco. O relógio marca precisamente 8h30 da manhã de uma sexta-feira. No centro da imagem, desfila o imponente automóvel oficial preto, um Ford Model 40, ano 1934, conversível, equipado com o famoso e possante motor Flathead V-8, ostentando a placa “RN 8-0”. No banco de trás do conversível, encontra-se o Governador Rafael Fernandes Gurjão. |
Para entender a imponência do cortejo, é preciso recuar apenas 17 dias no calendário: Rafael Fernandes havia acabado de assumir o governo do Rio Grande do Norte após uma eleição acirrada na Assembleia Constituinte, em 29 de outubro. O desfile do feriado nacional do 46º aniversário da Proclamação da República era a oportunidade perfeita para consolidar sua imagem pública diante do povo natalense. |
Ao seu lado, no veículo, militares e civis o acompanham. À direita, destaca-se a farda branca de gala de um oficial das Forças Armadas — o comandante do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC), que, segundo os protocolos oficiais, faziam a revista das tropas naquela manhã. |
O Ineditismo da AFA: Equitação e Ciclismo na Avenida |
Graças às páginas preservadas do jornal A República, editado naquele exato 15 de novembro de 1935, conseguimos decifrar a identidade do cordão de isolamento que escolta o governador. Não se trata de uma unidade militar, mas sim das jovens da Associação Feminina de Athletismo (AFA). |
O jornal anunciava com entusiasmo: “Associação Feminina de Athletismo — Um espectáculo de grande attracção e ineditismo para a cidade — Homenagem ao Governador do Estado”. |
A reportagem detalhava que as atletas da AFA se apresentariam demonstrando os esportes praticados na agremiação, incluindo equitação e ciclismo. A fotografia imortaliza exatamente essa divisão: à esquerda, jovens rigorosamente alinhadas montam seus cavalos; à direita, dezenas de meninas seguram suas bicicletas, abrindo um corredor humano para a passagem do carro oficial. Todas vestem o uniforme padrão da associação — camisas azuis e saias brancas — e algumas utilizam boinas claras. Ao fundo, grandes bandeiras de agremiações esportivas e civis (como os tradicionais ABC e América) tremulam, conduzidas pelas próprias participantes. |
A multidão que se espreme no calçamento de pedras reflete a diversidade social da Natal de 1935: cidadãos abastados de terno, populares em trajes simples e soldados da Polícia Militar do RN em seus característicos uniformes caqui, todos emoldurados pela arquitetura da época e pelos então modernos postes de fiação elétrica da Avenida Rio Branco. |
Do Desfile Diurno às Luzes da Noite: O Misterioso Arco Japonês |
O programa festivo impresso no jornal revela que as homenagens a Rafael Fernandes se estenderiam até depois do pôr do sol, prevendo uma “grande e deslumbrante corrida nocturna de bicycletas”. É nas linhas dedicadas aos preparativos dessa segunda parte do evento que surge um dos detalhes mais intrigantes do dia: a crônica menciona que, na entrada da Avenida Deodoro, foi erguido um “artístico ARCO DE TRIUMPHO em estylo japonez”, cuja iluminação especial ficou a cargo do engenheiro elétrico José Reis. |
| Meninas da Associação Feminina de Athletismo (AFA) de Natal na década de 1930. |
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Como a nossa fotografia registra o início das celebrações da manhã na Avenida Rio Branco, esse arco exótico infelizmente ficou fora do enquadramento. No entanto, cruzando o roteiro do desfile — que seguiria pela Rua João Pessoa até a Avenida Deodoro —, é altamente provável que a estrutura estivesse sendo finalizada ou já montada mais adiante, aguardando o cair da noite. |
Essa escolha estética pelo “estilo japonês” para um arco de triunfo cívico, embora soe curiosa hoje, reflete o ecletismo cultural e as influências arquitetônicas internacionais que flertavam com a modernidade urbana de Natal na década de 1930. É muito provável que o arco funcionasse como o portal de chegada ou o ponto central de iluminação onde o governador e as famílias da elite potiguar assistiriam às competições noturnas a partir de um coreto. |
A Calmaria Antes da Tempestade |
O que torna essa fotografia verdadeiramente magnética é o contexto invisível aos olhos dos personagens que sorriam para a câmera. Aquela manhã ensolarada de esporte, civismo e celebração feminina aconteceu apenas oito dias antes da eclosão da Insurreição Comunista de 1935 (também conhecida como Intentona Comunista). |
| Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com |
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Na noite de 23 de novembro, os mesmos setores do 21º Batalhão de Caçadores — cujo comandante dividia as atenções com Rafael Fernandes no desfile — se rebelariam, mergulhando a cidade em um dos episódios mais dramáticos e sangrentos de sua história política. Naquela sexta-feira, 15 de novembro, a revolta já estava sendo gestada nos quartéis, mas as ruas da capital potiguar ainda respiravam uma aparente e pacífica normalidade. O próprio governador seria pego de surpresa dias depois, enquanto participava de uma solenidade no Teatro Carlos Gomes. |
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