quarta-feira, 17 de junho de 2020

O dia 17 de junho é celebrado o Dia Mundial de Combate à Seca, desde 1995, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou essa data. Portanto, vale a pena lembrar o poeta assuense Renato Caldas.
Entretanto, se o renomado pintor Cândido Portinare utilizava a sua arte para denunciar os problemas sociais do povo comum, o renomado poeta Norte-riograndense Renato Caldas através dos seus versos em linguagem rude do sertanejo, utilizava a sua verve para retratar e denunciar a aflição do povo sertanejo do Nordeste brasileiro. Confira o poema sob o titulo "Secas", conforme adiante:
Meu patrão, mecê pergunta,
Pula vida do Sertão?
Eu num sei cuma cumece!...
Mecê, tarvez desconhece
Nossa dô, nossa afrição.
Proque é qui vós mecê,
Qué ôvi minha dô fala?
Qué que descasque a ferida,
Qui tenho narma iscundida
E véve sempre a sangrá?
Apois bem, vô lhe dizê,
Vou lhe contá meu patrão,
A história mais repitida,
Passada in todas as vida
Dos fio do meu sertão.
Vivemos naquelas terras,
Cuma outo bicho quarqué,
Nós só tem uma deferença,
Qui Deus dá pru recompensa:
A cumpanheira, a muié.
Além da nossa muié,
A nossa satisfação:
É uma noite inluarada,
Um prato bom de cuaiáda
E um cusido de feijão
Mas, quando a Sêca malina,
Se alasta pulo sertão...
Rio, cacimba secando,
Esturricando, lascando,
Tudo, tudo meu patrão!
O póbe do sertanejo,
Vê tudo seu se acabá.
Dia e noite nas estradas,
Vão passando as retiradas
Sem sabê onde escapá.
Quantas vez, nessa viage,
Num perde um fio, ou muié...
Quantas vez, pulas estradas,
Se encontra uma cruz infincada,
Sem se sab de quem é?
- Eu já sofri tudo isso!
Sofri mais qui outo quarqué.
- Sei qui mecê acredita –
Pois vi, a fome mardita,
Sucumbí minha muié.
E. à sombra duma oiticica,
Pejada de fruita e frô:
Deixei uma cruz infincada,
Trez parmo abaixo, interrada,
Minha muié! Meu amô.
Patrão, a história é cumprida,
Mas, num posso aterminá...
Fui descasca a ferida,
Qui tenho n’arma escundida...
Deixe a dor apalacá.
_____________EM, Fulô do Mato, 1940.
Os retirantes, de Cândido Portinari

17/06: DIA MUNDIAL DE COMBATE À SECA.
NAS QUEBRADAS DO SERTÃO.
Do livro: À SOMBRA DOS JUAZEIROS (páginas 19 e 20).
Ei! quando chega janeiro
A chuva cai no torrão,
Sertanejo pro roçado
E começa a plantação,
Cedinho vai pela estrada
Uma feliz caminhada
Nas quebradas do sertão.
Quando não ocorre a chuva
É grande a decepção,
Falta água e também o pasto
E nada de animação,
Olha a natura sozinho
Jurema só tem espinho
Nas quebradas do sertão.
Na chuva tem verde pasto
No meu bonito rincão,
O matuto corta e planta
É aquela animação,
Quando chega a invernada
Tem festa com vaquejada
Nas quebradas do sertão.
Quando a seca é muito braba
É triste o meu lindo chão,
Homem do campo se vira
É reza e lamentação,
No banco chora sentado
Mas ele sonha acordado
Nas quebradas do sertão.
Pipoca o pai da coalhada
Que é o robusto trovão,
Anuncia coisa boa
Nossa chuva no torrão,
Passarinho tem filhote
Vaca amamenta garrote
Nas quebradas do sertão.
Triste seca acaba tudo
Seca rio e cacimbão,
Verde só o juazeiro
E morre a vegetação,
Sede e fome mata gado
Carcaça pra todo lado
Nas quebradas do sertão.
Deus escuta belas preces
E chove no meu rincão,
A flora muda de cor
Com a pastagem no chão,
Tem gado gordo e colheita
Natureza satisfeita
Nas quebradas do sertão.
Marcos Calaça é poeta regionalista.
Nenhuma descrição de foto disponível.
Gileno Cabral
Fantástica foto da AVENIDA DEODORO, no Bairro de PETRÓPOLIS/NATAL, década de 40, na construção da balaustrada no trecho para chegar na ladeira da POTI !!!
Foto de Silvio Pedrosa/Acervo da FJA !!!
Jomar Fábio Silva de Carvalho para Fatos e fotos de Natal Antiga
Usem seus lugares e boa viagem!
Parnamirim, plataforma 1; Ceará-Mirim, plataforma 2; e Canguaretama, plataforma 3.
Atenção senhores motoristas dos veículos que se destinam às cidades de João Pessoa e Recife, ocupem as plataformas de embarque!
Onze horas em Natal.

terça-feira, 16 de junho de 2020

QUAL SERÁ O ÍNDICE DE ABSTENÇÃO DAS ELEIÇÕES


O Supremo Tribunal Eleitoral (STE) vem mantendo artificialmente, o calendário de datas para as eleições de 2020, num clima de bastante dúvidas e incertezas. 

