terça-feira, 3 de dezembro de 2013

CONTO

SANTA TEREZA
 
- Apressa menina, senão vamos chegar atrasados! – Gritou Dona Francisca para sua filha Tereza.
A garota estava ansiosa e nervosa. Este dia era esperado há muito tempo. De família extremamente religiosa ela tinha um sonho: se confessar com Frei Damião – o santo milagreiro do povo nordestino
A década de sessenta tinha sido difícil para os nordestinos: estradas precárias, falta de energia em quase todos os lugares, meios de transportes escassos, falta d’água nos sertões secos... Este quadro foi diversas vezes bem retratado nas poesias de Renato Caldas, Sinhazinha Wanderley, Francisco Amorim, Chico Traíra e tantas outras feras da literatura poética que habitaram a região do Vale do Açu.
A pequena comunidade de Juazeiro, onde residia à família de Dona Francisca ficou praticamente desabitada. Até o velho Lourenço que estava acometido de um forte reumatismo viajou para a cidade do Assú numa carroça para participar da missão de Frei Damião e Frei Fernando, dois frades pertencentes à Ordem dos Capuchinhos que percorriam as cidades da região Nordeste, como andarilhos das estradas afora, a levarem para as pessoas a mensagem do evangelho com muito radicalismo e muita fidelidade aos ensinamentos bíblicos
Quando a família de Tereza chegou defronte a Matriz de São João Batista a luz solar já começava a desaparecer no horizonte. A multidão se comprimia para tocar em Frei Damião na sua “procissão de penitência” da casa paroquial à Igreja passando lentamente entre os fiéis.
Era a última missa do dia. Dela participaria certamente o maior número de católicos. Em decorrência do atraso toda família de Tereza teve de ficar em pé. A celebração começou pontualmente às dezoito horas.
- “No inferno o calor é bilhões de vezes pior que no Nordeste. As labaredas sobem e queimam sem parar o corpo dos adúlteros, das prostitutas, dos afeminados e dos criminosos...” - Disse o Frei na abertura de sua homilia com a voz rouca, quase inaudível
Depois da pregação foi formada uma fila quilométrica para confissões. Sentado num tamborete de madeira o frade capuchinho escutava cada devoto com muita atenção, olho no olho, o cotovelo no joelho e a mão no queixo apoiando a cabeça. Desta posição quase não se mexia, vez por outra parava por alguns segundos para tomar um golinho de café bem forte. Afinal precisava de resistência para adentrar até altas horas da noite.
Tereza estava na fila acompanhada pelos seus pais. Estava nervosa...  Era a primeira vez que iria se encontrar com Frei Damião. Não bastasse, estava ali com o privilégio de se confessar com ele. Tinha plena certeza de que aquele momento marcaria sua vida, realizaria um sonho, fortaleceria sua fé no catolicismo e a devoção pelo “Santo Milagreiro do Sertão”
A fila andava lentamente. Quando Tereza conseguiu chegar à porta principal da Matriz fez o sinal da cruz, dobrou-se num gesto de respeito e adoração ao Santíssimo. Verificou seu vestido branco de cambraia bordada para ter a certeza de que ele estava bem composto... Ajeitou a mantilha na cabeça, segurou com as duas mãos o terço e começou a rezar incessantemente. Suas feições eram como se estivesse caminhando rumo ao céu. Vez por outra era interrompida pelos cochichos da mãe que estava por atrás.
- Cuidado com o que vai dizer minha filha. Não quero que Frei Damião lhe passe nenhum castigo. Ele é um santo...
- Pode deixar mamãe, eu vou tomar muito cuidado
O pai de Tereza vendo que a mãe estava exagerando tentou aliviar a pressão.
- Francisca deixe a menina em paz! Vai dar tudo certo. Afinal Tereza já tem 14 anos. Está bem grandinha sabe se pecou ou não.
Mesmo a contragosto a mãe se comportou melhor. Já passava das oito da noite quando chegou o momento crucial. Tereza chegou perante o capuchinho curvou-se, fez o sinal da cruz e ajoelhou-se. Ela tinha a certeza de que estava ali diante de um homem diferente... De alma pura.  Frei Damião a encarou e ela na sua ingênua timidez baixou a vista.
- Conte seus pecados minha filha... – Falou pausadamente o Frei.
Tereza ficou calada. Olhou para ele como que pedindo socorro. O nervosismo era tanto que as palavras não chegavam nem a serem balbuciadas.  
- Está nervosa, menina? Calma! Vou lhe ajudar. Tudo que eu perguntar você vai dizendo se fez ou não. Já desejou mal ao próximo?
- Não senhor. Deus me livre!
- Já desrespeitou pai e mãe?
- Ave Maria... Deus me defenda! 
- Já levantou falso testemunho?
- Nunca! Deus me guarde!
- Já sentiu inveja de alguém?
- Jamais! Deus me castigue se isso acontecer.
Frei Damião olhando cara a cara para a adolescente mais uma vez perguntou:
- Qual seu nome minha filha?
- Maria Tereza da Silva – Respondeu Tereza com voz trêmula, instante em que Frei Damião lhe anunciou a penalidade:
- Faça o seguinte minha filha: se levante, procure um altar aqui na Igreja e fique lá... Santa Tereza!                                                                                                                  
Livro: Dez Contos & Cem Causos 
Autor: Ivan Pinheiro
Lúcia Caldas é artista plástica carioca. Tem raízes familiares na terra potiguar - os Lins Caldas. Vale a pena conferir mais um pouco do seu trabalho:http://mluciacaldas.blogspot.com.br/


