terça-feira, 4 de junho de 2024

A terceira guerra mundial

                       

  

Em vários lugares do mundo, já começou a terceira guerra mundial. Não será entre países, mas a guerra entre o homem e a natureza. Uma guerra que evidentemente não podemos ganhar.

Quando pensamos na natureza, pensamos nela de forma poética e telúrica. Mas terremoto é também natureza; tsunami também é natureza; seca, nevasca, chuvas torrenciais, avalanche – é tudo natureza. A natureza está agindo em legítima defesa. Ela não aguenta mais ser invadida, desrespeitada, queimada.

O que é o Rio Grande do Sul? É a morte anunciada de Gabriel García Márquez. Não vou escrever mais um texto ingênuo sobre o assunto. É tudo uma questão contábil: explorar a natureza é receita; preservação é despesa. E ninguém está disposto a pagar, nem o consumidor.

Mas o que tem a ver este texto “bicho grilo” neste jornal tão circunspecto? Tem tudo. Estive ano passado em Davos, sobre uma discussão sobre aquecimento global, e para meu estarrecimento e pânico, de uma mesa de 12 debatedores, 10 eram as grandes seguradoras do mundo. Elas tinham dados mais assustadores que o Greenpeace e sabiam avaliar as perdas catastróficas que aconteceriam a cada décimo de aquecimento global.

O aquecimento global é fato e fato econômico. Napoleão e Hitler perderam a guerra porque foram lutar contra um general chamado Inverno. Estamos entrando numa guerra que não podemos vencer. A devastação do Rio Grande do Sul é um drama humano: centenas de mortes humanas, milhares de mortes empresariais. Uma catástrofe fiscal, desempregadora.

Assisti a uma palestra no Itaú BBA Conference em Nova York de Al Gore, que fez o famoso documentário “Uma Verdade Inconveniente”. Hoje, ele poderia fazer outro documentário chamado “I Told You” (eu te disse).

Todos os leitores deste jornal estão ocupados em gerar e gerir patrimônio em sucessão familiar. Então eu chamo esta comunidade a pensar nos nossos filhos e netos. Seus filhos pequenos vão enfrentar um mundo muito difícil, nossos netos vão enfrentar um desastre.

Está na hora de ouvir quem mais entende de desastres climáticos: as seguradoras mundiais. Agora vamos colocar os pingos nos iis: o planeta não vai acabar, quem vai acabar são os seres humanos.

Você nunca se perguntou como o Titanic afundou? Como eles não viram um iceberg gigantesco? Simples: eles se achavam indestrutíveis. Não dá para negar que temos feitos avanços suficientes para gerar uma economia verde (que pode ser muito lucrativa).

Mas os projetos verdes devem ter processos de aprovação (que são infindáveis) mais céleres, muitos incentivos fiscais. O futuro precisa ter um fast track, o futuro tem que ser lucrativo. Chega de poesia.

Só se fala em inteligência artificial, mas a burrice anda mais rápido que a inteligência. A inteligência tem limites, a burrice não.

Os organismos multilaterais estão de mãos atadas por regras inoperantes. As ditaduras se movem muito mais rápido que a democracia, com suas infindáveis instâncias. E faltam Churchill e De Gaulles verdes.

No Rio Grande do Sul, a natureza não poupou ninguém. Os pobres perderam muito do pouco que tinham e os ricos, muito do muito que têm.

Este é mais um texto que os ricos não lerão porque estão cansados de textos assim e têm uma reunião hoje de manhã. Eles são regidos por um mercado sem alma. E os pobres não vão ler porque muitos não sabem nem ler.

A bomba atômica é um traque de São João. A caminho de Davos, vi, em pleno inverno, mas os mandatários não veem nem avalanches nem falta de neve porque estão no celular.

A natureza está avisando, tchê. Sirva nossa tragédia de aviso a toda a Terra.

Sou capitalista liberal. Gosto de dinheiro, de margem, mas não sou cego nem surdo. Senhores, estamos na primeira classe do Titanic.

(por Nizan Guanaes para o Estadão)



segunda-feira, 3 de junho de 2024

 

RECORDAÇÃO

Como está tão diferente a minha terra!
No meu tempo, era só brincadeira
Ninguém falava em guerra
Ninguém sabia,
Se existia
Diabo de alemão
Tudo era esperança!
- Como a vida nos cansa! -
E, como a saudade nos faz bem
Ao velho coração.
O prazer que contém
Recordar, vale tudo na vida!
Minha vida vivida: -
Meu jôgo de Castelo, a vaquejada,
O brinquedo de arraia...
Ah! velho tempo mau!...
Que saudade danada,
Do cavalo de pau.
Tudo era esperança...
Minha mestra França,
A palmatória...
Quem me dera de novo
Meu povo,
Uns bolos apanhar
Para poder de tudo recordar.

Vou contar uma história:
O Circo de Sansone,
- Alvo como madapolão -
Estava armado,
Como um funil de pano emborcado,
Bem no meio da Praça da Proclamação.
No dia do espetáculo,
- Um obstáculo,
Veio de encontro a mim -
Minha avó não podia - coitada,
Por falta de dinheiro
Pagar a minha entrada.
Terrível desengano!
Que fazer?
Fui forçado a meter,
A cabeça, por debaixo do pano.
E lá dentro, que alegria taful!
Um bocado de gente,
Assim na frente,
Dava alguns vivas ao cordão azul.
Do outro lado,
Todo mundo gritava: o encarnado.
Depois, a artista do azul apareceu.
A platéia, toda estremeceu.
Então,
Um cidadão,
Fez um discurso danado de comprido
E, entregou à mocinha,
Um bonito vestido;
Ela, agachou-se toda e saiu.
De repente,
Como se fosse uma alvorada,
Bem na frente,
Uma outra surgiu.
No meio do picadeiro,
A morena estacou.
Todo mundo vivou...

Um velho jornalista,
- Nesse tempo era moço -
Fez, para a artista morena,
Um discurso colosso.
Ao terminar sua linda oração,
"Curvou-se reverente"
E foi beijar-lhe a mão.
... Eu fiquei despeitado.
Não dei nem mais um viva
Ao cordão encarnado.
Fiquei disiludido...
A morena bonita não ganhou
Nem sequer um vestido.
O encarnado apanhou!...
Mas, o tempo passou...
Toda gente esqueceu!
Menos eu.
Naquele tempo, o encarnado venceu.
Quinita,
A morena bonita,
Morena sensação,
Ganhou da inteligência,
Um beijo, em sua mão.

Renato Caldas

domingo, 2 de junho de 2024

CHÁ  COM BOLACHA

Antônio Josino Tavares, ou "Caboré," como era mais chamado na cidade de Assu e região, era vaqueiro, negociante de gado, corredor de vaquejada, boêmio, glutão famoso. Tipo baixo, voz grave. Caboré era primo de meu avô materno chamado Fernando Tavares (Vemvem), bem como, se não me engano, irmão ou sobrinho de Luiz Tavares, figura muito conhecida em Natal, pelas suas peripécias. Pois bem. Certa vez, Caboré viajando com destino à cidade de Natal, chegou num restaurante à beira da estrada onde costumava almoçar quando em viagem a capital potiguar, sentou-se numa das mesas daquele recinto e logo pediu ao garçom que lhe trouxesse comida para seis pessoas. Carne seca, feijão verde, batata doce, arroz, cuscuz, era o seu prato preferido. Comeu tudo sozinho, além de três pratos de coalhada com rapadura do brejo, ainda mais, queijo de coalho com mel de engenho. Logo após o almoço, ainda sentado na cadeira, começou a dormir. Mergulhado no sono, roncando muito alto, o dono do restaurante preocupou-se com aquela roncaria de Caboré e, ao se dirigir ao antigo cliente, acordou-o em voz alta dizendo: "Caboré. O senhor está passando mal! Quer tomar um chá?" Caboré ainda esfomeado, saiu-se com essa: “Meu amigo. Só se for com bolacha!"

Fernando Caldas 



 

sábado, 1 de junho de 2024

Não existe maior penar,
E nem dor mais renitente:
Do que a gente gostar
De quem não gosta da gente.
RC

 Assu Antigo

TRÊS TIRADAS DE BONZINHO
1 - "Bonzinho" (não sei do nome de bastismo dele) era filho de Joca Marreiro. Certo dia, bebendo num bar da cidade, foi surpreendido por seu seu pai que lhe convidou para ir pra casa, pois já estava embriagado. Bonzinho aceitou o convite e filosofou: "Papai, vá na frente que o mundo tá cheio de gente ruim!"
2 - Certo dia, Bonzinho fora solicitado por certo viajante que fazia a praça de Assu, para comprar uma caixa de charuto. Aceitou fazer o favor, porém, no primeiro bar que encontrou, tomou umas dozes de cachaça gastando todo o dinheiro daquele vendedor de produtos que, demorando muito Bonzinho voltar, tomou outro destino. Meses depois aquele mesmo viajante retornou ao Assu e, logo dá de cara com Bonzinho. Não deixando para depois, indagou: "Você é aquela pessoa que meses atrás eu pedi para comprar uma caixa de charuto? Bonzinho não se fez de rogado: Foi, meu senhor. Quer mandar comprar outra!
3 - Bonzinho fazia mandados para ganhar um trocado. Pois bem. Certo dia, no Bar de Ximenes (era um bar e casa de jogo de cartas - baralho - muito frequentado pelos mais abastados da cidade assuense). Um dos seus assíduos frequentadores era Walter de Sá Leitão que não perdia a oportunidade para fazer um gracejo, dizer um dito espirituoso ou fazer uma prezepada, no bom sentido. Disse Walter: "Bonzinho. Vá alí na esquina da prefeitura e veja se eu estou lá!" Bonzinho na sua esperteza, saiu-se com essa: "Seu Walter, me dê o cabresto, se o senhor estiver lá, eu trago!"
(Fernando Caldas)

quinta-feira, 30 de maio de 2024

PANELA DE BARRO

Walter de Sá Leitão era uma figura humana espirituosa, chistosa. Por sinal, além de meu tio afim, era meu padrinho de batismo. Pois bem. Aos sessenta e poucos anos de idade, doente, é surpreendido por um amigo em sua casa. “Olá, Walter como vai de saúde?” Interrogou o amigo. Walter, sem nem pestanejar, saiu-se com essa: “Olá, amigo. Estou aqui me acabando pelo ‘fundo’, feito panela de barro!”

(Fernando Caldas)
Pode ser uma imagem de 1 pessoa e sorrindo


De: Assu Antigo

MANÉ RAPOSA, A ESTRELA DO MUNICIPAL


Manoel Balbino dos Santos, 60 anos, casado com Raimunda Maria de Souza, pai de três filhos, nasceu em Timbaúba, Ipanguaçu, veio para o Assu com quatro anos morar com os avós. Estudou até o ginásio no Ginásio Pedro Amorim, concluindo em 1972.

O primeiro emprego foi como padeiro de Jaime de Antônio Carneiro, depois com Tarcísio da Sorveteria, em seguida (1967), ingressou como vocalista na Banda de Seu Cristóvão, “Os Professores”. Aí vieram: Sambrasa (Caicó), Fórmula 5 (Macau), The Love (Lages), Alta Tensão (Sapé-PB), Perdidos e Achados (Mossoró), Brasa Samba Show (Assú). Sempre vocalista.

Atualmente Manuel não exercita mais essa atividade, se limitando a ficar em casa com a esposa, que é aposentada, ele não, e a enviar “bilhetes” para amigos quando tem alguma dificuldade. Mora na casa numero 1738, na rua 24 de junho vizinho a AABB.

Você desistiu de ser interprete. O que deu errado? “Um arrependimento. Foi só uma oportunidade que eu tive de gravar com Roberto Muller, ele quis me levar, eu não fui. Isso contribuiu muito para não dá certo. Foi o meu primeiro erro na carreira, em 1972, aqui em Assu.

Mesmo com esse arrependimento, continuou cantando? Continuarei. Era minha vida, né? O conjunto era melhor do que vestibular em conjunto nunca me decepcionarei.

Mané Raposa, como surgiu esse nome? A gente vinha de um jogo em Jucurutu num carro tipo Pau-de-arara fomos jogar lá aí, de lá pra cá, eu me levanto e grito: Lá vai uma raposa! Todo mundo olhou e ninguém viu. Daí pra cá, Chico Lamparina e outros me batizaram de “Mané Raposa”. Hoje se perguntarem quem é Manoel Balbino, ninguém sabe.

E quanto a “Mané Fox!’ Foi a turma do Municipal; Ronaldo, Lourinaldo, Jaques sobrinho de Chico Lamparina e outros... Abrahão que está no Canadá, Olegário de Seu Ademar do Correio que era professor de inglês... eu não sabia não, mas depois me disseram que fox era raposa, raposa em inglês, mas num pegou não. Até hoje, graças a Deus, a raposa é mais forte.

Quando foi o auge e Mané Raposa? De 70 a 85 quando acabou a Roda de Samba.

O que você ganhou nessa época. O que tirou de positivo? As amizades que eu tenho, eu ganhei com a música. Gilvan, eu vou dizer uma coisa a você: tem um amigo meu em Macau, fui tocar uma vez lá, assim que tinha surgido “Mar de rosas.” Eu cantei 25 vezes numa festa só pra esse senhor, ele era estivador, eu cantava, ele fazia assim (faz gesto) com o dedo. Eu cantava de novo. Até hoje é o maior amigo que tenho em Macau. Seu Gino.

Como era cantar em inglês, sem saber inglês? Decorava a pronúncia e a melodia. Pronto. Cantava por intuição. Eu dizia uma coisa, as pessoas entendiam outra. Mas, eu acho que isso nunca existiu não.

Está a quanto tempo fora de banda? Desde 1985.
Segundo Barrinho, companheiro de roda de samba e farra, você já se despediu da vida artística 16 vezes, vai ter outra? Todo ano, né? Enquanto tiver voz.

Que história é essa dos bilhetes? É assim: as vezes eu não quero falar no seu ouvido na frente de alguém, aí escrevo um bilhete com aquilo que tô necessitando, você ler e me atende. Né certo?

Quem são as pessoas mais endereçadas, você pode dizer? Ah! A pessoa que recebeu mais bilhete foi Rivanildo do Cartório. Perdi a conta. Depois dele, Quinha de João Branco, Batistinha do Jogo do jogo do bicho e outros. Agora quero ver bandas, tá com amigos e gosto muito de Djavan. É.

(Entrevista de Gilvan Lopes. Revista Reboliço, n. 17, janeiro, fevereiro e março, 2008) 

 Um soneto de João Lins Caldas na imprensa carioca.