segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Cid Montenegro lembra histórias que divide entre Natal e o Rio de Janeiro






 24/08/2014

Argemiro Lima / NJ

Nomes como Chico Buarque, Sandra de Sá, os ex-jogadores Zico e Júnior do Flamengo, Alberi Ferreira, Alindo Cruz, Diogo Nogueira e Alexandre Pires figuram na lista de contatos de Cid

Diego Campelo

Do Novo Jornal

Potiguar, 49 anos, conhecido pela sua facilidade em se comunicar e fazer novas amizades, Cid Montenegro se define como “o amigo dos amigos” e alguém que aprendeu com seus pais a probidade e a honestidade que carrega consigo. Ele se orgulha dos amigos famosos que conseguiu angariar nas suas andanças pelo Brasil.

Nomes como Chico Buarque, Sandra de Sá, os ex-jogadores Zico e Júnior do Flamengo, Alberi Ferreira, Alindo Cruz, Diogo Nogueira e Alexandre Pires são alguns dos seus amigos. Garante que conseguiu todas as amizades de maneira “independente e natural”, seja com famosos ou não.

Amante do futebol, da política, do samba e do Rio de Janeiro, que é sua cidade preferida. Apesar disso, ele não abre mão de, durante suas viagens, carregar na mala camisas do ABC – um de seus times do coração – folders de Natal, livros e CDs de escritores e cantores potiguares para distribuir entre seus amigos. “É para divulgar o que é nosso”, diz.

Segundo ele, seu hobby é se divertir com os amigos ao som de um bom samba ao vivo. Sua principal inspiração na vida é o pai, a quem, segundo ele, idolatra. O nome dele é Antônio Montenegro, que é médico cardiologista e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). “Ele me ensinou a trabalhar, respeitar as pessoas e fazer o bem”.

Potiguar boa praça, uma de suas principais características é a boa conversa. Sua habilidade em se comunicar, lembra, lhe rendeu alguns elogios do cartunista Ziraldo. “Ele falou: Montenegro, você tem o poder da comunicação”. Outro de quem conseguiu elogios foi do ex-governador do Rio Grande do Norte, Aluízio Alves, que quando se referiu a ele o caracterizou como uma pessoa que tem o dom da oratória e da escrita.

Lembra ainda que seu potencial comunicativo é intrínseco, pois desde criança já gostava de conversar com pessoas mais velhas, como o próprio Aluízio Alves, Dinarte Mariz e Lavoisier Maia, pessoas influentes que frequentavam a fazenda de seu avô, o major Montenegro, em Assu.Apesar de sua característica de se relacionar bem com as pessoas, ele cita seu principal defeito: “sou um cara explosivo, temperamental”. Em contrapartida, sua maior qualidade segundo ele é ser “um cara do bem”.

No futebol, Montenegro se divide entre duas paixões: ABC, em Natal, e Flamengo no Rio de Janeiro. Inclusive trabalha hoje nos conselhos deliberativos de ambos os clubes. Compara o amor pelos times como o de um pai que tem dois filhos jogadores de tênis e é questionado qual deles é o preferido.

“De coração eu sou Flamengo, mas amo o ABC e a minha consciência não permite torcer contra o ABC”. Foi também através de seu pai que Cid aprendeu a ser flamenguista e abecedista ao mesmo tempo.Ele explica que não deve somente à sua capacidade comunicativa o fato de conhecer diversas pessoas importantes em todo o país.

Cita primeiro o seus pais e segundo o Flamengo como responsáveis por isso. “É o efeito cascata, você conhece uma pessoa, depois outra e essa pessoa tem um amigo em comum com você”.Um exemplo de seu prestígio em meio a personalidades exponenciais do Brasil aconteceu em 2001, nada data de seu aniversário, em 19 de maio.

Na ocasião, seus amigos lhe prepararam uma homenagem na casa de seu amigo Paulo Figueiredo, filho do ex-presidente João Batista Figueiredo. Na festa estavam presentes os filhos do ex-presidente Fernando Collor de Melo, Arnon e Joaquim; João Dutra, filho do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra; e Paulo Henrique, filho do Fernando Henrique Cardoso.

Os maiores sonhos de Cid hoje se referem aos seus dois times do coração. Um é ver o Flamengo campeão do mundo mais uma vez; o outro é ver o ABC na série A do Campeonato Brasileiro.Sobre o futebol potiguar, Montenegro avalia que este passa por uma boa fase. Segundo ele, dentro da realidade financeira do Rio Grande do Norte, ABC e América são dois gigantes.

No entanto, ele acha que o futebol local precisa de mais incentivos das empresas locais. “Não que esteja fazendo um favor, mas investir, porque futebol dá retorno”, destaca.Outra paixão de Cid está no samba. Ele já desfilou dez vezes na Marquês de Sapucaí, sendo seis anos pela Mangueira, sua escola do coração, três anos pela Beija-Flor de Nilópolis  e mais um pela Acadêmicos do Grande Rio.

Dentre os muitos amigos que possui Cid destaca um como o melhor e mais chegado: o empresário Gustavo Motta, primo do presidente da Assembleia Legislativa do RN, Ricardo Motta. “Esse é meu amigo e irmão, desde os sete anos de idade”.Além de conselheiro de seus clubes do coração, Cid Montenegro é consultor de negócios.

Ele representa aqui uma holding sediada no Rio de Janeiro. Atua na função de intermediar, no Nordeste, investidores para a empresa onde trabalha. “Isso parece fácil, mas é difícil, porque na hora em que você intermedia, tudo o que acontecer você é o responsável”, explica.

Um de seus maiores orgulhos é ter sentado no piano em que Ary Barroso compôs a canção “Aquarela do Brasil”.

O fato aconteceu na casa dos filhos de Ary, Flávio e Mariúza Barroso.Na ocasião Cid tomou conhecimento de como foi feita a música. “Ary ia sair de casa com sua mulher, mas deu uma chuva torrencial no Rio de Janeiro.Então eles não saíram mais e Ary abriu uma garrafa de Whisky, foi ao piano e em menos de 24 horas compôs letra e música de Aquarela do Brasil”.

http://www.novojornal.jor.br/

"Sobra-me amor quando te ausentas."

José Gabriel Duarte


De: Ponte de Sonhos

sábado, 6 de setembro de 2014


ASSU, SEMPRE BRILHANDO NAS LETRAS NACIONAIS

 
Dialogo com as horas
mórbidas, pouco redutíveis,
quando querem
convencer-me de sua
embriaguez,
quando querem impor limites,
quando querem marcar
territórios.

Ao longo do litígio, mostro-me
mais provocador;
incorporando ora Fausto, ora
Mefistófeles.
Estamos lúcidos, embora até
uma simples contestação
seja movida por normas,
desregramentos, falácias;

O tempo para a réplica corta o
fio de todas as solidões.
Alguém, muito longe, canta
uma canção perdida em
sussurros,
que o vento roubou sem
solicitar direitos autorais;

que a noite inventou de gravar
em estúdio de pouca acústica.
Somente meu corpo silencia
calúnias,
Somente o sonho recupera quem sou.

sussurros,
que o vento roubou sem
solicitar direitos autorais;

que a noite inventou de gravar
em estúdio de pouca acústica.
Somente meu corpo silencia
calúnias,
Somente o sonho recupera quem sou.

Foto: ASSU, SEMPRE BRILHANDO NAS LETRAS NACIONAIS

Assu, minha terra natal querida, interior potiguar, onde a poesia eterna, mora, é uma terra que sempre se destaca nas letras brasileiras. O jovem Paulo Caldas, de família assuense, carrega no sangue a veia poética dos Caldas, de seu pai e dos Soares de Macedo (dos Açores, Portugal) de sua mãe. Paulo é "doutorando de literatura comparada", poeta,  escritor, ganhou vários concursos literários, estreou nas letras com o livro  intitulado no Ventre do Mundo, publicou ainda o volume Do Picadeiro Ao Céu: O Risos no Teatro de Ariano Suassuna, e está colocado em várias antologias como O Panorama Literário Brasileiro, dentre outras. Agora, ele aparece na antologia poética sob o título Sarau - 2014 "Concurso  novos poetas. "De 3.076 inscritos de todo o país, 250 poetas foram selecionados, Nela." Naquela antologia está publicado os versos intitulado Entre a Vigília e o Sonho, que veremos abaixo para o nosso deleite:

Dialogo com as horas 
mórbidas, pouco redutíveis, 
quando querem 
convencer-me de sua 
embriaguez,
quando querem impor limites, 
quando querem marcar 
territórios. 

Ao longo do litígio, mostro-me 
mais provocador; 
incorporando ora Fausto, ora 
Mefistófeles. 
Estamos lúcidos, embora até 
uma simples contestação 
seja movida por normas, 
desregramentos, falácias; 

O tempo para a réplica corta o 
fio de todas as solidões. 
Alguém, muito longe, canta 
uma canção perdida em 
sussurros, 
que o vento roubou sem 
solicitar direitos autorais; 

que a noite inventou de gravar 
em estúdio de pouca acústica. 
Somente meu corpo silencia 
calúnias, 
Somente o sonho recupera quem sou.
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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

 
Da linha do tempo/face de Francisco Martins.

"MARINA SILVA INELEGÍVEL????"

"A candidata ambientalista Marina Silva poderá ficar inelegível.
Segundo o Ibama, ela tentou abater um tucano e liquidou uma anta em uma mesma semana!"

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

EM FAMÍLIA

Eduardo Olympio, 28/08/2014. (Poeta Baiano).

Pela terra brasileira,
Reconhecido demais,
Disse o poeta Limeira:
“Os tempos não voltam mais”.
Desgarro da sua esteira,
Lembrando tios e pais.

Porque gosto do passado,
É por onde meus pés finco,
Pois o tempo não voltado
Insiste em deixar-me o vinco,
Auguro-me retornado
E, com a memória, brinco.

Muitas histórias eu soube
Pelos próprios personagens.
Sinto que agora me coube
Contar as tais traquinagens.
E não há quem a mim roube
O prazer das homenagens.

Pelo Porto dos Tainheiros,
Helena ao mar se atirava
E pedia aos marinheiros
Da lancha que lá estava:
“Uma corda, cavalheiros”
E à corda se agarrava.

Fazer o que divertia
Helena tinha por norma.
“Gorda leve”, se dizia,
Naturalmente na forma.
Na corda, era a travessia,
Pelo mar, a Plataforma.

Julio Olympio, liberal,
Não se incomodava não,
Era o pai, de alto astral,
De cinco, sem confusão.
Mas, mexessem com a moral
E se dava a intervenção.

Certa vez, foram os filhos
No carnaval agitar,
Mas à marcha de estribilhos
“Mamãe eu quero mamar”
Ofereceu empecilhos,
Não a podiam cantar.

Vejam que Julio era amigo
Da noite, com prosa e festa,
Onde não via perigo.
Quem ía além na seresta
Contava com seu abrigo,
Jamais pensava em dar testa.

Preferia se ir embora,
Quando a música acabasse,
Soava-lhe antes da hora
Ir sem que a orquestra findasse,
Não houvesse um bota-fora
Ou o dia não raiasse.

Olhos “claros de cristal”
Da “Lourinha” ele adorava,
Mas a mãe, no carnaval,
Em respeito, não gostava,
Pois um valor perenal
A marchinha avacalhava.

Os filhos enfim chegaram
Com amigos ao Bahiano.
Mas, apreensão mostraram,
Pois a música do ano,
Que repetida escutaram,
Era “Mamãe..”, salvo engano.

Estatelados, um tempo,
Lembravam-se da mensagem.
Superar o contratempo
Demandaria coragem,
Precisava ser e a tempo
De sair da desvantagem.

Convocaram o presente
Filho com o nome do pai:
“Júlio, o quê você sente?”
“Olhe que o tempo se esvai!”
“Tou me sentindo doente”
“Mude pra nós isso, vai”.

E o mancebo percebendo
Que só “Mamãe…” se cantava,
A meninada sofrendo,
Dançar sem cantar não dava,
Sentenciou se moendo:
“Proibição vai à fava”.

Ainda, de carnaval,
Outra história me contaram:
Com máscaras, bem normal,
Amigos que se encontraram
- Uma turma jovial -
Pra Castro Alves rumaram.

Entre os amigos, Helena,
Mascarada, no programa,
E, nem um pouco pequena,
Veste do pai o pijama,
Sob o disfarce, na arena,
Ao próprio, brincando, chama.

“Julinho, Julinho!”,
Dizia, com voz soprano,
Ao pai, que, em roupa de linho,
Chegara ao festim profano,
Com amigos de chapelinho:
“Você está lindo este ano”

Julinho, meio sem jeito,
Sem reconhecer a voz,
Nem o pijama perfeito,
Estreita casca de noz,
Com amigos do direito,
Que situação atroz!

Nunca soube como a história
Na verdade se findou,
Se houve uma vitória
Ou se o jogo empatou,
Mas risada meritória
Sei que ela provocou.

Esses fatos preciosos
A própria vida animaram,
Nos relatos venturosos,
Pela voz dos que os contaram
E são tão prodigiosos
Que os tempos pra mim voltaram.

AS DITADURAS GOLPEARAM O IDEAL DE UMA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA





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Maria Luiza Tucci Carneiro

Nos momentos de instabilidade política, um Estado de perfil autoritário se apressa em nomear seus inimigos: anarquistas, comunistas, integralistas, feministas, terroristas. Serão eles os alvos prioritários da política repressiva.

O Brasil vivenciou dois momentos críticos de ditadura que cercearam o exercício da democracia: durante o Estado Novo comandado por Getulio Vargas (1937-1945) e durante a ditadura militar (1964-1983).Em ambos os períodos, a sociedade brasileira esteve sob a tutela de um Estado que agiu apoiado por um conjunto de aparelhos repressivos cuja ação trouxe graves consequências para o país.


Tanto durante a ditadura estadonovista quanto sob os militares, o Estado procurava evitar que ocorresse uma suposta revolução político-social no Brasil. Para reforçar esta missão, nos dois momentos foi criada uma polícia especial que deveria identificar e coibir reações políticas adversas, armadas ou não, que colocassem em perigo “a ordem e a segurança públicas”. Uma legislação específica para legitimar a repressão foi aprovada em 1935, e voltou a ser invocada na ditadura militar. Ela incluía a Lei de Segurança Nacional (LSN), o Tribunal de Segurança Nacional e as figuras do Estado de Sítio e do Estado de Guerra.

Após o golpe de 1964, as atividades da Polícia Política foram (re)orientadas pelos Atos Institucionais e pela outorga da Constituição de 1967 que, no seu conjunto, (re)instalaram o Estado de Segurança Nacional. Criou-se também uma rede de informações de combate à subversão, preconizada pela “Doutrina de Segurança Nacional”. Todos os demais órgãos repressivos estavam subordinados ao Serviço Nacional de Informações (SNI). Importante função foi delegada ao Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna – o conhecido DOI-Codi –, onde se concentraram representantes de todas as forças policiais.



ditadura

Assim, a tradicional lógica da desconfiança estava agora armada por uma logísticamilitar, oferecendo estratégias adequadas aos agentes da repressão interessados em aniquilar os grupos revolucionários.Preocupadas em comprovar o crime político, as autoridades procuravam manter a população sob constante vigilância.Agentes produziam informações que eram direcionadas ao SNI e órgãos de inteligência militares (Ciex, Cisa e Cenimar). Órgãos de repressão subordinados ao staff do regime foram instalados por todo o país sob a coordenação de um militar assessorado por uma elite de informantes. Agentes invisíveis emergiram por todos os poros da sociedade, que passou a viver em constante estado de alerta. Associações identificadas com as ideologias conservadoras – como a Tradição, Família e Propriedade (TFP), o Comando Geral Democrático e o Comando de Caça aos Comunistas – passaram a cooperar com o regime na luta contra o inimigo-maior: os comunistas. Outras informações eram obtidas sob tortura ou através de delações anônimas. A morte clandestina, extorções generalizadas e a arbitrariedade tomaram conta dos porões do DOI-Codi após 1964.

Dentre os profissionais mais visados como “subversivos da ordem” estavam os jornalistas, escritores, artistas, músicos, estudantes, livreiros, gráficos e editores. Com base na Lei de Segurança Nacional, cabia às autoridades policiais desvelar os segredos daqueles que, como arquitetos de um complô verdadeiro ou imaginário, viessem a minar a ordem estabelecida. Para isso, confiscou-se grande número de fotografias, correspondência particular, catálogos, periódicos, livros e objetos pessoais, todos devidamente anexados aos autos de investigação.

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Sucederam-se prisões ilegais de suspeitos, perseguições aos familiares, censura postal, invasões de domicílios, confiscos de objetos e documentos pessoais, deportações de estrangeiros, tortura e morte nos cárceres.Toda e qualquer arbitrariedade era justificada pela lógica da desconfiança. Os militares assumiram o papel de condutores da nação, afastando os civis das esferas de decisões políticas e transformando-os em meros coadjuvantes. A dor e o terror tornaram-se estratégias de controle das multidões.

Mas o desmoronar da República brasileira já tinha um precedente. Nos anos 1930 e 1940 ela foi minada em seus propósitos e traída em seus ideais por profissionais do poder. Sob a batuta de Getulio Vargas, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade – herdados da República francesa – foram substituídos pela disciplina do corpo e do espírito, pelo culto à força e à raça eugênica.

Sob o slogan do “nascimento de uma nova nação” e com o auxílio das Forças Armadas, Vargas instaurou a ditadura colocando fim à nossa breve e turbulenta experiência democrática de 1934-1937, e assim traindo os ideais da Revolução de 1930.  O signo da “Ordem e progresso” continuou a ser reinvidicado pelo Estado, à custa da repressão policial, da domesticação da massa operária e do controle do pensamento. O golpe de novembro de 1937 representou o verdadeiro repúdio ao liberalismo político e econômico, consumado com o fechamento do Congresso Nacional, a extinção dos partidos políticos, das eleições e das garantias individuais.




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A Constituição de 1937, outorgada pelo próprio Vargas, conferiu plenos poderes ao presidente da República. Assim consagrou-se o ditador. A nova carta constitucional se fez baseada na centralização política, no intervencionismo estatal e contrariando o modelo liberal clássico de organização da sociedade. As liberdades civis foram suspensas, o Parlamento dissolvido, os partidos políticos extintos, nos moldes das experiências europeias recentes. De uma forma geral pairava no ar a ideia de que a “velha democracia liberal” estava em extinção. Apesar de Vargas negar qualquer similaridade com os regimes nazifascistas, a realidade política sustentada pelo Estado Novo afinava-se com os rumos trilhados na Alemanha e na Itália, cujos modelos ideológicos serviam de paradigmas para os intelectuais e dirigentes políticos integrados ao projeto étnico-político que marcou a Era Vargas.

O nacionalismo alemão transformou-se em fonte de inspiração para a construção de um Estado nacional, uniforme e padronizado cultural e politicamente. Esta uniformização implicava na exclusão de grupos estrangeiros estranhos ao projeto de nacionalização e que, de alguma forma, contestassem o regime imposto. Tal política recaiu contra as áreas de colonização europeia, com base nos decretos nacionalistas de 1938, contrariando o ideal de uma sociedade pluralista que abrigasse etnias diversidade. Em relação à imigração, o governo Vargas definiu-se pelo elogio ao homem branco, não semita ou não judeu. O povo foi seduzido por um discurso nacionalista e por mensagens legitimadoras da intolerância. À educação coube a tarefa de reforçá-las a longo prazo.

Após 1937, os sonhos republicanos caíram por terra, fragilizados pelos atos autoritários que obstruíram os caminhos que poderiam levar à soberania popular. O Estado procurou, de todas as formas, identificar e eliminar os signos de “erosão da identidade cultural brasileira”, ou seja, qualquer manifestação de identidade estrangeira ou subversiva.

O “estado de agonia” da República foi resultado da valorização de um Estado forte, intolerante e tutor da sociedade civil. Que defendeu, através de atos e programas legais, a homogeneidade racial e combateu o comunismo – tratado como ideologia “exótica” e assassina.

Já vivemos tempos sombrios, e não queremos que ressurjam. Cabe ao historiador, consciente dos silêncios propositais, desconstruir as versões divulgadas por qualquer Estado autoritário. Como num quebra-cabeça, nem todas as peças se encaixam. Registros comprometedores são escondidos e eliminados. Interessa ao autoritarismo que a história continue mal escrita.

Maria Luiza Tucci Carneiroé coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação do Departmento de História da USP e autora de Cidadão do Mundo: O Brasil diante do Holocausto e dos Judeus Refugiados do Nazifascismo, 1933-1948(Perspectiva, 2011)

Fonte: Tok de História.

No Brasil, a xilogravura se disseminou como técnica de expressão à medida que foi associada à literatura de cordel

Beliza Áurea de Arruda Mello

No princípio era a voz que se fez letra e, depois, xilogravura. Esta é a gênese do cordel no Brasil. A voz da poesia cantada que depois vira letra impressa no folheto e, por último, é acompanhada da xilogravura como ilustração. A história da xilografia, aqui, se mistura com a do cordel. Não há como desvincular uma da outra.
O folheto de cordel nasceu como forma de imprimir os versos entoados pelos cantadores-poetas do povo que interpretam os desafios. O primeiro folheto de que se tem notícia apareceu em Recife, em 1865, impresso na Tipografia de F. C. Lemos e Silva, com o título imenso de Testamento que faz um macaco especificando suas gentilezas, gaitices, sagacidade, etc. Mas foi a partir da abolição da escravidão do Brasil, em 1888, que houve o fortalecimento dessa nova forma de expressão.

Os ex-escravos podiam agora ser integrados ao mercado de trabalho formal e assalariado. Entre as novas profissões, proliferava a de vaqueiros, encarregados de transportar o gado pelos sertões do Nordeste. Muitos desses vaqueiros eram poetas do povo que entoavamaboios, canto típico do trabalho para tanger o boi; ou desafios, uma disputa poética cantada de improviso; ou ainda pelejas, outra espécie de luta poética de improviso em horas de trabalho, de folga e de festa. Os poetas, nascidos em zona rural, estavam “livres” e tinham certa autonomia para deslocamentos físicos.

Um dos primeiros e mais conhecidos poetas populares do Nordeste foi Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865, na cidade de Pombal, no sertão da Paraíba. Em seus folhetos é possível encontrar narrativas sobre bois muito recorrentes nos sertões nordestinos, comoO Rabicho da Geralda. A história é tão comum que o escritor José de Alencar chegou a classificá-la de “poemeto sertanejo”.São dele célebres folhetos de cordel, como O cavalo que defecava dinheiro, que inspirou o Auto da Compadecida, do escritor Ariano Suassuna, e a Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, um clássico baseado no tema do rei Carlos Magno e sua luta com o diabo. Pela qualidade dos seus cordéis, ele foi chamado por Carlos Drummond de Andrade de o “príncipe dos poetas”.
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Outros pioneiros – todos paraibanos – são: Silvino Piruá de Lima, nascido em 1848, que escreveu A História de Zezinho Mariquinha; Francisco das Chagas Batista, nascido em 1882, que em 1902 publicou Saudades do sertão; e João Martins de Athayde, nascido em 1880, autor de O preto e o branco apurando qualidade, de 1908, e responsável por introduzir ilustrações nas capas dos folhetos de cordel no Brasil. Tanta ebulição cultural na Paraíba produziu, em 1913, a Popular Editora, uma casa de cordéis criada pelo poeta Francisco das Chagas Batista – tão importante para a expressão cultural do Brasil que Mário de Andrade chegou a dizer que merecia ser “célebre no país inteiro, se nós fossemos verdadeiros patriotas”.
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Mas além das ilustrações trazidas por João Martins de Athayde, os poetas queriam mais inovações – e é aqui que o casamento entre cordel e gravura é celebrado. Começaram a usar esta antiga técnica de impressão principalmente por ser barata e simples: desenha-se uma imagem em madeira macia, como a cajazeira e a imburana, árvores nativas da caatinga nordestina, ou até mesmo em borracha de pneus usados; depois se escavam as partes destinadas a ficarem brancas; joga-se a tinta, que fica depositada nas partes mais salientes da matriz e, ao comprimir a madeira no papel, aparece a imagem, num processo semelhante ao do carimbo. É o mesmo processo usado na Idade Média europeia. Trata-se de uma técnica ancestral que provavelmente se originou na China, no século II a.C. No extremo Oriente, ela era utilizada para a impressão em tecidos, além do papel. Na Europa, foi amplamente empregada para ilustrações e impressão de cartas de baralho, imagens de santos, guerreiros, reis e rainhas, e cenas de calendários.
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A xilogravura ajudava a fazer a “propaganda” dos fatos que interessavam à população. Era tão popular nos século XIV, XV e XVI que passou a ilustrar os romances de cavalaria, e até os autos de Gil Vicente – peças teatrais curtas sobre temas religiosos e cômicos, que também influenciaram Ariano Suassuna noseu Auto da Compadecida.

No Brasil, a xilogravura passou a ser produzida em 1808 pela imprensa, que fazia pequenos anúncios de publicidade em jornais, revistas, e também em ilustração de livros.A técnica propagou-se rapidamente no Nordeste. Quase um século depois, em 1907, apareceu o primeirocordel ilustrado com uma xilogravura: A história de Antônio Silvino,escrito por Francisco das Chagas Batista.
O desenho da capa é baseado no retrato de Antônio Silvino, cognome de Manoel Batista de Morais, nascido em 1875, na cidade de Afogados da Ingazeira, sertão do Pernambuco. Sua história é típica de cangaceiros. Seu pai, em virtude de brigas políticas com o governador de Pernambuco, decidiu formar um bando de homens que espalhava terror pelos sertões do Nordeste.Quando um dos elementos do bando foi preso, Manoel Batista assumiu o comando do cangaço e mudou o seu primeiro nome para Antônio e o segundo para Silvino, em homenagem ao tio, ex-chefe do bando, por quem nutria admiração. Passou a ser conhecido pelo nome de guerra, Antônio Silvino, e pelo apelido de “Rifle de Ouro”. Antes de Lampião, foi o cangaceiro mais famoso e temido do sertão nordestino.

Se a Paraíba é o estado dos pioneiros do cordel, o Ceará é um celeiro de bons xilógrafos, alavancados por José Bernardo da Silva, o maior editor de literatura de cordel durante os anos de 1940 a 1960. José Bernardo chegou a Juazeiro do Norte, no Ceará, na década de 1920, e logo iniciou suas atividades como folheteiro – como eram conhecidos os vendedores de cordel. Em 1932, comprou sua primeira máquina (uma rudimentar impressora de pedal) e fundou a Tipografia Lira Nordestina. Sua atividade editorial alcançaria o apogeu em 1950 por causa da ilustração em xilogravura de muitos folhetos do cordel: Alonso e MarinaJuvenal e o dragãoJoão Grilo e Donzela Teodora, entre muitos outros. Logo, a xilo passou a ser o grande atrativo dos cordéis. Graças ao incentivo de José Bernardo, outros grandes xilógrafos, como Mestre Noza, Antônio Relojoeiro e Expedito Sebastião da Silva, ficaram conhecidos. A tradição da gravura no Ceará se mantém até os nossos dias, com Abrão Batista, ilustrador dos seus próprios cordéis, e com o poeta e xilógrafo José Louzeiro.
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Também representante da nova geração de poetas de cordel e da xilogravura popular, o pernambucano Marcelo Soares alia o desenho da tradição ao design da modernidade. Bebeu nas fontes populares por influência de seu pai, José Soares (1914-1981), um renomado cordelista conhecido como “O poeta repórter”. Marcelo aprendeu a técnica da xilogravura fazendo capas para folhetos e participou de novas experiências com esta técnica no Rio de Janeiro, onde fez curso de xilogravura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Expandiu suas atividades, criando capas e ilustrações para livros, discos, cartazes para cinema, shows, teatro e outros eventos.

A xilogravura, como imagem ilustrativa de folhetos de cordel, tem traços firmes e identitários da cultura nordestina, e é facilmente vinculada com o público popular. O trabalho em capas de folhetos de cordel mapeia a história da xilografia popular no Brasil. Vai além do universo dos poetas populares e se expande, com seus temas, para os gravuristas urbanos. O percurso da xilogravura no nordeste do Brasil é longo e rico. Sua relação com o folheto de cordel, além de informativa sobre histórias contadas, é a de capturar o olhar do leitor a partir da imagem da capa. Além de contar a história, contribui para gravá-la, mais facilmente, na memória.

Beliza Áurea de Arruda Melloé professora da Universidade Federal da Paraíba e autora de “Poética de um poeta popular: travessia da memória” (Sapienza, Recife, n. 1, 2009).
Do amor à guerra
Os folhetos de cordel são uns pequenos livrinhos em folhas de papel jornal. Podem ter dois tamanhos, dependendo da extensão da narrativa contada. Quando ela é curta, o folheto mede 11 x 36 cm e contém oito páginas; quando a narrativa é mais extensa, ele mede 13 x 18 cm e pode ter até 64 páginas.
Os temas são variados: seca, histórias de encantamentos, cangaço, gracejos, carestia, política, narrativas engraçadas para o povo rir, sátira. As narrativas mais extensas contam histórias de guerra e aventuras de amor, em poesia cantada e impressa. São os chamados romances. Originam-se do Romanceiro, um gênero poético oral de origem medieval, datado de 1421, que sempre narrava sobre algo que havia acontecido numa época concreta.
A memória desses romances vive nos cantos das brincadeiras de roda e nos folhetos de cordel que, quando começaram a circular no Brasil, não tinham nenhuma ilustração em suas capas. Na parte superior havia o título em grande destaque, com letra maior e com adornos; desenho centralizado, contornado com uma frisa tipográfica, uma espécie de pequeno traço colocado em torno do título para dar-lhe maior destaque; na parte inferior há indicação do local, data e nome da tipografia.

SAIBA MAIS
CARVALHO. Gilmar de. Desenho gráfico popular. Catálogo das matrizes xilográficas de Juazeiro. São Paulo: IEB/ USP, 1998.
SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. “A imagem do folheto”. In: ___. Memórias das vozes: cantoria, romances & cordel. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo. Fundação do Estado da Bahia, 2006. p. 84-92.
SOUZA, Liêdo Maranhão de. O folheto de cordel, sua capa e seus ilustradores. Recife: Massangana, 1981.
Internet
Fundação Casa de Rui Barbosa – Literatura de cordel
http://www.casaruibarbosa.gov.br/interna.php?ID_S=99
Centro Nacional do Folclore – Xiloteca
http://www.cnfcp.gov.br/interna.php?ID_Secao=64

Fonte: Tok de História, de Jostand Medeiros

 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Se tivesse que escolher
dos verbos o mais profundo
escolheria o SER, embora,
o TER valha o mundo.

Edith Barbosa

terça-feira, 2 de setembro de 2014

 Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.