Múltiplas faces de Newton Navarro

Publicação: 03 de Dezembro de 2013 às 00:00
Yuno Silva
repórter

Newton Navarro era “o” cara! Mais conhecido do grande público por seus desenhos de traços geométricos, povoados por mar, cidade e sertão, Navarro era bem mais que um artista visual. Professor, poeta, escritor, imortal da Academia Norte-Riograndense de Letras,  ator, dramaturgo, agitador cultural, social e político, torcedor do América, amante e locutor de futebol, amigo dos amigos e dos inimigos; sóbrio era um, ébrio era outro. Um gênio-boêmio incompreendido por alguns e admirado por muitos, que adorava prosa e não perdia uma boa farra quando estava bem de saúde e tinha algum dinheiro no bolso. Sua figura multifacetada será lembrada durante sarau nesta terça-feira, às 18h30, na ANL.
DivulgaçãoSarau na Academia terá leitura de poemas, contos e crônicas, exposição e o relançamento do primeiro livro do artista, que estava esgotado, uma coletânea de crônicas e poemas publicados em jornais, e uma compilação de entrevistas organizada por Ângela Almeida, Gustavo Sobral e Helton Rubiano
Sarau na Academia terá leitura de poemas, contos e crônicas, exposição e o relançamento do primeiro livro do artista, que estava esgotado, uma coletânea de crônicas e poemas publicados em jornais, e uma compilação de entrevistas organizada por Ângela Almeida, Gustavo Sobral e Helton Rubiano

Na ocasião, fragmentos da obra literária do artista serão lidos, entre poemas, contos e crônicas, durante homenagem intitulada “Leitura Poética de Newton Navarro”. O acesso é gratuito, aberto ao público e se configura uma ótima oportunidade para pessoas interessadas em conhecer mais sobre a personalidade inquieta e instigante de Navarro (1928-1992).

Além do momento de encontro e reencontro, e sarau também ilustra a divulgação de três livros editados no mês de outubro pela Editora da UFRN: “O solitário Vento do Verão”, terceira edição do primeiro livro lançado em 1961 por Newton Navarro; “Sete poemas quase inéditos e outras crônicas”, compilação de textos  esparsos publicados em jornais natalenses organizada por Paulo de tarso Correia de Melo e Gustavo Sobral; e “Saudade de Newton Navarro”, que reúne entrevistas de contemporâneos e pessoas que de alguma forma tiveram ligação com o artista. Os títulos foram apresentados dentro da programação da Cientec, de forma diluída, por isso o relançamento.

As obras estarão à venda durante o sarau na Academia Norte-Riograndense de Letras, mas já se encontram disponíveis para compra na livraria Cooperativa Cultural Universitária, no Centro de Convivência da UFRN.

“Há um ano eu e Gustavo (Sobral) tínhamos um projeto de publicar algo de forma independente, fora da UFRN, e durante nossas pesquisas chegamos ao nome de Newton Navarro e o livro ‘O solitário Vento do Verão’. Pegamos a primeira edição, digitamos ele todo o livro, e começamos a trabalhar no livro a partir de uma leitura comparativa”, disse Helton Rubiano, coordenador da coleção e atual editor da EDUFRN.

Desdobramentos

Helton Rubiano e Gustavo Sobral fizeram leituras comparativas com a segunda edição, de 1972, para efetuar ajustes na ortografia e trechos embaralhados. “Percebemos trechos truncados e fomos ver na segunda edição como tinham resolvido. Resolvemos coisas pontuais e respeitamos ao máximo o texto original. Durante esse processo foram surgindo outras propostas e desdobramentos para o projeto”, explicou Rubiano.

Nesse segundo momento entra em cena Ângela Almeida, fotógrafa, jornalista e estudiosa da obra plástica de Navarro, sugerindo o livro de entrevistas. “Depois apareceu Paulo de Tarso com os recortes de jornais, material que originou a coletânea. Resolvemos reunir todo esse material em um único projeto e, como Newton Navarro seria o mote da Editora da UFRN durante a Cientec, decidimos por editar com respaldo e financiamento da EDUFRN”, contou Helton Rubiano.

O editor adiantou que Ângela Almeida trabalha em um catálogo para 2014 sobre as obras de Navarro espelhadas pela cidade. “Acredito que esses livros irão contribuir para revelar outros ‘navarros’ ao público. As pessoas hoje conhecem mais a obra plástica, lembram o nome dele quando falam na ponte (Forte-Redinha), e queremos que elas saibam da grandeza que envolve seu nome e seu envolvimento com outras linguagens da arte”.

Personalidade boêmia

O livro de entrevistas “Saudade de Newton Navarro traz um conteúdo saboroso, que revela as muitas facetas do artista através de depoimentos de nomes como Dorian Gray Caldas, Marcelo Fernandes, Ticiano Duarte, (o primo) Jurandyr Navarro, Taciano Arruda e Lenine Pinto, personalidades que conviveram, trabalharam e aprontaram (no bom sentido) ao lado de Navarro. Outras figuras, um pouco (ou bem) mais jovens mas não menos identificadas com o contexto ‘navarreano’ como Wodem Madruga, Tarcísio Gurgel, Iaperi Araújo, Paulo de Tarso Correia de Melo e Vicente Vitoriano, Marlene Gouveia Galvão, Maria Emília Wanderley e Antônio Marques.

Os textos são frutos de entrevistas transcritas e editadas, realizadas por Gustavo Sobral e Ângela Almeida (que fotografou todos os entrevistados), onde o sujeito entrevistador foi apagado e marcas da oralidade foram suprimidas para conferir maior fluidez à leitura. Um deleite aos interessados, admiradores e curiosos sobre a vida e a obra deste ilustre potiguar – imortalizado por traços e palavras. 

Serviço
Sarau “Leitura Poética de
Newton Navarro”, hoje, às 18h30, na Academia Norte-Riograndense de Letras. Rua Mipibu, 443 – Petrópolis. Acesso gratuito.
Lançamento de livros.

Fonte: Tribuna do Norte
Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas." 

Pablo Neruda

De: Pablo Neruda Poemas da Alma


Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas."

PABLO NERUDA

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

SOBRE MACHADINHO


Da direita: Francisco de Souza Júnior (Juninho), João Batista Machado, Fernando Caldas

João Batista Machado (foto abaixo) é jornalista político, já foi correspondente do importante jornal O Globo, cinco vezes Secretário de Comunicação do Governo do Estado/RN. Há 13 anos é Assessor de Imprensa do Tribunal de Contas do estado potiguar. Estreou nas letras publicando o livro sob o título "De 35 ao AI-5." É autor de oito livros que lhe rendeu ser eleito para Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, posse ocorrida dia 24 de novembro do corrente ano. Fui lá, naquela academia, prestigiá-lo, pois Machadinho como é chamado intimamente, além de meu conterrâneo (Assu/RN), me orgulho de tê-lo como amigo. A sua obra é um resgate a memória política desde os tempos da República.

Fernando Caldas

Natal na Casa dos Milagres

A palavra presépio significa “lugar onde se recolhe o gado; curral, estábulo”. Porém, também é a designação dada à representação artística do nascimento do Menino Jesus. 


Artistas populares produzem lindas peças representando o nascimento de Jesus 
A Casa dos Milagres – Museu do Ex-Voto, situado no Centro de Turismo, expõe no espaço dedicado aos Artistas Populares as peças da coleção de Presépios Natalinos pertencentes aos professores Antônio Marques e Francisco Francinildo. São trabalhos produzidos por artistas do RN. Entre os nomes mais importantes, podemos destacar um mini-presépio atribuído a Manuel Francisco Xavier, pai de Xico Santeiro; um conjunto sacro esculpido pelo próprio Xico, cujo nome legítimo era Joaquim Manuel de Oliveira; vários presépios das irmãs escultoras de Currais Novos, Ana e Luzia Dantas.
O presépio de maior dimensão traz a assinatura de Francisco Felix de Lima, que era mais conhecido como Chico Santeiro de Currais Novos. Os que têm maior número de personagens trazem a assinatura de Ambrósio Córdula (Acari), Ivan do Maxixe (Campo Redondo), e João Gregório (Tangará). Igualmente primorosos são os presépios de Gean de Santa Cruz, Daniel Alves (Campo Redondo) e os de Salete Diniz, sobrinha de Teodora de Acari.
A delicadeza e a criatividade dos artistas populares na exposição dos presépios
Mais importante do que exaltar a qualidade estética das obras expostas, é preciso dizer que, nesta era em que se habituou a divulgar imagens comerciais de Papai Noel e Árvore de Natal, a representação do Presépio é o símbolo natalino mais importante, diretamente inspirado nos escritos do Evangelho. Os artistas populares, através da habilidade de suas mãos, souberam preservá-lo, com o mesmo espírito que inspirou São Francisco de Assis.
A natividade de Jesus é citada nos Evangelhos de Mateus e Lucas. Segundo Lucas, o casal José e Maria se dirigia para Belém a fim de serem recenseados, mas, não encontrando lugar em hospedaria alguma, tiveram que pernoitar em um estábulo, onde nasceu o Menino Jesus. Os escritos considerados “apócrifos” acrescentam a esse fato muitos outros detalhes pitorescos, entre eles o nascimento do Menino Jesus em uma gruta, ao lado de burrinhos, carneiros, bois e outros animais. Foi essa representação de imaginação mais fértil que se consolidou na tradição católica.
Importa, no entanto, registrar que desde os primórdios do cristianismo, os católicos se reuniam para ler determinadas “passagens” bíblicas. No Natal, os textos escolhidos eram aqueles que celebravam a natividade de Jesus. Da simples leitura do Evangelho, passou-se para as representações sacras, com personagens humanos e, às vezes, também com animais. De acordo com relatos históricos, o primeiro presépio foi montado por São Francisco de Assis, no Natal de 1223. O religioso projetou o presépio em argila, na região do Lácio, na Itália. Sua ideia era explicar às pessoas mais simples, não apenas o significado, mas também a forma como aconteceu, historicamente, o nascimento de Jesus. No século XVI a tradição de montar o presépio dentro de casas das famílias católicas, no período natalino, se propagou por toda Europa e, logo em seguida, em outras regiões do mundo. No Brasil, a tradição chegou com a colonização portuguesa, trazida especialmente pelos missionários franciscanos e jesuítas.


Serviço: 
Presépio Natalinos Populares – Casa dos Milagres – Museu do Ex-Voto – Antiga Capela do Centro de Turismo de Natal. R. Aderbal de Figueiredo, 980, Petrópolis. A exposição fica aberta de segunda a sábado das 14h às 18h, exceto quinta quando está aberta das 8h às 12h. Todos os presépios expostos se encontram a venda. Tel.: (84) 3211-6149.


Postado por 
Para conquistarmos algo na vida
não basta ter talento,
não basta ter força,
é preciso também viver um grande amor.

Mozart 

De: Paixão. Amor & Romantismo


"Vamos dividir nossos desejos… eu vou te dar o que te falta e tu me darás o que te sobras e juntos, completos, como a capa e a espada, o sabor do doce e o gosto do mel." (D.A)

domingo, 1 de dezembro de 2013

UM POETA BOÊMIO DO ASSU

Manoel Pitomba de Macedo (n. Assu, 25 de maio de 1924 - m. Assu, 11 de outubro de 1957), conhecido popularmente como Manoel de Bobagem (Bobagem, apelido de sua mãe)  Para Rômulo Wanderley por quem o poeta está antologiado no livro Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense, 1965, Manoel "foi um dos mais conhecidos e famosos poetas populares do Assu.".

Entre a terra assuense e Natal, Manoel viveu a sua vida de poeta boêmio e mulherengo. Ele era pedinte. Conta-se que ele andava pelas ruas da cidade com uma bolça enorme confeccionada de palha de carnaúba ou carnaubeira (árvore nativa então abundante na região do Assu). Pois bem, quando ele era indagado pelo uso daquela bolça, respondia: "Pra encher de perdoe!".

Ainda o antologista Walter Wanderley depõe que Bobagem "levou vida despreocupada e nômade, dominado pelo álcool e pelas mulheres que constituíam os seus temas prediletos."

A mãe de Bobagem sempre reclamava quando ele chegava em casa embriagado: "Tenha vergonha, Manoel! Todo dia você chega em casa bêbado, tombando em tempo de cair na rua! Homem, tenha brio!" E Manoel saiu-se com essa:

Mamãe!

Nem todo homem tem brio
Nem toda moça se casa,
Nem todo fogo tem brasa
Nem toda lã tem pavio.
Nem todo inverno faz frio,
Nem todo filho tem pai,
Nem tudo que entra sai,
Nem toda fera é valente,
Nem todo lorde é descente,
Nem tudo que tomba cai.

Bebedor de cachaça inveterado, jogador de cartas (baralho), escreveu:

O seu moral descompassa
possuindo esses dois vícios
De um cachorro não passa.
Logo, de Deus, perde a graça,
Satanás fica contente
E o nome desse ente
Toma nota em seu caderno;
Vai direitinho pro inferno
Quem joga e bebe aguardente.

Bobagem faleceu aos 33 anos de idade. Sentindo a morte chegar, escreveu a glosa que por sinal é uma das suas mais conhecidas. Vamos conferir:

De mim se aproxima a morte
Preciso fazer viagem
Com saudade de Bobagem
Vou fazer o meu transporte.
Vou procurar boa sorte
No Reino Celestial,
Jesus por ser divinal
Se compadeça de mim,
Que breve será meu fim
Da vida material.

Fiquemos com uma sextilha de Bobagem que, numa feliz inspiração, escreveu:

Dos filhos de minha mãe
Fui eu o mais infeliz
Fui casar voltei solteiro
A moça não me quis
Me acharam muito feio
Mas não fui eu que me fiz!

Fernando Caldas




Quero te. Vem. As carnes palpitantes
A forma nua onde a beleza mora...
És tu. Quero-te assim. Meu corpo implora
A graça que te desce dos contornos...
Trêmulas as mãos e os lábios mornos.

Caldas, poeta do Assu

Jogue pétalas de rosas em meu túmulo

eu irei morrer apaixonado outra vez,

é um tipo de febre,
uma dor profunda esta distancia do paraíso,

jogue pétalas de rosas sobre o meu corpo,
ele precisa sentir uma ultima vez esta luz,

seus desejos e desapegos ficaram para trás,
tão frágil e absurdo como as nuvens do céu,

ele é leve feito de poeira que viaja lentamente no ar,
como as água do riacho indo em sua direção,
em uma imensidão desconhecida e arrojada nas palavras,

olhe nos meus pés,
foi uma longa caminhada até aqui,
e minhas mãos calejadas podem dizer sobre isto
sobre todas as suas obras nos tabuleiros, sem tudo para ser feliz,


banhe seus olhos na despedida
que um dia jaz sobre mim,


jogue pétalas de rosas sobre os campos,
eu estarei lá, por que o amor é para sempre,
como a o azul do céu e sua imensidão desconhecida,
como o mar a te banhar no vai e vem das ondas,


sinta minha pele, olhe nos meus olhos,
um dia eu também senti que você estava aqui, junto, perto de mim.

Rita de Cassia Querreira



UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO