MARTHA WANDERLEY SALEM
29/08/1911 - 28/08/2009
Martha de Sá Leitão Wanderley. Assim se chamava a menina que nasceu
numa terça-feira, 29 de agosto de 1911, no vilarejo do Açu, sertão do
Rio Grande do Norte, filha de Minervino Wanderley e Carlota de Sá Leitão
Wanderley.
Já na infância, Martha mostrava seu espírito
através da doçura do olhar e o sorriso franco. Inquieta e simpática
encantava a todos, o que deixava os pais com a certeza de que daquela
diminuta criatura muita coisa boa viria. Martha ficou como filha única
até seus doze anos, quando nasceu sua única irmã, Bertha de Sá Leitão
Wanderley, em 11 de dezembro de 1933.
Martha começou a ter as
suas primeiras aulas no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, administrado
por religiosas austríacas, que logo descobriram naquela menina um
grande desejo de aprender. Tamanha avidez por conhecimento ficou
evidenciada nos bancos escolares, quando fez parte da primeira turma de
alunas do tradicional Colégio, trazendo na precoce bagagem o aprendizado
de três idiomas, o alemão, o inglês e o francês.
Moça de
muitos dotes, encontrou no comerciante Emílio Salem Dieb, de
descendência árabe, o seu amor, casando-se em 17 de dezembro de 1938,
passando a chamar-se Martha Wanderley Salem. Após suas núpcias, fixou
residência em Mossoró, local no qual Emílio tinha negócios. Ficou até
1947, quando passou a residir em Natal, na Ribeira, numa bela casa ao
lado da praça que hoje leva seu nome: Praça das Mães Professora Martha
Salem. Morou também na Rua Princesa Isabel, Trairi, Rodrigues Alves,
Coronel Estevam e Praça Marechal Deodoro. Teve seis filhos: Emilio Filho
(falecido), Marta Maria, Caio, Margarida, Elizabeth (falecida) e
Minervino.
Em meados da década de 1950, Emílio começou a ter
sérios problemas coronarianos. Ela, como era do seu feitio, ficou ao
lado do seu amado até sua partida, em dezembro de 1960.
Começava, então, uma nova era para Martha. Com seis filhos, o mais
velho, Emílio, com vinte anos, ela tomou as rédeas da casa e, para
colocar comida para os filhos e mantê-los em bons colégios, passou a dar
aulas de pintura. Sua veia artística se destacava a cada pincelada. As
alunas se fascinavam e, logo, formou uma grande turma que se transformou
em um enorme grupo de inseparáveis amigas.
E assim, Martha foi
tocando a vida. A casa sempre cheia de amigos. Fossem dela ou dos
filhos, formavam uma turma grande, unida e, inspirados por ela, sempre
dispostos a praticar o bem. Sua alegria e disposição para a vida,
refletida nos gestos, cada vez arrebanhava mais admiradores. E nesse
misto de esforço e prazer, Martha formou os filhos para vida.
Tinha cumprido seu dever de esposa e de mãe. Mas a história de Martha
não ficaria por aí. Muita coisa ainda estava por vir. Martha mostrava
que, além de sua enorme bondade, simpatia contagiante e do seu espírito
solidário, era uma apaixonada pela vida.
Nesse momento, já sem a
obrigação de angariar fundos para a manutenção da casa e dos filhos,
iniciou uma atividade singular: com receio de esquecer os idiomas
aprendidos, já que, naquela época, não era comum encontrar pessoas
poliglotas, ela resolveu dar aulas de línguas de forma gratuita. “Eu não
esqueço e as pessoas aprendem”, justificava.
Em 1980, em meio a
essa nova missão, Martha sofreu dois grandes abalos com as mortes de
dois filhos, Elizabeth, em janeiro, e Emilio Filho, em novembro. Parecia
que o mundo desabava sobre Martha. Porém, sua fibra falou mais alto e
ela se reergueu. Concentrou-se nas artes e, contando com a ajuda do seu
inumerável grupo de amigos, retomou o prazer pela vida. Os percalços
serviram de molas para que ela saltasse à frente e, mais uma vez,
olhasse a vida de forma serena e com perspectivas. Era de uma força
admirável!
Com o tempo, ficou evidenciado que sua grande paixão
era o alemão. Estudou o país e especializou-se naquele idioma. Para que
se possa ter ideia do seu conhecimento, passou a ensinar português a
alemães que por aqui passaram. Essa troca de experiências culturais
tomou conta de muitas conversas entre intelectuais e culminou com a
publicação de inúmeras reportagens nas diversas mídias, tanto daqui,
quanto da Alemanha. Para coroar essa estreita relação, o governo alemão,
num gesto de reconhecimento, condecorou-a com uma comenda pelos
serviços que prestou na difusão da cultura daquele país. Paralelo a
isso, foi-lhe concedido o título de Cidadã Natalense pela Câmara
Municipal.
Foi uma vida marcada pelos mais puros sentimentos.
Uma mulher digna, honrada, querida, solidária, amiga, cúmplice, irmã,
filha, esposa e mãe sem igual. O Rio Grande do norte precisa de mais
pessoas da estirpe de Martha Wanderley Salem.
Abaixo, alguns depoimentos de amigos.
Ignez Motta:
“Falar sobre Martha é muito difícil. Não só pela importância que ela
teve na minha vida, mas pelo que ela representou para várias gerações.
Foi uma amiga singular, confidente, uma professora da vida. Uma mãe na
mais sublime definição. Aprendi muito da vida com ela. As lembranças
ainda são vivas nos meus pensamentos. Obrigado, querida!”
Maria Luísa Medeiros:
[…] Não sou afeita a homenagem póstuma, mas, no caso de Dona Martha, é
necessária. Seu estilo de vida precisa sempre ser lembrado. Quando
pessoas como ela se vão, nossa responsabilidade aumenta.[...]
[...] Tenho em minha casa uma recordação, um presente, uma jóia. Meu
quadro favorito de Renoir pintado por suas mãos: "La Première Sortie" ou
"A Primeira Saída", de 1876. O original está em Londres, mas o de Dona
Martha está sempre comigo. [...]
[...] Agora que termino esse
texto, 15h47, toca na rádio universitária "Eduardo e Mônica", de Renato
Russo, música que também me motivou a estudar alemão. Descanse em paz,
Dona Martha. Você fez muito. Agora é com a gente, seus alunos.[...]
Franklin Jorge:
[…] Martha Wanderley Salém, assuense de velha estirpe, prima em segundo
grau da Baronesa de Serra Branca, D. Belisária, primeira grande
proprietária rural potiguar a libertar seus escravos e a recepcioná-los
com um jantar em que, vestida de touca e avental, os serviu solenemente
da mesma maneira como se acostumara a ser servida.[...]
[…]
Ainda menina, o pai a levou para conhecer a prima baronesa em seu solar,
atualmente a Casa de Cultura do Assu. Uns setenta anos depois, D.
Martha me contava que ficara decepcionada, pois esperava encontrar uma
grande personagem, luxuosamente vestida e coberta de joias, cercada de
serviçais, e deparara com uma mulher simples, falando pouco e baixo,
curiosa acerca dos familiares, modestamente vestida… Era D. Belisária
uma dama ascética e piedosa, sendo o seu único luxo a carruagem puxada
por duas imponentes parelhas de cavalos puro sangue que a transportava
do Assu aos seus domínios de Serra Branca, em Santana do Matos. Dona
Martha a descrevia como uma mulher “quase sem carnes, chochinha e sem
graça…”[...]
Woden Madruga:
“Neste 29 de agosto de
2008 a professora Martha Wanderley Salem está fazendo 97 anos de idade.
Beleza! Artista plástica, ensinou pintura e línguas, incluindo nesse
cabedal o alemão. Recebeu comenda do governo da Alemanha pelos serviços
que prestou na difusão da cultura daquele país. Viúva de Emílio Salem
Dieb, dona Martha teve seis filhos: o sempre saudoso Emílio Salem Filho,
médico, Martha Maria, Caio Salem, médico, Margarida, Elizabeth
(falecida) e Minervino Wanderley, jornalista. Fazem um dos melhores
quadros da paisagem natalense.”
Minervino Wanderley Neto
Natal(RN), maio de 2013