A pandemia obrigou os Tribunais Regionais Eleitorais (TRE) a criar alguns 

mecanismos para efetivação da legalidade individual do eleitor. Atividades on line via
 o processo de informatização, cumpriu o prazo dos novos títulos e suas respectivas 
transferências. 

Fala-se nas convenções virtuais e ainda não se  tem definido a data exata da eleição. 
Está em avaliação uma mudança curta, tirando de 4 de outubro para o meio do mês 
de novembro ou inicio de dezembro. 

É um verdadeiro quebra cabeça, um jogo de empurra-empurra, uma incógnita.
Porém existe um fator que não se está avaliando no momento. 

A cultura brasileira sempre foi de grandes aglomerações em campanha e em dia de 
eleição.

A abstenção já vinha sendo crescente, o eleitor se sente desestimulado pela falta de 
credibilidade da classe politica. 

Com certeza, faltando manifestação nas ruas, investimentos por parte dos 
candidatos, a tendência é que o voto nulo e branco, vai ser derrotado de goleada pela 
abstenção.

Isto é apenas um pitaco de um curioso do cotidiano político. 
Não sou candidato, nem tenho nenhum familiar  disputando voto, o que a banda 
tocar eu danço, sem ter o que lucrar ou perder!

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Pr Samuel Ramos - Final dos Tempos - Colapso Mundial

As novas memórias

O mulato carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é convencionalmente tido como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. É quase uma unanimidade, acredito. E esse enorme prestígio de Machado de Assis se dá tanto cá, entre nós, quanto mundo afora, como se pôde constatar com o relançamento, nos Estados Unidos da América, na semana passada, pela respeitadíssima Penguin Books, do seu romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), com o título, traduzido ao pé da letra, “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas”.
Enorme sucesso. Primeiro, de crítica. Se Harold Bloom (1930-2019), o grande literato recém-falecido, já havia apontado Machado como o “maior escritor negro de todos os tempos”, a prestigiosa revista New Yorker, agora, deu à sua resenha do livro o convidativo título – “Redescobrindo o livro mais espirituoso já escrito”. E, também, de público, já que o livro físico esgotou nas gigantes Amazon e Barnes & Noble em um só dia. Toda essa repercussão vocês podem conferir nos sites de lá (EUA) e de cá, como eu mesmo fiz no da própria Penguin (onde você pode ler um excerto do livro), na Amazon, na Superinteressante, na Veja e por aí vai.
Primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (fundada em 1897), “O Bruxo do Cosme Velho” – epíteto de Machado, tornado célebre pelo nosso genial poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – escreveu em quase todos os gêneros literários. Fez poesia, teatro, crônica, crítica literária, jornalismo e por aí vai, mas foi sobretudo no conto/novela e no romance que ele produziu algumas das obras-primas da literatura brasileira e, posso dizer, universal. A lista é enorme. A dos meus preferidos também. Do conto/novela “O Alienista” (1892) à tríade de romances “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), “Quincas Borba” (1891) e “Dom Casmurro” (1899). Eu considero as “Memórias” o maior dos romances de Machado. “Quincas Borba”, o vice-campeão. Que me perdoem os amantes de “Dom Casmurro”. Questão de tema, talvez. Gosto dos filósofos loucos.
Na verdade, inspirado no “Tristram Shandy” (“The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman”, 1759-1767), de Laurence Sterne (1713-1768), com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado nos presenteou com um romance inovador – experimental, posso dizer –, tido como o marco inicial do realismo (mágico?) na literatura brasileira, até então presa ao romantismo. Que é um ponto de virada, para melhor, na obra do Bruxo, disso ninguém duvida. As ousadias formais – basta lembrar que o narrador é um “defunto autor”, sem compromisso com a cronologia do tempo – e o humor implacável são revolucionários. E, para além dos aspectos formais, o romance também encanta pelo seu conteúdo: pretensa autobiografia, é uma crítica, refinada mas sem concessões, da hipocrisia da sociedade brasileira de então (e de hoje?). Por detrás do humor, revela o pessimismo do autor com tudo que ele enxerga. É um romance filosófico e moral, que combina diversão e profundidade com natural equilíbrio.
Bom, eu ainda não conheço fisicamente essa nova edição de “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas” da Penguin Books. Mas eu tenho uma outra edição, em inglês, do maravilhoso romance. De 1991, editora Vintage. E nela, na contracapa, outro grande escritor, Salman Rushdie (1947-), faz rasgados elogios a Machado e a seu livro: “Se Borges é o escritor que fez Garcia Marquez possível, então não é exagero dizer que Machado é o escritor que fez Borges possível. (…) Ele é uma das obras-primas da literatura brasileira, e esta espirituosa e lúcida tradução é puro prazer de leitura”. Só o título dado em inglês à minha edição, “Epitaph of a Small Winner”, me soa estranho. Brás Cubas é hoje, sem dúvida, um “grande” vencedor.
Por fim, lembro-me bem de quando comprei essa edição, usada, por três libras, naquelas bancas de livros na margem sul do Tâmisa, em Londres. Memórias vivas, graças a Deus.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Fonte: Tribuna do Norte, 14/6/20

domingo, 14 de junho de 2020

Mais um 14 de junho que o assuense vivencia. Desta vez, em face do isolamento social, o dia está apático, sem pessoas nas ruas, sem os devotos rumando para a Igreja Matriz. O sol deu lugar à chuva que deixou o céu nublado. A igreja vazia será o destinatário de lembranças dos momentos outrora vividos tantas vezes. O hasteamento da bandeira do Santo Padroeiro será dentro dos corações daqueles assuenses devotados à sua terra.
As imagens que minha memória produz são daquelas senhoras que iam descalças para as novenas, são dos balões que coloriram o céu de Assu, são do parque funcionando desde a semana que antecedia a abertura da festa. Se eu me esforçar um pouco mais, chego a escutar a algazarra delirante das crianças na Praça Getúlio Vargas e, ainda, o "quanto tempo!" que conterrâneos diriam ao se encontrarem. Daqui a dez dias, celebraremos o orago do Assú desde 1726, o precursor de Jesus Cristo, seu primo, aquele que clamou no deserto. Certos de que estamos fazendo o correto em prol da vida, façamos a festa de São João Batista no interior de nossas residências.
Pedro Otávio Oliveira, 2020

ASSU HILÁRIO


Fotografia do acervo de Carmém Délia de Saboia Costa.

"Castanha Chocha" e "Cachorrinha de Borracha" (pseudônimos) eram dois débeis mentais que perambulavam juntos pelas ruas da cidade de Assu (ninguém tinha conhecimento dos seus nomes de nascimentos).  Castanha tinha uns 30 anos de idade e Cachorrinha era mais velha do que ele, Castanha, uns 30 e poucos anos. Naquele tempo, se uniram em matrimônio, ato religioso realizado (incentivado por populares), salvo engano, por padre Militino, na igreja matriz de São João Batista, lotada de curiosos como podemos conferir na fotografia. Era eu, ainda menino e me lembro deles com presenciei este fato. Pois bem, o poeta Renato Caldas, um vigilante permanente do cotidiano da terra assuense, que não perdia as oportunidade para vesejar, não deixou de registrar em versos, aquele inusitado e gracioso acontecimento, escreveu com irreverência e graça a décima adiante: 

Quem procura sempre acha
É o ditado do povo
Arranjou marido novo
Cachorrinha de Borracha
Mas vai ser preciso graxa
Que a coisa não está tão frouxa
A fuzarca vai ser rouxa
Até o raiar do dia
Arranjou o que queria
Casou com Castanha Chocha.

Postado por Fernando Caldas
LUA CHEIA
 
 


Por Renato Caldas*

Logo de noite,
Quando vórto do trabáio,
Pégo a vióla e me espáio.
Coméço logo a cantá.
Enquanto a lua
Tá no céo dipindurada
Ouvindo a minha toáda
Com vontade de chorá.

Oh! Lua cheia, oh! Lua cheia.
Não óie nas teia
da casa de meu amô.
Pruquê se oiá,
Se espiá,
Cabô-se lua cheia
O teu furgô.

Eu tenho raiva
quando vejo a lua cheia,
Espiando pelas teia
Da casinha de meu bem!
Eu penso inté
Qu'essa lua tão marvada,
Qué levá a minha amada
Pra uma casa que ela tem.

Mas, se eu pegasse
A lua pelas guéla,
Dava tanta tápa nela
Qui nem é bom se falá...
Que me importava
Que o mundão escurecesse,
Ou que ela se escondesse,
Só com mêdo de apanhá.

Se Deus deixasse,
Se Deus aconsentisse,
Que pro céo eu assubisse
E fosse lua também...
Passava a noite,
Lá no céo dipindurado,
Oiando pulo teiádo
Da casinha de meu bem.

*Renato Caldas juntamente com o bardo maranhense Catulo da Paixão Cearense autor da famosa canção Luar do Sertão, além de Zé da Luz, foram os responsáveis pela introdução da poesia matuta na Literatura Popular Brasileira. O poema canção acima, está publicado na 2. edição da antologia Fulô do Mato, 1954.

UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO