segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Meio ambiente

...E O PEBA ESTÁ CAVANDO
Lá vai o peba correndo
Cava aqui, cava acolá
Me leva, me leva
Me tira desse 'lugá'.

Lá vai o peba correndo
Com a natureza que Deus lhe deu
Contando buraco por buraco
Muita pena padeço eu.
Lá está o peba cavando
As unhas são a ferramenta
A proteção é o casco
Que é sua vestimenta.
Me leva natureza, me leva
Para um lugar desconhecido
Distante do caçador
Na caatinga sou um desvalido.
Me salva, me salva
Dizem que a caça é 'sociocultural'
Meu torrão é a caatinga
Minha vida,meu habitat natural.

Marcos Calaça, jornalista cultural.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Ai dos que zombarem daqueles que podem ouvir as próprias estrelas.

Antônio Pereira de Oliveira
Coluna da Praça Getúlio Vargas, de Assu, iluminada no Natal - Gestão do Prefeito João Batista Montenegro (1968-72).

Fonte: www.paginarsiteseblogs.blogspot.com.br

sábado, 26 de dezembro de 2015

LIONS CLUBE DE AÇU


O Lions Clube de Açu, salvo engano, a sua fundação se deu no ano de 1967. Uma iniciativa de Osvaldo Oliveira Amorim, seu primeiro presidente. Foram seus primeiros membros, os senhores Osvaldo Oliveira Amorim, Inácio Bezerra de Gouveia, José Dias da Costa, Belidson Dias Bezerra, Padre Francisco Canindé dos Santos, José Caldas Soares Filgueira Filho, João Leônidas de Medeiros, Manoel Cabral da Fonseca, Padre João de Deus, Sebastião Alves Martins, Edmilson Lins Caldas, José Wanderley de Sá Leitão, João Batista, Pedro Cícero de Oliveira, Antônio Gutemberg de Souza, Gervásio Milla da Silva, Geraldo Dantas, Francisco Augusto Caldas de Amorim, José Germano Sobrinho.

Para registrar ainda, na noite de 4 de julho de 1969, na quadra de esportes do Instituto Padre Ibiapina, por ocasião da posse de Belidson Dias Bezerra na presidência do Lions, substituindo Osvaldo Amorim, o poeta Francisco Amorim, lançou um livro intitulado Galeria do Lions, onde traça em forma de versos (soneto) o perfil de cada um dos Lions Assuense. A propósito de Edmilson Lins Caldas, escreveu Amorim:

Delgado corpo. Fala moderada.
Andar miúdo, vista penetrante,
Tem hoje a vida toda devotada
A uma causa nobre, edificante.

E, se a palavra tem como empenhada,
Cumpri-la não se esquece um só instante,
Tem uma forma boa, delicada
No modo de tratar seu semelhante.

No cooperativismo é forte esteio,
Um banco gerencia, sem receio,
Como um leão às portas de um Erário.

É modesto, cordato diligente,
Maneiroso, correto, inteligente.
Mas, não deixa de ser retardatário. 

Fernando Caldas
A HISTÓRIA DE 'PEGUE O BECO'
AUTOR: SEVERINO GERALDO (Pitoroco)

"Pegue o beco". Êta gíria que ficou conhecida em nosso estado, ao ponto de ultrapassar o espaço regional e ficar conhecida em todo território brasileiro. Severino Geraldo, largo e baixo, como um botijão de gás, é conhecido como Pitoroco devido ao seu tamanho. Sempre foi conversador, desconfiado, esperto e de um grande ciclo de amizade. A qual eu me incluo.

Severino é um pequeno agricultor, com terras em Riacho do Meio, que foi expulso do campo através do êxodo rural, com o fim da cultura algodoeira, no início da década de 80.
Por isso, nessa época, dona Severina botou uma barraca de guloseimas na feira livre, aos sábados. Já Severino Pitoroco colocou um boteco para vender caçhaça e sustentar sua família. Imagine que o boteco era na sua casa, mesmo assim os pingunços faziam a festa. A 'meiota' era certa e lotava o local na hora do almoço e na hora da janta.

Próximo ao local do 'bar' existe um beco conhecido como travessa "Agostinho Pereira". Então, a história verídica de 'pegue o beco' aconteceu mais ou menos assim: o pedreiro Moabe Alves Bezerra tomava uma caeba insuportável, era tipo pingunço chato.

No dia, ele já chegou 'escamado' com uma equipe titular para tomar umas biritas no boteco de Pitoroco.

Depois de uma 'meiota', o pedreiro esquentou a orelha e começou a perturbar o ambiente familiar, por isso, foi expulso com a cambada. O detalhe é que no dia seguinte Moabe se aproxima para tomar a 'meiota' do almoço. De imediato, Pitoroco retrucou: " Moabe, pegue o beco. E não apareça mais aqui com sua inhaca".
Com isso, no outro dia, em Pedro Avelino, em qualquer situação vexatória, vinha logo alguém dizendo: 'pegue o beco'. Essa expressão ocorreu no ano de 1982,em setembro, antes das eleições, e imediatamente ultrapassou os limites dos municípios vizinhos , chegando a Natal e, posteriormente, ao Nordeste e ao Brasil inteiro.

Brincando com Severino Geraldo, em 1982 vários colegas sugeriram que registrasse a expressão no cartório local, como se fosse patentear esse ditado popular, que se tornou nacionalmente conhecido. Detalhe: Pitoroco era um agricultor semianalfabeto que o êxodo rural o expulsou para a cidade. Jamais saberia o que é patentear.

Há vários anos que Pitoroco não tem mais o boteco.
O Jornal de Hoje, 25 de setembro de 1999.
Artigo:Marcos Calaça, jornalista (UFRN).

Nota: Severino Geraldo faleceu em fevereiro de 2010. Severino e Severina formaram um lindo casal e sustentaram sua família dignamente.
Vivendo e aprendendo.
Fred Guilhon


Coisas do Ceará!

A ORIGEM DA PALAVRA "BAITOLA"

Quem nunca ouviu algum cearense (ou não) chamar algum amigo ou companheiro pela alcunha de "Baitola"?
Na linguagem coloquial, baitola, viado e gay têm o mesmo significado: trata-se de um homossexual.

A palavra "baitola" surgiu no Ceará, nas primeiras décadas do século XX.
Vamos à história.

Por volta de 1913, chegou ao Ceará o inglês de nome Francis Reginald Hull, o conhecido Mr. Hull (pronuncia-se Mister Ráu), que deu o nome a uma famosa avenida, na cidade de Fortaleza-CE.

Mr Hull fora designado superintendente de uma Rede Ferroviária no Ceará e passou, em muitas situações, a fiscalizar as obras de construção e reparo, na própria Ferrovia.

Mr Hull era homosexual assumido.

Sempre que ele ia pronunciar a palavra "bitola", que significa a distância entre os dois trilhos, pronunciava "BAITOLA".

Quando ele se aproximava, de onde estavam os trabalhadores, estes, que não gostavam do modo como eram tratados pelo tal chefe, diziam: "Lá vem o baitola, lá vem o baitola".

A partir daí, passou-se a associar a palavra baitola ao homosexualismo masculino.
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Baitolagem também é Cultura!

Comprovar dependência de genitor garante acúmulo de benefício


A comprovação de total incapacidade para o trabalho desde a época da morte do genitor permite o acúmulo de pensão por morte e e aposentadoria por invalidez, pois os auxílios têm naturezas distintas. Assim entendeu o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com sede em Porto Alegre, ao manter os dois benefícios recebidos por uma portadora de esclerose múltipla. A decisão foi unânime.

A autora da ação, que é aposentada por invalidez, solicitou o direito ao segundo benefício por causa da morte de sua mãe. O pedido foi aceiro em primeira instância, levando a União a recorrer no TRF-4. Para a Advocacia-Geral da União, a autora, por ser aposentada por invalidez, não pode acumular dois benefícios.

Segundo o relator do processo, desembargador federal Luís Alberto d’Azevedo Aurvalle, a demandante terá direito à pensão por morte se demonstrar que está totalmente incapacitada para o trabalho na época da morte da mãe. O magistrado acrescentou que “pensão por morte e aposentadoria por invalidez possuem naturezas distintas e, por isso, podem ser acumuladas”.

No caso, o relator apontou que "ficou amplamente comprovada a situação de invalidez da autora, de forma permanente, à época do óbito do instituidor da pensão, de modo que a procedência da demanda é medida que se impõe”.

Do Conjur com informações da Assessoria de Imprensa do TRF-4.

De:Melo Advogados Associados

Certificado de conclusão substitui diploma para posse em cargo público, diz STJ

23 Dezembro 2015

O certificado de conclusão de graduação pode substituir o diploma de curso superior como documento exigido para posse em cargo público. A decisão foi tomada pelo ministro Napoleão Nunes Maia Filho ao julgar uma causa de uma candidata aprovada para uma vaga de professora no Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Sergipe (IFSE).

A posse foi negada pela instituição porque a candidata não apresentou o diploma, e sim o histórico da Graduação de Ciências da Computação e a Certidão de Conclusão. Para garantir sua posse, a candidata recorreu à Justiça. Na ação, ela argumentou que a apresentação do diploma não foi exigida pelo edital do concurso. Depois de uma decisão favorável à candidata no Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região, o IFSE recorreu ao STJ.

Em sua decisão, o ministro salientou que o entendimento do STJ é de que, mesmo exigido pelo edital do concurso, “o que nem foi o caso”, a falta de diploma não pode impedir a posse, “se por outros documentos idôneos se comprove a conclusão do curso superior, mesmo que pendente alguma formalidade para a expedição do diploma”.

Napoleão Nunes Maia Filho lembrou casos anteriores, já julgados pelo STJ, que reafirmam o direito de candidatos à posse quando fica comprovada, “sem margem a qualquer dúvida”, a conclusão do curso necessário ao desempenho do cargo. “Não estando constante no edital a exigência do diploma, claro é que tal documento não pode ser exigido”, afirmou.

Do STJ


De:Melo Advogados

DEGREDADOS DO IMPÉRIO




Noronha (2)
Vista parcial do presidio de Fernando de Noronha e o Morro do Pico.

Colônia penal de Fernando de Noronha abrigou, em sua maioria, condenados por crimes de homicídio

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/degredados-do-imperio
Um panorama único da justiça imperial brasileira está circunscrito a uma ilha. Fernando de Noronha, a cerca de 543 quilômetros do Recife, abrigou a maior prisão do país no século XIX. Os portugueses fundaram a colônia penal em 1737 e, como a maioria dos soldados e dos condenados que a Coroa mandava para a ilha vinha do Brasil, depois da independência, o Brasil reclamou Fernando de Noronha e continuou a povoá-la com sentenciados e soldados. Os oficiais do Exército que administravam a colônia agrícola enfrentavam desafios semelhantes aos senhores de escravos de grandes plantações e seus parceiros no continente, e lidavam com soldados recrutados à força: como motivar trabalhadores coagidos a labutar? 



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Daniel Crioulo, preso em julho de 1865 e condenado à galé perpétua. A fotografia foi retirada do álbum “Galeria dos Condenados”, durante o Brasil Império, e está atualmente sob a guarda da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)
A documentação farta sobre o que ocorreu na ilha nos leva a conhecer uma micro-história das interações cotidianas muito mais detalhada do que é possível em comunidades ou plantações do continente. Uma base de dados com mais de mil sentenciados registrados nos livros de matrícula da colônia penal permite identificar as características mais comuns usadas para descrever os presos. Manoel da Silva, por exemplo, veio do interior de Pernambuco. Ao ser condenado, ele teria 31 anos de idade, era solteiro e sua condição civil era livre. Antes de ser julgado, trabalhava como lavrador. Era magro, pardo e de estatura média. Seus olhos pretos cintilavam debaixo de uma testa comprida e de sobrancelhas espessas. Seu rosto era quadrado, com pouca barba. O cabelo, preto e carapinho. Tinha o nariz chato e uma boca regular, com lábios grandes e bons dentes. O júri o condenou pelo crime de homicídio e decidiu pela sentença de galés perpétuas, ou seja, prisão com trabalho acorrentado até a morte. 

O retrato de Manoel é uma composição com os traços mais comuns entre os sentenciados, por isso não reflete sua diversidade. Havia também brancos, pretos e indígenas, mas nas classificações de cor os brancos eram sub-representados: assim eram descritos 20% dos condenados, enquanto respondiam por 42% da população nacional, segundo o censo de 1872. A maioria era de civis livres, mas havia escravos (pouco mais de 15%). Cerca de 19% da população carcerária era formada por militares condenados por Conselhos de Guerra. Menos de 2% eram mulheres.  



Noronha (1)
Imagem meramente ilustrativa da força policial de Pernambuco destacada em Fernando de Noronha na década de 1920.
A maior parte dos que foram levados para Fernando de Noronha nasceu no Brasil. Os 7% de estrangeiros tinham vindo principalmente de Portugal e da África. Mais de dois terços foram condenados por homicídio ou tentativa de homicídio, mas o número pode ser maior: várias entradas não relatam o crime cometido, mas as condenações a sentenças longas fazem supor que entre 70% e 80% dessa população tenham sido penalizados por assassinato. Outros crimes registrados são roubo e furto (6%), injúrias físicas (4,6%), guarda ou repasse de moedas falsas (2,6%) e deserção militar (3,2%). Mais raros, defloramento, reduzir a escravidão e sublevação não somam 1%. Nessa amostra, mais da metade dos julgados recebeu sentença perpétua ou a pena de morte, que normalmente era comutada pelo imperador D. Pedro II  para galés perpétuas, porque ele não apoiava a pena última. Entre as outras sentenças, há galés temporárias, prisão simples, prisão temporária com trabalho.



Fernando_de_Noronha_-_Pernambuco_-_Brasil52
O passado de Fernando de Noronha é pouco conhecido e nada tem haver com a imagem atual que os brasileiros possuem em relação a este belo lugar.
Vieram de quase todas as províncias e da corte, menos Goiás. Pernambuco contribuiu com mais de um terço do total, e outro terço veio das províncias do atual Nordeste brasileiro. Pode-se explicar o predomínio de condenados desta região pelos custos e dificuldades de transportar presos de províncias distantes, mas também pela gestão da ilha. Até 1877, os governadores de Pernambuco dividiam sua administração com o Ministério de Guerra, localizado no distante Rio de Janeiro. Depois, o Parlamento transferiu a responsabilidade para o Ministério de Justiça. Mesmo assim, o exército continuava a fornecer os oficiais e os soldados que garantiam a segurança local. Os governadores pernambucanos usavam a colônia para aliviar a superlotação da Casa de Detenção no Recife. Pelo decreto do Parlamento, de 1859, somente três tipos de criminosos deveriam ser remetidos à ilha: os escravos condenados à pena capital cujas sentenças foram comutadas a galés perpétuas, os envolvidos com moedas falsas e os sentenciados à prisão com trabalho. 

Estes dados realçam dois aspectos de Fernando de Noronha no sistema de justiça imperial. Primeiro, que as autoridades de Pernambuco e do exército abusavam de seus papéis de administradores, remetendo à colônia criminosos que, pela lei, não deveriam ir para lá. Segundo, o predomínio de condenados por crimes de homicídio, indicando que a polícia e os juízes utilizavam seus escassos recursos para reprimir e punir crimes violentos. Quase não havia espaço para sentenças não mortíferas. Com a proclamação da República, o sistema federal adotado resultou no fechamento de Fernando de Noronha como instituição nacional: depois de 1897, tornou-se colônia penal de Pernambuco. 

Durante a primeira administração de Getulio Vargas, Fernando de Noronha voltou a ser um lugar de exílio para presos políticos e, em 1942, tornou-se território administrado pelas Forças Armadas. A prisão da ilha foi definitivamente fechada em 1957. 

Peter M. Beattie é professor da Michigan State University e autor de Punishment in Paradise: Race, Slavery, Human Rights, and a Nineteenth Century Brazilian Penal Colony (Duke University Press, 2015)
Aos Olhos Dele

Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram o
As minhas doces crenças de criança.


Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Florbela Espanca

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

TROVINHAS DE RENATO CALDAS

Renato Caldas viajando de Assu com destino à Natal, deu uma paradinha num certo restaurante à beira da estrada para almoçar e tomar ''umas e outras'. Depois de uma dúzia de cerveja, pediu a conta e prosseguiu viajem. Ao chegar no lugar de destino viu entre os seus pertences, uma colher que,.provavelmente, seria do restaurante onde ele teria almoçado e bebido. Aquele recinto tinha uma garçonete  muito bonitona que, carinhosamente chamava-se "Chiquinha", mulher que ele, Renato,  muito admirava. Dias depois, de volta ao Assu, sua terra natal, parou naquele mesmo restaurante e, ao adentrar naquele recinto foi logo em direção a Chiquinha entregando a ela,uma trovinha escrita num pedaço de papel dizendo assim:

Estou de volta, Chiquinha,
Pra trazer sua colher.
De coisa que não é minha
Eu só aceito mulher.

Renato, aos seus 70 anos de idade,  já sentia o peso da idade, a tristeza da cegueira (catarata quando não ainda não tinha cura), trovou com aquela irreverência que lhe era peculiar:

Está cegando Renato,
Pois, um objeto qualquer
Só conheço pelo tato...
Principalmente mulher.

E essa outra trova afirma o quanto ele, Renato, era um conformado com a cegueira que lhe acometera grande parte de sua vida. Vejamos:

Meus olhos estão cegando,
Não maldigo a escuridão!
Pois cinto que vai raiando
A luz da conformação.

Nas eleições municipais de 1988, eu, Fernando Caldas, o editor deste blog, disputei a reeleição para vereador. Passando pelo centro da cidade me deparo com certo vendedor de canjica (iguaria típica da culinária do Nordeste brasileiro). Comprei aquela iguaria e pedi ao vendedor que entregasse a Renato Caldas. Dito e feito. Renato entendeu que eu estava querendo agradá-lo para conquistar novamente o seu voto, não perdeu a oportunidade, me enviando por aquele vendedor, essa trovinha escrita num pedacinho de papel:

Fernando, você triste fica
A proposta não convém,
Por um prato de canjica
Eu não voto com ninguém.

Chico Dias, Mirranha, Bodinho e JB, são figuras folclóricas da cidade de Assu. Nas eleições municipais de 1976, ambos se candidataram disputando uma cadeira na Câmara Municipal da terra assuense, bem como usavam o mesmo carro de som para falar ao povo da cidade e fazer a propaganda política. Chico era estudante, Mirranha motorista de profissão, Bodinho era funcionário da prefeitura (fiscalizava a carne vendida na pedra do Mercado Público) e JB, funcionário aposentado dos Correios, vivia embriagado.Pois bem, ficaram sendo chamados por adversários políticos local, como palhaços. Chico procurou Renato para fazer um versinho em sua defesa e dos demais. Renato trovou:

Dias fala aos estudantes,
Mirranha aos motorista.
Bodinho fala aos marchantes
Aos bêbados fala Batista.

Renato Caldas veraneando na casa de praia de seu cunhado Manoel Soares Filgueira Filho, mais conhecido como Bilé Soares (Bilé era pecuarista no Vale do Açu e fora superintendente da Caixa Econômica Federal/RN, nomeado por Café Filho, quando presidente da república, ambos eram amigos íntimos), noite alta, acordou e, ao sair de casa para apreciar as belezas do mar, escreveu a trova (Conta-se que Câmara Cascudo muito apreciava esses versos), escreveu no melhor de sua inspiração, irreverência e criatividade poética:

Saí de casa andando,
Com vontade de mijar
E vi a lua cagando
No penico azul do mar.

Num certo Concurso Nacional de Trovas que tinha como tema "A Andorinha", Renato participou e, como não podia ser diferente em razão do seu estilo irreverente de poetar, mandou essa para sua desclassificação:


Uma andorinha assustada
Por cima dos capteis,
pensa em dar uma cagada
Na cabeça dos fiéis.

O ex-deputado  estadual Nelson Montenegro reunia costumeiramente, amigos em sua casa da praça Getúlio Vargas ou praça da Matriz, para um amistoso bate-papo. Renato era um dos seus frequentadores assíduos. Pois bem, Nelson Certa vez teria sido picado por um potó (inseto de mijo ardente). Renato escreveu:

Sofre o pobre e sofre o rico
Todos tem o mesmo fim.
Porém, eu não sou penico
Pra potó mijar em mim.

Renato andou o Brasil de ponta a ponta, nas suas intermináveis andanças de romântico caminheiro, no dizer de Expedito Silveira. E de ponta a ponta ficou conhecido. Visitando a  cidade de Pedreira, interior do Piaui, alguém lhe pedira para fazer um verso em homenagem aquela terra piauense. Renato Caldas não deixou para depois:

Jardim de pedras imensas
No engate da pedra bruta,
Quem disse que esta merda presta
É um grande filho da puta.

Fernando Caldas

UM CONTO DE JOÃO LNS CALDA NA REVISTA SOUZA CRUZ, DO RIO DE JANEIRO