quarta-feira, 29 de novembro de 2023

O fundo da corrupção é a perfídia. O corrupto é um animal rebelde ao bem.

Vargas Vila

TEU SEMBLANTE APAIXONANTE

Chamou minha atenção
Arranhou meu olhar
Prendeu meu coração
Aparência suave
Semelhança inapreensivel
Simbolizando o primor
Da flor que cultivo
Suplicando o amor

J. A. Simonetti @ja_simonetti

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

 PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS


DOIS TALENTOSOS POETAS (II)

Publicado em 17 de novembro de 2023



Marcílio Pá Seca Siqueira e Jesus de Ritinha de Miúdo, colunista do JBF


* * *


O poeta Marcílio Pá Seca, pernambucano de Tabira, escreveu a seguinte sextilha:


Chorando me debrucei

Na tela da imensidade

Não foi de dor que chorei

Com tamanha intensidade

Foram lágrimas salgadas

Com soluços de saudade


Jesus de Ritinha de Miúdo, acariense do Seridó Potiguar, em cima da bucha respondeu-lhe:


Tais soluços na verdade

Quebrantaram o peito meu

Senti no rosto um riacho

Que do meu olhar desceu

Aguando os meus desejos

De me afogar nos seus beijos

E morrer num abraço seu.


* * *


Mote:


Sou poeta, sou mais um nordestino

Que defende demais nossa cultura.


Sou vaqueiro, gibão, sou vaquejada

Sou viola, Poeta e cantoria

Sou bancada, caneta e poesia

Sou beiju, tapioca e farinhada

Eu sou junta de boi,sou terra arada

Sou engenho de cana e rapadura

Sertanejo pintado na moldura

Meu chapéu e de couro de caprino

Sou poeta, sou mais um nordestino

Que defende demais nossa cultura.


Marcílio Pá Seca Siqueira


Sou caatinga na seca acinzentada

Sou o vento soprando a poeira

Sou tramela, mourão, eu sou porteira

Sou babugem no chão, pós invernada.

Sou mugido, balido e sou risada

Do Sertão quando vê que tem fartura

Sou vaqueiro aboiando com candura

No ofício real de tangerino

Sou poeta, sou mais um nordestino

Que defende demais nossa cultura.


Jesus de Ritinha de Miúdo


* * *


Um soneto de Marcilio Pá Seca Siqueira:


EU… PALHAÇO


Quando quero chorar choro sozinho

Pra fugir do olhar que me censura

Minha lágrima sensível no caminho

Com a tinta da face se mistura


Meu sorriso se perde em desalinho

Nos momentos medonhos de amargura

Meus segredos são pontas de espinho

Que exploram meu ego, fere e fura


Sou artista do palco do universo

Sou Poeta, componho, faço verso

Estou preso ao meu eu por forte laço


Sou ator desse bloco da ilusão

Sou as grades cruéis da solidão

Eu sou eu, sou você, eu sou palhaço.


Um soneto de Jesus de Ritinha de Miúdo:


SONETO DE OLHOS E DE LÁBIOS


O marrom dos teus olhos me encantaram

Prenderam-me a ti, me deixando louco

Mas esses teus olhos, não achando pouco

Olhando nos meus, logo se abalaram.


Então os meus lábios não se aguentaram

Sorriram para ti, sem nenhum apouco

E os teus lábios, lindos, assim tampouco,

De sorrir pros meus, também, não se negaram.


Senti teus lábios só chamando os meus

Percebi teu olhar me dando avisos

Recebidos por mim, um escravo fiel


Adentrando contigo no mais lindo céu,

Instante que meus lábios deitaram nos teus

E o meu sorrir beijou os teus sorrisos.


* * *


Marcílio Pá Seca Siqueira fez uma décima glosando mote da poetisa Paloma Brito, de Livramento da Paraíba:


Sou a alma matuta da campina

O aboio sonoro do vaqueiro

Sou a flor da caatinga, sou o cheiro

Da cacimba de água cristalina

Sou o som da seresta matutina

Da orquestra de vozes do sertão

Sou as vozes da seca e o trovão

Sou a própria quentura da poeira

Sou matuto no pé d’uma porteira

Sou poeira que veste esse meu chão.


Jesus de Ritinha de Miúdo lhe respondeu:


Sou gemido do eixo da carroça

Transportando comida para o gado

Sou a força do boi puxando o arado

Sou zoada da chuva quando engrossa.

Sou a lama depois que a água empossa

Sou a sombra da tarde, num oitão,

Sou a áurea divina do gibão

Eu sou pau de miolo da aroeira

Sou matuto no pé d’uma porteira

Sou poeira que veste esse meu chão.


* * * 


Duas glosas de Marcílio Pá Seca Siqueira:


Perco o sono, já Alta madrugada

Boto o rosto no quadro da janela

Para ver se encontro as feições dela

Mas no rasgo da noite não tem nada

Só se eu encontrasse uma fada

Pra fazer uma mágica com vareta

E mostrar com seu truque a silueta

Ou a face do amor que já foi meu

Tô chorando por ela igual Romeu

Que chorava querendo Julieta


* *


Um poeta não serve de semente

Nem é grão de semente que renova

Nem a lágrima surgiu pra regar cova

Quando cai na poeira do chão quente

Mas se morre um Poeta do repente

Desce inerte a matéria para o chão

E nas tábuas molhadas do caixão

Vão as lágrimas regando o trovador

Quando morre um poeta cantador

Nasce um pé de saudade no sertão


Duas glosas de Jesus de Ritinha de Miúdo:


Minha sombra não vem da obstrução

De uma luz que esteja à minha frente

Não rasteja na terra me seguindo

Sem missão, sem valor, inconsciente

Minha sombra é meu anjo da guarda

Bem armado e que nunca se acovarda

Mas que luta por mim diariamente.


Esse ser, esse espectro valente

É reflexo do bem e em mim produz

Alegria e paz, mais segurança

Me ajudando a andar sempre na luz

Eu não sei sua forma, aparência,

Mas, eu sei qu’essa sombra em sua essência

Me aconselha, me guia e me conduz.

A flor do maracujá


Encontrando-me com um sertanejo

Perto de um pé de maracujá

Eu lhe perguntei:


Diga-me caro sertanejo

Porque razão nasce roxa

A flor do maracujá?


Ah, pois então eu lhi conto

A estória que ouvi contá

A razão pro que nasci roxa

A flor do maracujá


Maracujá já foi branco

Eu posso inté lhe ajurá

Mais branco qui caridadi

Mais brando do que o luá


Quando a flor brotava nele

Lá pros cunfim do sertão

Maracujá parecia

Um ninho de argodão


Mais um dia, há muito tempo

Num meis que inté num mi alembro

Si foi maio, si foi junho

Si foi janero ou dezembro


Nosso sinhô Jesus Cristo

Foi condenado a morrer

Numa cruis crucificado

Longe daqui como o quê


Pregaro Cristo a martelo

E ao vê tamanha crueza

A natureza inteirinha

Pois-se a chorá di tristeza


Chorava us campu

As foia, as ribera

Sabiá também chorava

Nos gaio a laranjera


E havia junto da cruis

Um pé de maracujá

Carregadinho de flor

Aos pé de nosso sinhô


I o sangue de Jesus Cristo

Sangui pisado de dô

Nus pé du maracujá

Tingia todas as flor


Eis aqui seu moço

A estoria que eu vi contá

A razão proque nasce roxa

A flor do maracujá


[Catulo da Paixão Cearense


domingo, 26 de novembro de 2023

alma da mulher está no beijo.

(Vargas Vila, poeta colombiano)




 

Frei Damião no Assu. Na fotografia: Frei Damião, João Pio e Edmilson Da Silva. Década de setenta. Foto tirada em frente a igreja matriz de São João Batista.


História do Assu em revista de quadrinhos - Encarte da Tribuna do Norte.


 

sábado, 25 de novembro de 2023

TÚMULO DE NÚBIA LAFAYETTE "RAINHA DA SOFRÊNCIA"

 MONSENHOR AMÉRICO SIMONETTI

Por Gilberto Freire de Melo*
Conhecemo-nos quando o Açu ainda tinha para exibir:
- A inteligência Excepcional de Osvaldo Amorim;
- Os manifestos radicais de João Lins Caldas;
- As crises boêmias de Renato Caldas;
- Os eventos saudados com versos e glosas dos poetas locais;
- A genialidade modesta de Demóstenes Amorim;
- A intelectualidade de Expedito Silveira;
- A saudade de Moysés Sesyom;
- A sede dos Escoteiros;
- O Plano de Valorização do Vale do Açu;
- Os argumentos jurídicos de Lou no Júri Popular;
- A gráfica medieval de Cabralzinho;
- A ética incontestável de Sandoval Martins;
- A ternura angelical de Cecéu Amorim;
- O charme perpetuado de Enói Amorim;
- A inteligência hibernada de A Vara;
- A integridade moral de Miga Fonseca;
- As bandas internacionais de Costa Leitão;
- O show de dança em boleros de Carlos Aladim;
- As aulas de Português de D. Glorinha;
- A surpresa antidemocrática do Golpe Militar;
- Os projetos de irrigação de D. Eliseu;
- Os bares de Lourival Duda, João Nogueira e Sebastião Alves;
- A candura da garçonete Cândida Nogueira;
- As cajazeiras de Rui Soares;
- Os tira-gostos de cabidela de Chiquito Macedo;
- A chegada da Fundação SESP;
Convivendo com todo esse manancial, éramos conduzido por Pe. Américo numa época de transição em que João XXIII embaralhava as cartas e D. Helder Câmara as distribuía para D. Eliseu, Pe. Américo, Pe. Zé Luiz e Pe. João Penha, aqui na Várzea do Açu montarem o esquema preparatório para uma espécie ainda nanica de modernização. Assim, os fiéis religiosos da Várzea do Açu passaram a ser tratados com uma dose de humanização superior às da evangelização catequética que ainda não se projetara para além da Idade Média.
Em Mossoró, D. Eliseu carreava para o Vale do Açu, tudo quanto houvesse de projetos e de práticas de irrigação; Pe. Américo, no Açu, implantava a educação de base nas comunidades rurais, os serviços de comunicação através dos radinhos de pilha e de serviços telefônicos, quando, à época, só existia a precariedade dos Correios e Telégrafos; Pe. Zé Luiz, em Pendências,, humanizava mais que evangelizava, e já celebrava as missas em português e de frente para a plateia; Pe. João Penha, em Macau, preparava os operários da messe para o enfrentamento da mecanização das salinas e do Porto Ilha, criando o ensino de Segundo Grau.
Foi assim que nós, os beradeiros do Vale do Açu, fomos preparados para ver o homem pousar na lua, para as novidades da chamada Nova Igreja, para a era dos cinemas e da televisão, para a entrada triunfal do iê-iê-iê, e não sucumbimos com as angústias das torturas do Golpe Militar, para o advento do ano dois mil sem traumas maiores na transição universal.
(Gilbert Freire de Melo, escritor, sociólogo, natural de Pendências. Morou no Assu na década de sessenta como funcionário da ECT, atual Correio e Telégrafos).
(Postado por Fernando Caldas)
Se Guilherme de Almeida escreveu 'Raça', em 1925, uma obra literária “que tem como tema a gênese da nação e da formação múltipla da raça brasileira”, João Lins Caldas (nascido no Rio Grande do Norte em 1888, ano da abolição da escravatura no Brasil), já teria produzido no seu tempo de Rio de Janeiro, 1921, o poema patriótico e de exaltação ao Brasil intitulado 'Negra', que para Augusto Frederico Shimidt (1906-1965), depõe que "o 'negra' de Caldas vale por toda uma 'Raça' de Guilherme de Almeida." Transcrevo adiante, o citado poema.
O teu avô Costa d’África, filhinha,
Bárbaro, de uma negra irremediabilidade,
O teu avô, de tanga, acostumado ao Brasil.
Noites que despertou sob o chão do chicote!
O chão... tudo era um chão de látegos rangendo,
E ao longe o cafezal, a mata enorme se desbravando...
Hoje tem sangue turco em cada veia,
Um sangue português, a gemer gargalhada.
Um índio chegou, de solto, as tuas velas que se brilharam...
És muitos continentes, na verdade,
Quase negra, nos olhos,
Deixa ver-te os cabelos, enroscados,
Vamos, meu timbre louro,
Tu morrestes nas raças, diluída,
E nas raças do teu corpo eu que adoro a verdade.



 Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.