terça-feira, 7 de julho de 2020

SONETO

Pobre, morri sem me ver... Disseram
Os que da parte dela me chamavam...
E havia lágrimas no falar... Vieram
Porque seus tristes olhos me buscavam.

Noite... Segui... Os homens soluçavam.
E, nos meus olhos  só tristeza leram,
Os que  subiram e, a tremer desceram
Na noite escura em que me acompanhavam.

Cheguei tremendo...e, quando aberta a  porta,
Era tarde demais: - estava morta,
- Pertencia-lhe a glória do renome...

Vi-a e notei: nas lágrimas do rosto
Soluçava meu nome com desgostos,
Repartindo nas sílabas do nome.

João Lins Caldas

Mostre suas feridas somente a quem pode curá-las. Saiba pedir; saiba a quem pedir.
(Câmara Cascudo)
MEU TORRÃO DE ANTIGAMENTE
A panela era de barro;
O fogão era a lenha;
O café era torrado em casa, batido no pilão;
O sabão era em pedra, de oiticica;
O banho era de cuia e de balde;
O vaso de sanitário era de cimento e latrina;
A lâmpada era o candeeiro, a piraca e a lamparina;
A geladeira era o pote e a moringa;
O bebedouro era a 'quartinha';
A piscina era o açude;
O carro de lixo era a carroça;
O sapato era a sandália de couro;
A televisão era o rádio de marca ABC;
A fechadura era a tramela;
O supermercado era a bodega;
O baile era o assustado;
O mosquiteiro era o esterco de boi;
O refrigerante era o ponche de limão;
O carro era a carroça e o jumento.
E por aí, vai...
Calaça é poeta e cordelista matuto.

Marcos Calaça, Poeta potiguar

A imagem pode conter: Marcos Calaça

sábado, 4 de julho de 2020



Procuro-te
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
Eugénio de Andrade
Ninguém atira pedras em árvore que não dá fruto.
Nem inimigo estaria atacando, se não tivesse algo de muito bom dentro de ti.
Porque ladrões não se dão ao trabalho de tentar roubar casas vazias.
Fica esperta, fica crente. 

Cristina Costa

sexta-feira, 3 de julho de 2020



Do http://rabiscosdosamueljunior.blogspot.com/
Quero asas de borboleta pra que eu encontre: O caminho do vento... As flores dos sonhos... A janela do meu ser... O caminho de mim... Keylacandido
Do livro: À SOMBRA DOS JUAZEIROS (páginas 51 e 52): ISSO É CAGADO E CUSPIDO PAISAGEM DE INTERIOR Brinquedo de roladeira Garoto tá com ramela Fechadura de tramela Menino de baladeira Tem pontaria certeira Respeito o agricultor E também o professor Cachete é um comprimido Isso é cagado e cuspido Paisagem de interior. Cachaça boa e caju Curral de vaca de osso No rio, banho de poço Esgoto tem cururu No mato peba e tatu Tem a carroça e trator Açude sem pescador O jumento é atrevido Isso é cagado e cuspido Paisagem de interior. A velha rede no canto Cuscuz com porco torrado O boi puxando um arado Oratório tá com santo Fogo fátuo e espanto Sertanejo é produtor Coitado do eleitor O ferro à brasa aquecido Isso é cagado e cuspido Paisagem de interior. A gaiola e alçapão Lua linda prateada A poeira na estrada A porteira com mourão Tem poeira no estradão Vira-lata caçador Tem touro reprodutor Ele está gordo e nutrido Isso é cagado e cuspido Paisagem de interior. Tem um velho desdentado Pimenta ao leite curtida Cachorro lambe ferida Chapéu de palha furado Um retrato amarelado O cavalo tem valor Queijo novo com sabor Guri prova de metido Isso é cagado e cuspido Paisagem de interior. Mote: Poeta Jessier Quirino. Estrofes: Cordelista Marcos Calaça.

PROIBIDO PARA MENORES DE 50 ANOS

Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com
Eu me lembro, eu me lembro das antiguidades como forma de renascer o espírito adormecido em todos nós. Não adianta enfrentar somente e sozinho o mundo novo das descobertas tecnológicas. É preciso, sempre que possível, retroceder ao tempo do Melhoral, da Emulsão de Scott, do Sal de Frutas Eno e do Calcigenol Irradiado. Ah, o perfume do Sabonete Ross no corpo úmido da namorada antiga. Aquele sorriso emoldurado pelo Batom Colgate e o brilho nos dentes da Pasta Odol. Como eram mágicos aqueles dias do Óleo Glostora, da Pasta Colype e da Brilhantina Coty. Não precisava de Saridon nem Instantina para dor de cabeça. Vivia-se forte com o Biotônico Fontoura e as Pílulas de Vida do Dr. Ross.
Eu me lembro, eu me lembro que tudo aquilo era um estágio esplêndido de ilusória felicidade. Como era gostoso o Vinho Reconstituinte Silva Araújo. E o jingle: “A dor logo passa quando se passa Gelol”. Na cozinha, a Cônsul a querosene, e na sala, o rádio a bateria faziam “reclame” do Sabonete Eucalol patrocinador do programa “Balança Mas Não Cai”, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, e do programa de auditório do César de Alencar. Ah, os anos cinquenta das novelas “O Direito de Nascer” e “O Vento Levou...” e a propaganda da Cera Parquetina, a “amiga da Etelvina”. Que alegre retorno aos faroestes de Gene Authry, Roy Rogers, John McBrow, Durango Kid, Buck Jones, Hopalong Cassidy, Tom Mix ou os seriados do Capitão América, Batman e Robin, A Mulher Tigre ou a Deusa de Joba.
Em busca do tempo perdido me envolvo na fumaça da Souza Cruz, dos Cigarros Continental, Astória, Lincoln e os mais baratos Asa, Iolanda, além do charuto Valquíria. Um mundo velho de memória olfativa, vai, cada vez mais, me conduzindo às ternas lembranças do Almanaque Capivarol ou o da Saúde da Mulher que recomendava o Regulador Xavier: número 1, excesso e número 2, escassez, para aqueles dias do sexo frágil. Relembro as aguardentes Dois Tombos e Olho D’água e os não menos famosos Ron Merino e os conhaques São João da Barra e Macieira, que eu misturava no leite cru, ao pé da vaca, para curar tosse, bronquite e resfriado. E o Talco Palmolive, o Talco Gessy, o Sabonete “Vale Quanto Pesa” que era “grande, bom e barato” e não são mais fabricados como antigamente. Sapato era Fox, bico fino.
A farmacologia era abundante e que hoje não se vê mais nas prateleiras: Iodone Robin, Maitenil, Gotas de Carvalho (ainda existe?), Takazima, Bromil, Alcachofra, Chophitol (ainda se vende), Mezarin e tantos outros que só uma pesquisa pode me acudir.
O fato é que esse universo de produtos, imagens, e equipamentos desaparecidos registram uma época, balizam um tempo que foi modificado por novas invenções e tecnologias. São marcas que se foram, substituídas pelas descobertas e mudanças de um mundo que se renova. Vale a pena registrar porque todas essas coisas impregnaram a vida de muitos, hoje maiores de cinquenta anos.
(*) Escritor.
A imagem pode conter: 1 pessoa, bebida

UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO